MULHERES EM LUTA! ARQUIVOS DE MEMÓRIA POLÍTICA 2 De 7 de outubro de 2023 a 28 de julho de 2024. MEMÓRIA E RECONHECIMENTO DA LUTA POLÍTICA DAS MULHERES O fazer político, embora considerado hegemonicamente um lugar masculino, não se con guraria como é hoje sem a participação feminina. As mulheres, apesar da invisibilidade histórica que ainda enfrentam, têm contribuições signi cativas para o desenvolvimento da sociedade brasileira, especialmente para a efetivação da democracia e da justiça social. Esta é a mensagem presente na exposição Mulheres em Luta! Arquivos de memória política , a qual inspira a elaboração deste catálogo. Este é um trabalho que, além de evidenciar o protagonismo das mulheres nos espaços de construção política, valoriza as diferentes vozes que compõem a população feminina no Brasil: negras, brancas, do campo, das favelas, das universidades, dos movimentos sociais, entre outras. Enquanto nas periferias se organizavam movimentos femininos por direitos fundamentais como terra e moradia, educação, saúde e saneamento básico, em outros lugares mulheres alcançavam espaços políticos e passavam a criar e promover uma agenda feminista com questões relacionadas a equidade de gênero. Essas não são lutas opostas – movimentos comunitários de mulheres e movimentos feministas –, mas que se somam na construção de uma sociedade justa e que demonstram a diversidade de experiências femininas no país, marcadas por desigualdades de raça, classe, sexualidade e território. Embora o ponto de partida seja o momento histórico em que o país esteve submetido à Ditadura Civil-Militar, quando mulheres foram brutalmente violentadas por acreditar e atuar na construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática, a curadoria cria uma conexão temporal com movimentos contemporâneos. Grupos como Mães de Maio e Movimento de Familiares de Vítimas do Massacre de Paraisópolis foram organizados por mães, familiares e amigos de vítimas da truculência dos órgãos de segurança pública 4 do Estado. Isto porque, ainda hoje, se testemunha a reprodução de práticas violentas herdadas do regime ditatorial. O acervo não ilustra apenas o rosto dessas mulheres, mas também traz documentos que contribuem tanto para denunciar as brutalidades que enfrentaram ao longo da história, quanto para registrar suas formas de organização e de resistência para a construção de uma sociedade melhor. Entre os itens estão fotogra as, relatórios, documentos pessoais, plantas, matérias de jornais, cartas, cartões postais, cartazes e abaixo-assinados, todos organizados de forma a documentar e colocar em evidência a experiência histórica feminina das últimas décadas. A exposição e o catálogo Mulheres em Luta! Arquivos de memória política contribuem, também, para o reconhecimento e a valorização da luta e do papel histórico das mulheres que defendem a democracia e a justiça social ao longo dos últimos cinquenta anos, destacando seu protagonismo nas construções políticas e sociais. Reconhecer e se engajar na história é um processo contínuo que exige compromisso e que produz aprendizados para um futuro melhor. Neste sentido, valorizar e evidenciar o protagonismo e as contribuições femininas, assim como suas lutas, também é uma questão de justiça social. A FES Brasil – Fundação Friedrich Ebert, como organização que atua pela defesa da democracia e pelo fortalecimento da justiça social, considera este trabalho extremamente relevante para avançarmos na construção da democracia paritária com equidade de gênero. Por isso, estamos honrados em apoiar o desenvolvimento deste projeto do Memorial da Resistência de São Paulo, que re ete nossas agendas prioritárias de atuação. Christoph Heuser Representante da FES Brasil Jaqueline Lima Santos Diretora de Justiça Racial e de Gênero da FES Brasil 5 8 MULHERES EM LUTA! ARQUIVOS DE MEMÓRIA POLÍTICA 12 MARCAS BEATRIZ NASCIMENTO LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA 20 COLETA REGULAR DE TESTEMUNHOS: MEMÓRIAS DA DITADURA CIVIL-MILITAR 26 TRANSGRESSÃO BEATRIZ NASCIMENTO 28 COLETA REGULAR DE TESTEMUNHOS: MEMÓRIAS DA VIOLÊNCIA NA DEMOCRACIA 34 INÊS ETIENNE ROMEU LUTA POR DIREITOS 78 QUERO ESCREVER UM CONTO BEATRIZ NASCIMENTO 80 NAIR BENEDICTO 90 UNIÃO DE MULHERES DE SÃO PAULO 112 CLUBEDE MÃES DA ZONA SUL 124 LAUDELINA DE CAMPOS MELLO 130 IN.FORMAR: CULTURA E EDUCAÇÃO POPULAR 134 BAJUBÁ ACERVO 136 GRUPO CONTRAFILÉ MULHERES EM LUTA! ARQUIVOS DE MEMÓRIA POLÍTICA 8 Olhar para o período da Ditadura Civil-Militar(1964–1985) sob a perspectiva de gênero é a linha que tece a exposição Mulheres em Luta! Arquivos de memória política, que apresenta ao público do Memorial da Resistência de São Paulo a participação e a contribuição de mulheres na construção política do nosso país. Tendo como recorte o acervo de história oral do museu, abordamos as lutas coletivas de mulheres por memória, verdade e justiça e por direitos fundamentais. Pelo que lutam? Como lutam? Quais são suas histórias? O primeiro gesto de Mulheres em luta! é um convite à escuta de testemunhos da Coleção Memórias da Ditadura Civil-Militar na instalação partitura da escuta (2023) de Bianca Turner. São muitas experiências de resistência, dor e afeto que atravessam a trajetória dessas mulheres: as greves nas fábricas, a maternidade na clandestinidade, o machismo da própria esquerda, a intolerância contra pessoas transgênero e a homofobia, como também o ódio ao corpo feminino, as violências sexuais e, por outro lado, a solidariedade nas celas das prisões e o compromisso com a vida, que prevaleceram e permitiram que os relatos das sobreviventes e ex-presas políticas chegassem até nós. As narrativas dessas mulheres nos levam a percorrer outros arquivos, como o de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do centro clandestino de tortura conhecido como Casa da Morte, em Petrópolis(RJ). A coragem com que ousou desaar o aparato repressivo da época, identi car seus torturadores e elucidar os fatos à sociedade suscitou uma surpreendente rede de apoio que cruzou as fronteiras nacionais, da qual o lme Inês (1974), da atriz e cineasta feminista Delphine Seyrig, é um desdobramento. A obra é uma impactante denúncia contra a tortura ao corpo feminino e representa um documento histórico, concebido por e para mulheres, a m de reconstituir a memória do período e denunciar a misoginia praticada pelos agentes do Estado. São também as denúncias de Inês que nos aproximam da história da desaparecida política Heleny Guariba. Sua memória é apresentada no lme Cadê Heleny? (2022), de Esther Vital, em cenários bordados em arpilleras a partir de um processo de coleta de testemunhos que teve início em 2018, em o cinas realizadas no Memorial da Resistência. 9 O imaginário de luta da pensadora negra, militante e poeta Beatriz Nascimento está presente em três poemas escritos nos anos 1980, que trazem um retrato urgente e contemporâneo das formas de resistir contra a violência, a impunidade e o racismo. Sua noção de“corpo-memória” ilumina nosso caminhar pela exposição. Quanto da nossa democracia fraturada é consequência da impunidade das violências cometidas pelo Estado durante a ditadura brasileira? É sobre essa temática que apresentamos a série de três vídeos Do luto à luta (2023), da cineasta Val Gomes, produzida a partir de testemunhos reunidos na Coleção Memórias da Violência na Democracia, do acervo do Memorial, e realizada com mulheres que fazem parte dos coletivos Mães da Leste, Movimento de Familiares de Vítimas do Massacre de Paraisópolis, e Mães de Osasco e Barueri. A luta por memória, verdade e justiça combina-se à busca por direitos fundamentais, que ganha força a partir de meados da década de 1970 e durante a redemocratização. Demandas por saúde, educação e moradia digna, presentes nas reuniões dos Clubes de Mães da Zona Sul, encontram pautas feministas como o m da violência de gênero, equidade salarial e políticas de planejamento familiar da União de Mulheres de São Paulo. Hoje, continuam a inspirar projetos como o das Promotoras Legais Populares, voltado para a educação e capacitação de mulheres para o acesso à justiça e aos direitos humanos. Avanços fundamentais, como direitos trabalhistas e a criminalização do racismo, são também frutos da dedicação de vidas inteiras, como a de Laudelina de Campos Mello, fundadora do Sindicato das Domésticas, e de organizações como a In.Formar: Cultura e Educação Popular, criada para apoiar e documentar movimentos sociais. Nair Benedicto é autora de um dos mais importantes arquivos fotográ cos das lutas populares no país. Estampar em lambe-lambe as fotogra as das o cinas“Conhecendo o corpo feminino”(1984) no muro do corredor de sol do antigo espaço carcerário do Deops/SP é um ato de justiça. A história oral, os encontros em círculos e as rodas de conversa nos conectam com a Escola de Testemunhos (2023), do Grupo Contra lé, e com os percursos de memória mediados pelo Acervo Bajubá em torno das ações do coletivo Mulheres da Luz e das experiências das comunidades LGBT+ em defesa de suas identidades e sexualidades. 10 Esta exposição não poderia ter sido realizada sem o apoio de instituições voltadas à preservação da memória, como o Arquivo Público do Estado de São Paulo, o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense(CAAF/Unifesp), o Centro de Documentação e Memória(CEDEM/Unesp), o Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, a Cinemateca Brasileira, a Fundação Beatriz Nascimento e o IIEP – Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas, bem como nossas parcerias com o Consulado Geral da França em São Paulo e a FES Brasil – Fundação Friedrich Ebert. Apresentados em diálogo na exposição, esses arquivos criam uma complexa costura de afetos, trocas e vivências em que as estratégias de luta se referenciam ao longo do tempo. Se esses materiais hoje se encontram disponíveis ao público foi graças à coragem das mulheres para testemunhar e ao esforço de muitas pessoas para registrá-los, coletá-los e guardá-los, como também para recolhê-los e doá-los a instituições públicas e privadas. Das histórias de vida fraturadas pela dor às redes de afeto construídas na resistência, esta exposição é um ato de memória à força política das mulheres. Ana Pato e Carolina Faustini Junqueira curadoras, Memorial da Resistência de São Paulo p. 8: Trecho de marchinha do Bloco Carnavalesco Casa de Dona Yayá da União de Mulheres de São Paulo (Bloco da Dona Yayá). 