C AE TS TE GU OD ROY Vânia Ribeiro, Lyda Fernanda Forero, Nora Sagastume, Tahira Vargas García e Melina Vázquez Setembro 2025 A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe Mapeamento de experiências de participação , illustration, Title photo r area icon or colou Friedrich-Ebert-Stiftung Centro Regional Sindical Gral. Arturo Baliñas 1145, Piso 8 Montevidéu, Uruguai Responsáveis Dörte Wollrad, Diretora Viviana Barreto, Diretora de Projetos Aníbal Peluffo, Diretor de Projetos Coordenação de publicações Ana Paula García Erramuspe Correção Laura Zavala Tradução Marise Carvalho Design e diagramação Cooperativa de comunicación SUBTE ISBN: 978-9915-9833-5-6 Mais informações: ↗ www.sindical.fes.de Contato: sindical@fes.de Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas Secretaria-Executiva da CSA Fred Redmond, Presidente Francisca Jiménez, Presidente adjunta Toni Moore, Presidente adjunta Siobhán Vipond, Presidente adjunta Rafael Freire Neto, Secretário-geral Cícero Pereira da Silva, Secretário de Formação e Educação Sindical Kaira Reece, Secretária de Desenvolvimento Sustentável Nallely Domínguez, Secretária de Políticas Sociais Marcelo Di Stefano, Secretário de Fortalecimento e Organização Sindical Todos os direitos reservados© 2025, Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das AméricasBuenos Aires 404/406, CP 11000, Montevidéu, Uruguai, ↗ www.csa-csi.org A Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas(CSA) é a expressão sindical mais importante do continente americano. Fundada em 27 de março de 2008 na Cidade do Panamá, filia 53 organizações nacionais de 21 países, que representam 55 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. A CSA é a organização regional da Confederação Sindical Internacional(CSI). A Fundação Friedrich Ebert(FES) foi criada em 1925 e é a fundação política mais antiga da Alemanha. É uma instituição privada e de utilidade pública, comprometida com o ideário da democracia social. Deve seu nome a Friedrich Ebert, primeiro presidente alemão democraticamente eleito, e dá continuidade ao seu legado, concretizando os valores de liberdade, solidariedade e justiça social. Realiza essa tarefa na Alemanha e no exterior por meio de seus programas de formação política e cooperação internacional, do apoio a bolsistas e da promoção à pesquisa. O Centro Regional Sindical tem como objetivo principal trabalhar junto do movimento sindical na América Latina e Caribe, a fim de contribuir para fortalecer sua capacidade de formular propostas e estratégias para enfrentar os múltiplos desafios nos âmbitos nacional, regional e global. O uso comercial de todos os materiais editados e publicados pela Friedrich-Ebert-Stiftung(FES) fica proibido salvo por autorização prévia e por escrito da FES. As opiniões expressas nesta publicação não representam necessariamente as da Friedrich-Ebert-Stiftung ou as da organização para a qual trabalham os/as autores/as das entidades que patrocinaram a pesquisa. Vânia Ribeiro, Lyda Fernanda Forero, Nora Sagastume, Tahira Vargas García e Melina Vázquez Setembro 2025 A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe Mapeamento de experiências de participação Sumário 1. Introdução....................................................... 4 2. Objetivos do mapeamento.......................................... 5 3. Metodologia...................................................... 6 3.1. Coleta de dados............................................... 6 3.2. Âmbito de aplicação e limitações do mapeamento.................. 6 4. Perfil sociodemográfico da juventude mapeada......................... 8 4.1. Características demográficas(gênero, idade, nível de educação)....... 8 4.2. Setores de trabalho............................................ 9 5. A juventude no sindicalismo........................................ 10 5.1. Importância da participação da juventude no sindicalismo........... 10 5.2. Estudo FES“Juventude: desafio pendente”........................ 11 6. Contexto e antecedentes........................................... 12 6.1. Evolução da participação da juventude no sindicalismo............. 12 6.2. Juventude sindical e movimentos sociais......................... 12 6.3. 1° Encontro da Juventude Trabalhadora das Américas e contribuições centrais da CSA.................................................. 13 6.4. Contribuições essenciais da CSA................................ 13 7. Mapeamento de experiências de participação......................... 15 7.1. Canais de integração e aproximação do sindicato.................. 15 7.2. Motivações e expectativas da juventude.......................... 16 7.3. Percentagem de jovens filiados/as à central sindical................ 17 7.4 Benefícios percebidos da filiação sindical.......................... 17 7.5. Razões principais para participar no sindicalismo................... 17 7.6. Iniciativas da juventude no movimento sindical.................... 18 7.7. Gênero e identidades jovens no sindicalismo...................... 18 2 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 8. A juventude em cargos de liderança no sindicalismo.................... 21 9. Barreiras e desafios............................................... 22 9.1. Obstáculos internos: políticas e práticas sindicais que limitam a participação da juventude........................................ 22 9.2. Obstáculos externos: contexto sociopolítico e econômico, práticas antissindicais e criminalização...................................... 23 10. Oportunidades e chaves para a mudança............................ 25 11. Fortalecimento e transformação sindical............................. 27 11.1. Perspectivas da juventude para o fortalecimento e a transformação sindical nas Américas............................................. 27 11.2. Inovações e mudanças organizacionais impulsionadas por jovens.... 27 11.3. Algumas vozes de jovens entrevistados/as....................... 28 12. Reflexões finais: Juventude sindicalista, presente e protagonista da transformação social........................................... 29 13. Propostas de acompanhamento e continuidade do mapeamento........ 30 Referências bibliográficas............................................ 31 A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 3 1. Introdução O presente mapeamento parte de uma série de dúvidas fundamentais que interpelam o porvir do sindicalismo na nossa região. Nós nos perguntamos: como os jovens se vinculam com as organizações sindicais na atualidade? São atores que participam ou permanecem à margem? Percebem essas estruturas como relevantes ou as consideram obsoletas em face de suas realidades? Visualizam uma trajetória política dentro do sindicalismo ou sentem que é alheio a seus interesses? De que maneira seu envolvimento está modelado pela precariedade do trabalho? Com que elementos do sindicalismo se identificam e quais geram distância ou rejeição? Finalmente, como podemos construir modelos de organização mais inclusivos, representativos e conectados com jovens trabalhadores/as? Estas perguntas nucleares guiam a análise desenvolvida neste estudo. Seu objetivo central baseia-se em compreender as modalidades de participação, os obstáculos enfrentados, as motivações de sindicalistas jovens e as propostas que apresentam na América Latina e no Caribe. Interessa-nos especialmente explorar a diversidade de experiências militantes, as tensões inerentes à urgência de subsistir em contextos trabalhistas precários e o anseio da transformação coletiva, incluindo as novas formas de compromisso que transcendem as vias tradicionais para a liderança sindical. Por meio de uma metodologia de pesquisa mista, aspiramos contribuir com insumos que enriqueçam o debate político sobre o fortalecimento e a transformação sindical a partir de um ponto de vista crítico, interseccional e comprometido com o protagonismo juvenil. Um dado eloquente que destaca a relevância destas perguntas é que a filiação sindical entre a juventude trabalhadora é significativamente menor em comparação com outros grupos etários. Este fenômeno revela desafios estruturais profundos para o presente e o futuro do sindicalismo. Diante de um panorama de múltiplas crises, existe um amplo consenso sobre as dificuldades enfrentadas pelos sindicatos para atrair e reter militantes jovens, além de garantir sua representatividade nos espaços de decisão. Para abordar este desafio, a Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas(CSA), em parceria com o Projeto Sindical Regional da Fundação Friedrich Ebert(FSR), promove este estudo com o objetivo de mapear a participação juvenil nas centrais sindicais da América Latina e do Caribe. O estudo visa determinar quantos jovens integram os órgãos de direção, em que espaços participam e quais foram suas trajetórias organizacionais. 4 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 2. Objetivos do mapeamento O principal objetivo deste mapeamento é analisar a participação da juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe, com ênfase especial em jovens que integram as centrais sindicais filiadas à CSA. Como complemento, o estudo se propõe caracterizar a juventude trabalhadora da região a partir das perspectivas sociodemográfica e laboral, usando informações provenientes do Sistema de Informações do Observatório Laboral das Américas(OLA-CSA). Seu foco está na identificação dos âmbitos e das formas de participação sindical das pessoas jovens, cargos que ocupam, principais obstáculos que observam, políticas e recursos existentes para sua inclusão, além das trajetórias de militância desenvolvidas dentro das organizações sindicais. A análise procura contribuir para o fortalecimento da inclusão e o protagonismo juvenil no movimento sindical, reconhecendo o papel estratégico dos/das jovens na revitalização das organizações em um contexto marcado por transformações estruturais do mundo do trabalho e dos vínculos sociais. 5 3. Metodologia 3.1. Coleta de dados O estudo adotou uma abordagem metodológica mista, combinando técnicas de coleta de dados qualitativas e quantitativas para caracterizar a participação juvenil no sindicalismo da América Latina e do Caribe. O mapeamento incluiu entrevistas semiestruturadas a 24 jovens e en quetes online respondidas por 38 participantes do 2° En contro Continental da Juventude Trabalhadora das Américas(ECJTA), bem como observação direta não participante durante as atividades do Encontro. Adicionalmente, em fevereiro de 2025, foram realizados quatro grupos focais vir tuais, cada um composto por jovens – entre quatro e seis – de diferentes países da região. Foram empregadas quatro estratégias: 1. Questionário online: um instrumento único foi aplicado a 38 participantes do 2° Encontro Continental da Juven tude Trabalhadora das Américas(ECJTA), realizado entre os dias 25 e 27 de novembro de 2024 em San Pedro Sula, Honduras. O questionário incluiu perguntas abertas e fechadas, dirigidas a reunir dados sociodemográficos, níveis de participação e percepções sobre obstáculos e motivações vinculados à ação sindical. 2. Entrevistas semiestruturadas: A partir dos resultados da enquete, a equipe pesquisadora elaborou um guia de perguntas para entrevistas semiestruturadas, técnica qualitativa que combina um roteiro previamente desenhado com a flexibilidade de adaptar a ordem, incluir novas perguntas e aprofundar nos tópicos de acordo com as respostas e experiências de cada entrevistado/a. Os/as jovens foram selecionados/as de uma lista fornecida pela CSA, procurando garantir a diversidade de gênero(mulheres, homens e pessoas LGBTIQ+). 3. Observação direta não participante: durante o Encontro, a equipe pesquisadora realizou um acompanhamento sistemático das interações entre as/os jovens e seu vínculo com as atividades desenvolvidas. Esta técnica proporcionou informações contextuais relevantes e permitiu identificar padrões de participação, dinâmicas de grupo e posturas perante o sindicalismo. 