AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação(CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Agenda antirracista e a política brasileira[livro eletrônico]/ Andressa Oliveira...[et al.]. -- São Paulo: Fundação Friedrich Ebert: Fundação Tide Setubal, 2024. PDF Outros autores: Josué Medeiros, Mariane Almeida, Wescrey Portes. ISBN 978-65-83333-08-7 1. Antirracismo 2. Ideologia- Brasil 3. Negros Brasil- Condições sociais 4. Participação política 5. Políticas públicas- Brasil 6. Racismo- Brasil I. Oliveira, Andressa. II. Medeiros, Josué. III. Almeida, Mariane. IV. Portes, Wescrey. 24-239646 CDD-305.8 Índices para catálogo sistemático: 1. Antirracismo: Resistência: Sociologia 305.8 Eliane de Freitas Leite- Bibliotecária- CRB 8/8415 AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 3 Sumário Apresentação........................................................................................................................ 4 Esquema Infográfico............................................................................................................. 7 1. O racismo como um problema fundamental da sociedade brasileira................................ 11 Politização, polarização e Ideologias políticas............................................................... 22 Sub-representação das pessoas negras e o voto........................................................... 39 2. A Agenda Antirracista- as Convicções Políticas e a Sensibilidade Racial no Brasil............. 60 3. Considerações finais – Para avançar na agenda antirracista na política brasileira.............. 63 Ficha técnica....................................................................................................................... 65 Andressa Oliveira, Josué Medeiros, Mariane Almeida e Wescrey Portes OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 4 Apresentação A política brasileira vem sendo impactada pela emergência da pauta antirracista, especialmente pela crítica à baixa presença de homens e mulheres negras nos espaços de representação. O enfrentamento às desigualdades sociais, a crítica à violência urbana e estatal e a reivindicação das Ações Afirmativas ganharam espaço, impulsionando a politização da questão racial e ampliando as reflexões sobre a democracia e a necessidade de maior participação política de pessoas negras. O tema da sub-representação negra em espaços de poder vem mobilizando diversos setores da sociedade civil organizada, com impacto no sistema político eleitoral. Destacam-se as mudanças nas regras de financiamento eleitoral implementadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que garantiu proporcionalidade racial na distribuição do Fundo Eleitoral para Financiamento de Campanha(FEFC), a campanha organizada por movimentos sociais que reivindicou maior diversidade racial e de gênero no primeiro escalão do governo federal e a mobilização pela indicação de uma mulher Essa emergência da negra para o Supremo Tribunal Federal(STF). Essa emergência da pauta pauta antirracista é produto antirracista é produto e produtora de uma nova dinâmica de conflitos e produtora de uma nova sociais, na qual os enfrentamentos ocupam a esfera pública, o debate dinâmica de conflitos sociais, acadêmico, as redes sociais e a mídia tradicional. na qual os enfrentamentos ocupam a esfera pública, o debate Esse novo padrão rompe com a tradição de acomodação provocada acadêmico, as redes sociais e a pelas elites brasileiras, que marca a nossa história com base no mito da mídia tradicional. democracia racial. De um lado, os atores coletivos organizados e as pessoas, exercendo sua cidadania, adotam uma postura crescente de denúncia e combate aberto às práticas racistas que seguem vigentes na sociabilidade e nas instituições brasileiras; por outro, indivíduos e organizações(sobretudo da extrema-direita, mas não somente) dobram a aposta na promoção e afirmação de dinâmicas racistas no cotidiano, mobilizando e defendendo a violência como um método de resolução dos conflitos e buscando legitimar as várias desigualdades da sociedade brasileira. Este relatório analítico busca contribuir com esse novo quadro político-social, especialmente na questão da sub-representação política das pessoas negras. Especificamente, questiona-se de que modo o eleitorado brasileiro interpreta a questão racial, o novo padrão de conflito e como essa interpretação pode se expressar nas urnas. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 5 A agenda de pesquisa, cujos primeiros resultados figuram neste paper, é uma realização conjunta da Fundação Friedrich Ebert, da Fundação Tide Setúbal e do Observatório Político e Eleitoral(OPEL). Juntas, essas fundações e o OPEL iniciaram, ainda no primeiro semestre de 2023, um processo de reflexão sobre a sub-representação das pessoas negras na política brasileira. Após um rico processo de debates sobre os melhores caminhos para o desenvolvimento da pesquisa, optou-se pela realização de grupos focais, com o objetivo de investigar as preferências, valores e o comportamento político do eleitorado sobre racismo e eleições no Brasil. O desafio dessa intensa dinâmica de debates e da pesquisa foi fazer convergir as reflexões de pesquisadoras e pesquisadores engajados em redes variadas de ativismo com a excelência metodológica necessária para a produção de um conhecimento que pretende ser, ao mesmo tempo, um diagnóstico sobre o impacto da agenda antirracista no eleitorado e uma ferramenta de incidência para estratégias políticas que amplifiquem o alcance dessa agenda no processo eleitoral de 2024. Boa parte do eleitorado, incluindo lulistas e bolsonaristas, Realizamos nove grupos focais, cada um deles com seis pessoas, pela plareconhece o racismo como um taforma Zoom, divididos em três cidades: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo problema político e social e que Horizonte. A escolha dessas capitais se justifica por serem os três maiores a sub-representação de pessoas colégios eleitorais do pleito municipal de 2024. Em cada cidade, os grunegras na política é uma pos focais foram divididos da seguinte maneira: um grupo foi formado expressão do racismo. apenas com eleitores que se declaram evangélicos; um segundo grupo teve como recorte etário dos 18 aos 30 anos; e um terceiro grupo também foi recrutado com base em um recorte etário, dos 31 aos 60 anos. Embora sem a pretensão de precisão estatística, a amostra levou em conta a proporcionalidade de gênero e raça. Em todos os grupos, as pessoas entrevistadas eram de bairros diferentes de cada município, buscando garantir diversidade de experiências de vida urbana. Por fim, os nove grupos reproduziram a proporcionalidade da votação para presidente em 2022, com maioria de eleitores de Lula e Bolsonaro e uma presença menor de eleitores que não escolheram nenhum dos dois principais candidatos da eleição presidencial de 2022. Essa opção de trazer a polarização para os grupos nos levou a selecionar os/as participantes a partir de um recorte de renda de 3 a 10 salários-mínimos, faixa em que, de acordo com as pesquisas eleitorais, o eleitorado se distribui de modo mais equilibrado entre Lula e Bolsonaro. Antes dos grupos, a equipe, com formação acadêmica e experiência de pesquisa prévia sobre voto e eleições, realizou uma imersão de alinhamento para o planejamento da pesquisa e para consolidar um padrão metodológico. Durante os grupos, os moderadores, quando julgavam necessário, reformulavam as questões para dialogar com as reações dos/as participantes. As imagens e áudios dos grupos foram captados para análise posterior, com autorização dos entrevistados e garantia de anonimato. Nossas principais conclusões são, primeiro, que boa parte do eleitorado, incluindo lulistas e bolsonaristas, reconhece o racismo como um problema político e social e que a sub-representação de pessoas negras na política é uma expressão do racismo. Segundo, que esse diagnóstico não gera necessariamente uma disposição imediata de apoiar políticas para mitigar a sub-representação e tampouco de votar em candidaturas negras, a partir de um entendiOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 6 mento de que“todos são iguais” e que a raça não é um critério de escolha eleitoral. Terceiro, que a maioria das pessoas, quando confrontadas com os dados sobre a desigualdade e a sub-representação política, se dispõe a apoiar cotas raciais na política; quarto, que a maioria das pessoas, diante dos dados sobre a desigualdade e a sub-representação política, mantém a posição de não aceitar a raça como um critério de voto. O texto que se segue está dividido em três partes. Primeiro, apresentamos a percepção praticamente unânime dos entrevistados sobre o racismo como um problema fundamental da sociedade brasileira; segundo, é preciso compreender melhor quem são as pessoas que estão fazendo esse diagnóstico. Vamos fazer isso de duas formas: a partir de como elas se informam e se politizam para tomar suas decisões eleitorais e desenvolvendo os valores e preferências dos participantes na esfera das ideologias políticas. O objetivo é entender justamente que a percepção sobre o racismo atravessa posicionamentos políticos e ideológicos distintos; terceiro, avançamos para a questão das desigualdades, da sub-representação política e do voto em pessoas negras, quando o comportamento político do eleitorado começa a variar na medida em que são instados a pensar em soluções para os problemas. Finalmente, apresentamos as considerações finais sobre racismo, sub-representação e eleições de 2024, não no sentido de recomendações externas feitas por“especialistas” que analisam “friamente” um problema, mas na condição de pessoas comprometidas com a agenda antirracista que, diante dos dados e de um trabalho minucioso de pesquisa, refletem criticamente sobre as condições e possíveis estratégias políticas e eleitorais para combater o racismo e a sub-representação de pessoas negras na política brasileira. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG ESQUEMA Agenda Antirracista na Política Brasileira AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 7 Introdução Breve: Objetivo: Este estudo analítico explora como o eleitorado brasileiro enxerga a questão racial e suas implicações na escolha do voto e comportamento nas urnas. Segmentação dos Participantes: 1 grupo de eleitores evangélicos. 1 grupo com idade entre 18-30 anos. 1 grupo com idade entre 31-60 anos. Contexto: A pesquisa busca compreender a relação entre raça e voto, considerando que a pauta antirracista ganha destaque em um contexto de intensos debates sobre representatividade e desigualdade racial no Brasil. Objetivo dos Grupos Focais: Investigar percepções sobre racismo e a influência dessas visões no comportamento eleitoral. Formato dos Grupos: 9 grupos focais com 6 pessoas cada. Cidades: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, as maiores capitais eleitorais de 2024. Considerações Proporcionais: Distribuição de gênero, raça, bairros variados e representação proporcional das preferências eleitorais de 2022(Lula e Bolsonaro). Distribuição Ideológica a partir da declaração dos Participantes dos Grupos Focais por Cidade TABELA 1 – ESQUERDA, DIREITA, CENTRO Cidade ESQUERDA CENTROESQUERDA CENTRO Belo Horizonte 6 2 4 Rio de Janeiro 4 1 6 São Paulo 6 6 Total 16 3 16 Fonte: Elaboração própria a partir dos grupos focais. CENTRODIREITA 1 2 3 DIREITA 5 5 4 14 Distribuição Ideológica a partir da declaração dos Participantes dos Grupos Focais por Cidade TABELA 2 – PROGRESSISTA, LIBERAL, CONSERVADOR Cidade PROGRESSISTA LIBERAL CONSERVADOR Belo Horizonte 4 7 3 Rio de Janeiro 4 2 10 São Paulo 0 5 11 Total 8 14 24 Fonte: Elaboração própria a partir dos grupos focais. NÃO SEI 2 2 2 6 DIREITA 5 5 4 14 OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 8 1 Diagnóstico e Consenso Geral Racismo como Problema Estrutural: Exemplos Pessoais e Sociais: Muitos participantes relataram episódios específicos de racismo vividos ou observados em locais de trabalho, instituições religiosas e espaços públicos, reforçando a ideia de que o racismo é uma realidade vivida e sentida cotidianamente. Há menções a experiências de discriminação racial nas redes sociais, no ambiente corporativo e até em igrejas, o que ilustra a presença do racismo em diversas áreas da vida pública e privada. Todos os grupos focais confirmaram o racismo como um problema estrutural no Brasil. Essa percepção não variou significativamente entre diferentes perfis políticos ou sociais, o que reforça o reconhecimento generalizado desse problema na sociedade brasileira. Concordância sobre a Necessidade de uma Educação Antirracista: A maioria dos participantes acredita que a educação antirracista deve ser implementada desde a infância como um caminho fundamental para combater o racismo estrutural. Eles veem na educação uma forma de reduzir preconceitos ao longo do tempo e sensibilizar futuras gerações. 2 Desafios para a Ação Concreta Preferência por “Igualdade Abstrata”: Preferência por Medidas Abstratas: Apesar do diagnóstico apresentado, quando convidados a refletir sobre formas concretas de enfrentar o racismo, surgiram propostas amplas, como o endurecimento das leis contra a discriminação, que são populares. No entanto, muitos eleitores demonstram resistência a práticas específicas, como um suporte maior para melhorar a competitividade das candidaturas negras, por exemplo. Um número expressivo de participantes expressou a ideia de que“todos somos iguais”, o que leva a uma resistência à inclusão da raça como critério de escolha eleitoral ou de promoção de políticas específicas, como cotas raciais. Esse pensamento, associado ao mito da democracia racial, representa um obstáculo para a adoção de medidas concretas e específicas em prol da igualdade racial​. Esse diagnóstico geral Dificuldade em Transformar o Diagnóstico em Prática: Apesar de reconhecerem o racismo como um problema, muitos eleitores mostram relutância em apoiar ações afirmativas direcionadas, como cotas ou incentivos ao voto em candidatos negros. Essa resistência é geralmente justificada pelo argumento de que tais medidas contrariam a“meritocracia” ou pela valorização de competências individuais acima de características raciais. revela um reconhecimento significativo do racismo como um problema estrutural e social, com consenso sobre a necessidade de enfrentá-lo. No entanto, há uma barreira cultural, muitas vezes ancorada em valores de igualdade abstrata e meritocracia, que dificulta a implementação de políticas antirracistas mais específicas, como cotas, por exemplo. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG 3 Mudança de Comportamento a Partir da Apresentação dos Dados A introdução de cotas raciais para cargos políticos é uma das principais propostas discutidas, com o objetivo de aumentar a representatividade de pessoas negras em posições de poder. Como uma política visa corrigir a sub-representação histórica e garantir que a composição do governo e das instituições políticas reflita melhor a diversidade racial do Brasil. AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 9 Receptividade às Cotas: Durante as discussões, observou-se que a receptividade às cotas raciais aumenta quando os participantes têm acesso a informações que demonstram a sub-representação racial na política. O acesso a dados concretos, como estatísticas sobre a baixa presença de pessoas negras em cargos políticos, ajuda a legitimar a ideia de cotas aos olhos do público, convertendo percepções que inicialmente podem ser neutras ou contrárias em apoio moderado. Esse efeito sugere que campanhas educativas e informativas, que mostrem a desigualdade de representação, podem ser uma estratégia eficaz para sensibilizar o eleitorado e aumentar o apoio a políticas de inclusão racial. Resistência Baseada na “Igualdade Abstrata”: Essa resistência está Mesmo com a exposição a dados de sub-representação, alguns entrevistados – normalmente posicionados à extrema-direita – ainda resistem às cotas raciais, argumentando que“somos todos iguais” e que as oportunidades devem ser baseadas exclusivamente no mérito individual, independentemente de raça. Esse argumento é frequentemente associado à noção de “igualdade abstrata”, um conceito que minimiza as especificidades históricas e sociais que afetam grupos marginalizados. profundamente enraizada em ideais de meritocracia e em uma visão de que as cotas podem ser injustas com outras parcelas da população. Em geral, participantes que sustentam essa visão defendem a ideia de que o voto e o acesso a oportunidades devem se basear em competências e qualificações individuais.​ 4 Cenário Atual do Voto em Candidaturas Negras Pelo Recorte da Pesquisa Foco em Propostas e Competência: Percentual de Voto em Candidatos Negros: Aproximadamente 45% dos entrevistados afirmaram já ter votado em candidatos negros, mas essa escolha geralmente não é baseada na raça. Os eleitores, em sua maioria, priorizam características como propostas e ações locais ao decidir em quem votar. Muitos eleitores acreditam que as competências e as plataformas de campanha devem ser os critérios principais para escolha, refletindo uma visão meritocrática que dificulta o uso da raça como fator determinante no voto. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 10 5 Estratégia para Mobilização Conteúdo da Campanha: Para sensibilizar o eleitorado, a campanha deve incluir estatísticas visíveis, como o percentual de pessoas negras ocupando cargos políticos em comparação com a proporção Objetivo da Campanha: da população negra no Brasil. Além disso, pode mostrar exemplos de países que implementaram políticas de cotas raciais e os impactos positivos resultantes em termos de A campanha educativa tem como objetivo representatividade e justiça social. fornecer ao público informações detalhadas sobre a sub-representação racial na política brasileira. A ideia é que a exposição a dados concretos sobre a desigualdade de Estudo de Casos e Exemplos Reais: representação incentive uma reflexão crítica sobre a necessidade de ações afirmativas, como as cotas raciais e o incentivo ao voto em candidatos negros. Além dos dados quantitativos, a campanha pode incluir estudos de caso sobre candidatos negros bem-sucedidos e histórias pessoais que ilustrem os obstáculos enfrentados por pessoas negras na política, destacando os benefícios de uma maior diversidade nos espaços de poder. Narrativa da Justiça Social: A estratégia de mobilização inclui posicionar a Ampliação do Discurso: luta antirracista não apenas como uma questão de representatividade, mas como uma demanda fundamental por justiça e equidade. Ao abordar o racismo como uma injustiça estrutural que afeta todas as áreas da sociedade, a A campanha deve enfatizar que a representatividade negra nas esferas de poder não beneficia apenas as pessoas negras, mas contribui para uma democracia mais inclusiva e equilibrada, que atende às campanha pode atingir uma audiência mais ampla, necessidades de uma população diversa. Este discurso incluindo aqueles que talvez não se identifiquem fortalece a ideia de que as políticas antirracistas são um diretamente com a pauta racial, mas que defendem componente essencial da justiça social e não uma forma uma sociedade mais justa e igualitária. de“benefício” apenas para grupos específicos.