11 MARCAS [A Lilian Menezes e Isolda, 1986] Vinte anos... ditadura Vinte de tortura Vinte de agressão Vinte portas se fecharam Vinte outras se lacraram No reino da perversão Quantas“forças sociais” Quantas forças mais e mais ‘Inda podem(os) reverter? Em bens, em bombas, em balas Em falas, ânsias, em“calas”, Orgias da frustração Mas quantas feridas deixaram Em frinchas de moça e menina Histórias individuais que esquálidas Sem cheiro Beatriz Nascimento 12 Historiadora, poeta e militante, Maria Beatriz Nascimento (1942–1995) é autora de uma obra fundamental para a discussão étnico-racial no país. A experiência da diáspora africana, o corpo-território em exílio, as pesquisas sobre a formação dos quilombos no Brasil, a ressigni cação da noção de quilombo como território de resistência e liberdade, e as opressões à mulher negra foram alguns de seus temas tratados. Essa intensa produção foi interrompida precocemente aos 52 anos, quando Beatriz foi vítima de feminicídio. Entre os legados de Beatriz Nascimento estão poemas que ocuparam as paredes da exposição, presentes no livro Todas(as) distâncias: poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento (2015), organizado por Alex Ratts e Bethania Gomes. Suas palavras a rmam-se como territórios de luta, memória e resistência negras, onde a ação política se revela, sobretudo, como um ato genuíno de criação. Beatriz Nascimento e sua filha, Bethania. Rio de Janeiro, julho de 1975. 13 LUTA POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA 16 17 Realizar ações de reparação após os anos de Ditadura Civil-Militar nos leva a re etir sobre os desa os em estabelecer políticas de memória em um país onde a Lei de Anistia e a impunidade em favor dos crimes cometidos alcançam os dias atuais. A demanda por memória, verdade e justiça tornou-se uma expressão familiar no vocabulário político de pessoas dedicadas a exigir o esclarecimento circunstanciado de violações de direitos humanos em uma sociedade que segue marcada por violências do Estado e práticas autoritárias. As vozes dos sobreviventes e de familiares de mortos e desaparecidos são fundamentais nesse processo, centrais para a denúncia dos crimes e para a busca de esclarecimentos. São muitos seus atos de resistência democrática, seja ocupando espaços públicos em comícios, manifestações e pan etagens, cobrando órgãos como a Comissão Nacional da Verdade (2011–2014) ou reconhecendo no poder da escuta e na história oral uma forma de compartilhar seus testemunhos, como fazem as presas e as perseguidas políticas da Ditadura Civil-Militar e as mães que perderam os lhos em atos de violência recente pelas mãos do Estado brasileiro. Suas lutas tampouco se encerram após as elucidações dos crimes, como bem mostra a persistência de Inês Etienne Romeu em identi car e punir seus torturadores mesmo durante os anos de redemocratização. Saída de Inês Etienne Romeu do Instituto Penal Talavera Bruce, abraçada pela mãe, D. 18 19 29 de agosto de 1979. Filinha. Rio de Janeiro, COLETA REGULAR DE TESTEMUNHOS: MEMÓRIAS DA DITADURA CIVIL-MILITAR 20 Atuante desde 2009, o Programa Coleta Regular de Testemunhos é responsável pela constituição do acervo do Memorial da Resistência e preserva hoje mais de duzentas entrevistas realizadas com ex-presos políticos, familiares de mortos e de desaparecidos durante a Ditadura Civil-Militar, militantes de movimentos sociais e culturais diversos, e pro ssionais que, por ofício, frequentaram as estruturas repressivas do Estado. Além disso, o Programa registra as memórias de outros tantos atores sociais que, com diferentes vivências de episódios de repressão e resistência no contexto ditatorial, contribuem para a reconstrução de aspectos da memória política brasileira através da História Oral, importante metodologia de pesquisa criada nos anos 1950 e rmada entre pesquisadores a partir dos anos 1970, que se popularizou no Brasil nos anos 1990, quando começou a ser utilizada amplamente por pesquisadores de distintas áreas do conhecimento. No Memorial da Resistência, os testemunhos são reconhecidos como fontes fundamentais para a re exão sobre o nosso passado histórico e sobre processos sociais do presente, tendo como base a importância das memórias, em suas dimensões individual e coletiva, como uma forma singular de retomar o passado. Por meio dessa escuta contínua, o Programa Coleta Regular de Testemunhos contribui como um canal de registro de memórias não hegemônicas, em especial para as que nasceram de processos traumáticos e enfrentaram formas brutais de silenciamento. partitura da escuta 2 1 (2023), videoinstalação de Bianca Turner. 22 23 Adriana Regina dos Santos, Ana Maria do Carmo Silva(Ana Dias), Ana Maria Martins Soares, Ana Maria Ramos Estevão, Áurea Moretti Pires, Caroline Grassi, Cícera Vieira Santos, Clarice Vieira da Silva, Cristine Takuá, Daiane Pettine, Darci Toshiko Miyaki, Deborah Regina Leal Neves, Dilma Rousse, Dulce Quirino de Carvalho Muniz, Elaine Cristina de Carvalho, Eleonora Menicucci, Elza Ferreira Lobo, Eva Teresa Skazu a, Fernanda dos Santos Garcia, Florencia Castoldi, Gabriela Aidar, Gretta Salgado Silveira, Guiomar Silva Lopes, Hailey Kass, Helenalda Resende de Souza Nazareth, Hilda Maria Azevedo Alves, Ida Schrage, Ilda Martins da Silva, Janice Theodoro da Silva, Kátia Felipini Neves, Katy de França Escobedo Fernandes, Leane de Almeida, Lenira Machado, Leslie Denise Beloque, Lúcia Maria Salvia Coelho, Magali do Nascimento Cunha, Márcia Bassetto Paes, Marcia Gazza, Marcinha do Corintho, Margarida Maria do Amaral Lopes, Maria Albertina Gomes Bernacchio, Maria Amélia de Almeida Teles, Maria Aparecida Costa Cantal, Maria Aparecida de Aquino, Maria Aparecida dos Santos(Cidinha), Maria Aparecida dos Santos(Iyá Cida), Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, Maria Cristina Oliviera Bruno, Maria Cristina Quirino Portugal, Maria José Paula Alves, Maria José Soares, Maria Luiza Locatelli Garcia Belloque, Maria Luiza Tucci Carneiro, Marisa Fernandes, Marlene Perlingeiro Crespo, Marta Costta, Miriam Miguel, Nair Benedicto, Neon Cunha, Neusa Ferreira de Souza, Neusa Maria Pereira, Rita Cerqueira de Quadros, Rita Maria de Miranda Sipahi, Roberta Estrela D’Alva, Rosalina Santa Cruz, Rosemeire Nogueira, So a Dias Batista, Sônia Hypólito Lichtsztejn, Symmy Larrat Brito de Carvalho, Tatiana Russo dos Reis, Thaís Battibugli, Thais de Azevedo, Vilma Amaro, Zilda Maria de Paula. Mulheres que cederam entrevistas ao Programa Coleta Regular de Testemunhos. 24 25 TRANSGRESSÃO (aula de micropolítica, Dona Martha) [01.09.1987] Houve uma guerra no Rio Pra quem não soube um delírio Produto de alucinação Houve uma ação contra o morro Armada e genocida Que regeu aquelas colinas De sangue de baixo acima Ação de“Código Penal” De impotência social De esbirros e malfeitores Arrogante e prepotente Que atirou toda a gente Num terror irrespondível Houve gritos e choros Que a cidade surda Rapidamente esqueceu E foi no Corcovado 26 No quilombo onde já aconteceu Em algum tempo da história Que na memória feneceu Jamais foi contado Pois lá era a mesma gente E o país urgentemente Apagou da mente A verdade que passou Mas não é passado é presente Pra que repetição? É necessário que abafes O ruído das sirenes Que perturbam o ambiente Dividindo os homens Entre bons e maus Entre nós e eles Entre vivos e mortos. Beatriz Nascimento 27 COLETA REGULAR DE TESTEMUNHOS: MEMÓRIAS DA VIOLÊNCIA NA DEMOCRACIA 28 O Programa Coleta Regular de Testemunhos se dedica à realização de entrevistas em audiovisual com pessoas que possam testemunhar sobre aspectos de suas vivências durante a última ditadura brasileira, contribuindo para ampliar a compreensão histórica de eventos, processos sociais, conjunturas políticas, modos de vida e inúmeras outras questões referentes às experiências individuais e coletivas que con guraram a vida social nesse contexto. Desta forma, o Programa amplia o conhecimento sobre o histórico do Deops/SP e do controle social no Estado republicano, e sobre os espaços, as memórias e os vestígios da repressão e da resistência política no estado de São Paulo. Considerando, no entanto, a permanência e a constância da violência policial e das práticas de extermínio contra parcelas importantes da sociedade brasileira, as Coletas de Testemunhos, sempre voltadas à escuta de vítimas da violência de Estado, não poderiam deixar de focar também os processos da contemporaneidade. Nesse sentido, desde 2023, têm sido realizadas entrevistas que compõem a Coleção Memórias da Violência na Democracia, dedicada a abordar os impactos da última ditadura no cenário político, social, cultural e de segurança pública, que pautam os debates do presente. Essa nova coleção visa, portanto, atualizar a atuação do Programa Coleta Regular de Testemunhos como um importante recurso para promover a re exão sobre a luta por direitos e por memória, verdade e justiça no enfrentamento às impunidades policiais. Do luto à luta(2023), 2 9 série de vídeos dirigida por Val Gomes. MÃES DE MAIO O mês de maio de 2006 marcou um dos mais violentos eventos cometidos