4. Grupos focais: nos dias 26 e 28 de fevereiro de 2025, fo ram realizadas quatro sessões virtuais de grupos focais com jovens de diferentes países da região. A composição dos grupos foi definida considerando uma representação diversa para captar experiências e perspectivas diferentes, incluindo alguns/algumas jovens não sindicalizados/as. Esta segmentação permitiu explorar mais profundamente as trajetórias, percepções e desafios específicos que a juventude enfrenta na sua relação com o movimento sindical. Ao longo de todo o processo, foram implementados controles periódicos para garantir a qualidade e a coerência dos dados. Sempre que foram identificadas lacunas ou desequilíbrios, aplicaram-se instrumentos complementares para corrigi-los. Quanto ao perfil dos/das participantes no Encontro, foram priorizadas as posições de liderança em suas respectivas organizações, o que permitiu aprofundar os debates e compreender as trajetórias de militância juvenil. No entanto, é importante assinalar que a amostra inclui somente pessoas que assistiram ao 2° ECJTA e não representa o conjunto da juventude trabalhadora da região. Esta limitação salienta a necessidade de incorporar, em futuras etapas, as vozes de jovens que estão fora do sindicalismo formal, com o fim de articular as dinâmicas organizacionais com as realidades mais amplas do mundo laboral juvenil. 3.2. Âmbito de aplicação e limitações do mapeamento O mapeamento se concentrou na exploração de informações sobre diversos perfis jovens vinculados ao sindicalismo na América Latina e no Caribe, especialmente naqueles/as que integram centrais sindicais filiadas à CSA. Em particular, apontou a jovens integrantes do Comitê da Juventude Trabalhadora das Américas(CJTA-CSA), secretários/as de juventude das centrais sindicais filiadas à CSA, jovens sindicalizados/as ativos/as com cargos em sindicados filiados, e jovens sindicalizados/as sem cargos nem participação ativa, mas que integram sindicatos membros de centrais filiadas. Esta diversidade de perfis esteve presente no 2° ECJTA, evento que constituiu um espaço crucial de diálogo, troca e reflexão sobre o papel dos/das jovens no movimento sindical regional. Não obstante, o estudo apresenta algumas limitações importantes: 6 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe → Tempo limitado: o breve período disponível para a realização do mapeamento pode ter restringido a profundidade e a amplitude da análise. → Ausência de dados prévios sistematizados: a falta de informações estatísticas consolidadas sobre juventudes sindicais na região, tanto no âmbito público como dentro do próprio movimento sindical, dificultou a contextualização e a elaboração de uma caracterização mais robusta do universo juvenil trabalhador. Finalmente, é crucial reiterar que a amostra não é representativa do conjunto da juventude trabalhadora da região, referindo-se exclusivamente a jovens que participaram no 2° ECJTA e atividades posteriores. Apesar destas limita ções, os insumos obtidos permitem visibilizar tendências, desafios e oportunidades-chave para fortalecer a participação juvenil no sindicalismo regional. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 7 4. Perfil sociodemográfico da juventude mapeada A partir dos insumos reunidos por meio de 38 respostas à enquete online, 24 entrevistas presenciais realizadas duran te o 2° ECJTA, e 4 grupos focais com jovens de diversos países, foi possível identificar os principais desafios enfrentados pelos jovens vinculados ao sindicalismo nas Américas. Esta amostra representativa foi usada para construir um perfil que reflete a diversidade de trajetórias e níveis de participação nos espaços sindicais da região. Cabe destacar que este perfil não representa, em sentido estrito,“a juventude sindicalista das Américas”, mas pessoas jovens com diferentes graus de envolvimento no âmbito sindical. 4.1. Características demográficas(gênero, idade, nível de educação) Os resultados sobre a participação por gênero provêm exclusivamente da enquete online realizada durante o 2° ECJTA. Do total de pessoas entrevistadas, 55,50 se identifi caram como mulheres cisgênero, 35,6% como homens cis gênero, e 8,9% optaram por não especificar seu gênero. GRÁFICO 1. Identidade de gênero da juventude participante no 2° ECJTA 8,9% 35,6% 55,5% Mulheres cisgênero Homens cisgênero Preferem não informar Quanto à idade, a distribuição percentual revela uma forte concentração na faixa etária acima dos 30 anos, que repre senta a maior parcela de engajamento. Esta tendência sugere que o perfil dominante corresponde a jovens em transição para uma etapa de maior consolidação profissional e sindical. GRÁFICO 2. Distribuição percentual de participantes por idade Percentagem (%) 11,3% 11,3% 11,3% 11,3% 10 9,7% 8 6 4 3,2% 4,8% 4,8% 3,2% 6,5% 2 1,6% 1,6% 1,6% 1,6% 1,6% 8,1% 6,5% 0 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 Idade O mapeamento incluiu jovens com nível elevado de formação acadêmica. Mesmo entre aqueles/as que ainda não ingressaram no ensino superior, a maioria expressou a vontade de fazê-lo. Os resultados mostram que 57,6% das pessoas entrevista das possuem ensino superior completo, com formação técnica ou universitária. Outras 20,8% não concluíram seus es tudos superiores – alguns ainda estão cursando e outros abandonaram a carreira. Além disso, 9,6% não informaram seu nível de educação. Uma percentagem menor revela não ter finalizado os níveis básico ou médio. A combinação da educação formal com processos de capacitação sindical promovidos por suas próprias organizações é uma força importante para a juventude, pois amplia seus recursos de ação e fortalece sua liderança coletiva. A formação é uma ferramenta essencial para potencializar a capacidade de análise crítica, de incidência, de participação ativa e de projeção dentro do movimento sindical. 8 Centro Regional Sindical en América Latina y el Caribe GRÁFICO 3. Nível de educação da juventude entrevistada Básico incompleto Ensino técnico de nível médio Outro Estudante universitário Médio completo Não informou Superior incompleto Superior completo 0,8% 1,6% 1,6% 3,2% 4,8% 9,6% 20,8% 0 10 20 30 40 Percentagem(%) 57,6% 50 60 4.2. Setores de trabalho A grande maioria das pessoas participantes do mapeamento (mais de 90%) está empregada, o que mostra uma alta in serção no mercado de trabalho de jovens vinculados com espaços sindicais, legitimando suas demandas e fortalecendo seu protagonismo. Predominam os empregos formais e no setor público, embora também haja casos de emprego no setor privado, em condições informais, como freelancers e em plataformas digitais, o que evidencia a necessidade de ampliar estratégias sindicais para chegar a jovens em situações laborais mais precárias. Os setores mais representados são educação, saúde, TICs, energia, indústria e finanças, junto com construção, transporte, agricultura e“outro”, o que abre oportunidades para que o sindicalismo fortaleça sua presença em áreas pouco organizadas ou em expansão. Por outro lado, os/as participantes identificaram os principais obstáculos para o acesso ao emprego, que aparecem na ordem em que foram mencionados: → Formas de contratação precárias ou sem proteção social → Falta de experiência laboral → Baixa qualificação → Jornadas de trabalho longas → Salários baixos A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 9 5. A juventude no sindicalismo A filiação sindical entre trabalhadores e trabalhadoras jovens é extremamente baixa, chegando praticamente a ser inexistente em alguns contextos. Isto se deve tanto a condições precárias de inserção laboral –como empregos temporários, alta rotatividade, informalidade, subcontratação e trabalho em plataformas digitais– como a narrativas e práticas de criminalização antissindical e discursos do empreendedorismo voltados principalmente à juventude, que desconsideram sua condição como trabalhadores/as. Somam-se a isso os grandes desafios que os sindicatos enfrentam para engajar e filiar as novas gerações. 5.1. Importância da participação da juventude no sindicalismo A juventude desempenha um papel fundamental no fortalecimento e na transformação das organizações sindicais, trazendo novas perspectivas, energia e dinamismo para as lutas por direitos trabalhistas, justiça social e justiça ambiental. Sua participação é chave para garantir que as demandas da classe trabalhadora continuem vigentes, representem sua diversidade e possam enfrentar os desafios do presente e do futuro. Além disso, a participação ativa da juventude não apenas assegura a continuidade e a vigência das lutas, mas também promove a renovação das estratégias sindicais, de modo que estas respondam às transformações no mundo do trabalho – que incluem a digitalização, as novas formas de emprego e os desafios decorrentes da crise climática. Os/as jovens são um dos grupos mais afetados pela informalidade, pela precarização das condições de trabalho e pelo desemprego. Em um contexto no qual as vitórias e reivindicações históricas parecem perder vigência, a participação sindical é chave para fortalecer a luta pelo trabalho decente, pela estabilidade laboral e pela proteção dos direitos fundamentais. Não se pode negar que o perfil da classe trabalhadora mudou muito. Ao longo da história, o sindicalismo enfrentou transformações nas formas de organização do trabalho e da produção que, sob a óptica do capital, procuram aumentar a taxa de lucro e enfraquecer os mecanismos de defesa dos direitos trabalhistas. No século XXI, a classe trabalhadora se organiza a partir de diversas motivações, o que tem gerado uma crescente desconexão com o movimento sindical. Neste contexto, a juventude pode exercer um papel crucial ao trazer uma perspectiva interseccional, destacando a importância de uma participação diversa e inclusiva que considere as realidades de mulheres jovens, pessoas LGBTIQ+, migrantes, negras, entre outras. Esta visão fortalece as políticas sindicais e promove um sindicalismo mais representativo da diversidade da classe trabalhadora, que inclua outras dimensões de sua prática sociopolítica nas agendas. A juventude costuma estar vinculada a movimentos estudantis, ambientalistas, feministas, antirracistas, de direitos humanos etc., o que lhe permite articular lutas comuns e fortalecer alianças, amplificando as demandas da classe trabalhadora em um contexto mais amplo. Ao mesmo tempo, é inegável que a juventude se torna cada vez mais vulnerável aos discursos da extrema direita. Novos representantes de projetos ultraconservadores como Donald Trump, nos Estados Unidos, Nayib Bukele, em El Salvador, ou Javier Milei, na Argentina, surgem como figuras“antipolíticas”, desafiando as estruturas tradicionais dos partidos e apelando à rebeldia e ao desencanto juvenil com o funcionamento da democracia. Estes projetos receberam um forte apoio de muitos/as jovens que acabam sendo também suas principais vítimas: são os/as que sofrem com maior crueza as consequências de suas práticas autoritárias de exclusão, vigilância e repressão. Diante deste panorama, é urgente identificar as linguagens, os símbolos e as estratégias que conseguem conectar com a juventude, bem como construir formas de diálogo e interação que fortaleçam sua consciência política, sua capacidade crítica e sua organização como parte fundamental da classe trabalhadora. Propiciar à juventude sindicalizada espaços para demonstrar sua contribuição específica à luta coletiva do movimento sindical é uma forma de evidenciar a renovação dos métodos de organização e representação. Entretanto, esta não pode ser considerada a única estratégia nem a única ferramenta, já que a participação da juventude também deve ser fortalecida nos espaços de trabalho e nos âmbitos sindicais presenciais. Um sindicalismo que se ajuste às necessidades de jovens trabalhadores e represente sua diversidade pode renovar suas bases e reforçar sua participação real. Por isso, o processo de fortalecimento e transformação exige que os sindicatos promovam oportunidades justas para a juventude, 10 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe fomentando a solidariedade e a ação coletiva como ferramentas essenciais para a defesa dos direitos, especialmente em face da crescente pressão pelo individualismo e pela flexibilização das relações laborais. 