P E R S P E C T I VA Expedições Democráticas O espantalho do comunismo: compreender e confrontar a retórica anticomunista na política contemporânea Carlos Meléndez Introdução: o retorno global de um fantasma antiquado Atores da extrema direita na Europa e na América Latina trouxeram de volta à tona um espectro familiar: o comunismo. Não o comunismo como uma força política ativa, mas como um espantalho ou bicho-papão simbólico, invocado estrategicamente numa tentativa de deslegitimar opositores, não apenas nos extremos, mas em todo o espectro político, abrangendo até mesmo forças centristas moderadas. E essa retórica anticomunista não é um fenômeno marginal ou ultrapassado, mas central para a maneira como a extrema direita contemporânea enquadra seus inimigos designados, valendo-se de traumas culturais, polarização ideológica e do poder emotivo do medo. Tomemos como exemplo a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Em um comício, ela saltou no palco, liderando o cântico«chi non salta comunista è»(«quem não salta[com a implicação‘conosco’] é comunista»), talvez ecoando o fervor excludente típico da Guerra Fria. No Chile, para citar outro exemplo, o jingle da campanha de José Antonio Kast alertava para o chamado «cincomunismo» , um neologismo que combinava seu número na cédula eleitoral, cinco, com uma mensagem anticomunista. E essas não são provocações isoladas. Da França ao Peru, o anticomunismo é uma arma discursiva central usada pela extrema direita para estigmatizar agendas reformistas, ambientalistas, feministas ou mesmo centristas. Mas apenas a extrema direita está usando a retórica anticomunista? Mais fundamentalmente, o que significa «anticomunismo» hoje em dia, em particular no âmbito das atitudes individuais? Conceitualizar o anticomunismo: duas faces da mesma moeda Para compreender a relevância contemporânea do anticomunismo, podemos começar por distinguir duas dimensões: O espantalho do comunismo 1 (i) Anticomunismo afetivo se refere à hostilidade visceral e emocional em relação ao comunismo. Abrange a rejeição simbólica – incluindo desconfiança, desprezo e ódio – que muitas vezes está enraizada na memória histórica, no estigma cultural ou na identidade. (ii) Anticomunismo instrumental se refere a uma rejeição pragmática do comunismo como um modelo político ou econômico viável. Nesse sentido, os indivíduos podem não sentir uma hostilidade emocional particularmente forte, mas ainda assim consideram as ideias comunistas perigosas ou contraproducentes no contexto atual. Na análise comparativa que fundamenta este relatório, ambas as dimensões foram medidas por meio de pesquisas com representatividade nacional no Chile (2021), no Peru (2024), na França (2024) e na Itália (2022). O anticomunis mo afetivo foi operacionalizado usando escalas emocionais (por exemplo, admiração versus desprezo), enquanto o anticomunismo instrumental foi avaliado por meio da concordância com a afirmação«as ideias comunistas têm algo a contribuir para a política do meu país». Essas medidas permitem uma compreensão mais precisa de como o anticomunismo opera, não como uma relíquia histórica, mas como uma atitude política duradoura que molda o comportamento eleitoral. Anticomunismo(afetivo) Ideologia Liberalismo Securitarismo –4 –2 0 Anticomunismo(instrumental) Ideologia Figura 1 2 4 Figura 2 Quem são os anticomunistas? Fatores ideológicos e psicológicos Utilizando análises de regressão em quatro pesquisas nacionais, vários padrões emergiram em relação aos fundamentos ideológicos e psicológicos das atitudes anticomunistas. Esses resultados são representados visualmente em figuras que apresentam os coeficientes de regressão para ambas as dimensões do anticomunismo(afetiva e instrumental) na Itália, na França, no Chile e no Peru. Os valores no eixo horizontal variam de-4 a+4 e repre sentam a força e a direção da associação entre as variáveis. Valores positivos indicam uma relação mais forte com as atitudes anticomunistas, enquanto valores negativos refletem o oposto. O anticomunismo afetivo está mais fortemente associado, no Chile, no Peru e na França, à autoidentificação ideológica de direita . Na Itália, contudo, essa rejeição emocional aparece entre pessoas de esquerda , sugerindo que o significado simbólico do comunismo varia conforme o contexto. Ele se correlaciona positivamente com o conservadorismo na França e no Chile, e com o liberalismo na Itália e no Peru. Por vezes, está ligado a atitudes«securitárias» (uma visão de mundo que enfatiza a lei e a ordem, juntamente com a punição), notadamente na França e no Peru, mas não na Itália. Liberalismo Securitarismo –4 –2 0 2 4 Já o anticomunismo instrumental é mais direto. Ele se correlaciona consistentemente nos quatro países com orientações de direita, conservadoras e securitárias . 