pelo Estado brasileiro desde sua redemocratização. Os confrontos entre integrantes do Primeiro Comando da Capital(PCC) e agentes públicos de segurança, somados a grupos paramilitares, culminaram em centenas de mortes em um período de dez dias por todo o estado de São Paulo. Números apontam para mais de cinquenta agentes e quinhentos civis, muitos deles jovens negros e periféricos. A ausência de investigações e responsabilização pelos assassinatos motivou a criação do movimento Mães de Maio, fundado por Débora Silva e composto por mães, familiares, amigos e amigas das vítimas em busca de justiça e reparação. Sua atuação é referência na denúncia contra os crimes cometidos pelo Estado e segue inspirando a criação de inúmeros movimentos semelhantes mesmo depois de mais de quinze anos do ocorrido. MÃES DA LESTE Fundado em 2019, o movimento Mães da Leste reúne mães de diferentes bairros da zona leste de São Paulo que perderam seus lhos em distintas abordagens policiais, e que seguem sem os devidos esclarecimentos. O silêncio e a negação do Estado em relação aos crimes cometidos se converteram em um denominador comum na vida dessas mulheres, que construíram uma potente rede de afeto, solidariedade e apoio entre elas. Em protestos e ações de mobilização, as mães denunciam os crimes de Estado, demandam transparência e responsabilização dos culpados e transformam suas perdas pessoais em um chamado coletivo por verdade, memória, justiça e reparação. O Programa Coleta Regular de Testemunhos reúne depoimentos de diversas integrantes, entre eles o de Márcia Gazza, articuladora e fundadora do movimento Mães da Leste. 30 31 Stills do vídeo Do luto à luta: Mães da Leste (2023) CHACINA DE OSASCO E BARUERI Nos dias 8 e 13 de agosto de 2015, agentes do Estado encapuzados adentraram bairros periféricos na Região Metropolitana de São Paulo e realizaram uma série de assassinatos em retaliação pela morte de dois agentes de segurança, vítimas de assaltos armados alguns dias antes. Jovens moradores de Osasco e Barueri, aleatoriamente escolhidos em locais sem qualquer conexão entre si, foram alvos da ação. Também foram apontadas mortes em Itapevi e Carapicuíba, totalizando 28 vítimas, segundo familiares. Três policiais militares e um guarda civil militar foram acusados pelos crimes. Em fevereiro de 2021, o policial Victor Cristilder e o guarda Sérgio Manhanhã tiveram a condenação anulada por júri popular. Até a data desta publicação os policiais Fabrício Eleutério e Thiago Henklain permanecem detidos. Em 2023, foi deferido o pedido para que Cristilder retornasse à Polícia Militar. Still do vídeo Do luto à 32 luta: Mães de Osasco e Barueri(2023) MASSACRE DE PARAISÓPOLIS Still do vídeo Do luto à luta: Movimento de Familiares de Vítimas do Massacre de Paraisópolis(2023) O Baile da DZ7 reunia cerca de 5 mil pessoas em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, quando foi violentamente encerrado na madrugada de 1 de dezembro de 2019 pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. A ação de dispersão da multidão levou a inúmeros feridos e à morte, em uma viela, de nove jovens com idades entre 14 e 23 anos. A narrativa adotada pela Polícia, que desresponsabiliza os agentes, é contestada: ao contrário do informado pelo órgão, as imagens e gravações não indicam oposição violenta das pessoas presentes; os laudos necroscópicos divergem da causa da morte, inicialmente apontada como pisoteamento acidental; e a remoção das vítimas, já sem vida, pela polícia é entendida não como uma tentativa de socorro, mas como interferência nas investigações. Em julho de 2023 foi dado início ao julgamento: dos 31 policiais envolvidos, doze são processados por homicídio e lesão corporal. Uma apuração também transcorre separadamente na Justiça Militar. Conduzida junto aos familiares das vítimas, uma investigação defensiva sobre a ação policial no Baile da DZ7 foi realizada pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo(CAAF/Unifesp) e pelo Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos(NCDH) da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. O trabalho se desdobrou em uma série de nove vídeos e está disponível no canal do YouTube do CAAF/Unifesp. 33 INÊS ETIENNE ROMEU O reconhecimento dos crimes cometidos pela Ditadura Civil-Militar brasileira não existiria sem as muitas testemunhas que ousaram levantar a voz e denunciar tamanhas atrocidades, como fez Inês Etienne Romeu(1942–2015). Recontar sua vida é, não somente se defrontar com todas as mais graves violências perpetradas pelo Estado no período, mas também com a coragem, a força e a determinação admiráveis de uma mulher em sua luta por memória, verdade e justiça. Única sobrevivente da Casa da Morte, centro clandestino de detenção, tortura e desaparecimento em Petrópolis(RJ), Inês levou a público a existência do endereço secreto, apontou vítimas que tiveram passagem pelo local e lutou incansavelmente pela responsabilização de seus torturadores, identi cando muitos deles durante as investigações da Comissão Nacional da Verdade. Seus esforços produziram um arquivo pessoal extenso e valioso, composto de relatórios, cartas recebidas na prisão, processos jurídicos, fotogra as e fotocópias de chas criminais atualmente sob salvaguarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ainda que em uma ín ma amostragem, os documentos apresentados atestam o valor da luta de Inês Etienne e a con ança dada por ela, historiadora e arquivista de formação, ao arquivo como ferramenta incontestável na preservação da memória e na obtenção da verdade. Inês, Luiza Erundina 34 35 Sem data. e Amelinha Teles. MILITÂNCIA E SEQUESTRO [1964–1971] Inês Etienne Romeu ingressou em 1961 na Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG) e, desde o golpe civil-militar de 1964, participou de diferentes organizações de oposição perseguidas pelo regime, entre elas a Vanguarda Popular Revolucionária(VPR), da qual esteve à frente. Investigada por agentes da repressão, foi sequestrada em São Paulo em 5 de maio de 1971, quando já se encontrava afastada da VPR, e detida ilegalmente no Deops/SP. Após ser torturada nas instalações da polícia política, foi transferida no dia seguinte para o Rio de Janeiro, onde tentou suicídio. Depois de hospitalizada, foi levada para um centro clandestino de tortura e desaparecimento em Petrópolis, conhecido como a Casa da Morte. Cartão de estudante de Inês do curso de História na Universidade Federal 36 de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1969. CASA DA MORTE EM PETRÓPOLIS [1971] Como corroborado pela Comissão Nacional da Verdade em 2014, a Casa da Morte foi um centro clandestino de tortura e extermínio ocupado entre 1971 e 1974 pelo Centro de Informações do Exército(CIE), em Petrópolis. Instalada em uma casa de aparente uso residencial, a estrutura repressiva era utilizada para sequestros, torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres. Inês foi a única sobrevivente, tendo permanecido 96 dias no imóvel. Durante esse período, sem conhecimento de seu paradeiro, familiares e amigos realizaram buscas para encontrá-la em meio a informações vagas e infundadas compartilhadas por militares e representantes do Estado, inclusive sobre seu suposto assassinato. Planta dos cômodos da Casa da Morte, centro clandestino de tortura em Petrópolis, desenhada 3 7 por Inês. Belo Horizonte, 18 de setembro de 1971. RECUPERAÇÃO E TESTEMUNHO [1971] Após ngir aceitar um acordo com seus torturadores, Inês foi solta sob a condição de atuar como in ltrada em organizações subversivas. Em agosto de 1971 foi levada da Casa da Morte para a residência da irmã em Belo Horizonte sob vigilância de agentes do Estado. Dada sua saúde frágil, pesando pouco mais de trinta quilos, permaneceu na Casa de Saúde Santa Maria por três meses. Durante a internação, Inês relatou por escrito detalhes de seu sequestro, identi cou torturadores pelos seus codinomes e apontou possíveis vítimas assassinadas no endereço em Petrópolis. Por se negar a colaborar com os agentes do Estado e temendo por sua segurança, optou, com o apoio de familiares e do advogado Augusto Sussekind de Moraes, por ter sua prisão legalizada em novembro de 1971. Relato em versão datilografa da, redigido por Inês quando internada na Casa de Saúde Santa Maria. A denúncia expõe as circunstâncias de sua detenção clandestina e os codinomes de seus torturadores e carcereiros. 38 setembro de 1971. Belo Horizonte, 18 de 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE [2014] Em 2014, a pedido da Comissão Nacional da Verdade(CNV), Inês reconheceu seis torturadores e carcereiros da Casa da Morte por meio de fotogra as. Investigações do Ministério Público e de jornalistas também auxiliaram na identi cação posterior de outros agentes. São eles: Freddie Perdigão Pereira(“Dr. Roberto”), capitão de cavalaria; Rubens Paim Sampaio(“Dr. Teixeira”), major de infantaria; Ubirajara Ribeiro de Souza(“Zé Gomes”), segundo-sargento; Jairo de Canaã Cony(“Marcelo”), sargento; Rubens Gomes Carneiro(“Laecato”), segundo-sargento; Antônio Fernando Hughes de Carvalho(“Alan”), o cial ligado ao DOI-CODI do I Exército; Antônio Waneir Pinheiro Lima(“Camarão”), soldado; Amílcar Lobo(“Dr. Carneiro”), médico do Exército; e Luiz Cláudio de Azeredo Vianna(“Laurindo”), comissário da Polícia Civil de Petrópolis. 