PESQUISA Guadalupe González, Monica Hirst, Carlos Luján, Carlos A. Romero e Juan Gabriel Tokatlian AMLAT Radar 2026 Navegar na incerteza: visões latino-americanas sobre a Europa e o mundo Abril 2026 Ficha técnica Publicado por Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Godesberger Allee 149 53175 Bonn Alemanha info@fes.de Autores Guadalupe González, Monica Hirst, Carlos Luján, Carlos A. Romero e Juan Gabriel Tokatlian Diretor de projeto Sebastian Sperling, Representante da Friedrich-Ebert-Stiftung na Argentina e Diretor da Nueva Sociedad Coordenador de estatística Luis Martín Sosa Assistente de visualização de dados Carlos Eduardo Molina Berumen Tradução para o português Eduardo Szklarz Coordenadora de tradução Silvina Cucchi Design/Diagramaçã o Anto Fraccaro& Juliana Marengo Design da capa Anto Fraccaro As opiniões expressas nesta publicação não refletem necessariamente as opiniões da Friedrich-Ebert-Stiftung(FES). O uso comercial de material publicado pela Friedrich-Ebert-Stiftung não é permitido sem a autorização por escrito. Abril 2026 © Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. ISBN 978-631-6900-01-2 Para mais informações sobre o tema, acesse: ↗ amlatradar.org Guadalupe González, Monica Hirst, Carlos Luján, Carlos A. Romero e Juan Gabriel Tokatlian Navegar na incerteza: visões latino-americanas sobre a Europa e o mundo Abril 2026 Índice Prólogo ....................................................................... Introdução .................................................................... Um breve tutorial ............................................................... Ficha técnica .................................................................. 1. Emoções e subjetividades: o peso da incerteza...................................  11 Sentimentos. Expectativas sobre o mundo, o país e o indivíduo. Preocupações com problemas globais...........................................................  11 2. Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos ......................  19 A névoa da guerra. Era de conflitos. Um mundo sem regras. A violência em Gaza. A crise de poder dos Estados Unidos e o impacto de Trump. Níveis de confiança em lideranças internacionais. ..................................................  19 3. Ordem, poder e projeção mundial ..............................................  25 Opinião sobre países. Influência econômica. Modelos de desenvolvimento. Avaliação da democracia no mundo. Comparações entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China: liderança, influência, sentimentos, sócios temático-estratégicos e o vínculo bilateral sob a lupa. ..........................................................  25 4. Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante ..........  37 Imagem. As lideranças da União Europeia. Avaliação da política externa da União Europeia e de seu modelo de integração. Importância da América Latina para a Europa. Preferências de cooperação com a União Europeia...................  37 5. América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas .....................  45 Importância da América Latina no mundo. Influência econômica e lideranças regionais. Desafios temáticos e preferências de inserção internacional. O consenso a favor da não proliferação nuclear. Direitos, valores e percepção da democracia no país. ......  45 Destaques...................................................................  54 6. Reflexões finais: os dilemas além dos dados ......................................  57 Prólogo Diante da turbulenta situação mundial e do colapso da ordem global, diversos atores – desde governos a amplos setores da população – tendem a se retrair. A pesquisa AMLAT Radar oferece razões para resistir a essa tentação a partir de uma dupla convicção: hoje, mais do que nunca, é necessário fortalecer as alianças internacionais, e essa tarefa não cabe apenas aos Estados. Num cenário global pouco favorável àqueles que continuam lutando por um mundo mais solidário, pacífico e justo, uma frase formulada há meio século pela Comissão NorteSul de Willy Brandt segue plenamente atual:“A configuração do nosso futuro comum é importante demais para ser deixada exclusivamente nas mãos dos governos”. A AMLAT Radar concentra-se na opinião pública sobre assuntos internacionais, um tema que muitas vezes não ocupa lugar de destaque no debate público. Os resultados jogam luz sobre cidadãos que acompanham com atenção os acontecimentos internacionais e, em alguns casos, discrepâncias entre a opinião pública e as posições governamentais. Os resultados não apenas oferecem um retrato atual revelador, como também nos permitem reconstruir a sua evolução ao longo do tempo. Esta é a segunda medição deste tipo, após a realizada em 2021-2022. Cabe aqui um agradecimento especial a Svenja Blanke, que, sendo então editora da revista Nueva Sociedad, iniciou e coordenou a primeira edição, e à sua sucessora, Ingrid Ross, por promover a segunda no início de 2025. Este projeto foi e continua sendo possível graças à imensa e diversificada experiência acadêmica e ao compromisso especial do grupo Diálogo y Paz, formado por Guadalupe González, Monica Hirst, Carlos Luján, Carlos A. Romero e Juan Gabriel Tokatlian, com o apoio de Luis Martín Sosa. Também foram fundamentais a implementação metodológica e a coleta de dados realizadas pelo Latinobarómetro e sua diretora, Marta Lagos. Igualmente importante tem sido o trabalho da magnífica equipe da revista Nueva Sociedad e de colegas de mais de uma dezena de escritórios da Fundação Friedrich Ebert(FES) na América Latina e na Europa. São eles que agora estão criando espaços para debater os resultados e pensar suas implicações políticas. Em sua concepção e execução, a AMLAT Radar já demonstra o que busca promover: a cooperação internacional que transcende regiões e se concretiza no diálogo entre atores, conhecimentos e instituições de ambos os continentes. Este relatório oferece uma interpretação abrangente e detalhada dos resultados da pesquisa realizada pelo grupo Diálogo e Paz, mas não pretende encerrar a discussão. Busca suscitar novas perguntas e estimular uma análise mais aprofundada dos dados reunidos, que estão disponíveis publicamente no site. Para a América Latina, os resultados da pesquisa abrem uma reflexão sobre como a região pode encontrar suas próprias margens de ação em meio à turbulência da política mundial contemporânea. Para a Europa, as conclusões colocam em destaque o grande potencial das alianças de diversos tipos