5.2. Estudo FES“Juventude: desafio pendente” O estudo realizado pela Fundação Friedrich Ebert(FES) oferece uma análise profunda sobre a relação entre a juventude da América Latina e do Caribe(jovens entre 15 e 35 anos) e o mundo sindical. A pesquisa sistematiza os re sultados de uma ampla enquete em 14 países da região, explorando níveis de participação, percepções, obstáculos e avaliações sobre o sindicalismo. Participação juvenil em organizações sindicais O estudo revela que a participação sindical juvenil é consideravelmente baixa, oscilando entre 1%(em países como Bolívia, Colômbia e Honduras) e 6%(no Chile), embora 40% ou mais dos/das jovens participem em algum outro tipo de organização. Percepções sobre os sindicatos → Confiança: os níveis de confiança são, em geral, baixos, sendo que a Argentina e a Venezuela apresentam os níveis mais altos de desconfiança(mais de 50%). → Reconhecimento da função sindical: apesar da desconfiança, prevalece uma ampla avaliação positiva do papel dos sindicatos na defesa de direitos trabalhistas(entre 66% e 78%). → Desinformação: cerca de 25% das pessoas jovens decla ram precisar de mais informação sobre direitos trabalhistas e o movimento sindical. Esta demanda é maior em países como Peru, México, Venezuela, Colômbia e Costa Rica. → Associação com a democracia: um número importante de jovens vincula os sindicatos com o fortalecimento democrático, com destaque para o Uruguai, o Brasil e o Peru. Principais obstáculos para a participação juvenil em sindicatos → Falta de espaços para jovens: esta é uma das críticas mais recorrentes, mencionada por uma alta proporção de entrevistados em todos os países. No Uruguai e na República Dominicana, por exemplo, mais de 85% consi deram que os sindicatos não abrem espaços suficientes para jovens. → Desconhecimento sobre formas de participação: muitos jovens não sabem como se envolver com as atividades sindicais. Este problema mostra cifras altas na Costa Rica(35%), Brasil(31%) e México(26%). → Desatualização diante de um mundo do trabalho novo: existe uma percepção generalizada de que os sindicatos não se adaptam às novas formas de emprego, especialmente entre os mais jovens e em setores sociais baixos. Por exemplo, no Peru 93% de jovens de classes média -baixas e baixas coincidem com esta ideia. → Lacunas geracionais e sociais: a percepção de exclusão e desatualização varia segundo a idade e a classe social. As pessoas mais jovens(15-17 anos) e os setores popula res são os que mais salientam estas barreiras. A falta de renovação na direção sindical, o adultocentrismo e a excessiva burocracia são assinalados por jovens dirigentes como fatores que dificultam sua participação. O estudo da FES mostra que, embora os jovens reconheçam a importância dos sindicados, seu vínculo com eles é fraco, marcado por desinformação, desconfiança e estruturas sindicais pouco inclusivas. A pesquisa deixa evidente a necessidade de uma transformação sindical profunda que contemple: 1. a inclusão real da juventude; 2. a adaptação às novas formas de trabalho; e 3. a renovação dos canais de comuni cação e participação. Estas ações são essenciais para recuperar a legitimidade sindical sob a perspectiva de uma nova geração de trabalhadores e trabalhadoras com interesses, formas de organização e expectativas diferentes. 11 6. Contexto e antecedentes 6.1. Evolução da participação da juventude no sindicalismo As primeiras formas de organização sindical surgiram em um contexto marcado pela industrialização e pela crescente precarização do trabalho, fenômenos que tiveram um impacto significativo na juventude trabalhadora. Nas origens do sindicalismo, não se observa uma segmentação geracional clara, pois as difíceis condições de trabalho, os baixos salários e a falta de proteção social afetavam por igual jovens e adultos, que começaram a organizar-se para defender seus direitos e melhorar suas condições de trabalho. O movimento sindical surgiu como uma resposta direta à exploração e à necessidade de construir uma frente comum contra os abusos sofridos por quem se reconhecia como membro da classe trabalhadora. Com o tempo, à medida que o sindicalismo acumulava conquistas históricas, o reconhecimento do papel dos jovens evoluiu significativamente. A juventude deixou de ser um componente do sindicalismo para ser reconhecida como um ator específico, adquirindo mais visibilidade e apresentando mais propostas e respostas adaptadas aos desafios políticos, sociais e econômicos. A prática do sindicalismo sociopolítico colocou a juventude no centro, como ator e sujeito de direitos. Em períodos de ditaduras e regimes autoritários, jovens sindicalistas enfrentaram repressão e perseguição, mas também se ergueram como protagonistas na resistência e na luta pela democracia. Nas transições democráticas, seu papel foi fundamental para reconstruir os movimentos sindicais e promover a justiça social. As crises econômicas e as reformas neoliberais aprofundaram as desigualdades, a discriminação e a precarização do trabalho, corroendo direitos conquistados, especialmente para as novas gerações. Estas circunstâncias impulsionaram a juventude a se organizar em torno de demandas como o acesso a oportunidades de emprego, trabalho decente, estabilidade laboral e acesso à educação, entre outras. No início da década de 2010, em outras regiões do mundo, foi a juventude que se “indignou” diante das promessas não cumpridas do modelo e das desigualdades que afetavam 99% da população. A juventude desempenhou um papel relevante na organização de greves, protestos e ações sindicais, demonstrando uma capacidade notável de mobilização e criatividade em suas estratégias. A crise civilizatória impulsionou a convergência de lutas sociais, ampliando a agenda do sindicalismo sociopolítico em defesa da democracia. Esse processo incorporou causas como o feminismo, o antirracismo, a diversidade sexual e a justiça climática, fortalecendo a consciência social e a capacidade de ação coletiva da classe trabalhadora. Neste contexto, a CSA desempenhou um papel crucial ao reivindicar a participação juvenil no sindicalismo das Américas. Em sua estrutura, a CSA outorga visibilidade e protagonismo à juventude, incentivando as centrais filiadas a promoverem políticas que incorporem as propostas e necessidades das pessoas jovens como parte integral da classe trabalhadora e como presente e futuro do sindicalismo. 6.2. Juventude sindical e movimentos sociais O sindicalismo sociopolítico da CSA fundamenta-se na construção de processos de longo prazo, orientados para gerar poder popular e movimentos sociais com capacidade de incidência. Seu horizonte é impulsionar a transformação social, enfrentar os sistemas de opressão e projetar a emancipação da classe trabalhadora. No contexto da consolidação da Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo, a CSA desempenhou um papel fundamental ao impulsionar a construção do processo a partir da ação política de organizações e movimentos sociais que promovem unidade na diversidade. Além disso, priorizou a participação dos/das jovens sindicalistas em espaços de mobilização que são também arenas de formação política. Esta formação combina a perspectiva teórica do sindicalismo e dos movimentos camponeses, ambientalistas, feministas, entre outros, com a ação política para a articulação de uma agenda programática continental. A participação da juventude sindical expressou-se em mobilizações continentais como as de Montevidéu(2017) e da Havana(2019), onde houve intercâmbios teórico-práticos com movimentos sociais como a Coordenadora LatinoAmericana de Organizações do Campo CLOC VC, a Marcha Mundial das Mulheres(MMM) e o Capítulo Cubano. Estes espaços facilitaram a análise conceitual do contexto continental e dos eixos de ação política para construir uma agenda coletiva dos movimentos sociais. Durante a pandemia da COVID-19, a juventude trabalhado ra articulou-se com os movimentos sociais em iniciativas 12 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe voltadas a oferecer soluções concretas às necessidades vitais da população. Foi um momento importante de reflexão política para a juventude sindicalista, pois evidenciou uma nova forma de exploração laboral associada ao capitalismo de plataformas e às falácias do empreendedorismo. Neste período teve lugar o 1° Encontro Continental da Ju ventude Trabalhadora das Américas, que reuniu jovens representantes das centrais sindicais filiadas à CSA, bem como de diferentes movimentos e organizações sociais aliadas. O encontro fomentou a construção de pautas comuns em defesa da classe trabalhadora, com ênfase nos desafios enfrentados pela juventude. A participação da juventude sindicalista ganhou força na Jornada de Integração dos Povos Latino-Americanos e Caribenhos(Foz de Iguaçu, 2024) quando, em parceria com Ami gos da Terra da América Latina e do Caribe(ATALC), foi organizada a Conferência sobre Política Climática e Justiça Ambiental. Este espaço permitiu articular a voz da juventude trabalhadora com a de organizações ambientais históricas, unindo forças contra o poder e a impunidade das empresas transnacionais e em defesa dos direitos humanos. Por outro lado, a juventude sindicalista participou na Escola Internacional para a Organização Feminista Berta Cáceres, centralizada na conformação do sujeito político, do Estado e da Democracia. Lá foi fortalecida a formação de formadores, contribuindo para o avanço do feminismo popular a partir do sindicalismo juvenil, na busca por justiça de gênero e pelo desmantelamento do patriarcado. Esta troca permitiu identificar lutas comuns e desenvolver propostas a partir de articulações regionais e ações conjuntas. Como vimos até aqui, é possível afirmar que a juventude encontrou no sindicalismo e nos movimentos sociais espaços centrais para sua participação política e social, especialmente em contextos em que as desigualdades, a exclusão e a precariedade laboral afetam desproporcionalmente sua geração. Estes espaços permitem à juventude defender seus direitos trabalhistas, promover ambientes seguros dentro dos sindicatos, combater a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero e articular-se com lutas mais amplas. A juventude trabalhadora incorpora em sua agenda de luta o feminismo de classe e a centralidade dos cuidados; o an tirracismo, especialmente em um contexto em que comunidades migrantes, povos originários e populações negras enfrentam discriminação laboral e exclusão social; a justiça ambiental; entre outros diversos temas. Finalmente, as redes sociais e as plataformas digitais tornaram-se espaços estratégicos de participação juvenil. Neles, os/as jovens se organizam, dão visibilidade às suas demandas e estabelecem conexões com outros movimentos. 6.3. 1° Encontro da Juventude Trabalhadora das Américas e contribuições centrais da CSA A CSA estabeleceu a centralidade da juventude como prioritária para a ação sindical no período 2021-2025. Esta visão está claramente expressa no Roteiro de Fortalecimento e Transformação, no Roteiro de Formação e Educação e no Roteiro de Comunicação Sindical. Esses documentos ressaltam a importância de integrar as perspectivas dos jovens como elemento essencial de um projeto sindical capaz de responder às necessidades e demandas da classe trabalhadora em toda sua diversidade. A iniciativa estratégica da CSA se traduziu no desenvolvimento de ações sindicais concretas durante o período 20212025, estabelecendo um marco significativo com a realiza ção do“1° Encontro da Juventude Trabalhadora das Améri cas: presente que mobiliza o futuro”, evento virtual celebrado em abril de 2021. Apesar das restrições à mobili dade, este encontro conseguiu reunir jovens trabalhadores/ as de todo o continente, criando um espaço de diálogo crucial sobre os desafios que esta geração enfrenta diante das transformações do mundo do trabalho. O 1° Encontro cons tituiu um espaço político fundamental para a participação da juventude trabalhadora, deixando aos jovens organizados a tarefa de continuar aumentando a convocação para somar mais jovens às bases sindicais e impulsionar sua transformação. O período posterior ao 1° Encontro caracterizou-se pelo protagonismo da juventude nos processos de transformação social e política no continente. Embora o diálogo entre alguns destes processos e o sindicalismo nem sempre tenha sido linear, registraram-se avanços no reconhecimento de suas formas de organização e na percepção da necessidade de criar canais de comunicação tanto dentro quanto fora das estruturas sindicais. 6.4. Contribuições essenciais da CSA 1. Fortalecimento e transformação sindical: a CSA procura representar melhor a classe trabalhadora, adaptando-se aos desafios atuais e garantindo protagonismo à juventude nos processos de decisão e nas ações sindicais. 2. Formação política e sindical: a CSA promove processos de formação para jovens sindicalistas, fortalecendo suas habilidades, sua consciência política e seu compromisso com os direitos trabalhistas e a justiça social. 