​ Engajamento da Sociedade Civil: A campanha de mobilização deve contar com a parceria de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e grupos comunitários que já trabalham com a pauta racial. Estes grupos podem ser aliados importantes para ampliar o alcance da mensagem e promover ações locais de conscientização. Envolvimento de Partidos e Representantes: A mobilização também envolve a participação de partidos políticos comprometidos com a agenda antirracista, para que incluam essas pautas em suas campanhas e plataformas. Esse engajamento direto com o cenário político é crucial para legitimar e impulsionar a agenda antirracista de forma concreta e sustentável.​ Agenda Antirracista na Política Brasileira SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 11 1 O racismo como um problema fundamental da sociedade brasileira A percepção do racismo como um problema fundamental da sociedade brasileira surgiu em todos os nove grupos focais, corroborando os resultados de outras pesquisas sobre o tema. Desde 1995, por exemplo, entre 80% e 90% dos entrevistados pelo Datafolha concordam, ano após ano, que o Brasil é um país racista. Nas três cidades estudadas, em alguns grupos focais, essa percepção foi manifestada antes mesmo de o roteiro introduzir o tema 1 . Percepção sobre o racismo manifestada antes da introdução do tema no roteiro: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, essa questão surgiu nos três grupos focais quando os participantes foram confrontados com uma pergunta sobre a necessidade de o Estado regular as redes sociais. O objetivo dessa questão é medir a tensão entre a liberdade de expressão e o combate às fake news e aos discursos de ódio em geral, incluindo manifestações racistas, misóginas, LGBTQIA+fóbicas, entre outras. Tem que regular, porque, meu Deus do céu, tem coisas que você fala com a pessoa que são piores que um tapa. A pessoa fica depressiva, julga a pessoa, preconceito racial, vários tipos de preconceito. Vai falar palavras, palavrões, palavras de preconceito? Tá sendo banido, né? Eu acho que deveria ser mais controlado. – Evangélico, preto, coordenador de almoxarifado, petista, de esquerda, 22 anos. Eu gosto muito de futebol, né? Igual no jogo do Inter contra o Fluminense. O Enner Valencia, que é um atacante, errou muitos gols e sofreu muitos ataques racistas nas redes sociais. Nesse ponto, o Estado tem que frear muito e ainda punir nitidamente, porque a gente já tá no século XXI e existe racismo até hoje. Mas eu acho que a gente tem o 1 Para saber mais, acesse: https://opopular.com.br/cidades/81-veem-racismo-no-brasil-mas-so-34-admitem-preconceito-contra-negros-1.2153496 OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 12 direito de expressão, de falar o que a gente quer, desde que esteja num padrão, né? Que não ofenda outra pessoa, não cometa atos racistas ou homofóbicos, essas coisas. – Católico, branco, auxiliar de frota, gosta de Lula, mas não se diz petista, de esquerda, 29 anos. Eu acho que, em partes, a pessoa é livre para falar o que ela quer, mas tem vezes que certas coisas que a pessoa fala acabam prejudicando a vida das pessoas, seja por questões preconceituosas, racistas, homofóbicas. Às vezes, a pessoa está ali postando sobre seu trabalho, sua vida pessoal, social, e aí você vai lá e fala uma mensagem racista ou homofóbica? Os meios de comunicação – Twitter, Instagram – tinham que ter alguma ferramenta para pesquisar e identificar essas pessoas. E o Estado... não penso em intervir demais, porque cada um tem uma liberdade de expressão, mas até que limite vai essa expressão? Ela chega ao limite de prejudicar e difamar uma pessoa ou se torna falas racistas, homofóbicas, preconceituosas? Eu acho que tudo tem um limite. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Percepção sobre o racismo antes de a pergunta aparecer no roteiro: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, a questão do racismo apareceu em apenas um grupo focal, durante a pergunta sobre o que leva as pessoas a votar para deputado federal ou vereador. Eu gosto muito de votar no PSOL, em candidata mulher, dar essa voz pras minorias, principalmente se for LGBT, negra. Mesmo que não seja um grupo do qual eu faça parte, eu gosto muito de poder dar essa voz. – Católica, branca, estudante, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 24 anos. Nunca vou pelo partido; vou mais pelos interesses mesmo, de um todo e das minorias. – Sem religião, branca, representante comercial, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 25 anos. Percepção sobre o racismo antes da pergunta aparecer no roteiro: São Paulo Em São Paulo, apenas um grupo focal trouxe espontaneamente a questão do racismo, durante uma conversa sobre as preferências do grupo entre igualdade e liberdade. Esse momento tinha como objetivo mapear as ideologias políticas dos(as) participantes. Às vezes, chega em alguns lugares e tem racismo(...) então, é muita coisa que eu acho que tem que ter uma igualdade. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula, mas não se diz petista; gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; centro, 44 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 13 Apesar de surgir espontaneamente em diferentes momentos, é na pergunta sobre se a raça deve ser um tema debatido na política que o consenso se firma: 100% dos entrevistados afirmam que sim, que é muito importante. Nessa questão, não há distinção de gênero, raça, faixa etária, renda, posicionamento político ou religião. As diferenças surgem principalmente na forma como os participantes expressam essa importância. De um lado, alguns utilizam diretamente o termo“racismo” para destacar a relevância da questão racial na política. De outro, há aqueles que preferem termos alternativos, como“preconceito” ou“questão racial”, e até expressões mais genéricas para abordar o tema. Uso da palavra racismo: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, a palavra“racismo” surgiu em todos os grupos focais, sem distinção de faixa etária ou religião. Sou contra o racismo, e tem que bater de frente; tem que haver punição mesmo. – Evangélico, branco, motorista de app, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, de direita, 52 anos. Sim, tem que ser falado. Eu já presenciei muitos ataques racistas. Não, não sou a favor disso. Acho feio e acho que precisa falar mesmo sobre isso nas escolas e fazer algo que possa melhorar essa situação. – Cristã, branca, estagiária, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Sim, tem que ser falado, tem que ser discutido. Eles têm que focar muito nisso, porque o preconceito e o racismo já vêm historicamente de muito tempo atrás. Então, eu acho que deve ser uma luta que não deve parar nunca; sempre bater nessa tecla. – Católico, branco, representante comercial, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro, 41 anos. Uso da palavra racismo: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, a palavra“racismo” foi mencionada em dois grupos focais, ambos com recorte etário, mas não apareceu no grupo composto por pessoas evangélicas. Não é o meu lugar de fala, eu sou branco, mas, enfim, tenho amigos que são negros. Então, acho que deve, sim, ser discutido sobre o racismo. Existe, sim, racismo, e eu acho que as escolas e faculdades devem, sim, falar sobre isso. – Evangélico, branco, administrador de empresas, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, de direita, 26 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 14 Sim. Deveria ser discutido na política como uma forma de conscientizar as pessoas e de diminuir os casos de racismo que acontecem. – Umbandista, branca, estudante, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro-esquerda, 18 anos. Tem que ser falado, isso está escrito no artigo quinto: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. A prática de racismo constitui crime inafiançável, imprescritível, sujeito à pena de reclusão dentro da lei. – Evangélico, preto, separador, bolsonarista, de direita, 40 anos. É muito importante. O racismo, de todas as formas – todo preconceito, racismo –, isso tudo tem que ser banido. – Católica, branca, suporte a clientes, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, de direita, 48 anos. Uso da palavra racismo: São Paulo Em São Paulo, assim como em Belo Horizonte, a palavra“racismo” foi mencionada em três grupos focais. Não chega nem a ser como se a pessoa não esteja preparada. As pessoas são muito preparadas, mas, por falta de oportunidades, até por conta do racismo, também acabam sendo barradas. – Evangélica, branca, do lar, petista, centro-esquerda, 38 anos. Acho que deve ser discutido, sim, bastante. Inclusive, deveria ser tão discutido a ponto de ter uma pena ainda maior para os racistas, para ver se há alguma mudança. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Sim, acredito que tenha que ter essa discussão, por ser um país muito racista. – Católica, branca, auxiliar de enfermagem, petista, de esquerda, 26 anos. Eu sou a favor de um debate, sim, sobre racismo. – Católico, branco, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro, 41 anos. Sou a favor da discussão, não só na política. Eu acho que, nas escolas e em todos os lugares, deveria se falar sobre a questão racial, deveria se ensinar sobre isso. E eu acho que só com conhecimento é que a gente pode, de fato, compreender o que é o racismo vivido diariamente e o que acontece. – Umbandista, branca, encarregada, petista, de esquerda, 51 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 15 Uso de outros termos: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, mais uma vez, observamos que os três grupos focais utilizaram termos mais amenos do que“racismo”. Esse negócio de preconceito, de cor, essas coisas... todo mundo é igual. Não tem muito o que falar; esse negócio de cor não tem nada a ver, a gente tem que respeitar. – Evangélico, pardo, motorista de caminhão, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 44 anos. Eu acho que a questão racial, não só com os negros, mas principalmente com os índios, outro povo que foi extremamente massacrado e tratado como indigente, tem que ser muito debatida dentro da política, porque eles merecem, sim, o seu espaço. – Ateu, preto, barman, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Eu acho que todo o problema que acontece hoje na sociedade acontece muito, inclusive até com famosos. Enfim, a gente sempre está vendo isso. Então, tem que ser discutido, com certeza. Esse é um assunto que já deveria ter sido radicalizado; tem que ser discutido desde o primário na escola. – Católica, branca, modelo, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, centro-direita, 21 anos. Tem que ser discutido, tem que ser levantada, inclusive, bandeira, porque não tem que haver essa distinção. – Espírita, indígena, representante comercial, bolsonarista, de direita, 55 anos. Uso de outros termos: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, também observamos que, nos três grupos focais realizados, foram mobilizados termos mais amenos do que“racismo”. Sim, deve ser discutido. Tem muita gente que não tem a igualdade, não tem a oportunidade. – Evangélica, preta, assistente administrativa, gosta de Lula, mas não se diz petista; gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; de centro, 24 anos. Sim, porque é uma questão muito importante. Cada vez mais vem ganhando visibilidade. Porém, ainda tem muito preconceito rolando em todas as áreas do cotidiano. – Sem religião, branca, representante comercial, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro; de centro, 25 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 16 Com certeza, deve ser debatido na política e trazido ao assunto, levado à pauta. É uma vivência que precisa de voz. Precisa ser falado, precisa ser discutido e precisa ser mitigado. Precisa que não exista mais, porque não faz sentido. – Católica, branca, estudante, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro; de centro-esquerda, 24 anos. Tem que discutir. A gente vê muito pouca representatividade de algumas raças. A gente está tentando agora avançar.” – Espírita, branca, arquiteta, gosta de Lula, mas não se diz petista; detesta Bolsonaro; de esquerda, 57 anos. Uso de outros termos: São Paulo Por fim, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, os participantes optaram por utilizar termos mais brandos do que“racismo” nos três grupos focais realizados. Infelizmente, isso tem que ser discutido. – Evangélica, branca, manicure, bolsonarista, de direita, 28 anos. Sim, até para o desenvolvimento de leis mais severas. – Evangélica, branca, do lar, petista, de centro-esquerda, 38 anos. Acho que tudo tem que ser discutido, porque a gente vive em sociedade e nunca vai ter só a nossa opinião. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, de direita, 30 anos. Acredito que deve ser discutido, sim, com certeza, ainda mais no país em que a gente vive. Como foi falado, é muito miscigenado, então realmente é muito importante. – Evangélico, branco, comerciante, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro-esquerda, 28 anos. Sou a favor, sim. Acho que tem que ter esses debates, porque debatendo acho que é melhor para todo mundo. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula, mas não se diz petista; gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; de centro, 44 anos. Essa diferença não é meramente formal; ela revela uma adesão mais ou menos consistente ao entendimento de que o racismo é um problema fundamental da sociedade brasileira. As entrevistadas e os entrevistados que utilizam o termo“racismo” apresentam uma fala mais afirmativa sobre a questão racial e os conflitos sociais decorrentes dessa desigualdade. Seus relatos trazem à tona experiências pessoais, além de aspectos históricos e estruturais da discriminação racial resultante da escravização de pessoas negras no Brasil, ressaltando, ainda, a permanência das práticas racistas no cotidiano. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 17 Racismo estrutural e racismo no cotidiano: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, as experiências cotidianas de violência racista, assim como seus aspectos históricos e estruturais, foram mencionadas nos três grupos focais. Sou negro e já sofri racismo. Dói, mas sigo em frente. – Evangélico, preto, coordenador de almoxarifado, petista, de esquerda, 22 anos. Já vivi situações de racismo. A gente não nasce racista; a gente vira, se torna. – Evangélica, preta, auxiliar de arquivo, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 37 anos. É algo a ser debatido por várias gerações. Fomos jogados na marginalidade; deram um pedaço de terra para os europeus, que vieram principalmente para o sul. Hoje, seus descendentes são donos de fazendas e dominam o agro no Brasil. – Ateu, preto, barman, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. O preconceito e o racismo historicamente vêm de muito tempo atrás. Então, eu acho que deve ser uma luta que não deve parar nunca; sempre bater nessa tecla. – Católico, branco, representante comercial, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro, 41 anos. Mais novo, eu era até contra a cota para negros em universidade. Aí minha esposa e o pessoal foram me orientando; fui aprofundando o assunto, e aí você entende que dar uma cota para o negro não é porque ele é burro ou porque não consegue entrar em uma faculdade boa, mas devido ao que aconteceu há muitos anos. – Evangélico, preto, vendedor de perecíveis, não gosta nem detesta o PT e Bolsonaro; de esquerda, 38 anos. Racismo estrutural e racismo no cotidiano: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, os três grupos focais destacaram-se pelas vivências diárias de violência racista e pela discussão de seus aspectos históricos e estruturais. O racismo é real, é vivo, acontece todos os dias. Eu acho que não apenas tem que ser falado, como tem que haver medidas e ações que procurem mitigar o racismo em todas as esferas da sociedade. – Cristão, preto, mestrando, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro; de centro-direita, 28 anos. Aqui no Rio de Janeiro, a gente vê muita herança disso, por ter sido capital do Império. Aqui no Rio de Janeiro, acho que o racisOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 18 mo impera muito. Acho que negar isso é negar o óbvio, né? – Católico, branco, consultor hospitalar, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; detesta o PT; de direita, 29 anos. A pessoa viu o meu currículo, mas estava sem foto. Ela perguntou qual era a minha cor. Eu falei: eu sou negro. Aí perguntou também a minha altura. Aí eu falei:“Pô, tenho 1,83 m”.“Ah não, não, tem que ser mais alto e tem que ser de outra cor”. – Evangélico, preto, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro-esquerda, 48 anos. Racismo estrutural e racismo no cotidiano: São Paulo Em São Paulo, dois grupos focais registraram relatos sobre experiências cotidianas de violência racista, abordando também os aspectos históricos e estruturais do racismo. Nós somos um país com mais miscigenação, mas também somos um país mais racista e xenofóbico, ou um dos mais. – Sem religião, parda, assistente administrativa, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro, 28 anos. Basta você vir aqui no Heliópolis e ver como é que a polícia age. Ela entra na favela e aborda as pessoas, mas é diferente do que faz em uma avenida como a Ibirapuera. Basta ver. Basta vir aqui e ver. Mas tem que passar uns dias para saber como funciona realmente. – Umbandista, branca, encarregada, petista, de esquerda, 51 anos. Os participantes dos grupos focais que evitam o uso da palavra“racismo”, substituindo-a por termos mais“leves”, revelam uma visão influenciada pela hegemonia de uma igualdade abstrata, amplamente sustentada pelo mito da democracia racial. Miscigenação e igualdade abstrata: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, nos três grupos focais, emergiu o discurso da miscigenação e da igualdade abstrata como contraponto ao preconceito racial. Todo mundo veio de origens negras, de origens indígenas. Nós todos somos mistura de raças e, para Deus, não existe branco e preto. O que importa é a alma; todos vamos morrer. O importante é passar a nossa alma na eternidade. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 19 Infelizmente, hoje a gente ainda tem que falar sobre isso, mesmo estando num país super miscigenado, né? Porque aqui não é 100% branco, 100% preto, 100% índio; todo mundo é misturado e, mesmo assim, a gente ainda vê que existem muitos ataques em relação à cor e etc. – Sem religião, branca, desempregada, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 27 anos. Somos todos iguais. Eu acho que é importante discutir isso em todos os aspectos da sociedade. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; de direita, 42 anos. Miscigenação e igualdade abstrata: Rio de Janeiro O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, onde os três grupos focais foram marcados pela presença do discurso da miscigenação e da ideia de uma igualdade abstrata. No caso da cota, seja para negro, para indígena, é uma forma de fazer com que aquela pessoa ali, que tem muito pouco, consiga alcançar algo melhor. – Evangélica, preta, assistente administrativa, gosta de Lula, mas não se diz petista; gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; de centro, 24 anos. Acho que é importante, mas não necessariamente para trazer a importância da pessoa negra e tal, mas sim para mostrar que, na verdade, todos são iguais. Na verdade, isso nem deveria ser algo que precisasse existir, sabe? A gente comparar as pessoas por meio de tom de pele... eu acho isso completamente absurdo. – Evangélica, preta, analista financeira, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro-esquerda, 28 anos. Essa questão é fundamental. Só que tinha que acabar com essa questão de cota, porque, quando você olha para um lado, pensa: “nossa, muito bom e tal”, só que já começa como um coitado. Você olha para um lado e pensa:“ah, tem a cota lá, já tem minha vaga garantida e tal”. Só que o tempo todo você tem que lutar para fazer a diferença, porque você é sempre visto por um programa, por um benefício. Então, essa questão tem que ser igualitária; tem que acabar com isso. Eu acho que tem que ter igualdade. – Católico, preto, motorista de app, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; de direita, 40 anos. Miscigenação e igualdade abstrata: São Paulo Em São Paulo, observou-se o mesmo padrão das outras duas cidades, com participantes dos três grupos focais trazendo à tona discursos sobre miscigenação e uma ideia de igualdade abstrata. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 20 Sim, tudo é política. As pessoas se incomodam que tudo leva para a política. Mas tudo é. Falou de pessoas, convivência, direitos, o que for, a política está no meio. – Evangélico, branco, professor, bolsonarista, de centro, 27 anos. Sempre vai ter um lado que apoia, o lado que não apoia, o lado que gosta, o que não gosta, e isso sempre vai existir. É por isso que eu acho que tudo tem que ser debatido. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, de direita, 30 anos. Eu também acho importante a discussão racial. E não se vitimizar também. Porque, aí, se alguém roubou, é porque é negro? Não, é porque é ladrão, certo? É tipo assim, hoje em dia, está muito assim. – Católico, branco, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista; de centro, 41 anos. Essas diferenças repercutirão nas próximas seções do texto. Antes disso, é fundamental destacar como os evangélicos percebem a importância de abordar a questão racial em seus contextos religiosos. Nos três grupos focais com participantes evangélicos, foi praticamente unânime a defesa de que, sim, o racismo deve ser discutido nas igrejas. Racismo e religião: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, os relatos das pessoas abordaram de forma mais geral a necessidade de discutir o racismo, enfatizando a importância de tratar o tema a partir de valores como o amor ao próximo e de reflexões baseadas na leitura bíblica. Tem que ser falado na igreja também, até porque o objetivo na igreja é a gente trazer conhecimento, né? – Evangélica, preta, auxiliar de arquivo, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 37 anos. A gente sempre conversa; sempre os pastores orientam as pessoas a amarem o próximo. Deus fez a diversidade, né? Cada um é de um jeito, cada um tem a sua aparência, e foi do jeito que Deus quis que a pessoa fosse. Sempre somos orientados a não ter racismo, a respeitar as pessoas, a amar. A gente sempre conversa sobre isso, que é algo que Deus não aprova: o racismo. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. Dentro das igrejas, principalmente a que eu frequento, já existe um movimento para falar sobre isso, de amar ao próximo. A gente tem falado muito sobre o respeito ao próximo, que Deus ama o pecador, mas não ama o pecado, e também sobre a questão de julgar, seja pela SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 21 orientação sexual ou pela cor. Tem que ser falado dentro da igreja, sim. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula mas não se diz petista; de centro-esquerda, 29 anos. Racismo e religião: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, a situação apresentou-se de maneira distinta, com os participantes reconhecendo que a questão racial ainda é pouco abordada nas discussões dentro de suas igrejas. Tem um pouco de preconceito, às vezes até mesmo na igreja. Se você tem um carro ali, você tem um carro; a outra pessoa não tem. Você dá oportunidade àquela que tem carro, e aquela que não tem, você rebaixa. Você é rebaixado. Isso é preconceito. A mesma coisa:“Ah, o cabelo da fulana é assim”,“ ah, ela é estranha”,“ ah, ela não pode fazer essa peça, aquela ali pode”. Isso é preconceito. Eu acho isso preconceito. Ridículo. – Evangélica, branca, vendedora de doces, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 54 anos. É negligenciado um pouco esse assunto dentro da religião. Não se fala muito. – Evangélico, branco, policial militar, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Não é pregado e discutido muito, é negligenciado. Mas em todo lugar tem essa panelinha; é chato, mas realmente existe. – Evangélica, branca, analista de RH, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; centro-direita, 40 anos. Racismo e religião: São Paulo Em São Paulo, a maioria dos participantes relatou que, de fato, há discussões sobre racismo nas igrejas. Não tanto na pregação, mas mais nas reuniões, como eu falei, quando a gente se senta para falar sobre assuntos do cotidiano, sobre o que a gente vê ou não vê na política. Sobre o racismo em si, discutimos o que pensamos, o que achamos e como ele é tratado até mesmo dentro da igreja. Porque o pessoal acha que não, mas dentro da igreja há discriminação, há preconceitos. – Evangélico, pardo, auxiliar administrativo, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista; direita, 28 anos. A gente fala muito em reunião, normalmente na quinta-feira, né? Hoje não tem, mas quinta-feira vai ter. É um assunto que sempre surge, sempre cai esse assunto, porque, infelizmente, como o amigo faOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 22 lou, dentro da nossa igreja acontece muito preconceito, entendeu? Até mesmo, e não digo só em relação à cor, mas também à vestimenta, sabe? – Evangélica, preta, revendedora de joias e lingeries, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro; de esquerda, 47 anos. Geralmente o racismo é relacionado a versículos bíblicos, onde todos somos iguais, onde Jesus não faz distinção de raça, cor ou gênero. É mais dentro desse contexto, na hora da explicação do evangelho. – Evangélica, branca, do lar, petista; centro-esquerda, 38 anos. No caso dos evangélicos, as diferenças entre as cidades refletem culturas religiosas distintas, uma vez que o pertencimento religioso é influenciado por diversas outras dimensões; entre elas, a cultura política local exerce um papel significativo. Contudo, este não é o espaço para explorarmos essa questão em profundidade. Passamos, então, ao próximo tópico: politização, polarização e ideologias políticas. Politização, polarização e Ideologias políticas Na seção anterior, mostramos como o racismo, reconhecido como um problema da sociedade brasileira, está presente em todos os grupos focais, independentemente da cidade, raça, gênero, pertencimento religioso ou renda. Além disso, o tema transcende a polarização nas eleições presidenciais entre Lula e Bolsonaro. Tanto eleitores do atual presidente quanto do ex-presidente, quando questionados sobre raça e política, concordam quanto à existência e influência do racismo em diferentes contextos, ainda que utilizem termos e interpretações distintas sobre o assunto. Nesta segunda seção, nosso objetivo é mostrar as preferências e comportamentos políticos daqueles que afirmaram que o racismo é um problema da sociedade brasileira. Nesta segunda seção, nosso objetivo é mostrar as preferências e comportamentos políticos daqueles que afirmaram que o racismo é um problema da sociedade brasileira. Com isso, buscamos esboçar o que pensam esses entrevistados antes de avançar para uma análise mais aprofundada de suas escolhas e valores em relação a medidas para combater a sub-representação política e à disposição de votar em candidatos negros. Abordaremos essas questões explorando as respostas sobre politização e polarização. Mostraremos que há uma politização elevada do eleitorado em razão da recente polarização entre Lula e Bolsonaro; também analisaremos as ideologias políticas, considerando as categorias de esquerda, direita, centro, progressismo, liberalismo e conservadorismo. Começamos pela questão da politização e polarização. Todos os participantes se lembram em quem votaram para presidente em 2022 e 2018, e para prefeito em 2020. Contudo, quando SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 23 questionados sobre o voto para deputado federal e vereador nesses mesmos pleitos, a maioria absoluta não se recorda. Esse dado inicial corrobora um entendimento já consolidado na literatura acadêmica de ciência política e em outras pesquisas, que apontam para a memória consolidada do voto majoritário e a memória mais frágil em relação ao voto proporcional. Para explorar essa dimensão, perguntamos como se informam sobre política, se discutem o tema no cotidiano e se presenciaram ou se envolveram em discussões políticas recentemente. O padrão das respostas varia pouco de cidade para cidade, com algumas diferenças que serão ilustradas pelos depoimentos dos participantes. De modo geral, ao serem questionados sobre se falam de política e se acompanham informações sobre os políticos, uma parte afirma gostar muito de conversar sobre política no cotidiano, enO modo de se quanto outros expressam desinteresse pelo tema, alguns devido aos coninformar também é flitos que ele gera. No entanto, é quase unânime que, especialmente bastante semelhante entre os próximo às eleições, muitos se dedicam a pesquisar sobre partidos, canparticipantes: todos destacam uma didatos e propostas. Vários participantes mencionaram que essa dinâbusca ativa por informações nas mica se intensificou com a polarização política entre esquerda e direita, redes sociais, complementada pelo entre Lula e Bolsonaro. consumo de conteúdo na mídia tradicional, especialmente O modo de se informar também é bastante semelhante entre os partitelevisão. cipantes: todos destacam uma busca ativa por informações nas redes sociais, complementada pelo consumo de conteúdo na mídia tradicional, especialmente televisão. Além disso, ressaltam a importância das trocas interpessoais com familiares e amigos. Polarização e politização: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, os três grupos relataram uma politização recente, impulsionada pela crescente polarização política. Vou ser bem sincera, anteriormente eu não me informava muito, não. Mas, de uns tempos para cá, eu comecei a me informar mais, pois as coisas já não estavam andando de uma forma muito legal. Nas últimas eleições, fiz uma pesquisa melhor, de uma pessoa diferente, nova; a reforma política precisa acontecer. Nessas duas últimas eleições, eu pensei muito antes de votar e pesquisei bastante. – Evangélica, preta, auxiliar de arquivo, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 37 anos. Principalmente nessa última eleição, que foi muito polarizada, eu busco sempre esse mix de informações: Bandeirantes, Record, Globo e também pesquiso um pouco na internet pra ver se bate, porque hoje em dia é bem difícil não pegar uma informação e puxar para algum lado tendencioso. A internet ajuda bastante, mas não é bom ficar só nela; busco o máximo de informações possíveis, tanto na TV como em rádios OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 24 também, tipo a CBN, que é uma rádio muito boa. Eu me informei bastante por esses meios. – Ateu, preto, barman, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Então, amar, amar eu não amo, não. É um assunto, assim, que tem que estar em pauta; é importante até para os nossos filhos, para essa consciência política deles. Mas, assim, é um assunto que ficou desgastado, virou rivalidade, virou briga. É feio, é feio isso. Então, os meios de comunicação por onde me atualizo… jornal, mas não mídia televisiva, não. Jornal escrito mesmo, blog dos próprios políticos, sites em geral, sites sobre política mesmo, desses comentaristas políticos, algum comentarista que fala sobre política. O Twitter mesmo eu acho que é um caminho interessante pra gente receber as notícias ali, em tempo real. Ali tem muita rivalidade? Tem, mas você consegue pegar, às vezes, alguns comentaristas que são mais imparciais e dá pra gente escutar. Lembrei de um jornalista: Alexandre Garcia. – Espírita, indígena, representante comercial, bolsonarista, de direita, 55 anos. Politização e politização: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, o sentimento de politização decorrente da polarização também se manifestou nos três grupos focais. Acho que a polarização do país está fazendo as pessoas também despertarem mais para esse sentido, pra saber o que é direita, o que é esquerda. Os mais jovens agora veem os mais velhos falando; está tão presente hoje em dia no nosso cenário. E também a formação de opinião, né? Hoje em dia, o político é um formador de opinião. Hoje em dia, o político está no YouTube, o político é um artista, né? Então, as pessoas começaram a se interessar mais nessa procura por uma personalidade para seguir, né? Elas acabam se interessando mais. – Evangélico, branco, policial militar, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Eu comecei a me interessar quando descobri que tudo o que a mídia tradicional pregava era uma mentira. Aí eu fui buscar a verdade. Eu não assisto TV aberta. Hoje, eu só pesquiso notícias pela internet e a Jovem Pan. Mas eu acompanho as sessões da Alerj, tô sempre vendo os vídeos do YouTube, essas coisas. – Católico, branco, consultor hospitalar, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, detesta o PT, direita, 29 anos. Eu discuto muito em casa com minha irmã; moramos só nós duas. Ela é professora, e me traz muita coisa, até do meio dela. E com amigos também. Algo de mídia, de televisão, algo de internet, mas semSUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 25 pre buscando se a fonte é confiável. WhatsApp hoje em dia é muito complicado, tem muita fake news e, mesmo que venha alguma coisa, eu vou buscar para ver se aquilo é confiável, se não é fake news. A gente está numa fase muito complicada em relação a isso. – Espírita, branca, arquiteta, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de esquerda, 57 anos. Politização e informação: São Paulo A mesma tendência foi observada em São Paulo, onde os três grupos relataram uma sensação de intensificação da politização em meio à polarização política. Geralmente, Google, geralmente na eleição, aí ferve aquelas conversas, até mesmo no WhatsApp. Então, eu utilizo mais a rede social e, no caso, o WhatsApp, um Facebook. Eu gosto de entrar naqueles comentários, geralmente pela imagem do Bolsonaro, página do Lula. Aí eu gosto de adentrar nos comentários porque tem mais, e você tem mais variedades de informação, né? E aí, dependendo da informação que eu vejo que realmente... aí eu vou no Google pra dar uma olhada se realmente é aquilo. – Evangélico, preto, segurança, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, centro, 45 anos. Eu comecei a falar desde a última eleição. Mesmo sendo conservador, sou homossexual. Mas sou conservador, então tenho muitos colegas que pensam diferente de mim. Esse é o principal motivo. Sempre com amigos que pensam diferente de mim, tento mostrar de uma forma diferente, mostrar o que eu penso para ver se a outra pessoa não dá uma virada de chave. Pelo fato de ser conservador, homossexual, enfim, ter amigos e tudo mais, estar nesse meio é meio complicado. Às vezes, tem muito julgamento, enfim, e aí tem essa conversa. Gosto bastante de política. Não entendo muita coisa, mas gosto. Acho interessante. Acho que já tem um déficit muito grande na população; a população deveria estudar mais, entender mais o porquê disso, o porquê daquilo. Porque, às vezes, veem uma notícia na televisão e, muitas vezes, a pessoa fica“tá, e daí?” e às vezes critica sem saber o que está acontecendo. Tá passando na televisão informação, mas, muitas vezes, a pessoa não tem interesse. A pessoa não sabe do que está falando e, mesmo assim, dá a opinião dela, mesmo sem saber o que está falando. Então, acho que é por isso que, nos últimos tempos, eu tenho falado mais de política. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, direita, 30 anos. Eu entro nos debates bons com a família, grupo de família. Então a gente debate, é gostoso. A política ultimamente mudou. Ela tá mais vista, né? O pessoal tá mais debatendo. Antigamente, não queria saber. Hoje em dia, mudou. Eu gosto de falar de política. Aí a gente vê grupo de amigos, OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 26 aí um Zé fanático, tipo time, tá que nem futebol. – Católico, branco, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro, 41 anos. Paralelamente a essa percepção sobre a politização, praticamente todos os participantes identificam que a polarização possui um aspecto negativo: a ocorrência de brigas e discussões. Ao mesmo tempo, observa-se um interessante processo de reflexão sobre extremismo, cultura do diálogo e o perigo das fake news e dos discursos de ódio. Polarização e conflitos políticos: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, a percepção sobre a recente polarização e o aumento dos conflitos relacionados à política foi uma constante entre os três grupos focais. Principalmente na última eleição, nossos grupos de família estavam muito divididos: metade de direita e metade de esquerda. Começou a ficar um clima chato no grupo de amigos, muita gente saiu, estava dando muita contenda. Agora eu procuro conversar com meu marido, minhas irmãs; com o restante da família, estou evitando. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. Pra mim, foi mais tensa a primeira eleição entre o Bolsonaro e, eu acho, o Haddad, do que essa última. Eu nunca fui assim, mas, na época, eu estava tão bitolada que cheguei a discutir com a minha família. Aí eu percebi que não valia a pena. Se você já tem uma opinião formada e a outra pessoa também, não vai haver uma troca, ninguém vai estar aberto a aprender, e vai ser só uma briga. Quando foi a última eleição, eu estava muito mais tranquila; consegui conversar com as pessoas sem me ferir ou atacar. – Sem religião, branca, desempregada, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 27 anos. Costumo conversar mais com meu marido, porque o grupo da família já deu muita confusão. Tem muita gente com pensamentos diversos e, assim, acaba que fica difícil até de conviver. Aí a gente entrou num consenso de não conversar mais sobre política no grupo da família, porque deu briga mesmo. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 42 anos. Polarização e conflitos políticos: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, apenas o grupo focal composto por pessoas entre 18 e 30 anos não percebeu uma recente intensificação da polarização e do aumento de conflitos políticos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 27 Não tem muito tempo. Então, é mais pessoal do trabalho mesmo e em casa. Sei que é uma divergência de opinião totalmente diferente, porque às vezes eu fico no meio, tipo“ ah, desse lado aqui tem coisa boa, mas também tem muita coisa que eu não concordo, e desse lado aqui também é a mesma coisa.” – Evangélica, preta, assistente administrativa, gosta de Lula mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, centro, 24 anos. Acompanho nas redes sociais, grupo no WhatsApp, converso com amigos; a gente faz esse acompanhamento aí para ver a proposta de cada candidato e o que cada um se propõe a fazer, para ver se é benefício não só para mim, mas para o meu bairro. – Evangélico, preto, porteiro, gosta de Lula mas não se diz petista, centro-esquerda, 48 anos. Polarização e conflitos políticos: São Paulo Em São Paulo, assim como em Belo Horizonte, observou-se um padrão semelhante: os três grupos focais expressaram um sentimento de intensificação dos conflitos políticos e uma percepção crescente da polarização recente. Tanto falam na igreja quanto na vizinhança. Esse negócio dos vizinhos, esquerda e direita... sempre tem esse assunto, não tem como fugir. Diariamente, vêm dizer o quanto é verdade; tanto têm esquerda como de direita. – Evangélica, preta, revendedora de jóias e lingeries, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 47 anos. Hoje em dia, virou uma guerra de ego mesmo, e foram separados dois grupos: quem é Lula e quem é Bolsonaro. Antigamente, pelo menos eu nunca ouvi falar nessa briga tão grande assim. Mas hoje em dia, acho que isso está bem mais forte. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Eu converso mais sobre política com família e amigos. Geralmente, eu procuro alguém que é do mesmo partido ou que vá votar na mesma pessoa para evitar esse contratempo, porque algumas pessoas não querem mais sair, ficam bravas, às vezes até querem brigar. Então, eu evito bastante; faço de acordo com quem vai votar na mesma pessoa, no mesmo partido, algo assim. – Católico, pardo, pedreiro, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro, 37 anos. Após identificarmos essa autopercepção das pessoas sobre seu comportamento político, passamos ao mapeamento das ideologias políticas. Foram apresentadas aos participantes duas perguntas gerais: a primeira abordava o posicionamento entre esquerda, direita ou centro, e a segunda questionava se se identificavam como progressistas, liberais ou conservadores. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 28 No primeiro critério(esquerda, direita e centro), apenas uma pessoa declarou não saber se posicionar. Já no segundo critério(progressista, liberal ou conservador), seis pessoas afirmaram não conseguir se definir em uma dessas três categorias. Esse resultado sugere que a distinção entre esquerda, direita e centro é mais compreendida pelo eleitorado do que a divisão entre progressista, liberal e conservador. Além disso, há um certo equilíbrio nas identificações como esquerda, direita e centro, conforme apresentado na Tabela 1, com um leve predomínio da identidade de esquerda e centro-esquerda. Em contraste, observa-se um desequilíbrio significativo nas autodeclarações como progressista, liberal e conservador, conforme mostrado na Tabela 2, onde se destaca um predomínio acentuado de pessoas que se identificam como conservadoras, em comparação com as que se declaram liberais ou progressistas. TABELA 1 – ESQUERDA, DIREITA, CENTRO Cidade ESQUERDA CENTROESQUERDA Belo Horizonte 6 2 Rio de Janeiro 4 1 São Paulo 6 Total 16 3 Fonte: Elaboração própria a partir dos grupos focais. CENTRO 4 6 6 16 CENTRODIREITA 1 2 3 DIREITA 5 5 4 14 TABELA 2 – PROGRESSISTA, LIBERAL, CONSERVADOR Cidade PROGRESSISTA LIBERAL CONSERVADOR Belo Horizonte 4 7 3 Rio de Janeiro 4 2 10 São Paulo 0 5 11 Total 8 14 24 Fonte: Elaboração própria a partir dos grupos focais. NÃO SEI 2 2 2 6 DIREITA 5 5 4 14 O entendimento mais nítido dos participantes está relacionado à identificação com os espectros de esquerda, direita e centro. As falas registram uma compreensão que facilita a vinculação dos indivíduos com esses posicionamentos políticos. No caso dos que se declaram de esquerda, o padrão inclui a defesa de pautas sociais, da igualdade, do papel do Estado e das melhorias concretas associadas a governos de esquerda. Esquerda: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, os elementos típicos da esquerda se manifestaram nos três grupos; no entanto, no grupo de 18 a 30 anos, ninguém especificou em detalhes os aspectos com os quais concordam em relação à esquerda. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 29 Sou da esquerda, sou a favor da vida, contra o preconceito, contra a homofobia. Eu acho que, antes da religião, antes da política, tem o amor de Deus; então, não cabe a nós julgar as escolhas das outras pessoas, cabe a nós respeitar e aceitar. Eu acho que o templo é diferente de religião. A gente tem que amar o próximo, que é assim que a Bíblia fala, né, amar o próximo como a nós mesmos. Então, a partir do momento que você julga, critica e faz tantas outras coisas, é bom a gente repensar nesse espaço. Sou esquerda. – Evangélica, preta, auxiliar de arquivo, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 37 anos. Esquerda, mas, assim, nada de mais. Não que eu vista a camisa da esquerda, mas eu não concordo com as ideias da direita. É mais pelas ideias mesmo que a esquerda passa. Também não são todas que eu concordo, mas prefiro esse lado do que a direita. – Católico, branco, auxiliar de frota, gosta de Lula mas não se diz petista, de esquerda, 29 anos. Eu sou mais de esquerda pela posição da esquerda, que é mais de ter o Estado a mais, não o Estado mínimo; olha o social e a igualdade na sociedade, não defendendo uns e não outros. Por isso que eu voto mais na esquerda. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Esquerda: Rio de Janeiro Da mesma forma, nos três grupos focais do Rio de Janeiro, emergiram os principais temas associados à esquerda. Eu sou esquerda. Porque eu vi coisas acontecendo com a direita que eu nunca vi, entendeu? Só tragédia, confusão. Tá aí, pode falar o que for. Mas eu sou esquerda porque muitas coisas aconteceram e eu vi, cursos, essas coisas. Eu concordo com a esquerda, essa é a minha opinião, né? – Evangélica, branca, vendedora de doces, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 54 anos. Eu acho que estou mais para a esquerda, por uma questão de que acho que atende mais às necessidades de uma estudante de escola pública e dá mais atenção para as minorias. É isso. – Umbandista, branca, estudante, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro-esquerda, 18 anos. Esquerda, porque eu sou a favor das mudanças, de lutar pelos direitos, pela cidadania. Eu não vejo isso na parte da direita. E, assim, em todo processo político que acompanhei, desde que comecei a votar, as propostas da direita, pra mim, são mais tendenciosas, mais radiOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 30 cais, mais militaristas. E não me atrai. Por isso que eu opto pela esquerda. – Evangélica, branca, assistente social, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de esquerda, 49 anos. Esquerda: São Paulo Por fim, em São Paulo, os três grupos focais também destacaram os principais pilares associados à esquerda. Eu sou petista, acredito na melhora das pessoas, acredito que errar todo mundo vai errar. Infelizmente, os últimos acontecimentos em relação a roubos na política caíram no PT, assim como poderiam ter caído em outros partidos que estivessem no poder naquele momento. E eu acho que, na minha concepção, posso estar errada, roubar... Eu acho que todo mundo que passar vai tentar se beneficiar de alguma forma. Agora, omitir vários acontecimentos, como foi omitido, principalmente numa pandemia... Na minha concepção, acho bem pior. Foram milhares de pessoas mortas, milhares de pessoas que não tiveram assistência do SUS. Então é isso, eu tento buscar o melhor. Eu sou petista, mas nada me impede que na próxima eleição eu seja de direita. E eu tento analisar o melhor. – Evangélica, branca, do lar, petista, centro-esquerda, 38 anos. Eu sou da esquerda mesmo, porque eu vi mudança, eu vi transformação. Eu vi melhorias, coisas que baixaram, entenderam? Então eu ainda fico com a esquerda. – Umbandista, preto, auxiliar administrativo, petista, esquerda, 29 anos. Sou da esquerda, e aqui do lado de cá, depois que entrou o Lula, para nós melhorou muito. Então, o que a gente já estava pensando, o que a gente já estava acreditando, para nós, pelo menos, melhorou muita coisa. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula mas não se diz petista, centro-esquerda, 44 anos. Em relação à direita, emerge uma forte defesa da moral, dos valores tradicionais e da família nos moldes conservadores. Além disso, há uma identificação com Bolsonaro, que é visto como uma liderança que representa e sustenta esses valores e posicionamentos. Direita: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, observamos novamente uma adesão à direita no grupo de 18 a 30 anos e agora também no grupo de 31 a 60 anos, porém sem uma definição detalhada dos valores associados a esse posicionamento. Esse detalhamento surgiu apenas entre os participantes do grupo de evangélicos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 31 Completamente da direita, a favor da vida desde a concepção, contra drogas, contra ideologia de gênero. Sou a favor da família tradicional. Eu sou a favor dos princípios bíblicos. Eu sou a favor do bem. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. Me identifico mais com a direita; vai muito além daquilo em que acredito, por não concordar com algumas opiniões da esquerda. – Evangélica, preta, atendente, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 30 anos. Direita, entre centro e direita, sabe? Mas eu acho que sou mais de direita, pelas questões mesmo, ideológicas; com muita coisa da esquerda eu não concordo. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 42 anos. Direita: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, os valores associados à direita surgiram em dois grupos focais como um elemento de pertencimento ideológico. No entanto, no grupo de 31 a 60 anos, a manifestação deste alinhamento foi mais contida, aparecendo em forma de declarações defensivas. Tem o lado da esquerda, das coisas boas, mesmo eu sendo de direita. Eles fazem coisas boas, só que também prejudicam o lado da direita, que é o meu lado. Como eu sou cristão, a minha visão muda. Quando algo vai me prejudicar tanto, até no meu direito de viver, de ir e vir... e como hoje se tornou uma guerra de religiões, que está afetando tanto a esquerda quanto a direita, essa guerra de religião... eu prefiro ficar com a direita. – Evangélico, preto, garçom, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de direita, 37 anos. Eu me considero de direita, muito por questões mais morais, eu diria, pelos valores que acredito, desde novo. Esse é o principal motivo, eu diria. – Evangélico, pardo, analista de mudanças climáticas, bolsonarista, de direita, 29 anos. Sou do lado direito. Infelizmente, tem uns caras malucos, sequelados, que só fazem“m” do lado direito, essa é a verdade. E aí se criou uma imagem ruim, uma imagem deturpada. – Evangélico, preto, separador, bolsonarista, direita, 40 anos. Direita: São Paulo Em São Paulo, as ideias associadas à direita foram expressas de forma clara e bem definida pelos três grupos focais, demonstrando uma adesão consistente aos valores e posicionamentos característicos desse espectro político. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 32 Eu me identifico como direita, até porque sempre gostei, desde quando surgiu, das ideias do Bolsonaro. Embora ele seja tosco e, às vezes, muito ignorante no jeito de falar e tudo, mas sem menosprezar as outras pessoas, eu não concordo com a ideia de trazer de volta uma pessoa que furtou o país. Então, eu me considero de direita por causa disso também. – Evangélico, preto, segurança, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, centro, 45 anos. Eu sou de direita porque acredito, entre aspas, na“família tradicional brasileira.” Acredito nos princípios. Então, essa parte, a grande maioria dos governantes e das pessoas que trabalham na política, que são de direita, acredita nesses ideais. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, direita, 30 anos. Eu me considero de direita, mas não sou bolsonarista raiz, porque sou conservadora, né? Assim, em tudo o que eu digo, exceto em relação ao aborto ou às drogas. – Evangélica, preta, gerente comercial, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 46 anos. Por fim, as posições de centro surgem como uma rejeição aos extremos e uma preferência por propostas que vão além das ideologias rígidas. Esse posicionamento reflete um reconhecimento de que ambos os lados possuem qualidades e falhas, além de expressar um desgaste com a polarização crescente. Centro: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, a posição de centro apareceu nos dois grupos com recortes etários distintos. No grupo evangélico, um participante também optou por não se posicionar especificamente como de esquerda ou direita, preferindo a categoria de centro, justificando essa escolha a partir de sua perspectiva religiosa. A esquerda nos decepcionou, infelizmente, com as atitudes, com o comportamento, sabe? E eu não odeio a esquerda, mas também não vou dizer que o Bolsonaro foi o melhor presidente. O Lula teve o seu tempo de mostrar o que ele tinha para mostrar; agora ele está no governo e precisa mostrar quem é e como vai governar o país. O Bolsonaro teve o tempo dele, e, desse tempo, Deus permitiu que ele estivesse no governo. Mas quem decide é o povo, quem decide somos nós. – Evangélico, branco, motorista de app, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, de direita, 52 anos. Eu detesto qualquer tipo de extremo em relação à religião, à política, a qualquer coisa. Me considero centro-esquerda porque, em alguns assuntos, concordo muito com a esquerda e, em outros, com a SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 33 direita. Então, fico ali. Mas, no que eu mais concordo, fico mais pendente à esquerda. – Sem religião, branca, desempregada, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 27 anos. Sou do centro. Na penúltima eleição, votei no candidato à presidência da direita, e, nessa, eu não queria votar em nenhum. Mas minha esposa, com muita insistência, me fez votar no da esquerda. Então estou nessa, seguindo alguns votos da minha esposa, mas eu não tenho... nem esquerda, nem direita. – Evangélico, preto, vendedor de perecíveis, não gosta nem detesta o PT e Bolsonaro, de centro, 38 anos. Centro: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, nos três grupos focais, predominou a ideia de posicionamento ao centro como uma forma de rejeição aos extremos. Aqui está a correção de pontuação nas falas das entrevistas: Vejo coisas positivas na esquerda, como direitos sociais. O artigo seis, sete, foi em um governo de esquerda. E vejo coisas positivas na direita, então não consigo me posicionar de uma maneira única. Pô, eu trabalho com segurança pública, né? A segurança pública é uma parte bem importante da nossa sociedade. Nos governos de direita, há um cuidado maior. Mas a educação também é importante e, em um governo de esquerda, há uma preocupação maior. Então, como a gente não consegue unir essas duas ideologias para melhorar para a população, acabamos tendo que escolher uma. Só que a escolha nunca é totalmente boa para a população. – Evangélico, branco, policial militar, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Centro, mas não significa que estou em cima do muro; significa que não gosto de extremismo. Geralmente, pelo menos a minha galera, de esquerda e de direita, é loucura. Me considero de centro porque eu sempre vou buscar a igualdade social, o que realmente vai valer para mim, mas pensando no próximo. Me considero de centro-esquerda. – Evangélica, preta, analista financeira, gosta de Lula mas não se diz petista, centro-esquerda, 28 anos. Nunca me coloquei nessa posição de ser de esquerda, direita ou centro. Sou centro, porque tem coisas que a esquerda faz, tem coisas que a direita faz, que a gente concorda, discorda, até no respeito e atendendo ao interesse comum da população – Católico, preto, motorista de app, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 40 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 34 Centro: São Paulo Em São Paulo, no grupo de evangélicos, nenhuma pessoa se identificou como sendo de centro. Em contraste, nos grupos com diferentes faixas etárias, esse posicionamento surgiu de forma bem definida. Centro, nem um nem outro. Eu votei no que era menos pior. Assim, na minha opinião, não acho que hoje em dia exista alguém que vai entrar lá e fazer uma super diferença, realmente pensando na gente. Eles estão pensando em outras coisas, em benefício próprio. É o que eu acredito. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Me considero de centro. Acho que é preciso fazer o que é melhor para o país, independente de essa decisão ser mais de direita ou de esquerda. – Evangélico, branco, comerciante, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro-esquerda, 28 anos. Eu, na verdade, sou de centro. Sou neutro, então não tenho partido. Torço para o bem do país. Se eu votei em um candidato e ele perdeu, vou apoiar o outro, porque quero o melhor para mim, meus filhos e minha família. Eu não torço contra o Brasil. Tenho esperança de que o Brasil ainda vai melhorar, mas não tenho partido, nem de direita nem de esquerda. Sou centro. – Católico, branco, porteiro, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro, 41 anos. A nitidez observada nos espectros de esquerda, direita e centro não se repete quando se trata das categorias progressista, liberal e conservador. Além das seis pessoas que não souberam se definir, várias opiniões foram apresentadas de forma breve ou pouco precisa, o que dificulta o enquadramento em categorias mais específicas. Entre as definições oferecidas, as mais consistentes vieram daqueles que se identificaram como conservadores, posição que reuniu a maior parte dos entrevistados, conforme apresentado na Tabela 2. As justificativas das posições de direita revelaram uma tendência comum, incluindo a defesa da moral e dos valores tradicionais, associada a uma visão de que a sociedade enfrenta um processo de decadência. Nesse contexto, conservar valores seria essencial para conter a degeneração social e restabelecer a ordem. Conservadorismo: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, nenhum participante do grupo de 18 a 30 anos se declarou conservador. Nos outros dois grupos, no entanto, esse posicionamento esteve presente, indicando uma tendência mais conservadora entre os participantes de faixas etárias superiores. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 35 Conservadora, acredito na família, na forma que Deus fez: o homem e a mulher, os dois juntos, terem filhos, formar uma família. Eu sou a favor da família tradicional. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. Eu sou conservadora e em prol da minha família, de mim mesma, das pessoas com quem quero conviver. Sou bastante conservadora e fico horrorizada com muita coisa que acontece. – Espírita, indígena, representante comercial, bolsonarista, de direita, 55 anos. Sou mais conservadora também. Acho que estamos num mundo muito difícil e, hoje em dia, eu tenho duas filhas, e está muito difícil criar filha nesse mundo, sabe? Tem coisas que eu vejo que são só modinhas, só para contestar os pais. Então, acho que, para criar os filhos hoje em dia, tem que ter uma visão mais conservadora, levá-los mais para a igreja, sabe? Tem coisas com as quais eu não concordo. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, direita, 42 anos. Conservadorismo: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, o conservadorismo se manifestou de forma expressiva nos três grupos, refletindo uma tendência sólida em relação a valores tradicionais e pautas conservadoras entre os participantes. Conservadora, sou a favor da vida desde o momento da concepção, a favor da família, porque fui criada assim, e acho que isso influencia o modo como você é criado. Sou cristã, acredito em Deus, na Bíblia, nos valores cristãos, então isso acaba influenciando minhas convicções. Não posso trair as minhas convicções. Diante de tudo isso, e da minha fé, da família e tal, me considero uma pessoa conservadora. – Evangélica, branca, analista de RH, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, centro-direita, 40 anos. Conservador. Dentro do ecossistema do conservadorismo estão todas as minhas crenças, entendeu? Direitos de propriedade, hierarquia social, estabilidade, continuidade. – Católico, branco, consultor hospitalar, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, detesta o PT, direita, 29 anos. Conservador. Acho que ser muito liberal não é legal. Estão querendo mudar muitas leis aí, bons costumes, muitas leis que afetam a sociedade, o pessoal que pensa diferente. Não sou preconceituoso, não sou nada disso, mas querem liberar muita coisa: casamento homossexual, sabe, coisas que atingem nossa sociedade, coisas para as quais não fomos ensinados assim. Fomos ensinados por nossos pais, nossos familiaOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 36 res, que também eram conservadores de outra maneira. Querem mudar muita coisa que eu acho que não é legal para nós, nem para nossos filhos, para nossa educação. – Evangélico, preto, porteiro, gosta de Lula mas não se diz petista, centro-esquerda, 48 anos. Conservadorismo: São Paulo O conservadorismo também se mostrou bastante presente em São Paulo. No entanto, no grupo de 18 a 30 anos, houve apenas uma manifestação desse posicionamento, e mesmo assim, sem uma definição muito evidente. O conservadorismo... eu acho interessante a gente conservar muitas coisas, muitos bons costumes que não deveriam ter se perdido como já se perderam de umas décadas para cá. – Evangélico, branco, professor, bolsonarista, centro, 27 anos. Eu sou conservador, mas não um conservador extremista, principalmente pela educação que recebi dos meus pais. Sou conservador, mas não extremista. Acredito que todo mundo tem seus direitos. Os direitos devem ser respeitados, e é isso. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, direita, 30 anos. Conservadora. Eu defendo alguns princípios de família. Não sou a favor da legalização das drogas, embora concorde e apoie o uso medicinal. Mas há alguns princípios com os quais não concordo totalmente, então me considero uma pessoa tradicional, né, como dizem. – Sem religião, amarela, gerente comercial, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de direita, 46 anos. As posições progressistas apresentam uma definição nítida em um número consideravelmente menor do que as conservadoras. Essas posições expressam um padrão fundamentado na defesa da ciência e em uma visão de sociedade orientada para o progresso e a evolução contínua. Progressista: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, nenhum dos participantes evangélicos se identificou como progressista. Progressista. Acredito muito nas ideologias sociais, no avanço tecnológico, científico. Acho que, nesse lado, me considero progressista. Tenho esse lado também da família e tudo mais, só que a minha tendência é ser mais do progressismo mesmo. – Católico, preto, estagiário, detesta Bolsonaro, centro-esquerda, 24 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 37 Progressista, pelo fato de a sociedade estar sempre em transformação, reformulando ideias. – Católico, branco, auxiliar de frota, gosta de Lula mas não se diz petista, de esquerda, 29 anos. Eu acho que sou mais progressista; penso mais no progresso social. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Progressista: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, o progressismo surgiu de forma vaga no grupo de 18 a 30 anos, com declarações pouco nítidas que refletem uma dificuldade em definir essa posição de maneira consistente. As falas foram confusas, sugerindo uma compreensão ainda incerta sobre o que significa aderir ao progressismo. Eu vou para o lado progressista porque, se a gente for parar pra pensar, a sociedade está sempre se atualizando. Antigamente, a traição era crime, né? Eu esqueci o nome do crime, mas era crime. Hoje em dia, já não é mais. Então, a mente da sociedade vai se atualizando, os valores vão mudando, entendeu? O que era antigamente, hoje em dia já não é tão normal; vai havendo uma atualização. – Evangélico, branco, policial militar, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Progressista. Não me encontro nas ideologias conservadoras. Eu não sei explicar direito o meu pensamento nessa questão. – Umbandista, branca, estudante, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro-esquerda, 18 anos. Eu nunca tinha pensado nessa questão, mas acho que sou mais progressista, mais no sentido do que a ciência traz, de todas as ciências. É a gente parar para conversar, para discutir. Então, se acredito nisso, me vejo mais como progressista. – Espírita, branca, arquiteta, gosta de Lula mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de esquerda, 57 anos. Progressista: São Paulo Em São Paulo, nenhum participante nos três grupos focais se identificou como progressista. Por fim, as definições associadas ao liberalismo, também em número reduzido, ressaltam a valorização do direito de escolha e do livre-arbítrio, destacando esses princípios como fundamentais para aqueles que se alinham com essa perspectiva. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 38 Liberal: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, o posicionamento liberal não se manifestou no grupo com faixa etária de 18 a 30 anos. A gente está falando muito de Deus e da Bíblia; todos nós temos o livre-arbítrio, e o próprio Jesus, quando esteve na Terra, não agiu conforme todos esperavam do Messias ou do Filho de Deus. Jesus foi um rebelde na Terra. Isso serve de exemplo para mim. Não acho que ser liberalista é bagunça, droga, sexo, não. Acredito que é você viver segundo as suas concepções, sendo um cidadão de bem, fazendo o que é certo, sem julgar o outro, sem ser uma pessoa homofóbica ou preconceituosa. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro-esquerda, 29 anos. Eu acho que sou mais liberal, mas essa parte de dar, de ajudar o próximo. – Católico, branco, representante comercial, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro, 41 anos. Liberal: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, assim como em outras localidades, nenhum participante na faixa etária de 18 a 30 anos se identificou como liberal. Mais liberal, voltando à parte do aborto: cada um tem o direito de fazer do seu corpo o que quiser.“Ah, vai legalizar o aborto.” Tudo bem. Na própria Bíblia está escrito que existe o livre-arbítrio. Então, né, não é algo com que a gente, como cristão, concorde. Mas, se há o livre-arbítrio, cada um deve decidir o que vai fazer com o seu corpo. – Evangélica, preta, assistente administrativa, gosta de Lula mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, centro, 24 anos. Liberal: São Paulo Em São Paulo, diferentemente das outras duas cidades, somente os participantes do grupo de 18 a 30 anos se identificaram como liberais. Liberal. Acredito que algumas coisas a gente tem que manter no tradicional, mas outras precisam de mudanças, porque, às vezes, o tradicional não é o que está dando certo. E hoje a gente vive num mundo onde muitas coisas mudaram, e não é só o tradicional que está certo. – Sem religião, parda, assistente administrativa, gosta de Lula mas não se diz petista, de centro, 28 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 39 Me considero mais para o lado liberal. Acredito que o direito deve ser respeitado de todos os lados, inclusive de quem é liberal, quem é progressista, quem é conservador. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. A forma como as posições são articuladas nas falas dos entrevistados permite visualizar como as ideologias são elaboradas e como se relacionam com as escolhas eleitorais em um contexto de crescente politização e polarização. Os entrevistados percebem uma politização intensificada nas relações cotidianas, vista como um reflexo da polarização político-eleitoral. Diante disso, os resultados oferecem uma compreensão mais profunda de como os eleitores interagem com questões de sub-representação, especialmente em relação a grupos marginalizados, como a população negra. Sub-representação das pessoas negras e o voto O reconhecimento do racismo como um obstáculo à inclusão política tornou-se ainda mais evidente em comparação com as respostas à primeira pergunta sobre raça e política. Nesta terceira seção, retomamos o tema do racismo e seus impactos na sociedade brasileira, agora pela perspectiva da representação política. Novamente, participantes dos nove grupos focais quase unanimemente reconheceram a baixa presença de pessoas negras na política brasileira, apontando o racismo como o principal fator para essa sub-representação. Observamos que, nesse contexto, o reconhecimento do racismo como um obstáculo à inclusão política tornou-se ainda mais evidente em comparação com as respostas à primeira pergunta sobre raça e política. Iniciamos, assim, com as falas dos participantes sobre a escassa participação de pessoas negras na política de forma geral. Poucas pessoas negras na política: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, os três grupos focais destacaram uma percepção comum: o racismo estrutural é apontado como uma das principais razões para a baixa representatividade de pessoas negras na política brasileira. Exatamente pelo racismo estrutural que a gente vive hoje, muitas pessoas julgam uma pessoa negra como menos capaz. Então, eu acredito que tem poucas pessoas e que isso seja exatamente pela cultura do racismo que o Brasil enfrenta. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 29 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 40 Pegando aquela via de meritocracia, de que o negro, o indígena deveria estar lá por mérito. Isso num mundo ideal, mas, infelizmente, a realidade, principalmente do Brasil, é outra. Nós, negros, já começamos há dez passos antes de uma pessoa branca na linha de largada. Como que o negro, o indígena vai se preocupar com política quando a preocupação dele é colocar comida em casa, pagar uma conta, estudar? Num mundo ideal, em que todo mundo começa no mesmo lugar de largada, eu concordo. Devia ter mérito, deveria estar no mesmo nível. Mas não é o que acontece no Brasil. Igual o exemplo passado que eu mesmo disse, que os europeus vieram para o Brasil pegar terras, vários e vários europeus. E foi isso o que aconteceu com os indígenas e, principalmente, com os negros. Deveria acontecer o contrário; eles estão perdendo as terras que eram demarcadas deles. – Ateu, preto, barman, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. Sim, tem poucas. No Brasil, em que a maioria das pesquisas diz que a maioria é parda ou é negra, até hoje a gente não teve um presidente negro que representasse verdadeiramente a gente, que é a comunidade negra. Às vezes, os políticos vão lá, fazem uma coisinha ou outra para tapear, mas até hoje não vi uma política eficaz que atendesse a comunidade preta. Acho que falta, sim, um presidente que representasse a gente, que fosse negro. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Poucas pessoas negras na política: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, a percepção sobre o racismo e a baixa representatividade de pessoas negras na política reflete-se de forma muito semelhante ao que foi identificado em Belo Horizonte, conforme apontado pelos três grupos focais dessas cidades. Em ambos os contextos, os participantes destacaram a escassez de pessoas negras em cargos políticos e associaram essa ausência ao racismo estrutural que permeia as instituições. Essa análise reforça a compreensão de que o racismo não apenas limita o acesso de pessoas negras a posições de poder, mas também se manifesta como um fator determinante na sub-representação política, criando barreiras sistêmicas que impedem uma participação mais equitativa. Eles não colocam por medo, porque, se botar um negro lá dentro, ele vai defender, claro, os negros. Então, eles não querem isso. Eles vão fazer de tudo para o preconceito parar contra os negros. E vai ter mais político negro lá dentro porque o medo deles é esse: se ele virar um presidente, vai ter muitos deputados federais e estaduais. E eles não vão dar oportunidades para eles. Eles não dão. Por mais que eles tenham estudo, não dão. – Evangélica, branca, vendedora de doces, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 54 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 41 Isso faz parte do racismo na nossa sociedade. Então, por fazer parte do racismo, o preto, hoje, o negro, não tem tanta oportunidade quanto o branco tem. A falta de pessoas negras na política faz parte do racismo que a gente vive hoje. – Evangélica, preta, analista financeira, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 28 anos. Tem que haver uma maior igualdade; ainda temos poucos representantes negros na nossa política. A gente está tentando resgatar um fosso lá do passado por tudo o que o processo de escravização deixou e ainda tem esse histórico. Eu acho que a população negra foi muito mais massacrada no seu passado histórico do que eu. Então, por isso que se precisa lutar, todos nós, se a gente fala tanto em igualdade. – Evangélica, branca, assistente social, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de esquerda, 49 anos. Poucas pessoas negras na política: São Paulo Em São Paulo, observamos uma perspectiva um pouco distinta sobre o tema. Embora os participantes reconheçam a baixa representatividade de pessoas negras na política, muitos apontaram uma melhora gradual nesse cenário, especialmente nos grupos focais divididos por faixa etária. Esse otimismo foi particularmente forte entre os mais jovens, que percebem um aumento progressivo da presença negra em posições de poder e acreditam que essa tendência positiva tende a crescer. Entre os evangélicos, a visão também refletiu esse otimismo, mas com um foco mais específico nas igrejas, onde eles destacaram uma maior participação de pessoas negras em cargos de liderança e influência. Esses espaços de liderança religiosa foram vistos como exemplos importantes de mobilidade e visibilidade, o que reforça a percepção de que a inclusão é possível, ainda que haja um longo caminho pela frente em termos de representatividade política mais ampla. Não tanto na pregação, mas é mais nas reuniões, quando a gente vai sentar para falar sobre assuntos, sobre o cotidiano, sobre o que a gente vê da política ou não vê. Sobre o racismo em si, é sobre o que a gente pensa, o que a gente acha, como é tratado até mesmo na igreja. Porque o pessoal acha que não, mas até dentro da igreja há discriminação, há preconceitos. – Evangélico, pardo, auxiliar administrativo, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, direita, 28 anos. Tem poucas pessoas negras sim, na política. Agora, nessa última eleição, entrou, se não me engano, cinco pessoas negras, né? Agora que está fazendo a mudança, para falar a verdade, porque antes não tinha, né? De tanto a gente falar de racismo, das cores negras, né? Do apoio da deputada Marielle, que foi morta no Rio também, e outras coisas. Então a política está pegando mais em cima disso; as emissoras também estão mostrando mais, a mídia também. Então acho que, nesse ponto de vista, os negros estão agora ganhando o seu lugar, o seu apoio OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 42 e sendo vistos. Mesmo assim, o racismo não acabou. Mas eu acho que está sendo mais visto agora. – Umbandista, preto, auxiliar administrativo, petista, esquerda, 29 anos. Eu acho que assim está melhorando mais, está unindo mais pessoas. O racismo, conversando mais sobre isso e tentando mostrar para outra pessoa que é crime. Eu acho que mudou bastante, está crescendo bastante essa comunidade. – Católico, pardo, pedreiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro, 37 anos. Além de abordar a sub-representação de maneira ampla, perguntamos, sob uma perspectiva interseccional, a opinião dos participantes sobre a presença de mulheres negras na política. Para contextualizar a discussão, apresentamos um dado relevante: embora as mulheres negras representem 28% da população brasileira, apenas 6,7% das pessoas eleitas para todos os cargos no Brasil em 2022 são mulheres negras. As reações dos participantes variaram; alguns associaram essa discrepância principalmente à questão de gênero, enquanto outros enfatizaram a intersecção entre gênero e raça como fatores determinantes para a exclusão dessas mulheres do cenário político. Poucas mulheres na política e questão de gênero: Belo Horizonte Nos três grupos focais de Belo Horizonte, a baixa presença de mulheres negras na política foi amplamente explicada a partir de uma análise focada nas questões de gênero. Os participantes destacaram que essas mulheres enfrentam barreiras adicionais, tornando especialmente desafiador para elas ingressar e permanecer no cenário político, uma vez que precisam lidar com desigualdades de gênero que limitam seu acesso a posições de poder. Embora tenha havido um aumento geral na participação feminina na política, a realidade das mulheres negras ainda é marcada por desafios profundos e persistentes, pois elas enfrentam tanto a discriminação de gênero quanto o racismo estrutural. A política era só para os homens, e de poucos anos para cá as mulheres começaram a querer entrar na política. Ainda tem muito preconceito contra a mulher, mas as mulheres são mais administradoras do que os homens; sabem administrar a vida pessoal, a vida profissional, trabalham fora, são mães, são donas de casa. As mulheres têm que se candidatar cada vez mais e criar sempre uma rede de apoio, porque as mulheres têm muita capacidade. Espero um dia ter uma presidente mulher no Brasil. – Evangélica, branca, secretária, bolsonarista, de direita, 47 anos. Falta mais representatividade em relação às mulheres no geral. Porque eu nem consigo enxergar, assim, é difícil. Eu não tenho esse preconceito. Para mim, mulher já é minoria. Eu acho que falta mais voz feminina aí. É onde a gente vê muito a luta pelo feminismo; a gente quer ter SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 43 essa igualdade. Mas, infelizmente, ainda existe, sim, preconceito. Eu acho que para as mulheres negras não é muito diferente do que para uma mulher comum, porque também já trabalhei um pouco com mulheres na política quando era mais nova e via que as mulheres negras tinham mais voz do que as outras. Elas eram muito barradas. Acho que mais é por medo também, sabe? Acho que elas estão querendo muito enfrentar essa briga. Eu até evito discutir sobre essas coisas, mas a gente deveria falar mais sobre isso. A gente deveria defender, apoiar uma à outra. Está faltando isso, mas, infelizmente, elas são minoria mesmo. As mulheres em geral, sem focar apenas nas mulheres negras, eu vejo como minoria. – Cristã, branca, estagiária, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Não é só mulher negra; a política é um cenário mais masculino mesmo. Historicamente, tem poucas mulheres na política. Quando vamos observar o recorte para mulheres negras, tem menos ainda. É por essa questão de a mulher, às vezes, ainda não estar se engajando nessa área, estar começando agora a se interessar. Acho que é por isso, porque, assim, antigamente a mulher se preocupava mais em ficar no lar, em cuidar dos filhos, da família. Agora é que as mulheres estão se interessando mais pela política. Mas eu acho que a diferença, assim, é também entre mulheres e homens. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 42 anos. Poucas mulheres na política e raça e gênero: Belo Horizonte Entretanto, nos três grupos focais realizados na capital mineira, identificamos participantes que utilizaram tanto a questão racial quanto a de gênero para explicar a baixa presença de mulheres negras na política. O próprio número já diz, é grotesco, e acredito que seja realmente por conta do racismo. Tem essa coisa de acreditarem que política não é para mulher, tanto quanto futebol. Já vem esse preconceito por acreditarem que política não é para mulher e por descredibilizarem mulheres, especialmente mulheres negras; vem muito da cultura do brasileiro mesmo. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 29 anos. A gente já começa dez passos atrás, e o número da população de mulheres negras é muito alto, se pararmos para olhar a proporção no Brasil. E esse fato, de que a gente começa dez passos atrás, que precisamos estar com pensamentos em outros lugares que não seja no estudo, e sim trabalhar para sobreviver, reflete nesses números na política. Então, eu acho que é nessa linha de raciocínio, e isso é o que justifica isso. – Católico, preto, estagiário, detesta Bolsonaro, de centro-esquerda, 24 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 44 Eu acho que por falta de representatividade mesmo, tem pouca representatividade de mulher negra. A maioria é mulher branca que aparece. Então, acho que é pouca representatividade e também, eu não sei pesquisa, mas a maioria das mulheres negras são ou donas de casa, ou empregadas domésticas, ou são pessoas que nem sabem que podem“ ah, eu posso ali me candidatar para vereadora.” Às vezes, elas nem sabem que podem. Acho que é a pouca representatividade e visibilidade que elas têm. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Poucas mulheres na política e questão de gênero: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, apenas no grupo de evangélicos uma pessoa destacou a questão de gênero como mais importante do que a raça, enfatizando que as barreiras enfrentadas pelas mulheres, de maneira geral, eram mais relevantes do que as relacionadas à raça nesse contexto: É, a mulher é necessária, de modo geral, né. Desde os princípios da humanidade, a mulher foi feita, nasceu para estar do lado do homem. Porém, a mulher, muitas vezes até na Bíblia, parece ter mais habilidade que o homem. Embora tenha muito preconceito com mulher por aí, acho que a mulher, às vezes, resolve as coisas melhor do que o homem. Então, se deve ter algum medo naquela área, aí o preconceito de cor se junta e piora mais ainda. Porque o homem, sem mulher, não consegue resolver muita coisa boa não. Então, acho que onde tem duas cabeças pensando é melhor do que uma. – Evangélico, preto, garçom, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de direita, 37 anos. Poucas mulheres na política e raça e gênero: Rio de Janeiro Pelo contrário, a maioria das respostas nos três grupos focais do Rio de Janeiro enfatizou que tanto gênero quanto raça são fatores centrais para explicar a baixa presença de mulheres negras na política. Os participantes apontaram que essas mulheres enfrentam desafios adicionais por serem negras e, ao mesmo tempo, mulheres, o que cria uma dupla barreira. A visão predominante foi de que racismo e machismo atuam conjuntamente para limitar o acesso dessas mulheres a cargos políticos e espaços de poder, reforçando a necessidade de políticas que abordem ambas as discriminações para promover uma representatividade mais equitativa. Mulheres no poder são muito poucas e, quando se trata de mulheres negras, menos ainda. É por falta de oportunidade e por pessoas diminuírem, falarem que a mulher negra não é capaz. Causa um certo medo nessas pessoas que estão no poder. A mulher preta causa um certo medo desses homens brancos que estão no poder. Então, assim, é SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 45 uma forma de não deixar elas atingirem, porque sabem que, se elas chegarem lá, elas vão fazer melhor do que eles. – Evangélica, preta, assistente administrativa, gosta de Lula, mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, centro, 24 anos. As pessoas têm preconceito, já enraizado, com mulheres negras. Então, é ter um trabalho em que as pessoas que não têm local de fala sobre isso também deem visibilidade. Homens brancos deveriam estar pensando cada vez mais em dar espaço para mulheres negras, pessoas LGBT. Isso vai muito de mudar o pensamento das pessoas, o que, às vezes, a pessoa nem está percebendo que está fazendo, mas faz. Então, eu acho que é muito de preconceito mesmo. – Católica, branca, estudante, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 24 anos. As mulheres negras sofrem muito mais preconceito; elas têm dois fatores: serem mulheres e serem negras. Na nossa sociedade, a mulher já é deixada de lado, e ainda não chegamos nem perto de acabar com o preconceito contra a mulher, esse machismo que a sociedade toda reproduz. Está muito longe; evoluímos, sim, mas pouco, no que eu vejo, sinto e converso com minhas amigas. Isso reflete na política. As pessoas não têm confiança de que uma mulher possa estar no poder, e, principalmente por ser negra, porque há uma tremenda desvalorização da pessoa pela cor. – Evangélica, branca, assistente social, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, esquerda, 49 anos. Poucas mulheres na política e questão de gênero: São Paulo Em São Paulo, nos grupos focais com evangélicos e com participantes entre 31 e 60 anos, as discussões tenderam a enfatizar a questão de gênero de forma mais ampla. Os participantes destacaram os desafios enfrentados pelas mulheres em geral, sem considerar a intersecção entre raça e gênero. Essa abordagem deixou de lado a especificidade das dificuldades vividas pelas mulheres negras, focando nos obstáculos comuns a todas as mulheres, como o machismo e a desigualdade de gênero, sem mencionar como o racismo e o machismo atuam conjuntamente para excluir as mulheres negras da política. Eu acredito que é o preconceito. – Evangélica, preta, revendedora de jóias e lingeries, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 47 anos. Acredito que seja por conta do preconceito. – Evangélica, branca, manicure, bolsonarista, de direita, 28 anos. As mulheres estão começando a entrar na política ainda; são poucas, independente da cor. Ainda tem poucas mulheres eleitas, enOBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 46 tendeu? Agora eles estão evoluindo, estão dividindo. O espaço para as mulheres está mudando também, mas ainda está baixo. – Católico, branco, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro, 41 anos. Poucas mulheres na política e raça e gênero: São Paulo Assim como no Rio de Janeiro, em São Paulo, a maioria das reflexões nos três grupos focais buscou integrar raça e gênero para explicar a baixa representatividade de mulheres negras na política brasileira. Os participantes destacaram que essas mulheres enfrentam discriminações específicas, decorrentes tanto do racismo quanto do machismo. Essa perspectiva enfatiza a importância de considerar a intersecção desses dois fatores para compreender plenamente a sub-representação das mulheres negras. Para elas, os desafios são ainda mais complexos do que os enfrentados por outros grupos, uma vez que o racismo e o machismo atuam conjuntamente para restringir seu acesso a cargos políticos e posições de poder. Geralmente, as cotas são menores do que deveriam, pela discriminação nacional. Não chega nem a ser como se a pessoa não estivesse preparada; as pessoas são muito preparadas, mas, por falta de oportunidades e até por conta do racismo e dessas cotas, também acabam sendo barradas. – Evangélica, branca, do lar, petista, de centro-esquerda, 38 anos. Tem relação realmente com a parte estrutural da questão sócio-histórica no nosso país. Fazem parte de grupos minoritários: mulher e negra. E há pouca divulgação também. Teve mais enfoque depois da morte da Marielle, mas ainda assim é mínimo perto das que estavam ali para serem votadas e foram eleitas. É a questão da hegemonia, né?! A questão da raça branca. – Sem religião, parda, assistente administrativa, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro, 28 anos. Pela discriminação mesmo, que ainda existe; é um país machista, onde as mulheres vêm ganhando espaço. Para as mulheres negras é bem mais difícil pela discriminação, porque elas são discriminadas, porque não tiveram as mesmas oportunidades. E o cabelo? A forma de se vestir? A religião? Então, é a discriminação, né. O negro está sempre no papel de servir. Isso é história. Ele vem para servir. Então, quando você vê um negro na política, um negro até em novelas que você via, mesmo, você via sempre o negro sendo o quê? Ou a babá, ou a empregada doméstica, e é sempre os papéis que se dão. E na política não seria diferente para as mulheres negras estarem ali dentro, esse pouco. – Umbandista, branca, encarregada, petista, de esquerda, 51 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 47 Em todos os grupos, o roteiro buscou trazer o diagnóstico da sub-representação de pessoas negras na política brasileira de um nível mais abstrato para algo mais próximo das escolhas pessoais dos participantes. Perguntamos se eles se lembravam de já ter votado em candidatos negros em algum momento. Assim como na primeira questão sobre lembranças de votos para deputado federal ou vereador, a grande maioria não conseguiu se recordar de candidatos negros específicos. No entanto, essa reflexão levou muitos participantes a pensar mais profundamente sobre essa falta de memória. Iniciamos perguntando quais são os principais motivos que levam as pessoas a escolher um candidato para deputado federal ou vereador. As respostas indicaram um processo de politização recente entre os entrevistados, com destaque para critérios mais programáticos, como as propostas dos candidatos e o alinhamento com partidos. Ainda assim, muitos ressaltaram a importância das relações interpessoais, como o trabalho realizado pelo candidato em seu bairro ou a recomendação de pessoas próximas, especialmente familiares. Essa combinação entre critérios programáticos e pessoais reflete uma abordagem de escolha política em transformação, onde novos valores convivem com influências tradicionais. O que leva a votar em deputado federal ou vereador: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, as razões para o voto em parlamentares nos três grupos focais refletem os elementos fundamentais discutidos anteriormente. Normalmente, um partido sempre abraça a mesma ideia, e muitas vezes também por indicação, pelo que as pessoas que compartilham das mesmas ideias que eu vão compartilhando. Esse conhecimento, eu escolho. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 29 anos. Nos que estão mais próximos da minha região, que já ajudaram muitas pessoas daqui. A gente via ele trabalhando, não foi ninguém que indicou aleatoriamente. – Cristã, branca, estagiária, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Apesar de não lembrar, tenho a consciência de que, quando algum amigo ou alguma pessoa me pediu esses dois votos, vereador e deputado federal, eu quis ouvir qual era a proposta dos candidatos, qual era a pauta deles, o que eles estariam representando. Eu não sou alienada, de‘ai, toma esse santinho aqui, vai lá e vota pra mim que amanhã é eleição’, não. Eu li, pelo menos fui atrás de entender.“Amigo, por que você quer que eu vote no seu candidato?” E, se a ideia bate com as minhas, eu dei o meu voto. – Espírita, indígena, representante comercial, bolsonarista, de direita, 55 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 48 O que leva a votar em deputado federal ou vereador: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, os três grupos focais seguiram o mesmo padrão observado em Belo Horizonte. O presidente não governa sozinho, precisa da Câmara para aprovar. Então, eu tenho que ter um representante lá na Câmara para me representar, para representar os meus ideais. Por falta de conhecimento da gente, né, essa falta de conhecimento nos deixa cegos, a gente se torna ignorante. Até um tempo atrás, eu era uma total ignorante a respeito de política. Hoje, eu não sou expert em política, mas entendo um pouco. Procuro ficar a par do que está acontecendo no meu país. Não sou uma alienada, entendeu? – Evangélica, branca, analista de RH, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, centro-direita, 40 anos. Primeiro é olhar o Portal da Transparência do candidato. Como sou da Zona Oeste, e todo o capital gira em torno da Zona Sul, a Zona Oeste é uma parte um tanto quanto esquecida. Eu tento votar em pessoas que vieram daqui, que saíram daqui, que são mais regionais, para que eles se lembrem mais da parte da Zona Oeste – Cristão, preto, mestrando, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, centro-direita, 28 anos. Quando eles vão se apresentar para pedir voto, fazem toda aquela cena, e eles mesmos contam um roteiro, uma historinha que é pura mentira, pura ilusão. Eu procuro ir além, ver se a pessoa já foi envolvida com questão de roubo do governo, com todo esse tipo de coisa. Aí, se for, não presta. Você vê que tem um monte de gente aí que é sujo, mas aparece com pelezinha de cordeiro contando historinha bonita. – Evangélico, preto, separador, bolsonarista, direita, 40 anos. O que leva a votar em deputado federal ou vereador: São Paulo Em São Paulo, o padrão observado foi semelhante ao das outras duas cidades analisadas. É muito importante ver o Portal da Transparência, ter um conhecimento um pouco mais próximo desses candidatos, porque eu acho que é um dos únicos cargos políticos que estão mais próximos da gente. Muitas vezes, pode-se fazer uma visita ao gabinete, diferente de prefeito ou presidente. – Evangélico, branco, professor, bolsonarista, centro, 27 anos. A gente vota mais para ter melhorias no bairro e nas comunidades. São coisas tão pequenas que é fácil de atender, né? E a gente não consegue resolver aquilo. Então, a gente acaba votando em pessoas com SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 49 quem a gente se identifica para resolver aquele pequeno problema. – Católica, branca, auxiliar de enfermagem, petista, de esquerda, 26 anos. São as propostas dele, para o estado e para a região. É a proposta dele que faz ganhar meu voto, é uma boa proposta e me convence. – Católico, pardo, pedreiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro, 37 anos. Em seguida, perguntamos aos participantes se eles se lembravam de já ter votado em candidatos negros em algum momento. Como esperado, a maioria não conseguiu recordar de maneira precisa. No entanto, o mais interessante foi observar como os participantes refletiram sobre essa falta de memória. Voto em pessoas negras: Belo Horizonte Em Belo Horizonte, entre os evangélicos, três participantes afirmaram nunca ter votado, um votou em uma mulher negra que era sua própria mãe, e outro votou em uma pessoa negra, mas não se lembra do nome. Vale destacar a fala de uma entrevistada que mencionou ter votado em uma pessoa negra, embora não considere a questão racial como um critério importante em sua escolha. Já votei, mas não por ser negro, e sim porque acreditava nas ideias. Há muitos anos, uma família vinha se candidatando, irmão atrás de irmão. A gente queria algo novo, e o candidato concorrente era negro, então votamos por conta disso. – Evangélica, branca, coordenadora de vendas, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 29 anos. No grupo focal com participantes entre 18 e 30 anos, a maioria não conseguiu se lembrar de ter votado em candidatos negros. Apenas duas participantes se manifestaram: uma delas mencionou que havia votado em um candidato de sua região, embora não se recordasse do nome; a outra conseguiu lembrar o nome de dois candidatos, ambos também de seu bairro. Essas respostas sugerem que, para algumas pessoas jovens, a proximidade geográfica e o envolvimento local dos candidatos são fatores que facilitam a lembrança, enquanto a questão racial nem sempre é um aspecto prioritário ou memorável na escolha eleitoral. Eu já morei no bairro de São Miguel, e lá tem o Preto do Sacolão; eu já votei nele. Ele é um cara super bacana também. Quantos anos atrás? Acho que eu tinha 18 anos, uns dez anos atrás. E também no Capitão Willian, aqui do bairro União, perto da minha casa. Ele também é negro, e eu votei nele para vereador há uns oito anos atrás, mais ou menos. Sim, duas pessoas.” – Cristã, branca, estagiária, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 50 No grupo focal da capital mineira, composto por participantes entre 31 e 60 anos, três entrevistados não conseguiram se lembrar se já haviam votado em candidatos negros. Entre eles, duas pessoas tentaram justificar essa falta de lembrança, enfatizando que a questão racial não é um critério que consideram ao escolher seus candidatos. Eu não lembro. Mas eu votaria numa pessoa negra com tranquilidade, se eu conhecesse a pauta, a bandeira, sem o menor problema. Eu acho essa pauta, essa questão de pele, tão, tão estranha, sabe? – Espírita, indígena, representante comercial, bolsonarista, de direita, 55 anos. Não lembro de ter votado, mas eu votaria, desde que as propostas fossem boas. Eu não votaria só por ela ser negra, mas se ela tivesse boas propostas. – Católica, branca, assistente social, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 42 anos. Outros dois declararam o voto: Votei no meu amigo, Eudes, e, para a presidência, esqueci o nome daquela do PSOL, Marina. – Evangélico, preto, vendedor de perecíveis, não gosta nem detesta o PT e Bolsonaro, de esquerda, 38 anos. Acho que, para deputada estadual, eu votei numa mulher negra, chamava Andréia. Votei em uma mulher negra. – Católica, preta, intérprete, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 34 anos. Voto em pessoas negras: Rio de Janeiro No Rio de Janeiro, o grupo apresentou um padrão