com a América Latina e a necessidade de considerar o que é preciso para aproveitá-lo, assim como para reverter o desgaste de seu próprio prestígio. Este relatório também demonstra que, mesmo num contexto de incerteza, a disposição para cooperar e fortalecer os vínculos entre as regiões persiste e não deve ser subestimada. Amplos setores da sociedade latino-americana continuam valorizando a cooperação, as conexões entre regiões e a busca por autonomia em um mundo turbulento. Ainda existem bases sociais e políticas para vislumbrar novas formas de articulação internacional, mais atentas às necessidades concretas de nossas sociedades e, ao mesmo tempo, capazes de sustentar um horizonte compartilhado de justiça, igualdade, paz e solidariedade. Sebastian Sperling Representante da FES na Argentina Diretor de Nueva Sociedad 4 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Introdução O dia 3 de janeiro de 2026 representou um batismo de fogo para a América Latina diante de um mundo violento, incerto e permeado pelo medo. O ataque militar liderado pelos Estados Unidos contra a Venezuela obrigou a região a entrar num cenário de ações e decisões geopolíticas peremptórias e violentas que, na prática, implicaram o desrespeito a valores globais e bens públicos como a soberania, o direito internacional e a paz. É inegável que a projeção externa de uma lógica de poder dominada pelo uso ostensivo da força gera vertigem e perplexidade entre os cidadãos latino-americanos, embora não os pegue de surpresa. As sociedades da região demonstram níveis consideráveis de atenção às dinâmicas que ocorrem tanto no âmbito global como em seu próprio entorno regional. Suas percepções e sentimentos revelam valores e preferências em relação ao presente e ao futuro. É partindo dessa premissa que interpretamos os resultados da pesquisa AMLAT Radar 2026. Apresentamos aqui o relatório interpretativo da pesquisa AMLAT Radar 2026: Visões latino-americanas sobre a Europa e o mundo, que oferece uma leitura a partir da América Latina sobre um cenário global em rápida transformação, marcado por sinais de ruptura da ordem internacional. Esta é a segunda edição de uma pesquisa de opinião encomendada pela Fundação Friedrich Ebert(FES) e por Nueva Sociedad ao Latinobarómetro, concebida e implementada pelo grupo Diálogo y Paz 1 . A pesquisa baseia-se num levantamento de 12.000 entrevistas realizadas em dez países: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela. Esta seleção visa oferecer uma cobertura representativa da diversidade latino-americana, ao incorporar países de diferentes tamanhos e localizações sub-regionais. Por que é importante escutar a voz das sociedades latino-americanas em tempos de ruptura internacional? Hoje é imprescindível compreender como as sociedades latino-americanas sentem e percebem as atuais rupturas no sistema internacional, além de conhecer as expectativas que projetam para o futuro da sua região e dos seus próprios países. É também fundamental entender o papel que atribuem aos atores externos – incluindo a Europa – num contexto de crescente disputa e contestação global. Em democracias que renovam ou reafirmam lideranças e orientações de política interna e externa, esta informação adquire um claro valor estratégico. Temos consciência de que esse tipo de análise compete com uma avalanche de fontes que alimentam os cidadãos com desinformação, ódio e falsidades, em detrimento da qualidade do debate público. Este relatório está destinado prioritariamente a públicos atentos de todo o mundo, em particular na Europa e na América Latina, que tenham interesse e capacidade para influenciar a política externa e a agenda birregional. Especificamente, busca informar e nutrir o debate entre tomadores de decisão dos âmbitos governamental e político, atores do setor empresarial e sindical, organizações da sociedade civil, comunidades acadêmicas, meios de comunicação, organismos internacionais e agências especializadas. Da mesma forma, estes resultados oferecem uma base empírica que pode servir como ponto de partida e ponte para novas reflexões, para as novas gerações de analistas, comunidades científicas emergentes e centros de estudos que começarão a moldar as agendas intelectuais e estratégicas das próximas décadas. Contribuir com evidências para o debate No contexto atual, o valor agregado desta pesquisa reside em atenuar a escassez de estudos abrangentes, rigorosos e especializados sobre assuntos internacionais na América Latina. As evidências disponíveis são frequentemente fragmentadas, dispersas ou focadas em eventos isolados e situações específicas, o que limita a compreensão das tendências estruturais da opinião pública regional. Esta pesquisa busca dar um passo além para superar essas lacunas, reconhecendo que existem valiosos esforços no campo das pesquisas de opinião pública sobre assuntos internacionais para enriquecer nosso conjunto de perguntas. A este respeito, vale mencionar o Security Radar da FES, que permite realizar comparações com a opinião pública europeia. O presente estudo é amplo e denso; proporciona um olhar sistemático e comparado que se 1 Entre as publicações do grupo Diálogo y Paz, se mencionam:“Coyuntura crítica, transición de poder y vaciamiento latinoamericano” em Nueva Sociedad Nº 291, 1-2/2021; “Afganistán y América Latina frente a la primacía desafiada de Estados Unidos” em Nueva Sociedad Nº 295, 9-10/2021;“El humanismo desarmado de América Latina” em Nueva Sociedad edição digital, 11/2023; e“Trump y América Latina y el Caribe: ¿un laboratorio de control?”, análise, 2025, todas elas disponíveis em. Introdução 5 concentra em como a América Latina percebe, avalia e se vincula com a Europa. Busca enriquecer um campo de observação que muitas vezes tem sido dominado pela ênfase nos Estados Unidos e na China. Assim, a pesquisa pretende contribuir para a compreensão da inserção internacional da região a partir de uma perspectiva própria e em diálogo com o Sul global 2 . O questionário estruturado priorizou as percepções sobre a Europa e o entorno internacional em seu conjunto. Convidamos os leitores a compartilharem sugestões que possam enriquecer pesquisas futuras com a inclusão de temas como a crise do multilateralismo e a visão do Sul global 3 . Um banco de dados adicional estará disponível, incluindo mais perguntas do que as apresentadas aqui, como também um perfil sociodemográfico mais detalhado dos entrevistados. Desde 2022 houve uma série de eventos contundentes, somados a processos de mudança na forma de convivência