1 Emerge como um marcador particularmente claro de grupos de extrema direita, mais do que a dimensão afetiva. Em outras palavras, o anticomunismo afetivo – uma rejeição emocional ao comunismo enraizada na memória cultural, no estigma simbólico ou na identidade – tende a ser mais amplo, mais ambíguo e potencialmente acessível a eleitores de centro ou mesmo de esquerda, dependendo do contexto nacional. Isso pode ocorrer porque a aversão 1  No Chile, o questionário não incluiu perguntas sobre securitarismo. O espantalho do comunismo 2 emocional ao«comunismo» pode persistir como um reflexo cultural, mesmo entre aqueles que apoiam políticas progressistas ou liberais, particularmente quando o comunismo está associado a traumas históricos ou desaprovação moral. Por sua vez, o anticomunismo instrumental – a rejeição pragmática das ideias comunistas por serem consideradas politicamente prejudiciais ou ameaçadoras – é mais coerente ideologicamente e está inequivocamente alinhado com a extrema-direita. Reflete uma postura calculada contra as agendas políticas percebidas como de esquerda e, portanto, está mais fortemente ligado a visões de mundo conservadoras, securitárias e autoritárias. Por que o anticomunismo importa: consequências eleitorais Uma das principais contribuições desta pesquisa é demonstrar que ambas as formas de anticomunismo predizem o comportamento eleitoral, embora de maneiras diferentes. O anticomunismo afetivo aumenta a probabilidade de votar não apenas em partidos de extrema direita como o Rassemblement National(França) e a Lega(Itália), assim como em candidatos presidenciais de extrema direita como o pinochetista José Antonio Kast(Chile) e o empresário ultraconservador ligado ao Opus Dei López Aliaga (Peru), mas também em candidatos de direita tradicional ou liberais(econômicos), como o economista neoliberal Hernando de Soto(Peru) e Sebastián Sichel do Chile Vamos(Chile). O anticomunismo instrumental, no entanto, prevê sobretudo votos de extrema direita . Especificamente, é um indicador significativo de apoio ao Rassemblement National na França, à Lega na Itália, a José Antonio Kast e ao Partido Republicano no Chile, e a Rafael López Aliaga e à Renovación Popular no Peru. Desempenha um papel menos importante na previsão de preferências de centro-direita ou liberais, que tendem a ser mais influenciadas pelo anticomunismo afetivo. A principal conclusão é que o anticomunismo não se restringe a extremistas. Enquanto o anticomunismo instrumental funciona como um filtro seletivo para o apoio à extrema direita, o anticomunismo afetivo amplia a ressonância emocional da retórica da extrema direita para eleitorados conservadores mais amplos. Esse duplo mecanismo – ressonância emotiva e ameaça pragmática – explica por que atores de extrema direita persistem em invocar o comunismo, mesmo que os comunistas não detenham poder político real. Anticomunismo(afetivo) França Chile Figura 3 Esquerda/ Direita Esquerda/ Direita –4 –2 0 2 4 –4 –2 0 2 4 Rassemblement National Les Républicans Ensemble Kast Sichel Itália Peru Esquerda/ Direita Esquerda/ Direita –4 –2 0 2 4 Lega Fratelli Forza –4 –2 López Aliaga 0 K. Fujimori 2 4 de Soto O espantalho do comunismo 3 Anticomunismo(afetivo) França Esquerda/ Direita Chile Esquerda/ Direita Figura 4 –4 –2 0 2 4 –4 –2 0 2 4 Rassemblement National Les Républicans Ensemble Kast Sichel Itália Peru Esquerda/ Direita Esquerda/ Direita –4 –2 0 2 4 Lega Fratelli Forza –4 –2 López Aliaga 0 K. Fujimori 2 4 de Soto Por que isso importa para a Europa e a América Latina O apelo duradouro do anticomunismo, especialmente em regiões onde não existe um partido comunista ou onde ele foi«domesticado»(como na Itália e na França), deve alertar os atores progressistas e centristas para um ponto cego crítico. Em ambos os continentes, líderes da extrema direita usam com sucesso o«comunismo» como um termo flutuante, um rótulo vazio ao qual associam seus medos: → intervenção estatal e tributação(França); →(excesso de) regulamentação ambiental(Itália); → ameaças à segurança e terrorismo(Peru); e → colapso econômico e caos social(Chile). Essa elasticidade retórica permite que o«comunismo» represente praticamente qualquer política que desafie a ortodoxia neoliberal, o conservadorismo social ou a soberania nacional. Por sua vez, isso alimenta a polarização, deslegitima as reformas e distorce o debate democrático. Recomendações de políticas 1. Não descartar a retórica anticomunista como meramente anacrônica . O apelo emocional e instrumental do anticomunismo é real, mensurável e tem consequências políticas. Progressistas e centristas que o ignoram fazem isso por sua própria conta e risco. 