3. Espaços de participação: criação de espaços que assegurem às pessoas jovens voz ativa nos processos de tomada de decisão. Isto inclui a cota de participação de 25% de jovens no Congresso da CSA(aprovada na Reforma Estatutária durante seu V Congresso em maio de 2025); o fortale cimento do ECJTA e sua participação no Conselho Executivo; engajamento e diálogo nos grupos de trabalho, com in tervenção ativa no desenvolvimento de estratégias. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 13 4. Sindicalismo sociopolítico: a CSA, como ator comprometido com a democracia, reconhece a importância de defender projetos políticos que promovam visões e ações em favor das classes populares. Suas propostas vão além dos aspectos estritamente laborais, incluindo a defesa de um novo modelo de desenvolvimento que seja sustentável e baseado na justiça social e ambiental. Neste contexto, a juventude assume um papel protagonista na formulação de propostas políticas para a classe trabalhadora e na defesa da democracia. 5. Política de alianças: No exercício do sindicalismo sociopolítico, a CSA, por meio de alianças e articulações com outras organizações e movimentos sociais, promoveu ações de mobilização que incorporam as preocupações e necessidades da juventude, promovendo ações relacionadas a democracia, desigualdade, precariedade laboral, educação, justiça climática e igualdade de gênero. 6. Relevância da juventude na agenda sindical: a CSA impulsionou a inclusão da juventude na agenda das organizações sindicais no âmbito regional, reconhecendo a necessidade de que os sindicatos se adaptem aos desafios enfrentados pelas pessoas jovens no mundo do trabalho. Esta iniciativa ampliou a visibilidade da juventude nas lutas sindicais e deu voz às suas demandas. 7. Redes e cooperação internacional: a CSA promove o intercâmbio juvenil no âmbito global por meio de alianças com outras centrais e organizações, favorecendo aprendizagens compartilhadas e a construção de políticas comuns. 14 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 7. Mapeamento de experiências de participação 7.1. Canais de integração e aproximação do sindicato Os/as jovens entrevistados/as assinalaram diversos caminhos que os/as conduzem à participação sindical. Esses canais de integração não são únicos nem lineares, mas combinam experiências pessoais, redes sociais e espaços de formação ou militância. Cerca da metade da juventude mapeada relatou ter tradição de participação sindical em suas famílias, o que pode ter influenciado sua aproximação precoce ao sindicalismo e reforçado sua percepção da organização coletiva como ferramenta de luta. Por outro lado, uma proporção igualmente significativa declarou não ter antecedentes familiares no sindicalismo, o que indica que muitas pessoas jovens constroem seu vínculo com o movimento sindical a partir de trajetórias próprias, motivadas por experiências laborais, processos de formação ou compromissos sociais assumidos de forma autônoma. Este dado destaca a importância de fortalecer espaços de formação política e sindical voltados às novas gerações. Outros/as participantes relataram que seu primeiro contato com um sindicato aconteceu por meio de delegados ou referências sindicais que se aproximaram para conversar, ressaltando a importância das figuras de representação direta no vínculo inicial da juventude com o sindicalismo. Muitos jovens também assinalaram ter se aproximado do sindicato por influência de colegas de trabalho, o que evidencia a importância das redes horizontais e de confiança construídas no ambiente de trabalho. Alguns mencionaram que esse primeiro contato se deu por meio de amigos. Além disso, o ativismo estudantil no ensino médio e na universidade cumpre um papel central como porta de entrada para o compromisso coletivo. A militância política, principalmente em partidos de esquerda, constitui outro espaço que favorece a aproximação do mundo sindical. Finalmente, as campanhas de filiação e o uso de estratégias digitais desempenham um papel cada vez mais importante para atrair a juventude e visibilizar a ação sindical. Estes elementos indicam que tanto a presença ativa de lideranças sindicais quanto a existência de redes entre pares são fundamentais para estimular a participação juvenil nos sindicatos. De acordo com a maioria dos jovens que responderam à enquete, a primeira impressão sobre o sindicato foi positiva. A resposta mais comum –“Eu me senti bem-vindo/a e encontrei um ambiente de apoio"– deixa claro que muitos tiveram um acolhimento caloroso e integrador desde o início. Também foram registradas respostas que consideraram a primeira experiência“motivadora” ou"surpreendentemente positiva” embora não soubessem o que esperar, indicando que o contato inicial com o sindicalismo pode despertar entusiasmo quando há espaços abertos e receptivos. No entanto, uma proporção significativa disse ter percebido burocracia ou falta de abertura, o que evidencia a persistência de barreiras internas que dificultam a plena integração da juventude. Essa dualidade revela que, embora haja avanços no acolhimento de novas gerações, o sindicalismo enfrenta ainda o desafio de transformar culturas organizacionais rígidas e abrir-se, de forma efetiva, às vozes juvenis. Não obstante seu interesse pela justiça social e pelos direitos trabalhistas, grande parte da juventude não se sente representada nem atraída pelos espaços sindicais. Entre os/as entrevistados/as, 80% consideram que a partici pação sindical da juventude é diferente da promovida por gerações anteriores. Outros 13% dizem não ter certeza se há diferenças ou não, e somente 7% consideram que não há grandes diferenças entre a participação adulta e a de jovens. Na pesquisa, a juventude não sindicalizada indicou a falta de informação, de tempo e de motivação como principais razões para não se filiar. Como alternativa, sugere melhorar a difusão das ações sindicais através de redes sociais e de oficinas em centros educativos. Segundo os grupos focais, o acesso a informações está relacionado à proximidade com pessoas já sindicalizadas. Além disso, jovens sindicalizados/as, mas sem um papel ativo, dizem ter uma visão negativa sobre os sindicatos e percebem uma atuação limitada na defesa de jovens trabalhadores/as em condições precárias. Em todos os casos, destaca-se a necessidade de saber mais sobre o que os sindicatos fazem. Algumas estratégias para promover a sindicalização da juventude incluem campanhas de filiação e tours informativos voltados a conscientizar e formar em direitos trabalhistas e funcionamento sindical; espaços de diálogo intergeracional, como oficinas e reuniões que conectam jovens com pessoas de outras gerações e os integram nos processos de decisão; além de ações formativas como A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 15 palestras, jornadas, encontros internacionais e diplomas sobre a história do sindicato e seus objetivos. 7.2. Motivações e expectativas da juventude As motivações e expectativas da juventude mapeada articulam, ao mesmo tempo, a necessidade de responder a problemáticas imediatas e o desejo de transformar estruturalmente os contextos trabalhista e social. No que se refere às expectativas, torna-se evidente um forte desejo de formação, ação coletiva e participação ativa. Isso reforça a importância de os sindicatos ampliarem seus espaços de formação, estimularem o trabalho colaborativo e assegurarem ambientes inclusivos que respondam a essas aspirações. GRÁFICO 4. Motivações da juventude para integrar-se ao sindicato Defender interesses dos/as trabalhadores/as 36,2% Resolver problemas laborais e melhorar condições 23,4% Formação e aprendizagem sobre direitos trabalhistas 23,4% Combinar militância 8,5% política com o trabalho Ativismo com outros/as companheiros/as 6,4% Fazer carreira sindical e representar 2,1% 0 5 10 15 20 25 30 35 40 A juventude sindicalista manifesta diversos interesses quando se integra aos sindicatos. Mesmo jovens sem expectativas claras no princípio, acabaram encontrando no sindicato um espaço valioso de crescimento, capacitação e participação ativa na vida coletiva. Em conjunto, reconhecem o sindicato como um ator central na construção de um mundo mais justo, capaz de responder às suas necessidades presentes e suas aspirações futuras – o que reforça seu compromisso e aprofunda seu vínculo com o movimento sindical. 7.3. Percentagem de jovens filiados/as à central sindical Consultados/as sobre a proporção de jovens filiados/as à sua central sindical, as respostas indicaram que existe um alto nível de desconhecimento, evidenciado pelos 28,9% que responderam“Não sei”. Isto demonstra uma falta de informação sistematizada sobre a composição etária das organizações sindicais, ou que certas informações não chegam ao público jovem da central. Predomina a percepção de que a filiação juvenil é baixa, com respostas majoritariamente concentradas nas categorias inferiores(menos de 30%). Essa percepção reforça a ideia de que a juventude está sub-representada, tanto em quantidade quanto em visibilidade, nas estruturas organizativas. GRÁFICO 5. Percepção sobre a percentagem de pessoas jovens filiadas à central sindical Suas respostas refletem uma combinação de motivos práticos, políticos, formativos e pessoais. Entre os mais mencionados, estão: 11,1% → Defender os interesses da classe trabalhadora, expressando um firme compromisso com a justiça social e a ação coletiva. 28,9% 11,1% → Resolver problemas no ambiente de trabalho e melhorar as condições laborais, conectando a experiência cotidiana à necessidade de organização coletiva. → Ter acesso a espaços de formação e aprendizagem sobre direitos trabalhistas e sobre o funcionamento do sindicalismo. 17,8% 15,6% 15,6% → Articular a militância política com o mundo do trabalho, dando continuidade a trajetórias prévias de ativismo. → Desenvolver uma trajetória sindical ou integrar-se a espaços coletivos, reforçando o senso de pertencimento e a projeção para o futuro. Não sei Entre 25% e 30% Entre 20% e 25% Entre 10% e 15% Entre 5% e 10% Menos de 5% É urgente produzir e divulgar dados desagregados por idade, a fim de dimensionar com maior precisão a participação juvenil no sindicalismo. Esses dados são cruciais para identificar lacunas, formular políticas específicas e fortalecer o papel da juventude nas organizações. 16 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe Encarar estes desafios é fundamental para construir um sindicalismo mais inclusivo, transparente e estratégico, que reconheça a juventude não só como filiada, mas como ator central para a renovação e transformação do movimento sindical. 7.4. Benefícios percebidos da filiação sindical A filiação sindical é uma ferramenta essencial para fortalecer trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo em um contexto de crescente precarização do trabalho. Ela oferece proteção contra abusos, como demissões injustificadas, exploração e assédio, e funciona como um espaço coletivo para negociar melhores condições laborais. Além dessas garantias imediatas, os sindicatos promovem políticas públicas orientadas a construir uma sociedade mais equitativa e justa, impactando positivamente em tempos de crise. Para as pessoas jovens, os sindicatos representam espaços de aprendizagem, de desenvolvimento sociopolítico e de apoio diante de vulnerabilidades laborais e pessoais, fortalecendo sua capacidade de incidência e sua visão crítica. Oferecem ainda um senso de comunidade e a oportunidade de participar de lutas coletivas por direitos e justiça social, favorecendo mudanças estruturais através de plataformas inclusivas. Dependendo do contexto, a filiação pode responder tanto à necessidade de proteção em setores informais quanto ao desejo de transformação em cenários de mobilização social. Em suma, fortalece direitos individuais e coletivos, empodera a juventude e promove uma mudança social profunda para enfrentar os desafios do mundo atual do trabalho. 