e comunicação impulsionadas por avanços tecnológicos como a inteligência artificial. Incluímos nesta pesquisa perguntas sobre certos temas que visam refletir algumas dessas transformações. Parece-nos importante compreender o olhar da região sobre uma agenda urgente que inclui a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza, o futuro dos Estados Unidos como líder global e o papel atribuído à Europa e à União Europeia nos próximos anos – questões que conferem a esta pesquisa atualidade e visão de futuro. Num contexto de erosão democrática em escala global e regional, a desconexão entre política, cidadãos e fatores externos emerge como um risco crescente que exige melhores evidências para a tomada de decisões. A maior visibilidade e presença de questões internacionais nas agendas nacionais – impulsionadas tanto pela intensidade dos acontecimentos globais como pela revolução tecnológica que permite seu monitoramento em tempo real – reforça a importância de medições sistemáticas da opinião pública. Nesse sentido, a pesquisa contribui para dar voz às percepções e sentimentos dos cidadãos e para identificar possíveis lacunas entre as preferências sociais e as posições governamentais. Da mesma forma, visa destacar os déficits democráticos e os pontos cegos da política externa, para além das informações normalmente veiculadas pela mídia e pelas redes sociais. O contexto é essencial Esta pesquisa corresponde à segunda edição de um esforço para gerar um bem público de informação rigorosa de modo a compreender as visões regionais com base em dez realidades nacionais. A primeira edição foi realizada no segundo semestre de 2021 e publicada no início de 2022 3 . Esta segunda pesquisa ocorreu no final de 2025, um ano marcado por uma série de mudanças drásticas com impacto global e regional. Ambas as pesquisas avaliam a opinião pública latino-americana em momentos cruciais do sistema internacional e regional: foram conduzidas na véspera de conflitos armados que redefinem o rumo dos eventos mundiais. Em 2021, pouco antes do início da guerra na Ucrânia; e em 2025, antes dos acontecimentos de 3 de janeiro na Venezuela, após um ano caracterizado pelo retorno de Donald Trump ao poder e suas ameaças de apropriação territorial, o aprofundamento da tragédia em Gaza, o aumento da conflitividade bélica na Ucrânia, a escalada da guerra comercial e as deportações em massa por parte de Washington, as tensões militares no Caribe e o avanço eleitoral da direita radical na América Latina. No entanto, não é menor o contraste entre os contextos externos de ambos os levantamentos, o que influenciou tanto o desenho da pesquisa quanto a sistematização e a interpretação de seus resultados. Nos últimos quatro anos, todas as dimensões do sistema internacional sofreram transformações profundas que impactaram tanto a Europa como a América Latina, gerando novos desafios e realidades. A transição na ordem global, antecipada no levantamento do segundo semestre de 2021, deu lugar a um processo de rupturas aceleradas, no qual as opções militarizadas estão progressivamente substituindo as vias do diálogo e da convergência. Nesta segunda rodada, a pesquisa ampliou seu escopo temático e aumentou de tamanho em comparação com o levantamento publicado em 2022, visando maior profundidade, potencial de inferência e identificação de agendas. Uma dupla preocupação orientou a definição do conjunto de perguntas em torno das quais o projeto foi estruturado. Por um lado, a pesquisa buscou identificar tendências e oscilações, repetindo um conjunto de perguntas centrais sobre o contexto internacional e comparando influência, expectativas e interesses com as principais referências de poder internacionais. Por outro lado, novos temas foram adicionados, e o número de atores extrarregionais no radar aumentou. Além disso, uma característica singular desta segunda pesquisa: foi incorporada uma dimensão subjetiva para captar o sentimento latinoamericano diante de novas realidades e cenários, atores políticos proeminentes e o dramatismo de certas circunstâncias internacionais. Essa inclusão reconhece o papel da linguagem emocional na vida política nacional e internacional, abrindo espaço para novos mecanismos de controle social e comunicação midiática. Nessa mesma linha, a pesquisa considerou a ascensão ao poder de novos líderes que desafiam o status quo, normalizam práticas violentas e abalam as instituições democráticas e o consenso em escala global. 2  Nosso enfoque dialoga com a conceituação Amitav Acharya sobre uma multipolaridade inclusiva com autonomia, que ele denomina cenário multiplex emergente. Essa perspectiva, formulada a partir do Sul global, contrasta com a noção clássica de multipolaridade desenvolvida na tradição ocidental e nos países do Norte global. V. The End of American World Order, 2ª ed., Polity Press, Cambridge, 2018. 3 Para uma análise dos resultados da primeira pesquisa, v. C.A. Romero, J.G. Tokatlian, C. Luján, G. González e M. Hirst:“Cómo América Latina ve a Europa. Encuesta de Fundación Friedrich Ebert/ Nueva Sociedad/ Latinobarómetro” em Nueva Sociedad edição digital, 4/2022, disponível em. Os bancos de dados e os gráficos de 2022 podem ser consultados em. 6 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Alguns dos resultados desta pesquisa são eloquentes ao demonstrar o aprofundamento da posição desfavorável dos Estados Unidos na América Latina, uma tendência já evidente em 2021 em diversos campos, em comparação com outros poderes internacionais. O retorno de Donald Trump à Presidência transformou imediatamente a América Latina e o Caribe em um laboratório de controle para a projeção internacional da política MAGA( Make America Great Again). Desde 2025, Washington busca testar sua capacidade de comando, subordinação e coerção por meio de agendas específicas, como migração, segurança, controle de fronteiras, defesa, comércio e investimento, enquanto suprime questões relacionadas ao meio ambiente, transição energética, cooperação internacional e tecnologia. Uma forma de medir a eficácia desse“experimento” na região é comparar as visões de suas sociedades sobre a liderança dos Estados Unidos com as de outras potências internacionais, especialmente a União Europeia e a China. Estrutura e arco temático O presente relatório está organizado em torno de cinco unidades temáticas:(1) emoções e subjetividades;(2) visão de mundo;(3) ordem global e poder;(4) Europa e União Europeia; e(5) América Latina. Esse percurso segue uma progressão lógica que vai do