54 55 JULGAMENTO E PRISÃO [1972–1979] Com sua prisão legalizada em novembro de 1971, Inês foi transferida para o Rio de Janeiro e julgada no ano seguinte. Foi condenada à prisão perpétua pelo crime de morte de um dos agentes de segurança de Giovanni Bucher, embaixador suíço sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária(VPR) em 1970, e transferida para o Instituto Penal Talavera Bruce em Bangu, na capital uminense. A condenação foi posteriormente modicada para trinta anos de reclusão, quando se concluiu que Inês não havia cometido crime de morte, e novamente ajustada para oito anos, tempo correspondente à pena mínima prevista na lei vigente de Segurança Nacional de 1978(Lei nº 6620/78). FIM DO CÁRCERE [1979] Inês é considerada a última presa política libertada no país durante a Ditadura Civil-Militar, após oito anos de encarceramento. Sua saída aconteceu em 29 de agosto de 1979, um dia depois da promulgação da Lei de Anistia. Apesar de muito ter sido dito sobre sua condição de anistiada, Inês foi bene ciada pela lei em 2001: tendo em vista que o crime de sequestro pelo qual foi condenada a excluía dos benefícios da lei, pôde sair da prisão por ter cumprido seu tempo de pena. 56 57 Inês recebe visita de familiares e amigos no Instituto Penal Talavera Bruce. Rio de Janeiro, anos 1970. Inês no Instituto Penal Talavera Bruce. Rio de Janeiro, março de 1979. ARQUIVOS DA PRISÃO 58 Matérias de jornais coletadas por Inês e reunidas na edição nº 1307 da revista Manchete (maio de 1977). Durante sua prisão no Presídio Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, Inês usou revistas Manchete como suporte para guardar um importante histórico jornalístico da Ditadura Civil-Militar. As matérias abarcam o período entre julho de 1977 e abril de 1980, indicando que Inês seguiu a coletá-las após ser libertada. Reunidas em ordem cronológica e retiradas de diferentes veículos de comunicação, constituem uma singular linha do tempo sobre a situação dos presos políticos no país e a luta de familiares por anistia. 59 INÊS [1974] Muitas lacunas ainda existem sobre o processo de criação e desenvolvimento do curta Inês (1974). Feito em apoio a Inês Etienne Romeu durante sua prisão no Instituto Penal Talavera Bruce, Rio de Janeiro, o vídeo mobilizou uma intensa campanha internacional por sua liberdade e é um incontestável documento sobre o poder de mobilização e luta de redes de mulheres. Sabe-se que o lme parte de uma estreita colaboração entre as atrizes e cineastas Norma Bengell(Brasil, 1935–2013) e Delphine Seyrig(Líbano, 1932–França, 1990). Em 1974, Seyrig iniciava uma intensa produção audiovisual como fundadora do coletivo de mulheres feministas Les Insoumuses — um jogo de palavras que combina“musas” e“desobedientes”, em francês. O grupo realizou, ao longo dos anos, uma extensa lista de lmes com a ada crítica social e olhar feminista, à qual Inês , considerado o primeiro lme dirigido por Seyrig, daria início. Exibido no Primeiro Congresso Internacional de Mulheres em Frankfurt, em novembro de 1974, o curta mobilizou as participantes e iniciou um amplo movimento internacional. A brutalidade do conteúdo, uma reencenação de tortura realizada por uma atriz e um narrador ainda hoje não identi cados, foi defendida como um dispositivo sensível para reconstituir a memória do período e desvelar os crimes misóginos praticados pelo aparato repressivo. Inês durante julgamento na 3ª Auditoria do Exército. 60 61 agosto de 1972. Rio de Janeiro, 24 de POSTAIS DA ANISTIA A exibição e a circulação do lme Inês (1974) em diferentes eventos na Europa e no contexto do Ano Internacional da Mulher, proclamado pela ONU em 1975, motivaram uma ampla campanha internacional em solidariedade e apoio à libertação de Inês. A mobilização culminou no envio de inúmeros cartões-postais a embaixadas brasileiras e ao Instituto Penal Talavera Bruce, onde Inês se encontrava presa. No verso de muitas mensagens via-se o desenho de uma pomba branca, que se tornou o grande símbolo da campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita no Brasil. Cartão-postal enviado a Inês durante encarceramento no Instituto Penal Talavera Bruce, com os dizeres“anistia – por 62 63 um Brasil livre e democrático”. Bérgamo, Itália, 1979. RETORNO A PETRÓPOLIS (1981) No dia 5 de setembro de 1971, uma semana após ser libertada, Inês dirigiu-se à Ordem dos Advogados do Brasil(OAB), no Rio de Janeiro, para prestar testemunho e apresentar documentos relacionados ao seu sequestro e prisão. Um inquérito foi aberto pela OAB para apurar os fatos, mas posteriormente arquivado pelo Ministério da Justiça. A luta de Inês para denunciar os responsáveis pelos crimes, todavia, não terminou: durante seu sequestro, escutou e memorizou os quatro dígitos de telefone da casa onde foi mantida. O fato foi determinante para encontrar, dez anos mais tarde, o endereço da Casa da Morte. Reunindo uma comitiva composta de familiares, amigos, representantes da OAB, familiares de desaparecidos políticos e imprensa, Inês retornou a Petrópolis em 1981 para localizar e denunciar publicamente os crimes de Estado dos quais foi vítima. A ação foi registrada na reportagem“A casa dos horrores”, escrita por sua irmã, a jornalista Lúcia Romeu, e o ex-preso político e jornalista Antonio Carlos Fon para a revista IstoÉ . A matéria foi vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, dedicado ao trabalho de jornalistas que colaboram na defesa e na promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos e sociais. Familiares de presos políticos e Inês, terceira pessoa da direita para a esquerda, em viagem para identificação da Casa da 64 fevereiro de 1981. Morte. Petrópolis, 3 de 65 CONFRONTO COM AMÍLCAR LOBO, O “DR. CARNEIRO” 66 Inês confronta o ex-médico e psicanalista Amílcar Lobo, colaborador das torturas na Casa da Morte, em seu consultório. Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1981. O percurso de Inês em identi car os responsáveis por seu sequestro, tortura e prisão teve outra parada além de Petrópolis. Dois dias depois de visitar o local clandestino de tortura, dirigiu-se em companhia da irmã Lúcia Romeu, do deputado Antônio Modesto da Silveira e do fotógrafo A. Fontes até o consultório do psicanalista Amílcar Lobo, médico designado do Exército e colaborador dos crimes praticados durante o período. Reconhecido por Inês, apresentava-se como“Dr. Carneiro” e foi responsável por lhe aplicar o“soro da verdade”, tratar de seus ferimentos e garantir maior tempo em tortura na Casa da Morte. Após a denúncia pública de Inês, Amílcar Lobo teve seu registro prossional cassado em 1989 pelo Conselho Federal de Medicina. 67 CADÊ HELENY? (2022), DE ESTHER VITAL Os cenários, os gurinos e os bonecos apresentados são parte do curta-documentário Cadê Heleny ?(2022), dirigido por Esther Vital(1983–). Foram criados por uma equipe de mulheres a partir da experiência em o cinas de arpilleras realizadas no Memorial da Resistência em 2018. A técnica têxtil originária do Chile tornou-se um poderoso meio de expressão e denúncia das violações dos direitos humanos durante a ditadura de Augusto Pinochet(1973–1990). No lme, a costura é o o condutor da história de Heleny Guariba, professora, diretora de teatro e ativista política desaparecida durante a Ditadura Civil-Militar brasileira. Sua trajetória se conecta à de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte em Petrópolis: em depoimento, Inês a rma que Heleny também esteve no local. 68 HELENY GUARIBA Nascida em Bebedouro(SP), Heleny Ferreira Telles Guariba (1941–1971) formou-se em Filoso a pela Universidade de São Paulo(USP) com estudos paralelos em teatro. Lecionou e dirigiu peças, mas interrompeu seu trabalho devido à censura da Ditadura Civil-Militar. Integrante da Vanguarda Popular Revolucionária(VPR), foi presa pela primeira vez em março de 1970, em Poços de Caldas(MG), e transferida para o DOI/ CODI em São Paulo, onde foi torturada por três dias. Quando o cializada sua prisão, cumpriu pena no Presídio Tiradentes até abril de 1971. Em 12 de julho do mesmo ano, foi sequestrada por agentes do DOI/CODI, no Rio de Janeiro, e possivelmente transferida para a Casa da Morte em Petrópolis, de acordo com testemunho de Inês Etienne Romeu. Heleny é reconhecida pelo Estado como desaparecida política e, em relatório da Comissão Nacional da Verdade, recomenda-se a continuidade das investigações sobre seu assassinato. Cenários e bonecos do curta-documentário 69 Cadê Heleny?(2022), por Estela Carvalho. JULGAMENTO DO TORTURADOR ANTÔNIO WANEIR PINHEIRO LIMA, O“CAMARÃO” Entre os torturadores da Casa da Morte está a gura de“Camarão”, codinome mencionado por Inês Etienne Romeu em 1971 e identi cado décadas mais tarde como Antônio Waneir Pinheiro Lima, soldado do Exército. Em 2016, Antônio foi formalmente acusado de sequestro, cárcere privado e estupro, mas a denúncia foi inicialmente rejeitada pela 1ª Vara Federal de Petrópolis. Um recurso do Ministério Público Federal, todavia, resultou na decisão inédita do Tribunal Federal da 2ª Região de não o absolver pelos crimes, sob a justi cativa de que as ações não poderiam ter o amparo da Lei da Anistia(Lei nº 6.683/1979). Até a data desta publicação, a Justiça Federal continua a tramitar a ação penal contra o acusado neste que é o primeiro processo criminal de estupro por um agente da Ditadura Civil-Militar no país. Cenário da Casa da Morte de Petrópolis para o curta-documentário Cadê Heleny? 