7.5. Razões principais para participar no sindicalismo O mapeamento realizado revela que a juventude trabalhadora se integra aos sindicatos movida por uma combinação de motivações ideológicas – como a consciência de classe e o compromisso com a justiça social – e de necessidades concretas ligadas ao bem-estar individual e coletivo, como a melhoria das condições de trabalho, a estabilidade no emprego e o acesso a direitos fundamentais. Entre as razões principais identificadas para participar no sindicalismo, destacam-se: → Busca de melhores condições laborais: a juventude vê no sindicalismo uma ferramenta fundamental para obter condições de trabalho mais justas, seguras e estáveis, reconhecendo seu papel histórico na defesa de direitos trabalhistas. → Defesa contra a violência de gênero: algumas jovens chegam motivadas por experiências pessoais de violência de gênero, buscando proteção e um espaço a partir do qual possam promover relações de trabalho mais igualitárias e com perspectiva de gênero. → Garantia de direitos e proteção contra o assédio: a defesa de direitos laborais e a proteção em situações de assédio— seja laboral, seja sexual— são motivações centrais. Os sindicatos são vistos como espaços de apoio diante destas vulnerabilidades. → Impulso para a mudança social: os/as jovens veem no sindicalismo um canal para transformar seu desejo de construir um mundo mais justo e equitativo, com o olhar sobre o bem-estar das gerações presentes e futuras. → Consciência de classe e compromisso coletivo: para um segmento importante da juventude, participar do sindicalismo responde a uma consciência de classe que impulsiona seu envolvimento na transformação estrutural da sociedade e na defesa de toda a classe trabalhadora. 7.6. Iniciativas da juventude no movimento sindical A promoção da participação juvenil constitui, como vimos, um discurso recorrente tanto entre dirigentes jovens quanto entre dirigentes adultos do mundo sindical. Isto se traduz em um conjunto de práticas concretas voltadas, sobretudo, a aproximar os/as jovens e incentivar sua participação. Quase 70% dos/as jovens participantes no 2° ECJTA mencionaram que suas organizações implementam programas voltados à promoção da participação juvenil, enquanto cerca de 20% disseram que não existem ações desse tipo. O resto afirmou não saber se há programas que tenham esse propósito dentro do seu sindicato. Entre as ações mencionadas para a inclusão juvenil, destacam-se: → Campanhas de filiação destinadas à juventude → Programas de capacitação para jovens → Políticas específicas de revezamento geracional → Espaços específicos de participação juvenil → Âmbitos particulares para a inclusão de jovens mulheres → Descontos nas cotas de filiação Por outro lado, assinalam que as ações voltadas a promover a inclusão de jovens LGBTIQ+, pessoas negras, migrantes ou de povos originários são praticamente inexistentes. Ao serem consultados/as sobre quanto suas opiniões e demandas são consideradas nas decisões sindicais, os/as jovens deram respostas que refletem uma participação ainda parcial, mas em processo de consolidação. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 17 Metade das pessoas jovens entrevistadas afirmou que suas opiniões são consideradas apenas ocasionalmente, o que indica certa margem de escuta, embora de forma limitada ou intermitente. Mais de 40% indicaram que as demandas da juventude são integradas constantemente, um dado alentador sobre a existência de espaços mais receptivos e abertos à participação juvenil. Uma pequena proporção não respondeu ou não se manifestou ao respeito, o que também pode ser interpretado como falta de participação significativa. Nos testemunhos da juventude participante no 2° ECJTA, foram mencionadas outras ações consideradas inovadoras e que deram frutos para promover a filiação sindical, como o desenvolvimento de um aplicativo digital para a adesão de jovens:“É uma estratégia inovadora. Na primeira semana do funcionamento desse mecanismo, tivemos mais de 100 solicitações, em sua maioria de jovens”, menciona um/a dos/as jovens entrevistados/as. Em outro caso, faz-se referência à criação de programas de pós-graduação(diplomas) voltados a sistematizar e capacitar jovens sobre a história e os objetivos do sindicato. Entre as ações que envolvem a participação com incidência, podem ser mencionadas: 1) A participação juvenil em negociações coletivas. Uma das pessoas entrevistadas mencionou: “No meu sindicato, nossa principal ferramenta de organização coletiva é o estatuto do docente. Participei da revisão da lei orgânica para uma reforma e, no ano passado, analisamos o orçamento que seria destinado e também o plano de formação; participei ativamente nessa mesa de diálogo”. 2) A participação em instâncias de decisão dentro da central sindical: “Duvidam das capacidades dos jovens. Dizem: é um garoto”. 3) A participação na elaboração de políticas: “A mais memorável foi a criação da política da juventude e sua aprovação pelo Comitê Executivo da confederação”. 7.7. Gênero e identidades jovens no sindicalismo Ao serem consultados/as sobre o grau de inclusão, em seus sindicatos, da juventude trabalhadora com diferentes identidades de gênero, quase todas as pessoas participantes responderam“é muito inclusivo”,“é algo inclusivo” ou“pouco inclusivo”, com percentagens praticamente iguais. Foram poucos os que não responderam à pergunta. Isto poderia refletir diferenças entre práticas de inclusão segundo sindicatos, países ou setores econômicos, ou diferentes percepções sobre a eficácia ou o impacto real destas ações. De acordo com os resultados dos grupos focais, a juventude com forte ativismo sindical destaca a importância de cotas ou vagas para promover e fortalecer a liderança de mulheres jovens e pessoas das diversidades, bem como a criação de áreas específicas para incentivar a participação de minorias. Apesar disso, quase a metade afirmou que os coletivos de jovens LGBTIQ+, migrantes, pessoas negras e mulheres têm um acesso equitativo a posições de liderança. Por outro lado, mais de 30% mencionaram que apenas alguns destes grupos têm acesso a cargos de maior protagonismo e poder de decisão, enquanto cerca de 10% afir maram que eles não têm qualquer representação em posições de liderança. Uma pequena parcela não se pronunciou ao respeito. Houve diferentes considerações sobre o acesso das mulheres jovens a cargos de direção. “Nas secretarias gerais, adjuntas ou de imprensa, não há mulheres: todos os cargos são ocupados por homens. As pessoas mais reconhecidas e que mantêm diálogo com o governo são homens”. Conciliar o trabalho remunerado e, no caso das mulheres, também o trabalho não remunerado com a dedicação ao ativismo sindical é percebido como um problema. Nos grupos focais, pessoas que exercem funções de direção mencionaram que, em ocasiões, enfrentam dificuldades para conciliar o trabalho com as atividades de militância que, frequentemente, exigem conhecimentos específicos sobre estatutos ou sobre negociação coletiva. Uma das pessoas entrevistadas mencionou ao respeito: “É mais difícil convocar as mulheres porque dizem que não têm tempo ou têm obrigações domésticas. Embora tenham potencial de liderança, as responsabilidades de cuidado muitas vezes são uma barreira. Os homens costumam ir às reuniões sem objetar”. Estas agendas fazem parte tanto da reflexão quanto das ações promovidas pelos espaços sindicais. Uma das pessoas entrevistadas relatou, como exemplo, a organização de 18 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe oficinas voltadas à promoção da equidade de gênero, nas quais procurava engajar tanto homens quanto mulheres: “Desenvolvemos ações específicas para mulheres e também realizamos oficinas com homens e mulheres jovens, buscando promover uma mudança na mentalidade dos homens e na sua visão sobre como atrair mulheres para o sindicato, filiá-las e apoiá-las no setor sindical”. Entretanto, persistem desafios estruturais que dificultam uma participação equitativa. Um dos mais significativos para as mulheres jovens é a falta de equilíbrio entre seus compromissos pessoais e sindicais. A sobrecarga de trabalho dentro dos sindicatos, somada às suas responsabilidades acadêmicas, laborais e domésticas— estas últimas tradicionalmente atribuídas a mulheres—, limita seu tempo disponível e cria altos níveis de estresse, perpetuando, assim, um ciclo de exclusão e discriminação. Uma série de desafios é identificada quando se trata da juventude LGBTIQ+. Em primeiro lugar, enfrenta barreiras internas e discriminação nos âmbitos sindical e trabalhista, o que dificulta a criação de espaços ou grupos representativos para esta comunidade; as estratégias de filiação espe cíficas para pessoas LGBTIQ+ não foram eficazes, em parte porque muitas delas preferem não revelar sua orientação sexual ou identidade de gênero. Além disso, faltam ações específicas, em grande parte pela baixa priorização do trabalho com essa população na agenda sindical. Faltam ferramentas e medidas concretas, e persistem preconceitos arraigados entre algumas lideranças sindicais, cujas visões homofóbicas constituem barreiras tanto para a incorporação de pessoas LGBTIQ+ ao sindicalismo quanto para seu acesso a cargos de liderança. “Não temos ações específicas para essas populações. Existem muitos bloqueios. Os dirigentes e até a presidente do sindicato têm atitudes homofóbicas: tratam mal as pessoas LGBTIQ+, assediam-nas, é terrível. Há muita discriminação”. Há menções de que não foram desenhadas agendas conjuntas com ativistas externos ao mundo sindical, o que limita a capacidade de planejar ações transformadoras e colaborativas. Embora haja reconhecimento de que essas pessoas fazem parte da classe trabalhadora e de que a atividade sindical deveria incluí-las e promover sua participação, a implementação dessas iniciativas ainda apresenta dificuldades. Há quem diga que se trata de grupos que enfrentam discriminações e são mais vulneráveis que outros. Apesar das promessas de inclusão, estas não se traduzem em ações concretas. Destaca-se a criação de comissões de gênero e inclusão voltadas às necessidades de mulheres e grupos minoritários. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 19 “Não passam de simples filiadas. Meu sindicato vem implementando a comissão de gênero e inclusão, que já desenvolveu algumas linhas de ação. No entanto, enfrenta obstáculos porque os dirigentes do sindicato não lhe dão a devida importância. Consideram que essas não são políticas necessárias, que criam obstáculos, negam recursos e travam iniciativas”. Em outros casos, as pessoas participantes consideraram que, embora grupos como mulheres, pessoas LGBTIQ+, migrantes, pessoas negras e povos originários enfrentem discriminação e maior vulnerabilidade no mundo do trabalho, recebem pleno reconhecimento no mundo sindical e conseguem canalizar suas demandas ligadas à luta por direitos. “As pessoas LGBTIQ+ têm uma participação mais ativa no sindicato porque, historicamente, seus direitos foram mais violados e, nesse espaço, encontram uma forma de lutar por eles. O mesmo acontece com as mulheres, cujos direitos foram sistematicamente violados. Já os homens, por terem sido favorecidos socialmente, muitas vezes não veem a necessidade de se engajar em movimentos que buscam garantir ou ampliar esses direitos”. Uma das pessoas entrevistadas afirmou:“Traçar uma estratégia específica para filiá-los é um erro. A única estratégia é tratá-los como iguais, não como diferentes”. Nessa mesma linha, há quem diga que, dentro do universo sindical, não existem diferenças com base em gênero, orientação sexual ou identidade étnica. Alguns testemunhos que retratam este ponto de vista afirmam: “As pessoas LGBTIQ+ participam do sindicato em condições de igualdade, sem que haja diferenças ou situações de desigualdade – são como nós. O mesmo acontece com os povos indígenas, cuja participação também se dá em pé de igualdade”. “Temos as mesmas oportunidades dentro do sindicato. Todos convivemos e não há discriminação. Procuramos organizar atividades abertas para todos, somos sindicatos inclusivos, abordamos todos os assuntos, não fazemos distinções”. A baixa participação de jovens migrantes e de povos originários nos sindicatos também se explica pelo fato de que, muitas vezes, esses grupos estão inseridos em setores da economia informal. Uma das pessoas entrevistadas menciona que“as oportunidades das pessoas indígenas e migrantes são muito limitadas. Deveriam ter um emprego formal para ter acesso a um sindicato”. Isso dificulta ainda mais o acesso a funções de direção. 