2. Desvincular as agendas de esquerda dos imaginários da Guerra Fria . A ação climática, a justiça social e a saúde pública devem ser defendidas como políticas pragmáticas e voltadas para o futuro, e não como resquícios de uma ideologia obsoleta. As estratégias de comunicação devem desvincular preventivamente essas propostas de estereótipos«comunistas». 3. Expor a manipulação simbólica por trás do discurso anticomunista . Organizações da sociedade civil, verificadores de fatos e intelectuais devem destacar como atores da extrema direita usam«comunismo» como um termo pejorativo genérico, desvinculado de conteúdo ou contexto reais. As contranarrativas devem enquadrar essa retórica como uma ferramenta de disseminação do medo e de distração. O espantalho do comunismo 4 4. Reconhecer a heterogeneidade das atitudes anticomunistas . Nem todos os anticomunistas são de extrema direita. O anticomunismo afetivo pode coexistir com valores centristas ou mesmo liberais, especialmente em países como a Itália ou o Peru. As amplas coligações devem se concentrar em conciliar preocupações – como a segurança ou a identidade nacional – sem ceder terreno à estigmatização ideológica. 5. Desenvolver narrativas proativas em torno da democracia e do pluralismo . Em vez de adotar uma postura defensiva, os atores políticos devem formular suas propostas como fundamentadas em princípios democráticos, inclusão cívica e renovação nacional. Esse enquadramento reduz a vulnerabilidade das agendas de esquerda e de centro à estigmatização. Conclusão: do espantalho à estratégia O anticomunismo continua sendo uma arma política poderosa, não porque o comunismo represente uma ameaça real, é claro, mas porque a ideia do comunismo ainda serve como um inimigo versátil. Como os dados mostram, o anticomunismo – afetivo e instrumental – estrutura o comportamento do eleitor em diversos contextos. A extrema direita entende isso e explora essa situação. O desafio para os atores democráticos é compreender, confrontar e, em última instância, neutralizar o«espantalho» – ou bicho-papão – do comunismo. Não por meio da negação ou da rejeição, mas por meio do engajamento estratégico, da reformulação da narrativa e da compreensão das atitudes. Fantasmas podem não ser reais, mas ainda têm o poder de aterrorizar. O espantalho do comunismo 5 Sobre o autor Carlos Meléndez é pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pesquisador afiliado do Instituto da Democracia da Universidade Centro-Europeia(CEU). É doutor em Ciência Política pela Universidade de Notre Dame(Indiana, Estados Unidos). Foi professor associado da Universidade Diego Portales(Chile) e pesquisador de pós-doutorado no Instituto da Democracia da CEU (Hungria) e no Centro de Estudos de Conflito e Coesão Social(Chile). Sua pesquisa explora a opinião pública, as identidades políticas, o apoio à extrema direita e a demanda populista, utilizando dados de pesquisas e métodos experimentais, com uma perspectiva transregional sobre a América Latina e a Europa. Seus trabalhos foram publicados em periódicos acadêmicos como American Journal of Political Science, Democratization, Party Politics, Comparative Political Studies, Comparative Politics, Political Studies, Journal of Peace Research, Journal of Politics in Latin America e Revista de Ciencia Política (Chile), Colombia Internacional, entre outros. Sobre Expedições Democráticas Este ensaio baseia-se no artigo apresentado pelo autor no workshop Contesting the Far Right, Safeguarding Democracy: Comparative Insights from Europe and Latin America. Organizado por Daphne Halikiopoulou(Universidade de York, Reino Unido) e Carlos Meléndez (Instituto da Democracia da Universidade Centro-Europeia[CEU], Budapeste), o workshop foi realizado no Instituto da Democracia da CEU, em Budapeste, em 22 e 23 de setembro de 2025. Foi a segunda edição das Expedições Democráticas, uma série de workshops internacionais de pesquisa, cuidadosamente elaborados e com acesso aberto, que visam jogar luz sobre questões pouco exploradas relativas a crises democráticas e lutas pela democratização. A iniciativa é uma parceria entre o Escritório Regional da Fundação Friedrich Ebert para a Democracia do Futuro, em Viena, o Instituto da Democracia da CEU e o Departamento de Ciência Política da CEU. Impressão Publicado por Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Godesberger Allee 149 53175 Bonn, Alemanha info@fes.de Departmento responsável FES Regional Office for International Cooperation Democracy of the Future Reichsratsstr. 13/5 A-1010 Vienna Contato Filip Milačić filip.milacic@fes.de Tradução Eduardo Szklarz Design pertext| www.pertext.de As opiniões expressas nesta publicação não são necessariamente as da Fundação Friedrich Ebert(FES) ou da organização para a qual o autor trabalha. 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