70 (2022), por Ana Bedoya, Duda Ohoe e Estela Carvalho. PROCESSO DE TOMBAMENTO DA CASA DA MORTE Com o m da ocupação da Casa da Morte pelo Centro de Informações do Exército(CIE), em 1974, o imóvel seguiu como propriedade particular de diferentes residentes. Pedidos de tombamento e desapropriação foram realizados nas décadas seguintes, mas revertidos pela Justiça. Como resultado da luta contínua de movimentos organizados da sociedade civil, que buscam transformar o local em um centro de memória aberto ao público, a construção foi tombada provisoriamente em 2023 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural(Inepac), por seu“valor memorial e histórico”. O procedimento foi o cializado no Diário O cial do Estado do Rio de Janeiro em 26 de junho de 2023, data que marca anualmente o Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura. Até a data desta publicação, o imóvel permanece como propriedade privada. Em janeiro de 2024, o município de Petrópolis protocolou uma ação de desapropriação do imóvel com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos. 71 UMA VIDA DEDICADA À MEMÓRIA Inês retornou aos estudos após sua saída da prisão, formando-se em 1981 no curso de História da Universidade Federal do Ceará. Seu interesse em arquivologia e pesquisa a levaram de volta para São Paulo, onde trabalhou no Arquivo Público do Estado de São Paulo e assumiu a direção da instituição, entre 1988 e 1990. Inês também contribuiu, em 2002, com o projeto de pesquisa inicial para a criação de um Memorial do Cárcere, lugar que, mais tarde, se tornaria o Memorial da Resistência de São Paulo. Em 2003, em episódio até hoje não esclarecido, Inês foi atacada em seu apartamento por um suposto prestador de serviços e sofreu sequelas neurológicas permanentes. Faleceu no dia 27 de abril de 2015, aos 72 anos, em sua casa em Niterói(RJ). Inês durante participação no VI Congresso Brasileiro 72 73 Janeiro, abril de 1986. de Arquivologia. Rio de LUTA POR DIREITOS 76 77 QUERO ESCREVER UM [1984] C O N T O Quero escrever um conto. Pode ser um conto-de-fadas, [ um conto-do-vigário, um conto erótico. Quero escrever um conto, um conto de amor e de vida. Quero dizer de felicidades. [ Alguma coisa que seja ela mesma Assim como um sentido em atuação: ouvidos, olhos e bocas Quero escrever um conto de amor. Um conto verdadeiro, com eletricidade de ser. Quero um conto, um canto, um ponto na trajetória do [ devenir Para um futuro mais belo. Futuro que vislumbro na cor dourada do sol da janela [ dos Arquivos Arquivo casa onde eu morei e que em mim mora. Quero escrever um conto ao silêncio dos documentos. Mulheres sempre lutaram contra a permanência de antigas e novas formas de autoritarismo. Um olhar atento para a realidade brasileira traz à tona uma constante luta por direitos, organizada por múltiplos sujeitos e movimentos sociais que ocupam a cena pública para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Junto às demandas por memória, verdade e justiça presentes no enfrentamento da Ditadura Civil-Militar, as décadas de 1970 e 1980 viram se fortalecer no país uma agenda de pautas feministas que caminhou em meio às mudanças sentidas nas relações das mulheres com o trabalho, a família e a vida política. De suas articulações e mobilizações, surgiu uma série de espaços autônomos de discussão, organizados por coletivos, associações e clubes que enxergavam na educação uma ferramenta de emancipação feminina. O direito ao próprio corpo e ao prazer, a questão da saúde reprodutiva e o m da violência doméstica somaram-se aos protestos por mais vagas em creches e pela garantia de direitos trabalhistas, a exemplo da categoria das domésticas. No período de redemocratização, demandas presentes na Constituição de 1988 organizaram o debate público, como o acesso à saúde, à educação e à moradia digna, as reivindicações da população negra para o enfrentamento do racismo e da violência policial, e da comunidade LGBT+ na luta contra o preconceito e a violação de direitos. Nesse sentido, cabe rea rmar que a luta das mulheres por direitos no Brasil é um processo contínuo que envolve a conscientização pública para questões urgentes, como a garantia do acesso a serviços públicos de qualidade para toda a população, independente de classe, raça ou identidade sexual. 7 B 8 eatriz Nascimento p. 76: Integrantes do “Lobby do Batom” em 79 frente ao Congresso Nacional. Brasília, 1986. NAIR BENEDICTO Engajada com temas políticos e fortemente comprometida com a luta por direitos e justiça social, Nair Benedicto(São Paulo, 1940) produz há décadas um registro sensível e atento às lutas populares e à realidade de grupos historicamente invisibilizados por todo o país. Sua história junto de uma máquina fotográ ca é também a de sua resistência durante a Ditadura Civil-Militar. Acusada de envolvimento com a organização Ação Libertadora Nacional(ALN), Nair foi presa em setembro de 1969 e conduzida ao Deops/SP, no edifício que hoje abriga o Memorial da Resistência, onde foi interrogada e torturada. Posteriormente transferida para o Presídio Tiradentes, foi solta em 1970, mas não sem consequências físicas, psicológicas e pro ssionais, dado que a exigência de atestados de idoneidade moral na época a impedia de trabalhar em empresas de vídeo e cinema. O caminho da fotogra a independente, uma das poucas opções viáveis para Nair, transformou-se em um instrumento de documentação e expressão da memória social brasileira. Resulta disso um arquivo fotográ co em contínua expansão sobre organizações populares e manifestações de rua, povos originários e quilombolas, classes trabalhadoras e pessoas em situação de rua, que trata também da condição da mulher. As fotogra as da série Conhecendo o corpo feminino são um fragmento dos muitos encontros acompanhados por Nair em o cinas promovidas por organizações feministas em São Paulo, no ano de 1984. Dedicadas a conhecer o corpo feminino, as reuniões eram espaços seguros e solidários para discutir temas como gênero, saúde e sexualidade junto de nomes como a escritora e intelectual Rose Marie Muraro(1930–2014) e os coletivos SOS Corpo – Instituto Feminista para Democracia(Recife) e jornal Mulherio . 80 81 Encontro dos Grupos SOS Corpo de Recife e Mulherio de São Paulo da série Conhecendo o Corpo Feminino(1984), de Nair Benedicto. 82 83 Oficina com Rose Marie Muraro da série Conhecendo 84 Nair Benedicto. o corpo feminino(1984), de 85 86 87 88 89 UNIÃO DE MULHERES DE SÃO PAULO A União de Mulheres de São Paulo(UMSP) é uma organização autônoma criada em 1981 com o objetivo de defender os direitos das mulheres através do incentivo e da promoção de uma educação popular feminista. O processo de fundação, que contou com a participação de ativistas políticas como Kátia Antunes, Criméia Alice Schmidt de Almeida, Maria Amélia de Almeida Teles, Terezinha de Oliveira Gonzaga e Maria de Lourdes Rodrigues, está diretamente ligado ao contexto de luta pela redemocratização no país e de reorganização dos movimentos sociais vividos no nal da década de 1970 e início dos anos 1980. Naquele momento, militantes de partidos de esquerda, ex-presas políticas e mulheres autônomas ocuparam a cena pública, reivindicando melhores condições de trabalho, creches, redução do custo de vida, maior participação feminina no cenário político e o m da violência contra a mulher – bandeiras que a UMSP carrega ainda hoje. Com atuação ininterrupta desde sua criação, a UMSP continua enfrentando os desa os de promover a emancipação feminina por meio do oferecimento de cursos, o cinas e atividades. Manifestação do Dia Internacional da Mulher no centro da 90 de março de 1988. cidade. São Paulo, 8 91 Manifestação de familiares de mortos e desaparecidos políticos junto ao Comício pelas Diretas Já, no Largo São 92 93 25 de janeiro de 1984. Francisco. São Paulo, Acima: Manifestação do Dia Internacional da Mulher, com apoio ao movimento pela Anistia. São Paulo, 8 de março de 1989. Manifestação do Dia Internacional da Mulher na Praça da Sé. 94 março de 1986. São Paulo, 8 de 95 Manifestação“A impunidade é cúmplice da violência” na Praça Ramos. São Paulo, 1992. MOVIMENTO FEMININO PELA ANISTIA O envolvimento de pessoas e entidades dedicadas a ampliar o espaço de atuação na política contra a ditadura marcou a segunda metade da década de 1970 e, progressivamente, a anistia tornou-se uma palavra de ordem central entre as demandas da oposição. Teve grande atuação no período o Movimento Feminino pela Anistia(MFPA), criado em 1975 na cidade de São Paulo. Pautados na defesa da anistia ampla e geral para vítimas do Estado, núcleos do MFPA foram criados por todo o país e passaram a reunir estudantes, lideranças de esquerda e uma rede de solidariedade no exterior. É inegável o protagonismo das mulheres, principalmente mães, companheiras, irmãs e lhas de presos políticos, que saíram às ruas e percorreram os presídios em busca de informações de seus familiares. Manifestantes na Câmara dos Deputados durante votação da Lei da Anistia. Brasília, 1979. Cartaz do Movimento 96 1975. Feminino pela Anistia. 97 MULHERES NAS DIRETAS JÁ Milhares de brasileiros e brasileiras reuniram-se ao longo de 1984 para os comícios da campanha Diretas Já, num culminante processo de abertura democrática no país após anos de restrições político-eleitorais impostas pela Ditadura Civil-Militar. Além da reivindicação por eleições diretas para a presidência da República, o movimento abarcou demandas por maior representatividade feminina na política nacional. Apesar da sucessão presidencial em 1985 ter sido indireta, sob responsabilidade do Colégio Eleitoral, organizações e movimentos de mulheres seguiram atuantes e foram responsáveis pela conquista de órgãos voltados a políticas públicas de igualdade de gênero, como a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher(CNDM) logo no primeiro ano da presidência de José Sarney. MINICONSTITUINTE DA MULHER Com o lema“Constituinte: tem que ter mulher!”, a Miniconstituinte da Mulher foi promovida pela União de Mulheres de São Paulo em 1986 e reuniu mais de trezentas pessoas na Câmara Municipal de São Paulo. Na ocasião, 38 deputadas foram simbolicamente eleitas por núcleos de mulheres e de sindicatos rurais e urbanos para debaterem propostas para a Constituição. As resoluções foram encaminhadas ao Encontro Nacional da Mulher pela Constituinte, realizado no dia 26 de agosto do mesmo ano, em Brasília. Mulheres na posse do então vice-presidente Mulher lê panfleto durante eleito José Sarney. a Miniconstituinte da Mulher, 98 99 Brasília, 15 de março de 1985. na Câmara. São Paulo, 17 de agosto de 1986. CONSTITUINTE E“LOBBY DO BATOM” Em 1985, o Brasil viu o m de uma longa ditadura e a organização de uma nova Constituição, com a participação de mulheres de diferentes vinculações político-ideológicas. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher(CNDM), com o slogan“Constituinte sem mulher ca pela metade”, foi um relevante espaço de diálogo e pressão por igualdade na política. O resultado veio nas eleições de 1986, com o aumento de oito para 26 parlamentares eleitas. A disparidade com homens, ainda que grande, levou à formação de uma bancada de deputadas e senadoras no Congresso conhecida como“Lobby do Batom”. Grande parte de suas reivindicações foi incorporada ao texto nal da Constituinte de 1988, como ampliação dos direitos civis, sociais e econômicos das mulheres, igualdade jurídica junto aos homens e licença-maternidade de 120 dias. Carta das Mulheres 100 Constituintes. 1987. Brasileiras aos 101 p. 102: Deputada federal Benedita da Silva, única parlamentar negra a integrar a Assembleia Nacional Constituinte, fala ao Congresso Nacional durante entrega da Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes. Brasília, 26 de março de 1987. 102 103 A FORMIGA, UM SÍMBOLO DE LUTA A formiga, símbolo do trabalho persistente e coletivo das mulheres, foi a imagem escolhida por integrantes da União para uma pintura realizada nos pilares do Elevado Costa e Silva, o“Minhocão”, em fevereiro de 1987. A ação, parte de uma campanha em defesa dos direitos das mulheres durante a Assembleia Nacional Constituinte, culminou na detenção arbitrária das participantes. Encaminhadas à Polícia Federal para prestarem depoimento por pichação, tornaram-se o único grupo de que se tem notícia a ser detido por realizar gra tes em defesa da Constituição. Integrantes da União de Mulheres de São Paulo pintam painel em defesa dos direitos 10 4 da mulher na Constituinte em pilastra do Elevado Costa e Silva. São Paulo, 1987. CASA DE CULTURA DA MULHER NEGRA Os movimentos de mulheres negras e o feminismo negro têm protagonismo histórico nas lutas por direitos no país, sempre apontando as discriminações vividas em uma sociedade racista, propondo uma agenda política articulada entre gênero, raça e classe, e apoiando bandeiras comuns contra violências e desigualdades. Um dos espaços de organização e mobilização dessa luta foi a Casa de Cultura da Mulher Negra, fundada em 1991 por Alzira Ru no(1949–2023) em Santos(SP). Até o encerramento de suas atividades, em 2019, a Casa foi um local de união e apoio, com oferta de cursos, eventos culturais e serviços de assistência jurídica e psicológica às mulheres vítimas de violência sexual e doméstica. Da parceria com a União de Mulheres surgiu o 1º Encontro Nacional de Entidades Populares contra a Violência à Mulher, em 1993, com o mote“A impunidade é cúmplice da violência”. Mulheres da Casa de Cultura da Mulher Negra em visita à União 105 de Mulheres de São Paulo. São Paulo, 30 de agosto de 1993. PROMOTORAS LEGAIS POPULARES Estabelecido na década de 1990 a partir de uma parceria entre a União de Mulheres de São Paulo e a organização Themis – Gênero e Justiça, do Rio Grande do Sul, o projeto Promotoras Legais Populares(PLPs) tem como missão promover o acesso de mulheres à justiça e aproximá-las do poder público. A formação política, inspirada em iniciativas de capacitação em países como Peru e Chile, está assentada na ideia de que a educação é um poderoso instrumento na luta por direitos, e oferece noções básicas de legislação, organização do Estado, funcionamento do Sistema Único de Saúde(SUS), feminismos, direitos sexuais e reprodutivos, entre outros. O curso acontece anualmente desde 1994 na capital paulista, promovido pela União de Mulheres, mas há núcleos de promotoras que atuam de forma independente no estado de São Paulo e em outros estados. Hoje, milhares de mulheres formadas e atuantes em seus territórios abrem caminhos para o acesso a serviços, direitos e políticas basilares para a melhoria da vida em suas comunidades. Cartaz das Promotoras 106 Marta Baião. Sem data. Legais Populares, arte de 107 Promotoras Legais Populares do estado de São Paulo nas escadarias do Bixiga. São Paulo, 28 de janeiro de 2023. Seminário“Introdução ao Curso de Promotoras Legais Populares”, primeiro treinamento realizado com lideranças populares de entidades de mulheres e sindicatos. São Paulo, 1994. 108 109 NAIR BENEDICTO ENCONTRA PROMOTORAS LEGAIS POPULARES Nair Benedicto acompanha o trabalho da União de Mulheres de São Paulo desde sua fundação, nos anos 1980. As fotograas apresentadas são resultado de seu encontro recente com representantes de núcleos das Promotoras Legais Populares de diversas cidades do estado de São Paulo, realizado no início de 2023 nas escadarias do Bixiga, bairro onde está localizada a sede da União de Mulheres de São Paulo. Nair também fotografou o cortejo de carnaval de 2023 do Bloco da Dona Yayá, organizado pela União. Fundado em 2000, o bloco percorre as ruas do Bixiga ecoando marchinhas sobre questões de gênero e direitos das mulheres. Maria Amélia (Amelinha) e Criméia no cortejo do Bloco da Dona Yayá com as Lavadeiras do Saracura. São Paulo, 12 de fevereiro de 2023. Promotoras Legais Populares do estado de São Paulo nas escadarias do Bixiga. 110 111 janeiro de 2023. São Paulo, 28 de CLUBE DE MÃES DA ZONA SUL Com expressiva participação de mulheres, a organização popular em regiões periféricas da zona sul de São Paulo tornou-se uma importante força de mobilização e atuação política, mesmo durante o rígido controle da Ditadura Civil-Militar, nas décadas de 1970 e 1980. Com in uência e apoio de setores da Igreja Católica, sobretudo os ligados à Teologia da Libertação, os Clubes de Mães foram espaços de luta e re exão social, política e religiosa em inúmeros bairros da zona sul de São Paulo. Cursos de costura e afazeres domésticos transformaram-se ao longo do tempo em encontros de discussão e formação com caráter contestatório e voltados a reivindicações para melhorias estruturais nos bairros de suas moradoras, como acesso à energia elétrica, água potável, saneamento básico e creches, e redução nos preços dos alimentos de primeira necessidade. Os Clubes de Mães tiveram um papel fundamental na origem do Movimento do Custo de Vida (MCV), que alcançou repercussão nacional ao denunciar a política econômica do regime militar, bem como uma forte participação na campanha por representação de mulheres na Constituinte. 2° Encontro de Mulheres da Vila Remo. São Paulo, 1982. 1° Encontro de Mulheres da Vila Remo. São Paulo, 1983. p. 114: 3° Encontro de Mulheres da Vila Remo. São Paulo, 1984. 112 113 114 115 ELIZABETH TEIXEIRA Elizabeth Teixeira, uma das principais lideranças do Clube de Mães da Zona Sul, e Ana Dias, durante o 4° Encontro de Mulheres da Vila Remo. São Paulo, 1985. Homenageada no 4º Encontro de Mulheres da Vila Remo, do Clube de Mães da Zona Sul, Elizabeth Teixeira(1925–) é uma gura central na defesa dos direitos de trabalhadoras e trabalhadores do campo. As reivindicações por reforma agrária, justiça social e m da violência eram pautas também do marido, João Pedro Teixeira(1918–1962), líder da Liga Camponesa de Sapé(PB). Após o companheiro ser assassinado a mando de latifundiários, Elizabeth continuou a luta ao assumir a organização. Perseguida e presa, mudou-se para o Rio Grande do Norte em 1964 e adotou um nome falso por dezessete anos, quando sua história, de João Pedro e de seus onze lhos foi resgatada no lme Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho(1933–2014). A casa da família em Sapé abriga hoje o MeSugestão de organograma dos Clubes de Mães da Zona morial das Ligas e Lutas Camponesas. Sul de São Paulo, retirado de documento da Coordenação 116 São Paulo, fevereiro de 1979. Geral dos Clubes de Mães. 117 LUTA CONTRA A CARESTIA O Movimento Contra a Carestia ou Movimento do Custo de Vida(MCV) ganhou contornos no início dos anos 1970 em meio às reuniões de mulheres dos Clubes de Mães da Zona Sul. Questionando os preços dos gêneros de primeira necessidade, os baixos salários e a insu ciência de serviços de saúde e educação, o movimento ganhou maior projeção com a incorporação de outras entidades. A articulação de um abaixo-assinado reuniu, em 1978, mais de 20 mil pessoas na Praça da Sé para um ato simbólico. Em setembro do mesmo ano, representantes foram até Brasília apresentar 1,3 milhão de assinaturas recolhidas. A ausência das autoridades no dia não permitiu a entrega, mas o movimento seguiu suas atividades e tornou-se um dos maiores exemplos de participação popular no contexto político do período. Chegada de mulheres representantes Cópia de abaixo-assinado do Movimento do Custo de Vida ao do Movimento do Custo Palácio do Planalto para entrega de 118 119 de Vida apreendido pelo Deops/SP. São Paulo, 1978. abaixo-assinado com mais de 1 milhão de assinaturas. Brasília, setembro de 1978. MOVIMENTO DE LUTA POR CRECHES A mobilização de mulheres em diferentes regiões periféricas de São Paulo foi determinante para estabelecer o Movimento de Luta por Creches, estruturado em 1979 durante o 1º Congresso da Mulher Paulista. O evento, que reuniu cerca de 800 mulheres no Teatro Ruth Escobar, enxergou como prioritária a reivindicação por creches nanciadas pelo Estado. Além de garantias à mãe trabalhadora em sua exaustiva dupla jornada, que continuava em casa como domésticas e costureiras, a bandeira exigiu espaços de socialização e desenvolvimento adequados para as crianças, maior participação familiar na orientação dos lhos, equiparação salarial e melhores condições de trabalho. Manifestação de