20 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 8. A juventude em cargos de liderança no sindicalismo A promoção da participação juvenil é um eixo presente e transversal nas agendas e compromissos assumidos pela CSA. Isto se observa em documentos e intervenções de dirigentes experientes, quanto em ações voltadas especificamente para a juventude – como os dois encontros continentais da Juventude Trabalhadora das Américas(ECJTA 1° e 2°). O documento final do 2° ECJTA(Honduras, 2024) ressalta a importância da juventude para o fortalecimento das estruturas sindicais: ao reconhecer novas modalidades de emprego – associadas à digitalização da economia, à automação da produção e à expansão das plataformas – que propõem desafios às formas clássicas de organização e reivindicação de direitos de trabalhadores e trabalhadoras. Também enfatiza o papel da participação dos jovens e grupos historicamente marginalizados nas arenas de decisão“para além dos espaços da juventude”. Entre as pessoas participantes deste mapeamento, observa-se uma presença expressiva de jovens em funções de direção e responsabilidade sindical: 30,4% exercem cargos no comitê diretor ou em órgãos de direção superior, enquanto 21,7% atuam como delegados/as – reforçando o protago nismo da juventude nas estruturas organizacionais. Outros 21,7% se identificam como militantes, indicando uma base ativa, embora sem cargos formais de condução. Já 13% se agrupam na categoria“outro”, sugerindo a existência de funções diversas ou específicas não contempladas pela classificação tradicional. Por fim, 6,5% se distribuem entre cargos de presidência, secretaria-geral e funções de direção nos âmbitos nacional e subnacional, evidenciando a presença juvenil também em níveis de condução estratégica. De acordo com as respostas à enquete do 2° ECJTA, há di ferentes caminhos para acessar posições de liderança. Na maioria dos casos, os/as entrevistados/as expressaram ter alcançado suas posições por meio de eleições internas democráticas. Em segundo lugar, uma parcela significativa assinalou que sua posição atual foi resultado do reconhecimento por sua participação ativa, pelo compromisso mantido no tempo e por contribuições visíveis como ativistas juvenis. Uma proporção mais baixa indicou ter sido nomeada diretamente por líderes ou referências – o que pode ser interpretado como reconhecimento, mas também evidencia o poder que líderes adultos exercem na atribuição de responsabilidades. Embora os dados da enquete revelem uma forte presença de jovens nas secretarias de juventude, essa concentração se explica, em parte, pela própria natureza do encontro voltado à juventude sindicalizada, o que certamente favorece a participação de quem já integra essas áreas. Aprendizagens específicas que a juventude entrevistada destaca sobre sua participação em posições de liderança: → Habilidades adquiridas: 47,8% relatam avanços em negociação, comunicação e liderança. → Consciência crítica: 15% desenvolveram uma visão sociopolítica mais crítica, ampliando sua compreensão sobre a sociedade e a luta de classes. → Defesa de direitos: 13% fortaleceram sua confiança e ca pacidade de atuar na proteção dos direitos trabalhistas. → Conquistas concretas: 19,9% mencionaram avanços diver sos e 4,3% destacaram contribuições específicas, como colaborar para uma causa comum, representar a juventude e influenciar decisões, superar desafios, compartilhar aprendizagens e transformar aspectos da realidade. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 21 9. Barreiras e desafios A participação de jovens nos sindicatos é central para o fortalecimento e a sustentabilidade do movimento sindical na América Latina e no Caribe. Entretanto, múltiplos fatores internos e externos dificultam sua plena integração. Entre as opções sugeridas na enquete online sobre os obstáculos à integração sindical da juventude, 25,3% dos/as entrevistados/as apontaram como principal barreira a dificuldade de adaptação a estruturas e processos de decisão. Para 21,7%, o problema é a falta de espaços que lhes per mitam adquirir confiança e sentir-se escutados/as. Já 20% mencionaram as resistências internas e as tensões geracionais; 18% destacaram a dificuldade de conciliar responsabi lidades laborais e de cuidados com a militância, e 15% indi caram a falta de recursos ou de tempo para uma participação contínua. GRÁFICO 6. Principal obstáculo identificado para a integração sindical da juventude Falta de recursos e/ou tempo para participar Conciliar trabalho e cuidados com militância Resistências internas e tensões geracionais Adquirir confiança e sentir-se escutado/a Adaptar-se à estrutura e aos processos de decisão 0 5 10 15 20 25 30 Percentagem(%) 9.1. Obstáculos internos: políticas e práticas sindicais que limitam a participação da juventude A juventude mapeada durante o Encontro também identificou uma série de barreiras internas que restringem sua participação ativa e o acesso a espaços de liderança dentro das organizações sindicais. Entre elas, destacam-se: → Falta de representação juvenil nas estruturas sindicais: a pouca presença de jovens nos espaços de decisão gera um círculo de exclusão. A juventude mapeada assinala que as estruturas sindicais continuam reproduzindo uma lógica que não contempla as necessidades das novas gerações. Destaca que, muitas vezes, suas propostas não são levadas em conta e que as decisões permanecem concentradas em dirigentes históricos que nem sempre incluem as suas vozes. → Desigualdade de gênero: as mulheres jovens enfrentam dupla discriminação e a chamada“tripla jornada”(trabalho remunerado, doméstico e militância sindical). As estruturas patriarcais limitam seu acesso a cargos de direção e as tarefas consideradas"próprias do gênero" restringem sua participação como protagonistas. Essas desigualdades se aprofundam dentro do sindicato, diminuindo as chances de igualdade de oportunidades e de inclusão de suas demandas em espaços de negociação coletiva. → Identidade de gênero, orientação sexual, situação migratória e outras: as juventudes LGBTIQ+, pessoas negras, migrantes e povos originários continuam estando sub-representadas nos espaços de liderança sindical. Suas identidades e experiências costumam ser invisibilizadas, e persiste a falta de formação contínua em diversidade, direitos e enfoque intercultural. Além disso, as comissões de inclusão não têm força suficiente e são pouco ativas, o que dificulta seu avanço rumo a uma representação verdadeiramente equitativa e plural. → Conciliação entre militância, trabalho e vida pessoal: as responsabilidades laborais, acadêmicas e de cuidados(especialmente para as mulheres jovens) reduzem o tempo e a energia disponíveis para a participação sindical. → Resistência à mudança: a juventude mapeada assinala que ainda há grandes dificuldades para incorporar novas formas de organização, ação e comunicação dentro dos 22 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe sindicatos. Essa resistência limita o aproveitamento da criatividade, da energia e da capacidade de inovação das novas gerações. Os sindicatos são vistos como espaços pouco permeáveis a novas ideias ou lideranças juvenis, desmotivando sua participação e limitando a renovação geracional. → Comunicação e formação inadequadas: as ferramentas sindicais nem sempre usam linguagens, canais ou enfoques que dialoguem com a juventude ou com outras gerações. Isto compromete a transmissão de conhecimentos e a construção de uma visão coletiva. Muitos jovens dizem que se sentem pouco reconhecidos, sem espaços onde possam se desenvolver ou ser ouvidos ativamente. → Desconexão intergeracional: a falta de espaços de troca impede a transferência de experiências e o reconhecimento das pessoas jovens como sujeitos políticos plenos. → Falta de reconhecimento: a juventude sindical denuncia a pouca visibilidade de suas contribuições e as dificuldades para manter espaços organizacionais em função da rotatividade do trabalho e da informalidade. → Reprodução de práticas tradicionais: na busca por reconhecimento, alguns jovens acabam reproduzindo as mesmas dinâmicas que inicialmente queriam transformar, contribuindo para manter estruturas excludentes. Estes desafios não apenas refletem tensões internas do sindicalismo, mas também evidenciam como as desigualdades estruturais do mundo do trabalho se reproduzem dentro das próprias organizações. Transformar estas realidades implica avançar rumo a sindicatos verdadeiramente inclusivos, democráticos e abertos à participação ativa da juventude. 9.2. Obstáculos externos: contexto sociopolítico e econômico, práticas antissindicais e criminalização A juventude sindicalista enfrenta um conjunto complexo de barreiras externas que limitam sua atuação plena tanto no mundo do trabalho quanto na vida sindical. As longas jornadas e os deslocamentos extenuantes reduzem muitíssimo sua capacidade de participação. Como expressou um trabalhador jovem:“As longas jornadas de trabalho são praticamente uma escravidão moderna... É difícil fazer algo por si mesmo ou se reunir com os companheiros, e isso se houver sindicato”. Estas condições refletem um contexto político e econômico que favorece os interesses empresariais. As reformas laborais regressivas enfraquecem os direitos já conquistados e excluem os/as jovens do acesso a empregos decentes e sustentáveis. Os seguintes são alguns dos obstáculos externos identificados. → Modelo econômico-cultural: muitas pessoas jovens desconhecem seus direitos e não se identificam como parte da classe trabalhadora, influenciadas por um modelo econômico-cultural que valoriza o individualismo, a concorrência e a meritocracia. A ausência do sindicalismo nas escolas, universidades e meios digitais impede que a juventude reconheça seu papel histórico na luta por direitos. → Transformações no mundo do trabalho: a digitalização, o trabalho através de plataformas e o auge do empreendedorismo borram a identidade coletiva de classe e dificultam a organização sindical tradicional. → Precariedade e informalidade laboral: A falta de contratos formais, as longas jornadas, a instabilidade no emprego e os baixos salários impedem que muitos jovens possam filiar-se ou participar ativamente dos sindicatos. Essas condições também dificultam o acesso a direitos básicos, como moradia digna, saúde e educação públicas, gratuitas e de qualidade. → Despolitização juvenil e discursos autoritários: os discursos conservadores apelam ao desencanto da juventude, deslegitimando a ação coletiva e promovendo soluções individuais para problemáticas sociais que são estruturais. → Exclusão e discriminação da juventude LGBTIQ+, negra e migrante: essas populações enfrentam barreiras estruturais que limitam seu acesso pleno ao emprego formal e à participação sindical. Enquanto alguns setores consideram que as condições de trabalho são“relativamente equitativas” para pessoas LGBTIQ+, outros relatam experiências de discriminação, invisibilização, violência simbólica e exclusão, fatores que as empurram para ocupações informais ou altamente precarizadas. Em muitos países, a juventude negra é sistematicamente discriminada, o que se manifesta nos processos de contratação, nos ambientes de trabalho e na desvalorização de características culturais e físicas, como penteados, roupas ou cor da pele. Embora algumas pessoas minimizem essas situações, outras as reconhecem como barreiras persistentes que restringem direitos e participação. Por outro lado, pessoas migrantes costumam se inserir em setores com baixos níveis de regulação e sem garantias mínimas, ficando expostas à exploração, à intimidação policial, à estigmatização social e a barreiras legais que limitam tanto o acesso ao emprego formal quanto a possibilidade de filiação sindical. Essa combinação de fatores aprofunda a vulnerabilidade desses grupos e exige políticas públicas inclusivas, além de ações sindicais firmes, que reconheçam seu papel como parte fundamental da classe trabalhadora. → Criminalização e cultura antissindical: em muitos setores, a criminalização e a cultura antissindical permanecem, estigmatizando o movimento sindical e gerando temor entre os/as jovens que ingressam no mundo do A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 23 trabalho. Ser jovem e sindicalista ainda gera rejeição em certos contextos, o que pode levar à discriminação por parte de empregadores, dificultar o acesso a empregos decentes e desestimular a participação ativa no movimento sindical. Em muitos países da região, a juventude enfrenta um ambiente hostil à organização coletiva. Além das condições de trabalho precárias, a participação sindical é limitada pela criminalização persistente do movimento sindical e por uma ofensiva midiática que o retrata como antiquado, ineficiente ou contrário ao desenvolvimento. Estes discursos, promovidos por setores empresariais, forças conservadoras e meios de comunicação, reforçam um modelo individualista que deslegitima a ação coletiva e desestimula o envolvimento de novas gerações. Diante deste cenário, é fundamental