distinto, com muitos participantes lembrando votos em figuras bem conhecidas da política local, como Benedita da Silva, Marielle Franco e Romário, além de candidatos que atuam diretamente nos bairros onde residem. A proximidade desses candidatos com a comunidade e sua visibilidade em questões locais facilitaram essa lembrança. Entre aqueles que nunca haviam votado em candidatos negros, houve uma tentativa de justificar suas escolhas, mencionando que priorizam propostas e alinhamento com seus valores, em vez de critérios raciais. E eu não votei até mesmo pelas opções, né? Para presidente, acho que o único pardo ali era o padre, não lembro de outra. Eram todos brancos, mas nos outros segmentos também é pouco. A gente não tem tantas opções. Pelo menos não chega à gente. – Evangélico, branco, policial militar, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 30 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 51 Para deputado estadual, federal e vereador, eu tento sempre buscar principalmente mulheres e negras. Infelizmente, para governador e presidência, só tem duas opções; não é viável uma terceira via. Sempre vai estar entre duas pessoas que já são as pessoas que todo mundo conhece. Se eu pudesse votar em outra pessoa, não adianta nada estar jogando o meu voto fora. – Católica, branca, estudante, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-esquerda, 24 anos. Por outro lado, alguns dos participantes que nunca votaram em candidatos negros rejeitaram o critério racial como fator importante em suas escolhas eleitorais. Eles explicaram que priorizam outros aspectos ao decidir seus votos, como as propostas dos candidatos, o alinhamento político e as ações concretas realizadas por eles, independentemente da identidade racial. Não me recordo simplesmente porque não faço esse tipo de acepção. Não me importo se o cara é negro ou branco; me importa se ele é competente para aquela função e se ele coaduna com os meus valores, com os meus princípios. Eu creio que, em algum momento na vida, eu votei em um candidato negro, mas não levo isso em consideração. Até porque,‘ah, eu vou votar num corrupto porque ele é negro’? Pô, não faz sentido. – Católico, branco, consultor hospitalar, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, detesta o PT, de direita, 29 anos. Infelizmente, nunca votei em uma pessoa negra, mas para as próximas eleições vou tomar essa ciência de buscar ainda mais pessoas negras. Mas é aquilo, isso não é um problema de votar em pessoa negra ou branca; eu vou muito pela competência da pessoa, porque, assim, muita gente acha que só o branco que é ruim. Não, tem pessoas negras também que fazem maldade. Não é só o branco que faz maldade, negro também faz maldade, como qualquer outro ser humano. Então, eu vou pela competência, né? Mas, infelizmente, nunca votei numa pessoa negra. – Evangélico, branco, administrador de empresas, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 26 anos. Não me recordo também. Eu nunca olhei isso, nunca fez diferença pra mim. Sempre procurei votar pela competência, pelas propostas e pelos valores que considero relevantes. Se é branco, negro, indígena ou japonês, pra mim não importa. – Evangélico, pardo, analista de mudanças climáticas, bolsonarista, de direita, 29 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 52 No grupo focal composto por pessoas entre 31 e 60 anos, todos os participantes se lembraram de ter votado em candidatos negros em algum momento. Votei na Benedita porque a gente não vê muita oportunidade para as pessoas negras. Quando a gente vê alguém querendo essa oportunidade e percebe que não há muitos representantes, não só negros, mas de outras raças também, a gente olha e fala:‘Poxa, vou dar oportunidade para essa pessoa, para que ela venha entrar e talvez fazer a diferença, né?’ A gente não generaliza; não é porque um fez errado ou porque outro roubou que essa pessoa vai seguir o mesmo caminho. Talvez, dando essa chance para alguém com poucas oportunidades, essa pessoa possa fazer a diferença. – Evangélico, preto, porteiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, centro-esquerda, 48 anos. Eu me identificava com as propostas dela. No caso da Benedita, foi há bastante tempo, e lembro que ela era uma pioneira na política, em relação à cor e à mulher negra, e a plataforma dela, o que ela falava, me chamava muito a atenção. A Marielle, nem se fala; é até complicado de falar, me dói muito tudo o que aconteceu, e foi uma perda muito grande. Além de me identificar, acreditava muito no trabalho dela. – Evangélica, branca, assistente social, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de esquerda, 49 anos. Foi pelas propostas mesmo. Gostei também de ser uma mulher tentando alcançar essa parte da política, e gostei muito das propostas. Então, somaram as duas coisas. – Católica, branca, suporte a clientes, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, direita, 48 anos. Eu me lembro de todos os políticos falando, e ela, quando ia falar, apresentava o argumento dela e não só apresentava, mas mostrava que estava baseado na lei. Tanto em relação ao racismo quanto ao direito das mulheres, isso me fez ficar louco pela mulher, e foi por isso que ela ganhou meu voto. E, com certeza, Marielle também. – Evangélico, preto, separador, bolsonarista, direita, 40 anos. Foram as propostas, o plano de governo e tudo o que ela trouxe. Foi inovador, tanto para as mulheres quanto para a sociedade negra. Nossa, foi como um sopro de vida e uma representatividade enorme, pelo fato de ser mulher e ser negra. – Católico, preto, motorista de app, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, direita, 40 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 53 Voto em pessoas negras: São Paulo Em São Paulo, o padrão também foi diferente, com muitos participantes lembrando do ex-prefeito Celso Pitta, eleito em 1996, que foi mencionado com frequência. Pitta foi citado como uma figura importante e memorável entre os candidatos negros que chegaram a ocupar uma posição de destaque na política local. No entanto, fora essa lembrança, a maioria dos participantes afirmou não recordar de ter votado em outras candidaturas negras. Eu nunca tinha pensado nisso na vida. Fiquei até surpreso, porque sempre que vou votar em alguém fico muito preso nas propostas, às vezes até esqueço da imagem da pessoa. Se eu visse na rua, nem saberia quem é, porque fico muito preso ao plano de governo, ao partido e ao que ela vai fazer. Não estou sendo tendencioso, é sério. Nunca fiquei reparando como a pessoa se veste, a cor, se é magra, gorda, homossexual. Eu só não posso ter preconceito, que todos nós temos. Mas a única coisa que nunca tive muito foi isso de pensar pela política. Não vou votar nele só porque é negro. Mas, pera aí, e a proposta dele? Se ele tem uma proposta melhor do que aquele que é branco e vai fazer um monte de coisa errada… ainda bem que o Lula e o Bolsonaro são brancos, porque se fosse um branco e um negro, a briga ia ficar muito pior. – Evangélico, branco, professor, bolsonarista, centro, 27 anos. Eu vou pela proposta, não pela cor da pele. A proposta tem potencial. – Evangélica, preta, revendedora de jóias e lingeries, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de esquerda, 47 anos. Proposta, não é cor. Todo mundo é igual. – Evangélica, branca, manicure, bolsonarista, direita, 28 anos. A gente não tem que ir pela aparência; tem que ir pelas propostas, analisar o partido ou a candidatura para ver se realmente a proposta vai bater. Acho que a aparência, em relação a isso, não convém. – Evangélica, branca, do lar, petista, centro-esquerda, 38 anos. Eu não me recordo se já votei ou não, mas acredito que não, porque as pessoas negras são bem raras de se ver lá na frente. Os principais nomes para serem votados, os principais rostos que a gente vê nas eleições. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Não votei, não. Acho que foi por falta de informação, de contato, tanto na televisão quanto em propaganda, enfim. Acho que pode ter sido um dos motivos, ou talvez meu partido não tenha uma pessoa negra representando, ou talvez eu vote por influência dos meus pais. Então, acho que pode ser por isso que nunca votei até hoje. – Católico, branco, vendedor de roupas, bolsonarista, direita, 30 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 54 Não votei, porque nunca apareceu nenhum candidato negro que me fizesse querer votar nele. A cor não faz diferença. Nem sei se, se algum dos que votei fosse negro, eu teria votado do mesmo jeito. – Evangélico, branco, comerciante, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 28 anos. Eu nunca votei porque nunca ouvi algo assim chegar até a mim. Candidatos negros. Então, eu nunca votei porque não tive oportunidade de conhecer aquele candidato e o que ele estaria propondo para nós, se ganhasse, entendeu? – Umbandista, preto, auxiliar administrativo, petista, esquerda, 29 anos. Não me recordo de já ter votado em algum candidato negro, e também por essa razão: às vezes, não ver muita propaganda e votar em um partido que não tenha uma pessoa negra se candidatando. – Católica, branca, auxiliar de enfermagem, petista, de esquerda, 26 anos. Imagine se a gente fosse olhar para a cara da pessoa e falar:“ Ah, vou votar.” Acho que não é por aí. Não é porque a pessoa acha que tem que ter caráter; tem que mostrar o projeto, fazendo a coisa certa. Eu acho que é o que é certo, mas não vou votar só porque é negro ou branco, essas coisas, não. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula, mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, centro, 44 anos. Vou muito pelo plano de governo, porque não adianta votar pela cor da pele ou porque é um popstar negro, um jogador de futebol. Se ele não tiver um bom plano de governo, não vai adiantar a cor da pele. As vezes em que não votei não foi por causa da cor, e as vezes em que votei também não foi por causa da cor. – Sem religião, amarela, gerente comercial, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de direita, 46 anos. Na última fase do estudo, trabalhamos com os participantes para desenvolver ações concretas voltadas a reduzir a sub-representação de pessoas negras na política brasileira. O foco principal das discussões foi a proposta de cotas raciais na política, considerando diferentes formatos, como cotas para ocupação de cadeiras no parlamento, financiamento de campanhas e maior inclusão nas estratégias de comunicação política. Vale destacar que, embora essa tenha sido a principal direção conduzida pelos grupos focais, o tema das cotas raciais – não apenas na O tema das cotas raciais – não apenas na política, mas também em universidades e empresas – já havia surgido espontaneamente nas conversas anteriores em todas as três cidades e em todos os nove grupos focais. política, mas também em universidades e empresas – já havia surgido espontaneamente nas conversas anteriores em todas as três cidades e em todos os nove grupos focais. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 55 Ao analisar as opiniões sobre as cotas raciais, percebemos variações significativas entre as cidades. Em Belo Horizonte, as opiniões ficaram divididas de maneira equilibrada, com alguns participantes apoiando a medida e outros expressando dúvidas ou resistência. No Rio de Janeiro, a maioria dos participantes demonstrou uma leve inclinação favorável à implementação das cotas, indicando uma abertura maior para essa política na capital carioca. Em São Paulo, porém, a rejeição foi expressiva nos três grupos focais, refletindo uma resistência mais acentuada à ideia de cotas raciais na política entre os paulistanos. Esse contraste entre as cidades destaca as diferentes percepções e níveis de aceitação dessa política em cada região, refletindo contextos e dinâmicas locais que influenciam as opiniões sobre a representatividade racial. TABELA 3 – POSIÇÃO SOBRE AS COTAS Cidade A FAVOR DAS COTAS RACIAIS Belo Horizonte 9 Rio de Janeiro 10 São Paulo 0 Total 20 Fonte: Elaboração própria. CONTRA AS COTAS AS RACIAIS 9 8 18 34 A metodologia dos grupos focais nos permitiu aprofundar a discussão sobre temas relevantes, com foco final nas cotas raciais na política durante o encerramento das sessões. A metodologia dos grupos focais nos permitiu aprofundar a discussão sobre temas relevantes, com foco final nas cotas raciais na política durante o encerramento das sessões. Apresentamos dados que indicam a distribuição racial das candidaturas e dos eleitos nas eleições de 2022. No início da campanha eleitoral, em agosto, 49,49% das candidaturas eram de pessoas pretas e pardas, enquanto 48,93% eram de pessoas brancas. Foi a primeira vez, desde 2014(ano em que o TSE começou a recolher informações de raça/cor), que as candidaturas de pessoas negras superaram as de pessoas brancas. No entanto, após a apuração dos votos em 2 de outubro, o cenário dos eleitos mostrou 70% de pessoas brancas e apenas 30% de pessoas pretas e pardas. A maioria dos participantes reagiu aos números reafirmando o racismo como um dos motivos para essa disparidade, articulando essa percepção com justificativas sobre as desigualdades raciais e a sub-representação de pessoas negras na política brasileira. Contudo, ao longo do diálogo, algumas pessoas que inicialmente se posicionavam contra as cotas raciais reavaliaram suas opiniões. Um exemplo significativo foi o de uma participante em Belo Horizonte, do grupo de jovens entre 18 e 30 anos, que, embora inicialmente contrária às cotas, passou a afirmar que: Seus próprios dados corroboram que deveria haver cotas. – Evangélica, preta, atendente, gosta de Bolsonaro mas não se diz bolsonarista, de direita, 30 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 56 No Rio de Janeiro, durante o debate sobre cotas raciais na política, dois participantes do grupo etário de 18 a 30 anos mudaram de posição. Inicialmente contrários à adoção de cotas, eles reconsideraram suas opiniões à medida que a discussão avançava, influenciados tanto pelos dados apresentados quanto pelos argumentos trazidos pelo grupo. Não, não concordo... com o dinheiro público destinado a esse tipo de propaganda, vamos dizer assim, para ninguém. Acho que há muitas outras utilidades, muitas outras áreas que devem ser olhadas com mais atenção do que gastar dinheiro com esse tipo de coisa. Então, por mais que eu concorde que deva haver mais pessoas negras na política e que as pessoas devam ter mais acesso, etc., acho que nem branco, nem negro, nem ninguém deveria ter acesso a dinheiro dessa forma, considerando que há várias outras áreas da sociedade que precisam de investimento. – Cristão, preto, mestrando, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-direita, 28 anos. Não acho que o político deveria usar o dinheiro do Estado, né? Eu não sou a favor dos fundos partidários, porque o Estado já está precário. Então, a pessoa vai... é um dinheiro gasto. Questão de televisão: é um investimento alto... então, assim, não acho que isso seja interessante. Acho que a pessoa deveria fazer por outros meios, através de outros meios, então, enfim. E eu acho que seria até mais interessante ver essa disputa, que seria muito mais equilibrada, na minha visão, e mais interessante também. – Evangélico, branco, administrador de empresas, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 26 anos. Após o debate e ao tomarem conhecimento da discrepância entre o número de pessoas negras candidatas e o total de eleitas, os participantes começaram a refletir sobre as implicações dessa realidade para a representatividade na política. Se a gente tem uma sociedade majoritariamente negra, temos um pouco mais de 50% da população negra; na política, isso tem que ser refletido. Se não está sendo refletido, alguma coisa está errada. Porque a gente tem, no caso, mais brancos, que são a menor parte da população lá, e menos negros. Matematicamente, não bate; precisa ser equiparado. Eu concordo com cotas, com políticas afirmativas, no sentido de que elas sejam um agente que vá fomentar esse equilíbrio, que reflita a sociedade. Assim, não precisa ser eterno, não tem que ser para sempre, mas até que isso fique equilibrado, até que a gente tenha um reflexo na política do que é a sociedade. Então, talvez deva ser necessário, por força de lei, que haja mais políticos negros eleitos. Assim, talvez não uma cota que vá durar por muitos anos, mas algo que vá fomentar isso, justamente para que a gente tenha mais visibilidade dos candidatos, para que a gente consiga ter mais acesso a eles e que tenha o reflexo da sociedade na política. – Cristão, preto, mestrando, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro-direita, 28 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 57 Deveria dar mais visibilidade para as pessoas negras, criar algum tipo de reforma política: 50% branco e 50% negro, porque assim chegaria numa Câmara dos Deputados e diria:“pô, não tem só branco aqui”. Tem que ter negro também para poder levantar a voz e expressar o que acha, o que é certo para ele. – Evangélico, branco, administrador de empresas, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de direita, 26 anos. A principal mudança ocorreu em São Paulo, onde, no início, todos os participantes dos três grupos focais se declararam contrários às cotas raciais. No grupo de evangélicos, ninguém alterou sua posição, mantendo-se firme contra essa proposta. Entretanto, no grupo composto por jovens de 18 a 30 anos, cinco dos seis participantes mudaram de opinião e passaram a apoiar as cotas. Para compreender melhor essa mudança, começamos a registrar as falas dos participantes no primeiro momento, quando se posicionaram contra as cotas: Acredito nos direitos iguais. Tem que ser igual para os dois lados. Para mim, já é considerado um racismo só de ter essa política na empresa. Sabe, é igual você falar:‘eu gosto de negro, eu não sou racista, eu tenho amigo negro’; é tipo isso. – Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Também acho que não é o caminho. O caminho é esse: fazer uma diferenciação e dar mais tempo e mais dinheiro se estamos pedindo por igualdade. Sou contra também. – Evangélico, branco, comerciante, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 28 anos. E, na sequência, as falas favoráveis às cotas raciais na política: Sou a favor. Acho que, mesmo sendo muito louco, isso tem que haver. Tem que ter uma cota para ter negros lá dentro. É o único método de a gente conseguir entrar, e é subir lá e conseguir colocar ainda mais negros lá dentro. Ser mais visto.-- Sem religião, preta, lash designer, não gosta nem detesta Lula e Bolsonaro, de centro, 29 anos. Também sou a favor, no curto prazo. Se não é igual, não acho que seja a única forma de termos equilíbrio, mas acredito que seja um remédio a curto prazo. Tem que ter um trabalho por trás de passivo para quem a gente quer igualdade. – Evangélico, branco, comerciante, gosta de Lula, mas não se diz petista, de centro-esquerda, 28 anos. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 58 Finalmente, no grupo de 31 a 60 anos, três participantes mudaram de opinião ao serem questionados sobre as cotas raciais. Para compreender as diferentes posições, começamos registrando as falas que expressavam opiniões contrárias às cotas: Acho que o apoio tinha que ser mútuo, que tinha que ser para todos. Eu acho que, se se colocar um pouco mais para o outro, que é um país em que eu sou negro, mas eu não quero desigualdade; eu quero que todo mundo seja a mesma coisa. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula, mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de centro, 44 anos. Só se for um apoio que iguale os dois lados. Então, não adianta eu apoiar uma coisa que seja só por medo, que mais pra frente eles estejam atuando como superiores a um branco. E eu acho que o apoio a direitos iguais, no caso, apoia-se no ponto de vista. – Católico, pardo, pedreiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro, 37 anos. Por fim, registramos a mudança de posição em favor das cotas raciais: Porque, às vezes, a pessoa que se candidatou, a pessoa negra, não tem tanta condição. Às vezes, ela está fazendo um bom trabalho, mas não tem força para chegar ao governo. Porque um número bate e o outro não. Então, alguma coisa tem. A gente tem que ver: por que alguma coisa tem preconceito? Não sei. Não teve uma verba, não teve. Então, acho que, tendo o apoio, vai bater, vai ficar, vai nivelar. Não estou querendo dizer que é racismo, não, mas às vezes é bom, né? Então, vamos pegar o apoio, porque estamos nessa base; não estamos aqui para falar que é em branco e negro, essa coisa, mas se é para falar em apoio, é uma coisa melhor para todos. Então, que venha o apoio. Por isso que eu apoio. Às vezes, tem gente que é melhor que a pessoa, mas não chega. Mas ele não teve um apoio, entendeu? Infelizmente, é assim que funciona. Para chegar ao mérito mesmo, não é tão fácil. – Evangélico, preto, vendedor, gosta de Lula, mas não se diz petista, gosta de Bolsonaro, mas não se diz bolsonarista, de centro, 44 anos. Sim, se eles procuram a igualdade. Nada mais básico que isso. Por isso, eu digo sim. Se você quer igualdade, começa por aí. É como muitos negros: não têm espaço. – Católico, pardo, pedreiro, gosta de Lula, mas não se diz petista, detesta Bolsonaro, de centro, 37 anos. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 59 TABELA 4 – POSIÇÃO SOBRE AS COTAS DEPOIS DO DEBATE Cidade A FAVOR DAS COTAS RACIAIS Belo Horizonte 10 Rio de Janeiro 11 São Paulo 8 Total 29 Fonte: Elaboração própria. CONTRA AS COTAS AS RACIAIS 8 7 10 25 A conclusão demonstra que as percepções sobre as cotas raciais mudaram substancialmente, especialmente quando os participantes foram confrontados com dados sobre desigualdades raciais e a sub-representação política de determinados grupos. Essa mudança foi significativa: a ampla maioria que inicialmente se opunha às cotas passou a adotar uma posição favorável após as discussões. No início, apenas o Rio de Janeiro apresentava uma predominância de pessoas a favor das cotas; posteriormente, essa tendência também foi observada em Belo Horizonte. Por fim, em São Paulo, o cenário mudou para um equilíbrio entre opiniões favoráveis e contrárias, contrastando com a rejeição inicial unânime às cotas nos três grupos focais. Essa transformação revela um avanço na conscientização sobre a importância das cotas como um mecanismo para combater desigualdades históricas e promover uma representação mais equitativa. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 60 A Agenda Antirracista – 2 as Convicções Políticas e a Sensibilidade Racial no Brasil A pesquisa apresentada nos permite uma melhor compreensão da percepção do eleitorado em relação a diferentes questões, incluindo racismo, desigualdades raciais e de gênero, ideologia e polarização política. O tema das desigualdades raciais e do racismo ocupou um lugar de destaque no debate público e acadêmico, configurando um desdobramento importante para a disputa política, especialmente no que se refere ao alijamento de pessoas negras dos espaços de representação política e da formulação de políticas públicas. As respostas dos participantes dos grupos focais nas três cidades mostraram que o tema se apresentou de diferentes formas. Em geral, há um reconhecimento do racismo como um problema social que precisa ser enfrentado, algo que é indicado em diversas pesquisas sobre o assunto. Ou seja, a maioria dos É possível afirmar que a brasileiros compreende que existe racismo no Brasil, e essa percepção se questão racial permeia os reflete na posição dos participantes dos grupos focais. Contudo, essa debates eleitorais e é articulada posição varia quando são confrontados com questões práticas e suas pelos eleitores de diferentes escolhas pessoais, como votar ou não em uma pessoa negra. maneiras, indicando diversas formas de enfrentar o problema É possível afirmar que a questão racial permeia os debates eleitorais e é da desigualdade racial. articulada pelos eleitores de diferentes maneiras, indicando diversas formas de enfrentar o problema da desigualdade racial. Os eleitores de direita, por exemplo, são fortemente influenciados por valores tradicionais, como a defesa da família, da moralidade religiosa e da ordem social, o que molda sua postura em relação à questão racial. Embora reconheçam a existência do racismo, muitos tendem a rejeitar políticas afirmativas e preferem uma abordagem baseada na meritocracia. Um participante de Belo Horizonte, ao se identificar como de direita, reforçou sua convicção de que as soluções para o racismo deveriam ser guiadas pelos“princípios bíblicos” e pela “família tradicional”, sem intervenções diretas do Estado em termos de cotas raciais. A preocupação com o“excesso” de políticas de inclusão é evidente, refletindo o temor de que tais medidas possam alterar a ordem social que valorizam. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 61 No entanto, mesmo entre o eleitorado de direita, há críticas à polarização extrema. Um participante de São Paulo, embora defensor de Bolsonaro, reconheceu que o comportamento do líder é, por vezes,“tosco”, gerando desconforto até mesmo entre seus apoiadores. Esse eleitorado é cauteloso ao abordar temas sensíveis como o racismo, preferindo manter o foco em princípios morais e na manutenção da ordem, sem se envolver em discussões que consideram excessivamente polarizadoras. A decisão de votar é justificada por questões relacionadas ao mérito e às qualificações do candidato, sempre articulada com suas perspectivas ideológicas e morais, rejeitando a questão racial como um critério para a escolha do voto. Por outro lado, os eleitores de esquerda se posicionam de forma mais aberta e crítica em relação à questão racial. Muitos apoiam abertamente políticas afirmativas, mas evitam adotar posições vistas como radicais. Um exemplo é uma eleitora petista de São Paulo que, apesar de reconhecer os problemas de corrupção dentro de seu partido, continua a defender os princípios de igualdade social e inclusão A agenda estritamente racial, posicionando-se como crítica, mas comprometida com as causas racial parece não ter muita progressistas. Para esses eleitores, a questão racial é central, e a inclusão adesão, uma vez que o tema de negros nos espaços de poder é vista como fundamental para a consprecisa estar associado a outras trução de uma democracia mais justa. Contudo, a agenda estritamente questões consideradas prioritárias racial parece não ter muita adesão, uma vez que o tema precisa estar e que envolvem temas comuns associado a outras questões consideradas prioritárias e que envolvem ao campo da esquerda. temas comuns ao campo da esquerda. Os eleitores de centro, por sua vez, demonstram uma clara rejeição ao que chamam de extremismo, buscando evitar posicionamentos radicais, tanto à direita quanto à esquerda, ao lidar com a questão racial. Eles reconhecem a existência do racismo e a sub-representação de negros na política, mas preferem soluções moderadas que considerem as necessidades de inclusão sem promover rupturas bruscas. Um participante de Belo Horizonte, por exemplo, se declarou de centro exatamente por evitar os“extremos” e expressou uma visão de equilíbrio ao avaliar propostas políticas relacionadas à inclusão racial. Esse eleitorado muitas vezes vê o debate racial como necessário, mas defende uma abordagem que dilua conflitos com algum caráter ideológico. Como dito anteriormente, há uma mudança de percepção dos eleitores ao serem confrontados com dados sobre a sub-representação de negros na política. Inicialmente, muitos afirmam que não veem candidatos negros, mas, ao serem apresentados à realidade dessa disparidade, admitem que há algo estranho. Alguns sugerem que, se esses candidatos não estão sendo vistos, o problema pode estar na forma como organizam suas campanhas. De alguma forma, as diferenças de financiamento eleitoral e de mobilização de recursos entre brancos e não-brancos influenciam a capacidade das candidaturas de chegarem com suas respectivas campanhas. Isto é, embora tenhamos uma quantidade significativa de candidaturas, elas provavelmente detêm poucos recursos e têm pouca capacidade de alcançar os eleitores. Os entrevistados compartilham a crença de que a internet seria um espaço“gratuito” e acessível a todos, o que não leva em consideração as limitações de recursos enfrentadas por candidatos negros. Além disso, mesmo diante dessas informações, há eleitores que reafirmam consistentemente que a raça não deve ser um critério de escolha eleitoral. Eles argumentam que suas decisões OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 62 de voto se baseiam na competência e nas propostas dos candidatos, não na cor da pele. Esse discurso reflete uma resistência em vincular diretamente a questão racial às decisões eleitorais, reforçando a ideia de que, embora reconheçam o racismo, ele não deveria influenciar suas escolhas políticas. Ou seja, apesar de o eleitorado, independentemente da orientação política, reconhecer que o racismo é um problema, há uma clara divisão sobre como enfrentá-lo. Os eleitores de direita tendem a ver as políticas afirmativas com ceticismo, enquanto os de esquerda apoiam amplamente medidas inclusivas, como cotas raciais, para aumentar a participação de pessoas negras na política e em espaços de prestígio. Os de centro, por sua vez, procuram uma via de diálogo, sem rejeitar completamente essas medidas, mas preferindo uma aplicação mais cautelosa e menos polarizadora. As candidaturas que desejam conquistar os votos e assumir uma agenda Portanto, a questão racial é um tema transversal à política e ao cotidiano das pessoas; no entanto, elas não buscam estabelecer suas preferências eleitorais em função da raça. O antirracismo é articulado de forma difusa, incorporando questões mais gerais, como território, proximidade, religiosidade e posição. Se, por um lado, os eleitores não votam com base antirracista devem fazê-lo em articulação com outras agendas eleitorais mais sensíveis aos eleitores, como saúde, educação, etc. em aspectos raciais, nada indica que deixem de votar em determinado candidato por ele ser negro ou branco. Assim sendo, as candidaturas que desejam conquistar os votos e assumir uma agenda antirracista devem fazê-lo em articulação com outras agendas eleitorais mais sensíveis aos eleitores, como saúde, educação, etc. Em suma, o tema racial no Brasil é extremamente sensível e impacta o eleitorado. A questão da sub-representação de pessoas negras na política mobiliza diferentes respostas de acordo com a ideologia de cada grupo, evidenciando que, embora haja um reconhecimento generalizado da existência do racismo, as soluções propostas e o nível de envolvimento variam amplamente. Para a direita, trata-se de preservar valores tradicionais; para a esquerda, é uma luta por justiça social; e para o centro, trata-se de encontrar um equilíbrio sem abraçar o extremismo. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 63 3 Considerações finais – Para avançar na agenda antirracista na política brasileira O processo de mudança de opinião sobre as cotas raciais, como discutido nos grupos focais, revela um enorme potencial de mobilização em torno da subO quadro político para a agenda antirracista na -representação de pessoas negras na política brasileira. Vamos explorar isso em mais profundidade nas considerações finais. política brasileira é complexo e desafiador. Um ponto de partida inegável é o reconhecimento de que o racismo é um problema grave na sociedade brasileira e precisa ser combatido. O quadro político para a agenda antirracista na política brasileira é complexo e desafiador. Um ponto de partida inegável é o reconhecimento de que o racismo é um problema grave na sociedade brasileira e precisa ser combatido. Essa percepção apareceu com força em todos os grupos focais realizados e converge com resultados de diversas outras pesquisas quantitativas e qualitativas sobre o tema. O grande desafio, portanto, é transformar esse diagnóstico geral em uma adesão concreta do eleitorado tanto às medidas que combatem a desigualdade racial na política quanto ao ato de votar em candidaturas negras, com o objetivo de reduzir, de fato, a sub-representação de pessoas negras nos parlamentos federal, estadual e municipal. Geralmente, há uma tendência de as pessoas reconhecerem o problema, mas de maneira abstrata, sem assumir muita responsabilidade individual. Um exemplo disso foi a recorrência, nos grupos focais, de respostas que pediam uma legislação mais rigorosa e uma“fiscalização” para garantir sua implementação, indicando uma expectativa de que o Estado deveria liderar essas ações. Houve também, em todos os grupos, a defesa da necessidade de uma educação antirracista desde a infância como uma medida de combate ao racismo estrutural. Por um lado, essa postura é positiva, uma vez que há um consenso geral sobre a importância da educação no combate ao racismo. No entanto, propostas como essas muitas vezes acabam se tornando vazias, como ocorre com o discurso generalizado de que“a educação é a base para resolver os problemas do Brasil”. OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 64 Para enfrentar essa tendência generalista, priorizamos duas pautas fundamentais da agenda antirracista na política brasileira: as cotas raciais e o voto em candidaturas negras. Acreditamos que ambas têm o potencial de produzir mudanças substanciais na representação de pessoas negras nas casas legislativas em curto prazo. Em relação às cotas raciais, abordamos na seção anterior o potencial de aceitação dessa política pelo eleitorado em geral. Aqui, é essencial que partidos políticos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil desenvolvam uma campanha eficaz em defesa das cotas, fundamentada nos dados sobre sub-representação. Quanto ao voto em candidaturas negras, observamos que, entre os 54 entrevistados, 23(cerca de 45%) afirmaram já ter votado em pessoas negras, enquanto 31(cerca de 55%) disseram que nunca o fizeram. Mesmo entre participantes negros, esse cenário não muda significativamente: dos 25 entrevistados negros, 11(aproximadamente 45%) disseram já ter votado em candidatos negros, enquanto 14(55%) não o fizeram. Muitos rejeitam a raça como um critério relevante para o voto, afirmando que suas escolhas se baseiam em“propostas” e “projetos” dos candidatos, assim como em recomendações de Além disso, embora a maioria dos que já votaram em candidaturas negras amigos e familiares. veja esse voto como necessário, poucos o consideram um critério decisivo para suas escolhas eleitorais. Pelo contrário, muitos rejeitam a raça como um critério relevante para o voto, afirmando que suas escolhas se baseiam em“propostas” e“projetos” dos candidatos, assim como em recomendações de amigos e familiares. A ideia de uma“igualdade abstrata” fundamenta o argumento dos que se opõem às cotas raciais na política. Contudo, ao apresentarmos dados concretos sobre desigualdade e sub-representação, conseguimos mudar a opinião de várias dessas pessoas, fazendo com que uma maioria antes contrária às cotas passasse a apoiá-las. Acreditamos que o mesmo processo pode ocorrer em relação ao voto em pessoas negras. Mais pesquisas são necessárias para confirmar essa hipótese, mas nosso ponto de partida é que o caminho para desconstruir a hegemonia da“igualdade abstrata” envolve o uso mais frequente de dados sobre a sub-representação de pessoas negras na política, aliado a uma concepção de justiça que considera a luta pela igualdade como um compromisso incondicional com o combate ao racismo e com o aumento da representatividade de pessoas negras nos parlamentos nacional, estaduais e municipais. Em resumo, propomos uma campanha ampla em favor das cotas raciais, fundamentada nos dados sobre sub-representação, e o desenvolvimento de uma mensagem que una combate ao racismo, justiça e igualdade, com o objetivo de promover o voto em pessoas negras. Essas são as duas propostas que trazemos para o debate com a sociedade civil brasileira, comprometida em fazer a agenda antirracista avançar. SUMÁRIO OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA 65 Ficha técnica Andressa Oliveira Publicitária e Cientista Social, mestranda em Sociologia pelo PPGSA-UFRJ. Atua como articuladora política na rede Mulheres Negras Decidem(MND), onde conduziu a pesquisa“Por que Votar em Mulheres Negras: Balanço dos Mandatos das Parlamentares Negras(2019-2023)”. Colabora no Observatório de Favelas(OF) e no Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa(Gemaa). Trabalha com comunicação e engajamento, além de desenvolver pesquisas voltadas para política e desigualdades. Josué Medeiros Cientista Político e professor da UFRJ. É coordenador do Observatório Político e Eleitoral(OPEL) e do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira(NUDEB), além de pesquisador do Perifalab. Estuda a política brasileira contemporânea desde 2011, com foco em partidos, eleições e na relação entre as instituições e a sociedade civil organizada. Mariane Almeida Advogada, mestre em Direito pelo PPGD-UFMG e pós-graduanda em Direito Eleitoral. Atua como assessora técnica no Instituto Alziras e é articuladora política do movimento Mulheres Negras Decidem. Suas pesquisas abordam representação política de raça e gênero, bem como ferramentas de inovação democrática. Participou da pesquisa“Como Vota o Eleitorado do Norte e Nordeste” pelo Enegrecer a Política e da pesquisa“Por que Votar em Mulheres Negras: Balanço dos Mandatos das Parlamentares Negras(2019-2023)”, conduzida pelo MND. Wescrey Portes Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ, coordena o Observatório Político e Eleitoral(OPEL) e atua como articulador do Perifalab. Foi membro da executiva da União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro (UEE-RJ) entre 2013 e 2015, e participa do Coletivo Nacional de Juventude Negra Enegrecer e do Movimento Negro Unificado. Sua pesquisa foca em raça e eleições, com especial interesse nas trajetórias de políticos negros. Publicou o artigo“Benedita de Silva: Conflito Interno e Questão Racial no PT dos Anos 1990” na segunda edição dos Cadernos Afro Cebrap. Desenvolve estudos nas áreas de sociologia política, relações raciais, partidos, eleições, movimentos negros e representação no Brasil. Projeto gráfico e diagramação Oficina 22 Estúdio Design Gráfico e Digital OBSERVATÓRIO POLÍTICO E ELEITORAL – FUNDAÇÃO TIDE SETUBAL – FRIEDRICH EBERT STIFTUNG SUMÁRIO AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA ISBN: 978-65-83333-08-7 9 786583 333087 AGENDA ANTIRRACISTA E A POLÍTICA BRASILEIRA