luta por creches no saguão da Prefeitura. São 120 de 1980. Paulo, 17 de setembro REDE MULHER DE EDUCAÇÃO Dedicada à formação política e popular, a Rede Mulher de Educação promoveu inúmeros eventos, cursos, alianças e o fortalecimento de movimentos sociais em prol da luta por direitos das mulheres a partir de 1980, quando surgiu em São Paulo. A atuação da organização, fundada pela socióloga, escritora e militante feminista Moema Libera Viezzer(1938–), esteve também no centro das mobilizações para a Assembleia Constituinte de 1987, incluindo a organização de encontros realizados junto a coletivos da zona sul de São Paulo. Entre eles, o evento “Nós e a Constituinte”, realizado em junho de 1986, teve por objetivo discutir a causa popular das mulheres e garantir estratégias para as eleições de porta-vozes. Relatório do Encontro de Mulheres“Nós e a Constituinte”, publicado pela Rede Mulher. São Paulo, 121 1986. setembro de CONGRESSO DA MULHER PAULISTA Realizadas entre 1979 e 1981 em São Paulo, as três edições do Congresso da Mulher Paulista foram importantes espaços de debate e mobilização entre mulheres. Temas como trabalho, luta por creches, maternidade, violência doméstica e sexualidade ditaram as pautas dos encontros, organizados com a participação de entidades feministas, sindicatos, associações de donas de casa, grupos de mulheres lésbicas e Clubes de Mães, entre muitas outras. A primeira edição do evento aconteceu no Teatro Ruth Escobar nos dias 3, 4 e 8 de março de 1979, com cerca de 800 participantes. No ano seguinte, chegou a reunir mais de 3.500 pessoas no TUCA(Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) entre os dias 8 e 9 de março. O local também sediou a terceira edição do encontro, acompanhado por um ato de encerramento com aproximadamente 3.000 manifestantes na Praça da Sé, no dia 8 de março de 1981. 1° Congresso da Mulher Paulista. 122 123 março de 1979. São Paulo, 8 de LAUDELINA DE CAMPOS MELLO Laudelina de Campos Mello(1904–1991) deixou como legado conquistas fundamentais para a luta antirracista e por direitos das mulheres no país. Nascida em Poços de Caldas(MG), foi doméstica ainda na infância, quando a categoria não tinha direito à sindicalização ou à proteção das leis trabalhistas. Na década de 1930, já em Santos(SP), integrou o Partido Comunista Brasileiro e a Frente Negra Brasileira, importante entidade do movimento negro. Foi na cidade de Santos que fundou a primeira Associação de Empregadas Domésticas do Brasil, em 1936. Sua militância política, atenta às causas das mulheres, da população negra e das classes trabalhadoras menos favorecidas, encontrou pioneirismo também em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, quando atuou voluntariamente nas Forças Armadas do Brasil. Mudou-se para Campinas(SP) e criou, em 1961, a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas, que mais tarde viria a se transformar no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas e Região. Em homenagem e continuidade ao trabalho de Laudelina, em 1989, foi fundada na cidade a Casa Laudelina de Campos Mello – Organização da Mulher Negra, constituída por mulheres e jovens negras educadoras, com atuação até os dias de hoje. 1° Encontro da Associação das Empregadas 124 Campinas. 1984. Domésticas de 125 ORGANIZANDO UMA CATEGORIA Laudelina, terceira da esquerda para a direita, em jantar para cozinheiras no clube Paulistano da Glória. São Paulo, anos 1940. Fundada por Laudelina em 1961, a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas promoveu proteção e representação da categoria na cidade e região, além de atividades de cunho educativo, esportivo e cooperativo. No período da Ditadura Civil-Militar, devido às restrições políticas, a entidade adquiriu um caráter mais bene cente ao realizar cursos e distribuição de alimentos. Por questões internas, Laudelina deixou a entidade em 1968 e retomou seu envolvimento nos anos 1980, na conjuntura da redemocratização. Com a promulgação da Constituição, a Associação transformou-se no Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas e Região em 1988, comprometido com a luta de Laudelina em apontar discriminações raciais no ambiente de trabalho, exigir igualdade de direitos e reforçar o papel dessas mulheres, em sua maioria negras, na sociedade brasileira. 126 CONGRESSO NACIONAL DAS TRABALHADORAS DOMÉSTICAS O 1º Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas(1968) é um exemplo da força e da persistência de mulheres trabalhadoras durante o controle e a vigilância da Ditadura Civil-Militar. Laudelina esteve diretamente envolvida na organização do primeiro evento, em São Paulo, dedicado ao reconhecimento de direitos trabalhistas e à sindicalização na pro ssão. Planos de ação em escala nacional foram discutidos entre as cerca de quarenta trabalhadoras presentes, provenientes de nove estados do país. Desde então, os Congressos Nacionais seguem existindo: em agosto de 2021 ocorreu o XII Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas, em formato virtual. Laudelina, segunda da esquerda para a direita, no 1° Congresso 127 Nacional das Trabalhadoras Domésticas de São Paulo. São Paulo, 1968. BAILE PERÓLA NEGRA A atuação de Laudelina em Campinas(SP), onde morou até o m da vida, incluiu a reivindicação de espaços de encontro, lazer e sociabilidade que reforçaram a participação e o protagonismo da população negra na agenda cultural da cidade. Uma de suas contribuições foi a criação do Baile Pérola Negra, realizado pela primeira vez no Teatro Municipal de Campinas em 1957. Dedicado a jovens negras, o baile de debutantes era uma resposta direta a outras celebrações do tipo na cidade dedicadas exclusivamente a garotas brancas. O evento segue, ainda hoje, como uma importante tradição local. Em 2023, foi realizado no Clube Bon m. Laudelina, em pé, durante o Baile Pérola Negra do Clube Regatas de Campinas. Ao 128 seu lado, a atriz Ruth de Souza. Campinas, 1978. DIREITOS TRABALHISTAS PARA TODAS A luta das trabalhadoras domésticas pela regulamentação da categoria teve um signi cativo avanço em 1972, com a conquista de poucos – mas fundamentais – direitos, como carteira de trabalho assinada, férias remuneradas de vinte dias úteis e acesso a serviços da previdência social. Outras conquistas também foram garantidas na Constituição de 1988, apesar de a categoria ter sido assegurada com apenas nove dos mais de trinta direitos assistidos aos demais trabalhadores. Laudelina faleceu em 1991, aos 86 anos, sem testemunhar um dos maiores frutos de seu trabalho: a proposta de Emenda Constitucional nº 72, de 2013, conhecida como PEC das Domésticas, que garantiu direitos como jornada de trabalho de 44 horas semanais, pagamento de hora extra e recolhimento de FGTS. Laudelina, ao centro, em reunião no Sindica129 to da Construção Civil. Campinas, 1959. IN.FORMAR: CULTURA E EDUCAÇÃO POPULAR 130 Fundado em 1980 com a proposta de apoiar a análise crítica e a tomada de posições de movimentos sociais, o In.Formar: Cultura e Educação Popular foi uma entidade civil sem ns lucrativos de intensa atuação em São Paulo. Sociólogos, educadores sociais e fotógrafos se engajaram como membros, comprometidos em documentar as lutas populares e produzir materiais de apoio para atividades educativas e conscientizadoras em linguagem acessível e de fácil transmissão. Os conteúdos assumiram formatos diversos, como slideshows e montagens audiovisuais, e foram empregados para o trabalho de base junto de grupos de mulheres e mães, educadores de menores de rua, coletivos de jovens, sociedades de amigos de bairro e movimentos por moradia, numa troca de experiências conjunta e permanente até o encerramento da organização em 1992. A partir da doação de uma de suas fundadoras, Maria Célia Vieira Rossi, o que restou do acervo In.Formar encontra-se atualmente sob salvaguarda do IIEP – Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas. Marcha dos 100 anos da abolição. São Paulo, 13 de maio de 1988. 131 Manifestação da Panela Vazia. São Paulo, 26 de novembro de 1983. p. 132–133: Manifestação do Dia Internacional da Mulher. São Paulo, 8 de março de 1988. 132 133 AB AC EJRUVBOÁ O Acervo Bajubá é um projeto comunitário de registro de memórias das comunidades LGBT+ brasileiras. Reúne itens que documentam a diversidade sexual e a pluralidade de expressões e identidades de gênero no Brasil, e desenvolve ações e projetos de produção, mediação e circulação de memórias e histórias de pessoas de sexo e gênero dissidentes. Em 2022, o Acervo Bajubá realizou uma imersão no Centro de Pesquisa e Referência do Memorial da Resistência para analisar as perspectivas de gênero agenciadas pela instituição em suas ações e projetos e, a partir disso, propor articulações que permitissem discutir outras experiências de mulheres no período da Ditadura Civil-Militar e suas reverberações em vivências no presente. Esse levantamento é apresentado na exposição em duas vitrines com materiais do percurso curatorial realizado pelo Acervo Bajubá no Centro de Referência e com um trabalho desenvolvido a partir da exposição Mulheres em Luta! , em parceria com a ONG Mulheres da Luz. Em seu conjunto, as vitrines indicam caminhos possíveis para pensarmos sobre a participação de mulheres nos processos políticos, sociais e culturais na história recente do país. Manifestação de prostitutas contra a violência policial na região central. São Paulo, 30 de novembro de 1979. Passeata na Praça Ramos de Azevedo em protesto e em memória dos desaparecidos políticos na Argentina e no Brasil. São Paulo, 22 de agosto de 1980. 