plano subjetivo ao plano geopolítico e de políticas exteriores. Começa-se com as percepções e disposições emocionais das sociedades, a seguir com as suas visões de mundo e suas interpretações da ordem internacional e culmina com uma avaliação de atores e espaços geopolíticos específicos, primeiro a Europa e a União Europeia e, finalmente, a América Latina. As mudanças atuais na agenda internacional são fortemente influenciadas pelo novo lugar do conflito, pela polarização política interna e pela instrumentalização dos laços econômico-comerciais como ameaças. O primeiro capítulo busca compreender o impacto subjetivo desse novo contexto. A hipersecuritização imposta por narrativas que exacerbam a noção de ameaça representa o outro lado da moeda de uma crise de um sistema baseado em regras, reforçado por organizações multilaterais e regimes com base em consensos coletivos. O peso do sentimento de incerteza fala por si só como reflexo de um entorno permeado pela insegurança. O segundo e o terceiro capítulos incluem perguntas do estudo de 2022, assim como uma série de novos itens, a fim de oferecer uma comparação longitudinal mais completa dos pesos das potências, suas novas formas de projeção no sistema internacional e as agendas emergentes que moldam o cenário global. Destaca-se o alto nível de rejeição a Donald Trump, seguido por Vladimir Putin, dois líderes que optaram por transgredir as regras e os princípios de convivência internacional na busca de suas ambições políticas e territoriais. Portanto, não é surpreendente que os resultados da pesquisa mostrem um declínio na avaliação democrática dos países que eles lideram. Ao ampliar o olhar até os modelos de desenvolvimento, é notável que alguns países asiáticos recebam avaliações mais positivas do que diversas nações ocidentais. O foco sobre a Europa e na União Europeia se dá no quarto capítulo, onde encontramos os contrastes mais significativos entre a primeira e a segunda pesquisas. A principal diferença reside no enfraquecimento da imagem geral da União Europeia na opinião pública latinoamericana. A liderança europeia é mais difusa e sua condição de potência normativa se reduz. O modelo de integração europeia para a América Latina perde força. Essa seção descreve as avaliações dos latino-americanos sobre a União Europeia como promotora da paz mundial e sua resposta à crise humanitária em Gaza e ao conflito na Ucrânia. Merece atenção a mudança na percepção da autonomia estratégica da União Europeia em relação aos Estados Unidos nos últimos quatro anos. O quinto e último capítulo concentra-se na América Latina. O vazio do regionalismo, já evidente anteriormente, é expressado de forma mais contundente, com uma preferência por caminhos transacionais que descartam a integração e priorizam laços bilaterais para garantir resultados tangíveis. O peso dos vínculos comerciais e da proteção da soberania tem maior importância, enquanto as preocupações com a capacidade militar e a defesa territorial são menos relevantes. Trata-se também de uma região que apoia a democracia e os direitos humanos no mundo, e onde são percebidas variações nacionais nessas áreas. Em um contexto internacional que inspira medo e incerteza, os países latino-americanos continuam se pronunciando a favor da não proliferação nuclear. Introdução 7 Um breve tutorial O banco de dados do AMLAT Radar 2026 inclui uma gama mais ampla de perguntas— 43 temáticas e 11 sociodemográficas— que o levantamento de 2022, que continha 39 e 9, respectivamente. Todas essas informações estão disponíveis em< amlatradar.org > com acessibilidade plena. Abaixo, oferecemos algumas informações básicas para ajudá-lo(a) a entender o questionário e suas respostas. O que pensam os latino-americanos hoje? Nossa pesquisa revela que os cidadãos latino-americanos têm uma consciência clara do momento atual e, portanto, percebem o avanço inquietante de um mundo militarizado, no qual as regras não são respeitadas ou são questionadas. Entendem que, em um contexto belicoso e de instabilidade econômica, seu próprio bem-estar e a prosperidade de seus países estão em jogo. Ao mesmo tempo, estes cidadãos aspiram a que o leitmotiv da inserção internacional da América Latina seja a preservação e a expansão de sua margem de manobra para assegurar maior autonomia e benefícios concretos em seu cotidiano. As sociedades latino-americanas percebem certa urgência diante da mudança coercitiva na política externa dos Estados Unidos e não se consideram marginais frente aos temas mundiais. A opinião pública da região reconhece com nitidez que testemunhamos um sistema onde existe maior dispersão de poder e menos lideranças preponderantes. Ao mesmo tempo, reafirma o valor da democracia e reivindica a paz. De onde vem e como se encontra hoje a relação entre a América Latina e a Europa? Em momentos críticos como o atual, a história oferece chaves para interpretar e orientar o futuro. Durante décadas, a Europa e a América Latina buscaram construir pontes birregionais que fortalecessem ambos os lados. Na década de 1980, consolidou-se uma relação estreita baseada no apoio europeu às transições democráticas na América Latina e na percepção latino-americana da Europa como pujante e exemplar para os processos de integração. Nos anos 1990 surgiram expectativas concretas em termos de investimento e comércio, quando a América Latina adotou rigorosamente as recomendações do Consenso de Washington. O mal-estar social e os problemas econômicos do início dos anos 2000 levaram a um esforço renovado de reaproximação birregional. O diálogo político e a cooperação fomentados pelas Cúpulas Celac-UE ampliaram a agenda, mas tiveram impacto limitado. Ao mesmo tempo, utilizou-se a diplomacia econômica bilateral – por exemplo, com o México e o Chile – e de caráter birregional – como o início das negociações para um acordo UE-Mercosul. No entanto, de modo geral, frustração e certo distanciamento surgiram de ambos os lados nos últimos tempos, já que suas agendas foram se distanciando. Isso decorre de um histórico de pontes parcialmente construídas, expectativas não atendidas e promessas pendentes. Se for deixada no piloto automático ou na inércia, a relação poderia resultar em distanciamento mútuo e oportunidades perdidas. Historicamente, tanto a Europa como a América Latina desempenharam um papel significativo na construção de regras e instituições multilaterais, que agora estão sendo questionadas ou abandonadas por diversos atores-chave. Nesse cruzamento de trajetórias e desafios, surge uma pergunta inevitável: há espaço para um maior diálogo e compromissos mais concretos entre as duas regiões? 