ir além das transformações estruturais e incluir uma dimensão estratégica voltada à disputa simbólica e comunicacional. Reposicionar o sindicalismo como um ator legítimo, dinâmico e capaz de promover transformação social exige a implementação de novas estratégias discursivas e culturais. Além dos condicionamentos estruturais, também foram identificados obstáculos específicos nos próprios espaços de trabalho. Entre eles, destacam-se: → Discriminação laboral e estigmatização sindical: a atividade sindical ainda é criminalizada por muitos empregadores, que a associam a conflitos ou à perda de produtividade. Isso acarreta demissões, perseguições e exclusão de processos de seleção, especialmente em setores marcados por uma forte resistência à organização coletiva. → Ambiente laboral hostil à sindicalização: o medo de represálias e a falta de consciência de classe geram um ambiente de desconfiança e isolamento, inclusive entre colegas de trabalho. As pessoas jovens que tentam se organizar frequentemente enfrentam resistência tanto da direção quanto de outros trabalhadores. → Vulnerabilidade no primeiro emprego: a inserção de jovens no mercado de trabalho costuma ser em condições informais ou temporárias, sem acesso a direitos ou proteção sindical. O medo de perder o emprego, aliado ao desconhecimento de seus direitos, desestimula o engajamento e silencia possíveis reivindicações. Essas condições não apenas dificultam o engajamento juvenil na vida sindical, mas também reforçam relações de trabalho autoritárias e fragmentadas, enfraquecendo a construção de uma cultura de solidariedade e a ação coletiva desde os primeiros vínculos laborais. Superar esses desafios exige o fortalecimento da ação sindical no local de trabalho, promovendo a organização de base e reivindicando condições que garantam estabilidade, tempo e direitos. Por outro lado, é preciso incidir em políticas públicas que abordem estruturalmente as desigualdades que afetam as juventudes trabalhadoras. 24 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 10. Oportunidades e chaves para a mudança Ao mesmo tempo, o contexto promove oportunidades para o fortalecimento do sindicalismo por meio da participação ativa de pessoas jovens, como evidenciado nas entrevistas e nos grupos focais. 1. A juventude como motor de transformação: os/as jovens representam uma importante fonte de criatividade e renovação para os sindicatos. Sua capacidade de compreender as dinâmicas sociais e laborais das novas gerações, de aplicar novas tecnologias e de propor soluções criativas para problemas coletivos pode fortalecer e modernizar o movimento sindical, tornando-o mais atraente e dinâmico até para as pessoas que acreditaram nos discursos antissindicais. 2. Lutas comuns pela justiça social: o sindicalismo sociopolítico aposta na defesa das demandas da classe trabalhadora para além das pautas estritamente laborais. Essa perspectiva permitiu construir agendas conjuntas em combinação com movimentos sociais, enriquecendo as visões do sindicalismo das Américas. Algumas pessoas jovens participantes do Encontro assinalaram que sua motivação para se filiar ao sindicato ia além das condições de trabalho, envolvendo a luta pela justiça social e por causas como justiça ambiental, igualdade e equidade de gênero, antirracismo e direitos LGBTIQ+. 3. Incorporação de setores emergentes: diante das transformações no mundo do trabalho, os sindicatos precisam compreender as implicações que as mudanças nas formas de produção e acumulação têm para a classe trabalhadora. É especialmente urgente aprofundar a análise dos impactos e das potencialidades da inteligência artificial nesse contexto. Isto permitirá que o sindicalismo amplie sua base de filiação para setores emergentes— como trabalhadores e trabalhadoras em condições de informalidade na economia digital e em outros setores de desenvolvimento, como o das energias renováveis—, integrando essas categorias e fortalecendo a proposta de desenvolvimento sustentável através do diálogo direto com quem atua nesses setores. Como indicado em um dos grupos focais, muitas pessoas jovens atuam nestes setores da economia sem serem reconhecidas como trabalhadoras. No entanto, é importante considerar suas necessidades e desafios para que possam participar ativamente nas lutas sindicais. 4. Aproveitamento de plataformas digitais e avanços tecnológicos: assim como o capital tem usado plataformas digitais, gestão algorítmica e inteligência artificial para precarizar o trabalho, os sindicatos têm o desafio e a oportunidade de se apropriar dessas ferramentas tecnológicas para ampliar sua base de atuação, desafiar estruturas de exploração, conectar-se com as pessoas jovens e promover suas atividades, mobilizações e campanhas de formas diferentes aos formatos tradicionais. 5. Promoção de um sindicalismo inclusivo e diverso: o processo de fortalecimento e transformação sindical tem avançado no reconhecimento das diversidades da classe trabalhadora. Os sindicatos podem aproveitar a demanda crescente por inclusão, reconhecimento e diversidade na sociedade para dar visibilidade à sua construção política, incorporando os valores e as preocupações dos jovens. Promover um sindicalismo que represente de fato as demandas de mulheres, pessoas LGBTIQ+, com deficiências, negras, migrantes e de povos originários é uma grande oportunidade para atrair jovens comprometidos/as com a justiça social e a equidade. Algumas jovens do Encontro reconheceram ter sentido menos lugar para a ação e participação nos espaços sindicais, mas também destacaram o papel do sindicalismo na defesa de seus direitos em situações de violência e assédio no trabalho. O sindicalismo pode se apoiar nesses avanços e conquistas para aprofundar as transformações necessárias rumo à igualdade e à equidade de gênero. 6. Programas de formação e liderança juvenil: continuar desenvolvendo programas de formação política sindical voltados às juventudes – que incluam questões trabalhistas, habilidades de liderança, organização e negociação coletiva, visão do sindicalismo e a proposta de um desenvolvimento sustentável com justiça social e ambiental – é um passo essencial para que adquiram as ferramentas necessárias para liderar os sindicatos. Os/as jovens avaliaram de forma positiva os processos de formação desenvolvidos pela CSA e destacaram a importância de que sejam replicados, no âmbito nacional, por centrais e sindicatos. 7. Modelos de participação mais horizontais: os sindicatos podem adotar modelos organizativos mais horizontais e participativos, que ecoem as expectativas das pessoas jovens de exercer um papel ativo e decisivo nas estruturas sindicais. A defesa da democracia exige a promoção de práticas realmente democráticas dentro do sindicalismo, dando visibilidade aos diferentes coletivos e às suas demandas como parte essencial da construção política sindical. Diante de uma juventude desencantada com uma realidade que não lhes oferece um futuro digno, o sindicalismo tem a possibilidade A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 25 de se consolidar como uma força que defende e aprofunda a compreensão juvenil sobre os princípios da democracia, oferecendo uma alternativa real aos discursos conservadores que tendem a desqualificar a ação política. Chaves para a mudança: → Promover processos formativos com enfoque sociopolítico. → Impulsionar lideranças jovens capazes de incidir em políticas sindicais e públicas. → Aprofundar a articulação com movimentos sociais feministas, antirracistas, ambientalistas, estudantis, indígenas e LGBTIQ+. → Construir alianças a partir das bases que fortaleçam o poder coletivo e reflitam a diversidade real da classe trabalhadora. Para combater os discursos negativos sobre o movimento sindical, é fundamental desenvolver estratégias de comunicação renovadas, que dialoguem com as linguagens, estéticas e práticas de expressão juvenis. Isto significa fortalecer a identidade de classe trabalhadora como horizonte coletivo e projetar narrativas transformadoras que situem a juventude como protagonista ativa na construção de um sindicalismo com futuro. Estas ações não só respondem aos desafios do presente, mas representam uma aposta estratégica para revitalizar o movimento sindical e ampliar sua capacidade de convocação, representação e incidência política. A juventude reconhece que os sindicatos devem se fortalecer para que o mundo do trabalho seja mais justo, menos precarizado e menos explorador. Ao mesmo tempo, entende que esse fortalecimento só será possível com a inclusão ativa das pessoas jovens, garantindo-lhes voz, representação e espaço real de incidência. Para que haja renovação sindical, é preciso abrir o caminho para novas gerações que não só exigem, mas também propõem, articulam e transformam. → Desenvolver novas estratégias comunicacionais. 26 11. Fortalecimento e transformação sindical 11.1. Perspectivas da juventude para o fortalecimento e a transformação sindical nas Américas O 2° Encontro da Juventude foi um espaço participativo, que evidenciou a grande capacidade de liderança e o empoderamento de jovens dirigentes de diferentes países da região. As observações dos participantes revelaram um trabalho cooperativo, colaborativo e dinâmico, no qual as condições da juventude trabalhadora da região foram analisadas a partir de um enfoque de gênero e interseccionalidade. A declaração final do Encontro reflete o posicionamento da juventude trabalhadora sobre as transformações que devem acontecer no movimento sindical para seu fortalecimento. O impacto que a participação juvenil pode ter dentro das organizações sindicais depende, especialmente, de sua capacidade de incidir nos espaços de decisão. Segundo as entrevistas e enquetes realizadas, a realidade é diversa e mostra uma forte polarização. Em algumas organizações, a juventude não tem oportunidades reais para participar nos processos de decisão. No entanto, também existem experiências positivas em que os jovens conseguiram um certo grau de incidência – obtendo a aprovação de propostas em instâncias orgânicas, participando de negociações coletivas e contribuindo para o desenho de políticas sindicais, incluindo aquelas voltadas especificamente à juventude. Apesar das resistências que ainda persistem em muitas estruturas sindicais, as pessoas jovens continuam encontrando maneiras de participar e contribuir com suas ideias. É verdade que as transformações nem sempre são imediatas e que, em ocasiões, as dinâmicas verticais de poder dificultam o avanço de propostas inovadoras. Entretanto, cada intervenção, cada espaço conquistado e cada ideia colocada em debate contribui para abrir brechas nessas barreiras, preparando o terreno para transformações mais profundas. As vozes entrevistadas assinalam que embora ainda existam expressões como“isso já foi feito” ou“nem vale a pena tentar”, a presença ativa da juventude em encontros, debates e processos sindicais demonstra que a inovação não é apenas necessária, mas também possível. Como dito por uma jovem dirigente sindical no 2° Encontro Continen tal da Juventude Trabalhadora das Américas:“Não é tão simples conseguir que se entenda a necessidade de inovar no movimento sindical”, mas seu testemunho também é prova de que esta conversa já começou. O desafio do diálogo intergeracional é grande, e a desconfiança em relação à juventude não desaparece de um dia para o outro. No entanto, é cada vez mais reconhecido que os jovens trazem dinamismo, novas formas de organização e perspectivas inovadoras capazes de revitalizar o sindicalismo. As secretarias de juventude, embora às vezes limitadas em sua incidência, representam um passo importante: são viveiros de liderança e aprendizagem coletiva que, com persistência e articulação, podem influenciar as decisões centrais. A história sindical demonstra que as mudanças estruturais requerem tempo, perseverança e compromisso. Hoje, a juventude já faz parte dessa história, e sua presença constante assegura que o futuro do movimento seja construído com mais vozes, mais ideias e mais possibilidades Apesar de todas as barreiras que vimos, a população jovem entrevistada expressa um forte compromisso com a transformação do movimento sindical. Reclama uma renovação de lideranças e uma integração mais ativa de jovens, mulheres, pessoas LGBTIQ+, negras, migrantes e de povos originários. Esta transformação implica questionar as estruturas tradicionais de poder e avançar rumo a formas mais horizontais, inclusivas e representativas. 