134 135 GRUPO CONTRAFILÉ Escola de Testemunhos(2023), dispositivo artístico-educativo do Grupo Contrafilé. A Escola de Testemunhos é um dispositivo artístico-educativo que parte da premissa de que cada pessoa é uma escola e, portanto, possui sabedorias e sensibilidades próprias e profundas, que falam de uma singularidade ao mesmo tempo que expressam processos sociais e coletivos. Para a exposição, o dispositivo é ativado na voz de três mulheres de luta, que nos convidam a aprender, escutar e re etir sobre questões da memória e da resistência. Ao nal da exposição, a Escola de Testemunhos se encerra com uma meta-aula, um encontro sobre a importância da prática pública do testemunho. 136 Se o testemunho é uma escola, como aprender a partir dele? O que aprender? O que uma testemunha está ensinando? Os encontros na mostra Mulheres em Luta! são abertos, realizados no espaço expositivo, e todas as pessoas são convidadas a tomar notas em placas de lousa, participando assim de um registro coletivo das potências ensinadoras das aulas com os temas“Tudo é política!”, com Ana Dias,“O pacto do silêncio e modos de rompê-lo”, com Rita Sipahi,“Luta antirracista e resistência à ditadura”, com Neusa Maria Pereira, e“Rodas de partilha, testemunho público e a produção coletiva da memória”, com Janaína Teles, Márcia Gazza e Rudinei Borges. O Grupo Contra lé é um coletivo de produção de arte-política-educação que tem como foco encontros com diferentes pessoas, grupos e comunidades, sempre a partir de uma perspectiva cartográ ca na qual a principal matéria de trabalho é a escuta e a performatização de afetos e urgências. Atualmente, fazem parte deste grupo Cibele Lucena, Joana Zatz Mussi e Rafael Leona, professores, pesquisadores e artistas que entendem a educação como um lugar central de criação e inspiração, enquanto contribuem para possíveis transformações na sensibilidade coletiva. 137 MULHERES EM LUTA! ARQUIVOS DE MEMÓRIA POLÍTICA Exposição em cartaz no Memorial da Resistência de São Paulo de 7 de outubro de 2023 a 28 de julho de 2024. 140 141 142 143 144 146 147 148 149 150 153 GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO Governador Tarcísio Gomes de Freitas Vice-Governador Felicio Ramuth Secretária de Estado da Cultura, Economia e Indústria Criativas Marilia Marton Secretário Executivo Marcelo Assis Chefe de Gabinete Daniel Scheiblich Rodrigues Coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico Karina Santiago Diretora do Grupo Técnico de Coordenação do Sistema Estadual de Museus Renata Cittadin Diretora do Núcleo de Apoio Administrativo Denise dos Santos Parreira Diretora do Grupo de Preservação do Patrimônio Museológico Vanessa Costa Ribeiro Equipe Técnica da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico Angelita Soraia Fantagussi Dayane Rosalina Ribeiro Eleonora Maria Fincato Fleury Kelly Rizzo Toledo Cunegundes Luana Gonçalves Viera da Silva Marcia Pisaneschi Sorrentino Marcos Antônio Nogueira da Silva Mirian Midori Peres Yagui Regiane Lima Justino Roberta Martins Silva Sofia Gonçalez Tayna da Silva Rios Thiago Brandão Xavier Conselho de Orientação Cultural do Memorial da Resistência de São Paulo Carla Gilbertoni Carneiro Eduardo Ferreira Valério Jerá Guarani Luciana Cesar Guimarães Mário Augusto Medeiros da Silva Paulo de Tarso Vannuchi Sheila Santana de Carvalho ASSOCIAÇÃO PINACOTECA ARTE E CULTURA Diretor-geral Jochen Volz Diretor Administrativo e Financeiro Marcelo Costa Dantas Diretor de Relações Institucionais Paulo Romani Vicelli MEMORIAL DA RESISTÊNCIA DE SÃO PAULO Diretora Técnica Ana Pato Coordenadora da Ação Educativa Aureli Alves de Alcântara Educadores Ana Beatriz Roque de Oliveira Daniel Augusto Bertho Gonzales Guilherme Bertolino Nunes Luis Fernando Saab Barbosa Marcus Vinicius Freitas Alves Osvaldo Sant’Anna Júnior Centro de Pesquisa e Referência Júlia Cerqueira Gumieri Vanessa Miyashiro Thayna Oliveira da Silva (aprendiz) Ação Cultural Carolina Faustini Junqueira Lucas Ribeiro Desenvolvimento Institucional Célia Gillio Comunicação Sérgio Motta Bruna Caetano de Deus Ânela Macedo Mendonça (estagiária) MULHERES EM LUTA! ARQUIVOS DE MEMÓRIA POLÍTICA Curadoria Ana Pato Assistência de Curadoria e Pesquisa Carolina Faustini Junqueira Artistas, Coletivos e Movimentos Acervo Bajubá Beatriz Nascimento Bianca Turner Delphine Seyrig Emicida& Batucaderas do Terreiro dos Órgãos Estela Carvalho Esther Vital Grupo Contrafilé Mães da Leste Mães de Osasco e Barueri Movimento de Familiares das Vítimas do Massacre em Paraisópolis Mulheres da Luz Nair Benedicto Norma Bengell Promotoras Legais Populares de São Paulo União de Mulheres do Município de São Paulo Val Gomes Textos e Legendas Carolina Faustini Junqueira Pâmela de Almeida Resende Projeto Expográ co Goma Oficina— Christian Salmeron Teresa Vicini Lodi (assistente) Identidade Visual Goma Oficina— André Stefanini Maria Cau Levy Flora Milanez Projeto de Iluminação Saullo Costa da Silva Andretti Colagem de Fotogigantismo Julio Dojcsar Digitalização de Acervo Fotográ co Fernando Fortes Ação Educativa Equipe do Programa Educativo Produção Angela Gennari Cecilia Zuchi Vezzoni Lucas Ribeiro Montagem Duzzi Cenografia Assessoria de Imprensa Si Comunicações— Silvana Inácio Revisão Fernanda Alvares Tradução Brune Carvalho Realização Associação Pinacoteca Arte e Cultura(APAC) Arquivos Acervo Cinemateca Brasileira Acervo Memorial da Resistência de São Paulo – Programa Coleta Regular de Testemunhos Armazém Memória Arquivo Comissão Nacional da Verdade Arquivo da União de Mulheres de São Paulo Arquivo Histórico da Câmara dos Deputados Arquivo Público do Estado de São Paulo CAAF/Unifesp – Centro de Antropologia e Arqueologia Forense Casa Laudelina de Campos Mello – Organização da Mulher Negra CEDEM- Centro de Documentação e Memória da Unesp Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir Fundação Beatriz Nascimento IIEP – Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas Agradecimentos Amelinha Teles, Ana David, Aparecida Marcondes de Oliveira, Bethania Nascimento Freitas Gomes, Bruno O., Cleusa Aparecida da Silva, Conceição da União, Criméia de Almeida, Desirée de Lemos Azevedo, Helena Zelic, Isabel Cristina Leite, Josiane Nascimento, Juliana Ziebell, Marcos Tolentino, Mariana Meneguetti, Orestes Toledo, Paula Ribeiro Salles, Pedro Henrique Santos Cursino, Rafael Moretti, Rodrigo Otavio Garcia, Sandra Aparecida Pereira, Sebastião Lopes Neto, Sheila Aparecida Rodrigues Soares, Yara Cristina Gabriel, Yuri Fraccaroli. Créditos das Imagens pp. 1, 2, 16, 18, 34, 36, 37, 39–54, 57, 58, 60, 62, 63, 65, 73, 159, 160: Fundo Inês Etienne Romeu, Arquivo Público do Estado de São Paulo. p. 13: Bethania Nascimento, Fundação Beatriz Nascimento. pp. 21, 29, 68, 71, 136, 141–144, 146–150, 152, 153: Isabella Matheus/ Acervo Memorial da Resistência de São Paulo. pp. 22–24, 31–33: Acervo Memorial da Resistência de São Paulo. p. 66: Antonio Augusto Fontes/ Fundo Inês Etienne Romeu, Arquivo Público do Estado de São Paulo. p. 76: João Fernandes, Josemar Gonçalves Eugênio Novaes, José Varella / Arquivo Nacional. pp. 81–89, 108 (embaixo), 110, 111: Nair Benedicto / N-Imagens Estúdio Fotográ co. pp. 91–95, 98, 99, 104, 105, 107, 108(em cima): União de Mulheres do Município de São Paulo. p. 96: Fundo Asmob, Cedem/Unesp. p. 97: Orlando Brito/ Arquivo Público do Estado de São Paulo. pp. 100, 101, 112–117, 121: Cecilia Hansen; Fundo Clube de Mães da Zona Sul, Cedem/Unesp. p. 102: Arquivo Histórico Câmara dos Deputados. pp. 118, 119, 135: Arquivo Público do Estado de São Paulo. p. 120: Maristela Mafei/ Arquivo Público do Estado de São Paulo. p. 122: Sandra Adams/ Arquivo Público do Estado de São Paulo. pp. 125, 129: Acervo Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas. pp. 126–128: Arquivo Casa Laudelina de Campos Mello Organização da Mulher Negra. pp. 130–133: Fundo In.Formar, Arquivo IIEP- Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas. p. 134: Ricardo Giraldez/ Arquivo Público do Estado de São Paulo. p. 140: Levi Fanan/ Acervo Memorial da Resistência de São Paulo. CATÁLOGO Coordenação editorial Carolina Faustini Junqueira Realização Memorial da Resistência de São Paulo Largo General Osório, 66 01213-010 São Paulo – SP, Brasil Produção editorial mira.etc – Deborah Moreira Design grá co Goma Oficina— André Stefanini Maria Cau Levy Flora Milanez Revisão Editorial Estrela da Manhã— Marcelo Cipolla Fernanda Alvares Flávio Silva Fontes Ruder Plakat, Antwerp, Neue Haas Grotesk O Memorial da Resistência agradece a todas as mulheres pelas entrevistas concedidas ao Programa Coleta Regular de Testemunhos. Em atenção à Lei n. 9610/1998, todos os esforços foram feitos para localizar os detentores dos direitos das obras aqui expostas. Em caso de possíveis omissões, por favor entre em contato com faleconosco@memorialdaresistenciasp. org.br As opiniões expressas nesta publicação não necessariamente re etem as da FES Brasil – Fundação Friedrich Ebert. Papel Capa Supremo 300g, miolo Offset 90g Tiragem 2000 exemplares Impressão Ipsis Gráfica e Editora Apoio e distribuição FES Brasil – Fundação Friedrich Ebert Av. Paulista, 2001 – 13º andar, conj. 1313 01311-931 São Paulo – SP, Brasil Christoph Heuser, Representante da FES Brasil Jaqueline Lima Santos, Diretora de Justiça Racial e de Gênero da FES Brasil fesbrasil@fes.org.br Apoio Realização Mulheres em Luta! Arquivos de memória política [recurso eletrônico]/ curadoria Ana Pato e Carolina Faustini Junqueira.-- São Paulo: Memorial da Resistência de São Paulo: Friedrich-Ebert-Stiftung(FES) Brasil, 2024. 160 p. ISBN 978-65-89070-45-0 Catálogo da exposição realizada no Memorial da Resistência de São Paulo, de 07 de outubro de 2023 a 28 de julho de 2024. 1. Ditadura- Brasil – Século XX. 2. Mulheres – História do Brasil. 3. História oral. 4. História e política. 5. Memorial da Resistência de São Paulo – Exposição. I. Pato, Ana. II. Junqueira, Carolina Faustini. CDD 323 159