8 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Ficha técnica Foram feitas 12.000 entrevistas entre 3 de outubro e 18 de novembro de 2025, sendo 1.200 em cada um dos seguintes países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela. As entrevistas foram realizadas a uma amostra representativa da população com maioridade ou mais e com oito anos ou mais de escolaridade em cada país. A amostra foi composta com cotas de idade, sexo e escolaridade, conforme o censo de cada país, em um painel digital que utilizou a metodologia WAPI( web-assisted personal interview). As amostras do painel não têm margem de erro; por seu tamanho, se fossem probabilísticas, o erro de amostragem seria de 3% por país. País População-alvo Tamanho da amostragem Modo Representação Ponderação Idioma de aplicação Argentina População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior Bolívia População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior 1.200 1.200 WAPI 60% WAPI 52% Sexo, Idade, Região e Educação Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol Espanhol Brasil População com acesso à internet de 16 anos ou mais com ensino fundamental completo 1.200 WAPI 70% Região x Sexo, Região x Idade, Região x Educação e Região x Condição Português Chile População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior 1.200 WAPI 70% Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol Colômbia População de 18 anos ou mais 1.200 WAPI 72% Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol Costa Rica População de 18 anos ou mais 1.200 WAPI 100% Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol Guatemala População de 18 anos ou mais 1.200 WAPI 100% Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol México População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior 1.200 WAPI 100% Não foi ponderado Espanhol Uruguai População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior Venezuela População de 18 anos ou mais com ensino médio ou superior 1.200 1.200 WAPI 66% WAPI NA Sexo, Idade, Região e Educação Sexo, Idade, Região e Educação Espanhol Espanhol Ficha técnica 9 1. Emoções e subjetividades: o peso da incerteza 1. Emoções e subjetividades: o peso da incerteza Sentimentos. Expectativas sobre o mundo, o país e o indivíduo. Preocupações com problemas globais. Num contexto internacional volátil como o de hoje, entender como os cidadãos se sentem é tão importante quanto saber o que eles pensam. A política global é cada vez mais processada por meios emocionais e performativos: o discurso político, as redes sociais e a desinformação ativam e amplificam sentimentos de medo, raiva ou incerteza que moldam a interpretação de eventos e atores internacionais. Portanto, esta pesquisa incorpora a dimensão emocional da opinião pública e explora os sentimentos dos latino-americanos em relação à situação mundial.(1.1 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo). Na região, os sentimentos negativos em relação à situação mundial são duas vezes mais frequentes que os positivos. A incerteza é, de longe, o sentimento dominante em todos os países incluídos na amostra. Cabe destacar também que os latino-americanos não são indiferentes ao estado do mundo, com a Venezuela refletindo o ponto mais alto relativo à esperança(1.2 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo[%]). Em conjunto, o panorama emocional revela uma região que encara o cenário global com apreensão e questionamentos, em vez de entusiasmo ou indiferença. A prevalência de emoções negativas e neutras sobre os sentimentos positivos inclina a balança regional para uma avaliação moderadamente pessimista do cenário global (1.3 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo[%]). Embora esse padrão se repita na maioria dos países, diferenças marcantes aparecem entre alguns deles, refletindo contextos políticos e expectativas diversas em relação ao ambiente internacional. Enquanto Chile e Brasil registram os maiores saldos líquidos de sentimentos negativos, com uma visão mais crítica do contexto internacional, a Venezuela é o único dos países analisados que apresenta um saldo líquido positivo. Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo P: Considerando o atual contexto, qual é seu principal sentimento sobre a situação do mundo hoje? Gráfico 1.1 Emoções e subjetividades: o peso da incerteza 11 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo[%] P: Considerando o atual contexto, qual é seu principal sentimento sobre a situação do mundo hoje? Gráfico 1.2 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo(%) P: Considerando o atual contexto, qual é seu principal sentimento sobre a situação do mundo hoje? Gráfico 1.3 12 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Na dimensão subjetiva, as diferenças geracionais são muito claras(1.4 Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo por idade[%]). A incerteza, sentimento predominante em relação à situação internacional, aparece com menos frequência entre os jovens e está aumentando de maneira sustentada entre os adultos, especialmente os mais velhos, onde é praticamente o dobro do nível registrado entre as gerações mais jovens. Em contraste, as gerações jovens apresentam um repertório emocional mais diversificado, no qual a desconfiança, o medo e a curiosidade adquirem maior peso relativo, sugerindo uma relação mais exploratória – embora também mais crítica – com o entorno global. A negatividade, somada a um sentimento de incerteza, traduz-se em expectativas divergentes sobre o futuro (1.5 Percepções sobre o futuro: mundo, país e família[%]). Observam-se diferenças significativas entre as percepções dirigidas às esferas internacional, nacional e familiar. Há um elevado nível de pessimismo em relação ao mundo e também em relação ao país. Em contraste, existe otimismo sobre a situação familiar e pessoal. Esta dissociação indicaria um reflexo defensivo face a situações que suscitam preocupação, mas que estão fora do controlo individual. O ambiente familiar é o principal estímulo e salvaguarda para o indivíduo em todos os países. Cabe destacar algumas diferenças entre os países (1.6 Saldo de concordância: meu entorno está caminhando na direção correta[%]). A Colômbia, o México, a Costa Rica e o Brasil apresentam a visão com maior sentido de risco sobre o contexto mundial. Já a Argentina transmite expectativa sobre futuro nacional e, por fim, o Uruguai e o Chile se destacam pela percepção mais positiva em relação ao futuro pessoal e familiar. Sentimentos da América Latina ante a situação atual do mundo por idade(%) P: Considerando o atual contexto, qual é seu principal sentimento sobre a situação do mundo hoje? Gráfico 1.4 Emoções e subjetividades: o peso da incerteza 13 Percepções sobre o futuro: mundo, país e família(%) Gráfico 1.5 P: Pensando no futuro do mundo e do seu país, diga-me se está muito de acordo(1), de acordo(2), em desacordo(3) ou muito em desacordo(4) com as seguintes afirmações: Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) Saldo de concordância: meu entorno está caminhando na direção certa(%) Gráfico 1.6 P: Pensando no futuro do mundo e do seu país, diga-me se está muito de acordo(1), de acordo(2), em desacordo(3) ou muito em desacordo(4) com as seguintes afirmações: “O mundo/Meu país/Eu e minha família está(estamos) caminhando na direção certa”. Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) 14 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Ao lidar com uma ampla agenda global, surgem inquietações heterogêneas. Foram selecionados 16 problemas que incluem: questões de segurança, sociais, econômicas, políticas e climáticas(1.7 Preocupação com problemas globais na América Latina[%]). Regionalmente, seis problemas principais se destacam: guerras e conflitos, pobreza, narcotráfico, mudança climática e fome. No entanto, há uma variação significativa na ordem de importância que cada país atribui a essas questões, refletindo a falta de um consenso básico sobre as prioridades de agenda. A guerra é a principal preocupação na Colômbia, no Uruguai, na Venezuela e no Brasil, enquanto a pobreza se destaca na Guatemala e na Argentina, o narcotráfico na Costa Rica e no Chile, a mudança climática no México e os problemas econômicos na Bolívia(1.8 Preocupação com problemas globais na América Latina[%]). Há inquietações específicas que sobressaem em certos países. Em comparação com os demais, no Chile a migração é uma questão de grande preocupação social; o mesmo ocorre com os direitos humanos na Venezuela; a crise da democracia na Bolívia, e os desastres naturais na Guatemala. Em todo esse leque de perguntas, a baixa proporção de respostas“não sabe/não responde” sugere uma região atenta e interessada no que acontece no mundo. Contudo, a característica singular da América Latina reside no fato de que esse interesse coexiste com uma marcante disparidade entre os países em termos da intensidade dessas preocupações. A essa heterogeneidade entre os países somam-se diferenças geracionais igualmente significativas(1.9 Preocupação com problemas globais na América Latina por idade[%]). Entre os quatro grupos etários considerados(16 a 29 anos; 30 a 49 anos; 50 a 64 anos; e 65 anos ou mais), emerge um padrão claro: quanto maior a idade, maior o nível de apreensão com os principais desafios globais. A preocupação com a crise das democracias, a migração e os refugiados, guerras e conflitos armados, bem como o narcotráfico, é significativamente menor entre os jovens do que entre os adultos mais velhos, com uma diferença máxima de 23 pontos percentuais. Em conclusão, longe da imagem de uma região voltada para si mesma, as emoções e percepções registradas na pesquisa mostram que os latino-americanos não são indiferentes ao que acontece além de suas fronteiras e reconhecem que os processos globais influenciam seus próprios destinos. Preocupação com problemas globais na América Latina P: Continuando com a lista de problemas globais, quais dos seguintes mais preocupam você? Gráfico 1.7 Emoções e subjetividades: o peso da incerteza 15 Preocupação com problemas globais na América Latina(%) P: Continuando com a lista de problemas globais, quais dos seguintes mais preocupam você? Gráfico 1.8 Preocupação com problemas globais na América Latina por idade(%) P: Continuando com a lista de problemas globais, quais dos seguintes mais preocupam você? Gráfico 1.9 16 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. 2. Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos 2. Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos A névoa da guerra. Era de conflitos. Um mundo sem regras. A violência em Gaza. A crise de poder dos Estados Unidos e o impacto de Trump. Níveis de confiança em lideranças internacionais. A opinião pública latino-americana apresenta uma convicção majoritária de que o mundo entrou em uma fase mais conflituosa, em consonância com os dados que mostram que a guerra e os conflitos armados são a principal fonte de preocupação na região(2.1 Saldo de concordância: “Começou uma era de guerras e conflitos no mundo”[%]). Há, portanto, uma ampla percepção de que entramos em um contexto internacional belicoso, uma interpretação que não surpreende dada a multiplicidade de conflitos armados ativos em escala global. No entanto, o dado principal não é apenas a magnitude da concordância, mas também de sua intensidade:“parcialmente de acordo” predomina claramente sobre“muito de acordo”. Isso sugere uma percepção de deterioração do ambiente internacional, que se traduz mais como sinal de inquietação do que de alarme. Para comparar o ânimo da opinião pública latino-americana e europeia, a pesquisa replicou três perguntas sobre a percepção da situação do mundo do Security Radar 2025 4 – um projeto de longa data da Fundação Friedrich Ebert, apresentado periodicamente na Conferência de Segurança de Munique. A comparação entre a América Latina e a Europa mostra que a percepção de uma tendência conflituosa do sistema internacional é amplamente compartilhada em ambos os lados do Atlântico e não constitui uma apreensão exclusiva das sociedades europeias mais diretamente expostas à guerra. A proporção de entrevistados na América Latina que compartilham a visão de um cenário mundial belicoso e conflituoso é ligeiramente maior(70% muito de acordo e parcialmente de acordo) do que na Europa(67%). Em outras palavras, embora a América Latina esteja distante de áreas de conflito armado, ela reconhece as tensões atuais tanto quanto a opinião pública europeia. Outra descoberta é que as diferenças entre os 14 países da Europa 5 pesquisados pelo Security Radar chegam a 37 pontos percentuais, enquanto a diferença máxima na América Latina é de 10 pontos. Saldo de concordância:“Começou uma era de guerras e conflitos no mundo”(%) Gráfico 2.1 P: Até que ponto você está de acordo com as seguintes afirmações sobre a situação do mundo: Saldo de concordância=(muito de acordo e parcialmente de acordo) –(muito em desacordo e parcialmente em desacordo) 4  As perguntas do último Security Radar, replicadas no AMLAT Radar 2026, medem o nível de concordância com três afirmações sobre a situação mundial:“Começou uma era de guerras e conflitos no mundo”,“As leis e normas internacionais não são mais relevantes” e“O poder dos Estados Unidos como superpotência global está chegando ao fim”. Para uma análise dos resultados, v.. 5  É importante esclarecer que a amostra de países do Security Radar inclui os Estados Unidos. Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos 19 Em uma região como a América Latina, onde os governos têm historicamente se comprometido com o multilateralismo e a defesa do direito internacional, chama a atenção que a opinião pública tenda majoritariamente a perceber uma perda de relevância das regras e normas que estruturam a ordem internacional(2.2 Saldo de concordância:“As leis e normas internacionais já não são relevantes”[%]). No entanto, essa percepção mostra nuances: aqueles que se declaram“parcialmente de acordo” com a ideia de que esse marco normativo perdeu importância são o dobro daqueles que se dizem“muito de acordo”, sugerindo uma percepção de erosão gradual em vez de um diagnóstico categórico de irrelevância. Diferentemente dos demais países, o Brasil apresenta uma opinião pública claramente dividida, o que aponta para uma menor percepção de enfraquecimento desse marco normativo. A comparação desses dados com pesquisas de opinião pública europeias conduzidas pela Security Radar revela que o nível regional de ceticismo em relação à vigência das normas internacionais é ligeiramente maior na América Latina(53% de acordo) do que na Europa(47%). Ao mesmo tempo, o padrão observado com respeito aos níveis de conflito atuais se repete: a Europa apresenta maior dispersão entre os países do que a América Latina. Isso sugere que, embora o ceticismo médio seja um pouco maior nesta última região, as percepções europeias sobre a erosão do direito internacional são mais fragmentadas. Em relação à violência em Gaza, a maioria das pessoas entrevistadas na América Latina acredita que Israel está cometendo genocídio(2.3 Saldo de concordância:“Israel está cometendo um genocídio em Gaza”[%]). Essa opinião é contundente, visto que a proporção dos que estão“muito de acordo” é maior que a dos que estão“parcialmente de acordo”. O México, a Colômbia e a Costa Rica estão acima da média regional. O Brasil parece ser o país mais relutante em caracterizar a situação como genocídio. Tendo como pano de fundo a expansão dos conflitos armados, a deterioração do direito internacional e uma realidade emblemática como a violência em Gaza, a região parece dividida em suas percepções sobre o poder dos Estados Unidos(2.4 Saldo de concordância:“O poder dos Estados Unidos como potência mundial está chegando ao fim”[%]). Em quatro países, predomina a percepção de que os Estados Unidos estão em declínio, enquanto em seis essa percepção não se confirma. O contraste mais marcante é observado entre Chile e Argentina, por um lado, e México e Guatemala, por outro. Assim, o panorama revela uma clara ambivalência regional em relação à hipótese do declínio dos Estados Unidos: o saldo de concordância médio reflete um equilíbrio quase perfeito entre aqueles que percebem um enfraquecimento e aqueles que não o percebem. É interessante ressaltar que, segundo o Security Radar, também não há uma opinião majoritária clara na Europa sobre o declínio estadunidense. Saldo de concordância:“As leis e normas internacionais já não são relevantes”(%) Gráfico 2.2 P: Até que ponto você está de acordo com as seguintes afirmações sobre a situação do mundo: Saldo de concordância=(muito de acordo e parcialmente de acordo) –(muito em desacordo e parcialmente em desacordo) 20 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Saldo de concordância:“Israel está cometendo um genocídio em Gaza”(%) Gráfico 2.3 P: Até que ponto você está de acordo com as seguintes afirmações sobre a situação do mundo: Saldo de concordância=(muito de acordo e parcialmente de acordo) –(muito em desacordo e parcialmente em desacordo) Saldo de concordância:“O poder dos Estados Unidos como potência mundial está chegando ao fim”(%) Gráfico 2.4 P: Até que ponto você está de acordo com as seguintes afirmações sobre a situação do mundo: Saldo de concordância=(muito de acordo e parcialmente de acordo)-(muito em desacordo e parcialmente em desacordo) Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos 21 Os latino-americanos mantêm uma dura opinião sobre o impacto das políticas de Trump no mundo: as percepções são predominantemente negativas(2.5 Percepção do impacto das políticas de Trump no mundo: impacto líquido [%]). As visões mais negativas vêm do México e da América Central. As mais cautelosas são da Argentina, da Bolívia e do Chile. Cabe destacar o contraste entre o México e a Venezuela, onde se observam reações opostas frente à coerção dos Estados Unidos: forte rejeição entre os mexicanos e uma posição dividida entre os venezuelanos. No caso do México, deve-se enfatizar que o país já enfrentava uma agenda complexa de ameaças comerciais, migratórias e de segurança por parte de seu vizinho imediato. Também é relevante ressaltar que esta pesquisa foi realizada em meio aos bombardeios dos Estados Unidos no Caribe, em um contexto de intimidação contra a Venezuela, que precederam a operação militar para extrair o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa. A desconfiança em relação ao presidente Trump é contundente e significativa em relação a Vladimir Putin, superando a de outros sete líderes mundiais mencionados com maior frequência em uma lista de 16 pesquisados (2.6 Desconfiança da América Latina em relação aos líderes mundiais[%]). Na América Latina, portanto, são evidentes os custos reputacionais decorrentes da política exterior MAGA de Trump e de seu estilo de liderança pessoal, bem como da guerra de quatro anos de Putin na Ucrânia. Ao mesmo tempo, a narrativa hostil de Washington em relação à China tem um impacto limitado na região quando se avalia a imagem de seu líder. Percepção do impacto das políticas de Trump no mundo: impacto líquido(%) Gráfico 2.5 P: Pelo que você sabe ou escutou, como acredita que será o impacto das políticas que o presidente dos EUA, Donald Trump, está implementando no mundo? Impacto líquido percebido=(impactos muito positivos e positivos) –(impactos muito negativos e negativos) 22 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Desconfiança da América Latina em