11.2. Inovações e mudanças organizacionais impulsionadas por jovens A principal mudança organizacional observada nos sindicatos é a criação de secretarias voltadas especialmente para a juventude. Nas entrevistas, a população jovem do movimento sindical expressa a necessidade de integrar, na estrutura organizativa, as expressões artísticas que são vitais como canais de comunicação e coesão para essa faixa etária. Isto se reflete na seguinte citação extraída de uma das entrevistas durante o 2° ECJTA: “Nem todos aceitavam certas expressões da cultura jovem. Por exemplo, o muralismo e o grafite talvez não se encaixem no que é tradicional do movimento sindical. Falar de performances, de ações disruptivas que surgiram na revolta social ainda parece estranho, mas são coisas que deveríamos aprender A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 27 para aproximar mais jovens das organizações sindicais. Também acho que devemos prestar atenção a outros movimentos no âmbito juvenil. Jovens que fazem rap, freestyle, participam do ativismo animalista ou da defesa do território— fazem parte do movimento juvenil e isso chama mais sua atenção do que o próprio movimento sindical. Saber que existem esses cenários onde se luta, se resiste”. As manifestações artísticas têm se consolidado como uma das principais formas de resistência e expressão identitária da cultura jovem, favorecendo a coordenação e a articulação entre diferentes movimentos sociais e o movimento sindical. A integração e a articulação aparecem como um grande desafio para o movimento sindical na região, pois implicam reconhecer a juventude como protagonista e eixo de coesão e transformação social. Sobre o papel da militância sindical em dinâmicas sociais e coletivas mais amplas: “Que sejam os trabalhadores os que estejam no governo”. “Participar como jovens sindicalistas na construção de um país melhor em questões culturais, socioeconômicas, ambientais”. “Defender os direitos[da classe trabalhadora] e a democracia”. 11.3. Algumas vozes de jovens entrevistados/as Sobre o compromisso político e o crescimento como militante dentro do mundo sindical: “Chegar a ser secretário-geral da minha organização. Tenho que aprender, saber sobre a empresa, sobre os trabalhadores, organizar uma lista e abrir o campo político”. Sobre a importância do sindicalismo: “Que os trabalhadores entendam sua responsabilidade dentro deles[sindicatos]”. “Conseguir a adesão ao sindicato de novos empregados”. “Fortalecer o papel da juventude em permanente renovação permite avançar e evita que o movimento adote uma perspectiva conservadora de se contentar com o que já tem”. “Promover uma visão do sindicalismo como forma de resistência social que contrabalance o avanço de certas visões de direita que procuram que o sindicato signifique[esteja associado com] presentes, festas ou clubes sem perspectiva política”. 28 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe 12. Reflexões finais: juventude sindicalista, presente e protagonista da transformação social A participação da juventude no movimento sindical não é apenas uma necessidade organizativa: é uma aposta estratégica para o fortalecimento, a renovação e a continuidade da luta por direitos trabalhistas, justiça social e ambiental. Em um contexto de profundas transformações no mundo do trabalho, marcado pela digitalização, pela precarização, pela exclusão e pela disseminação de discursos antissindicais e autoritários, as pessoas jovens irrompem como protagonistas para revitalizar as estruturas sindicais e projetá-las para o futuro. Os resultados desta pesquisa evidenciam que o acesso às informações sindicais e as oportunidades de participação estão estreitamente ligados às redes de proximidade e de confiança. Por isso, é fundamental que o movimento sindical invista em estratégias de visibilização, diálogo e formação desde cedo, usando linguagens e ferramentas digitais que se conectem com as realidades dos jovens. A vontade existe: muitas pessoas jovens, inclusive não filiadas, expressaram seu interesse em participar se encontrarem espaços abertos, inclusivos e onde suas vozes tenham peso. Longe de serem um grupo passivo ou indiferente, os jovens trabalhadores das Américas demonstram ter uma forte consciência de seus direitos, dos desafios que enfrentam e de seu papel central na construção de um mundo do trabalho mais justo, inclusivo e democrático. Contribuem não só com energia e dinamismo, mas também com uma visão interseccional e comprometida com a diversidade, que fortalece a capacidade do sindicalismo para representar toda a classe trabalhadora em sua pluralidade de experiências: mulheres jovens, pessoas LGBTIQ+, negros, migrantes, estudantes, trabalhadores informais e de plataformas, entre outros. Apesar das múltiplas barreiras enfrentadas pela juventude trabalhadora, persiste o ímpeto de participar, transformar e liderar. Diante dos avanços da extrema direita e de discursos que promovem o individualismo, o empreendimento despolitizado e a desvalorização do coletivo, o sindicalismo tem a responsabilidade urgente de construir pontes com a juventude. Não basta criar secretarias de juventude. É necessário incluir os jovens em todos os níveis de decisão, reconhecer suas trajetórias e apoiar suas agendas. Fortalecer a participação juvenil não pode se limitar a estruturas formais: exige uma transformação profunda das práticas sindicais, que contemple a diversidade geracional, cultural e territorial da classe trabalhadora. Só assim será possível construir um sindicalismo do século XXI que seja verdadeiramente democrático, representativo e transformador. Os jovens sonham, criam comunidade e nos convocam a imaginar novas formas de organização. Estão em movimento e são o presente da luta coletiva. 29 13. Propostas de acompanhamento e continuidade do mapeamento Para que o mapeamento sobre juventude e sindicalismo impulsione transformações reais, sua continuidade deve se concentrar em corrigir lacunas, aprofundar achados e promover mudanças concretas dentro do movimento sindical. As ações centrais para fortalecer o processo são: → Ampliar e diversificar a base de diagnóstico O mapeamento não deve ser um exercício pontual, mas uma ferramenta estratégica de transformação sindical. Sua continuidade exige vontade política, abertura para a mudança e compromisso com um sindicalismo que reconheça a juventude como protagonista ativa do presente e construtora do futuro. Criar grupos focais e realizar enquetes em setores ainda não explorados – especialmente entre jovens em condições de informalidade, terceirização ou trabalho digital – são ações que permitirão dar voz a grupos invisibilizados e aumentar a compreensão de suas realidades. → Estudar e impulsionar exemplos positivos Identificar experiências bem-sucedidas de inclusão juvenil, sistematizar suas aprendizagens e difundi-las como referência para inspirar transformações em outras organizações. → Consolidar e difundir os achados Preparar um relatório comparativo por país, setor e perfil juvenil, destacando padrões críticos e oportunidades de melhoria. Este documento deve ser socializado em espaços sindicais, acadêmicos e de aliados estratégicos, promovendo seu uso como ferramenta de formação e incidência. → Avaliar com a participação ativa da juventude Estabelecer indicadores de impacto e mecanismos de monitoramento que possibilitem ajustar estratégias continuamente, garantindo que os jovens participem na avaliação e na reformulação do processo. → Tecer alianças para a sustentabilidade Fortalecer vínculos com universidades, centros de pesquisa, movimentos sociais e organismos regionais como a CSA e a FES, ampliando o alcance, a legitimidade e a projeção do mapeamento no tempo. 30 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe Referências bibliográficas FES(2024) Juventudes Asignatura Pendiente(FES, 2024) y en bibliografía como: Friedrich Ebert Stiftung(FES) (2024). Juventudes: Asignatura Pendiente. Encuesta sobre participación y actitudes políticas de las juventudes en América Latina y el Caribe. www.juventudesFES.org Matonti, F. y Poupeau, F,(2007). “El capital militante. Intento de definición”. En Dominación y movilizaciones. Estudios sociológicos sobre el capital militante y el capital escolar, editado por Franck Poupeau, 37-44. Córdoba: Ferreyra. CSA(2021). Hoja de Ruta para el Fortalecimiento y la Transformación Sindical de las Américas. HOJA-DE-RUTA-Autorreforma-Sindical-1.pdf CSA(2024). Declaración Final del 2.° Encuentro Continental de la Juventud Trabajadora de las Américas. 2EJTA- Decla ración final-A4 vertica Sobre as autoras Vânia Ribeiro é Mestra em Estado, Governo e Políticas Públicas(FLACSO), com especialização em Gestão Estratégica em Políticas Públicas(UNICAMP) e trajetória em organismos nacionais e internacionais nas áreas de políticas públicas, meio ambiente, integração regional e incidência sociopolítica. É consultora da Secretaria Nacional de Meio Ambiente da CUT Brasil. Anteriormente, fez parte da equipe técnica da CSA. É autora e coautora de diversas publicações e materiais formativos nessas áreas. Lyda Fernanda Forero é economista e pesquisadora, com estudos de mestrado em História. Trabalhou com o movimento sindical, apoiando processos de fortalecimento e transformação e desenvolvendo análises sobre transição justa e questões ambientais, resistências ao poder corporativo e ao regime internacional de comércio e investimentos. Coordenou a equipe do Transnational Institute e integrou a da CSA, atuando como responsável pela cooperação. Nora Idalia Sagastume Casaña é pesquisadora social, jornalista e comunicadora hondurenha, com experiência em estudos, diagnósticos e sistematizações para organismos internacionais, agências de cooperação e organizações sociais e sindicais na América Central. Trabalhou em temas de migração, mudança climática, direitos trabalhistas, gênero e participação comunitária, combinando pesquisa aplicada, comunicação estratégica e formação. É autora de diversas publicações e foi professora universitária e jornalista radial. Tahira Vargas García é Doutora em Antropologia Social, pianista e professora de educação musical, especialista em pesquisa qualitativa e etnográfica. Trabalhou em temas relacionados a pobreza, gênero, violência, juventude, infância, migração e desenvolvimento local na República Dominicana e em outros países. É autora de numerosos livros e artigos acadêmicos e colunista em meios de comunicação. Atualmente, dirige a consultora Equipe Vargas de Pesquisa Social. Melina Vázquez é socióloga, Mestra em Pesquisa e Doutora em Ciências Sociais(UBA), com pós-doutorado em pesquisa em ciências sociais, infância e juventude(CLACSO). É professora e pesquisadora independente do CONICET no Instituto de Pesquisas Gino Germani(UBA), onde codirige o Grupo de Estudos e Práticas em Políticas e Juventude. Integra o grupo de trabalho“Infâncias e juventudes” da CLACSO e coordena o Diploma Superior em Juventudes. É autora e editora de numerosas publicações sobre juventudes, política e desigualdades na América Latina. A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe 31 A juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe Mapeamento de experiências de participação O fortalecimento da juventude no sindicalismo é indispensável para revitalizar o movimento sindical. Tendo isso em vista, a Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas(CSA), em parceria com o Centro Regional Sindical da Fundação Friedrich Ebert, impulsiona este estudo, visando analisar a participação da juventude no sindicalismo da América Latina e do Caribe, com ênfase particular em jovens que integram as centrais sindicais filiadas à CSA. A presença ativa da juventude no sindicalismo não é apenas uma necessidade organizativa: é uma aposta estratégica para garantir a renovação, o fortalecimento e a continuidade da luta pelos direitos trabalhistas e pela justiça social e ambiental. As pessoas jovens reconhecem o sindicato como um espaço de defesa, aprendizagem e transformação. Daí a importância de ampliar e consolidar seus âmbitos de formação, participação e acompanhamento, promovendo um sindicalismo aberto, inclusivo e capaz de projetar novas gerações militantes. Este mapeamento vai além de um estudo pontual: configura-se como uma ferramenta estratégica para a transformação e o futuro do sindicalismo na região. ↗ www.sindical.fes.de ↗ www.csa-csi.org 32 Centro Regional Sindical na América Latina e no Caribe