relação aos líderes mundiais(%) P: Qual é o líder mundial no qual você menos confia? Gráfico 2.6 Visão do mundo: a névoa da guerra e a erosão dos consensos 23 3. Ordem, poder e projeção mundial 3. Ordem, poder e projeção mundial Opinião sobre países. Influência econômica. Modelos de desenvolvimento. Avaliação da democracia no mundo. Comparações entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China: liderança, influência, sentimentos, sócios temático-estratégicos e o vínculo bilateral sob a lupa. A competição geopolítica voltou ao centro da agenda global, com realinhamentos crescentes e um cenário com a presença de diversos atores. Por esse motivo, a pesquisa incluiu uma série de perguntas relativas às visões sobre os países com reconhecimento internacional e como essas percepções mudaram entre o primeiro e o segundo levantamentos(2022-2026). Solicitou-se a opinião geral sobre uma lista de dez países (3.1 Opinião da América Latina sobre outros países do mundo: 2022-2026[%]). Dos sete países com melhor avaliação, apenas a China melhorou sua imagem entre a primeira e a segunda pesquisas. Os demais países apresentaram um declínio geral na opinião positiva, com destaque para os Estados Unidos, a França e a Alemanha. Assim, os principais países do mundo ocidental enfrentam um problema de declínio de reputação na região, embora continuem encabeçando a lista. Um ponto a destacar é que nenhum dos países pesquisados alcançou uma opinião positiva que atingisse um terço, sugerindo um prestígio diminuído mesmo para aqueles no topo da lista, a Espanha e os Estados Unidos (3.2 Opinião da América Latina sobre outros países do mundo[%]). Chama a atenção o baixo nível de apreço pelos Estados Unidos no México, quase três vezes menor que o da China. No caso do Brasil, essa diferença de opinião se inverte. Entre os países europeus, a Espanha está melhor posicionada em escala regional, embora existam diferenças nacionais, dado que a Alemanha ocupa o primeiro lugar para a Argentina, o Chile, a Colômbia e o México(3.3 Opinião da América Latina sobre os países da Europa[%]). Opinião da América Latina sobre outros países do mundo: 2022-2026(%) P: Sobre qual dos seguintes países você tem a melhor opinião? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 3.1 Ordem, poder e projeção mundial 25 Opinião da América Latina sobre outros países do mundo(%) P: Sobre qual dos seguintes países você tem a melhor opinião? Gráfico 3.2 Opinião da América Latina sobre os países da Europa(%) P: Sobre qual dos seguintes países você tem a melhor opinião? Gráfico 3.3 Na primeira pesquisa publicada em 2022, os Estados Unidos lideravam a lista de modelos de desenvolvimento preferidos para a América Latina, seguidos pela Alemanha em segundo lugar e pelo Canadá em terceiro. Em 2026, esse mapa de referências se reconfigurou: os latino-americanos estão voltando sua atenção para a Ásia, com a China em primeiro lugar e o Japão em segundo. O deslocamento e o declínio dos modelos ocidentais como modelos de desenvolvimento são particularmente eloquentes(3.4 Modelos de desenvolvimento para a América Latina: 2022-2026[%]). 26 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Modelos de desenvolvimento para a América Latina: 2022-2026(%) Gráfico 3.4 P: Pensando no futuro, quais países você acha que seriam o melhor modelo de desenvolvimento para seu país? Variação=(2026 – 2022) O ranking dos modelos de desenvolvimento mostra variações notáveis entre os países da América Latina.(3.5 Modelos de desenvolvimento para a América Latina: 20222026[%]). Enquanto existe no México uma diferença significativa entre a China e os Estados Unidos, nos países do Cone Sul tanto o modelo ocidental como o asiático registram níveis de preferência similares. O caso da Venezuela é singular, onde os modelos chinês e americano parecem praticamente empatados. No Brasil, embora os Estados Unidos continuem superando a China como modelo preferido, um em cada cinco entrevistados optou por“não sabe” ou“não responde”, refletindo um grau significativo de indecisão ou a falta de um claro ponto de referência. Essas diferenças nacionais mostram que, Modelos de desenvolvimento para a América Latina(%) Gráfico 3.5 P: Pensando no futuro, quais países você acha que seriam o melhor modelo de desenvolvimento para seu país? Ordem, poder e projeção mundial 27 embora haja uma tendência geral à diversificação dos parâmetros globais de desenvolvimento, o processo não é uniforme na região. Além de perguntar sobre os modelos de desenvolvimento preferidos, a pesquisa indagou sobre a influência econômica de atores-chave no sistema internacional. Os níveis de influência econômica percebida na região refletem a dimensão tangível de suas presenças externas (3.6 Países com maior influência econômica na América Latina[%]). Os Estados Unidos continuam sendo o país com maior presença econômica, seguidos pela China: juntos, representam três quartos da presença econômica percebida pelos entrevistados. Em contraste, a projeção econômica da Europa é reduzida e dispersa, restringindo sua capacidade de atuar como um ponto de referência unificado. Vale ressaltar que o Brasil é o único país latinoamericano com uma influência econômica regional claramente visível, o que se deve às percepções de seus vizinhos. Existe uma ampla percepção sobre o declínio da democracia em todo o mundo. As quedas mais acentuadas dos perfis democráticos são observadas nos Estados Países com maior influência econômica na América Latina(%) P: Em sua opinião, que país exerce maior influência em seu país? Gráfico 3.6 Unidos, na França e na Alemanha, países que partiram de níveis relativamente altos. A qualificação sobre o regime político da Rússia também cai, embora partindo de um nível intermediário em 2022, antes da invasão da Ucrânia. Em 2026, essa percepção é ligeiramente inferior à da China.(3.7 Avaliação da democracia no mundo: 2022-2026 [média]). Assim, vale ressaltar que os atores com maior influência econômica hoje enfrentam questionamentos sobre a solidez de seus sistemas políticos. Em relação à competição geopolítica, o olhar latinoamericano reflete uma ordem mundial fragmentada, mas com dois atores dominantes em termos de capacidades materiais: os Estados Unidos e a China.(3.8 Liderança mundial entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China[%]). A União Europeia é vista como líder global em valores, normas e bens públicos, como a paz e o meio ambiente. Os Estados Unidos mantêm sua liderança em poder militar, segurança e capacidade coercitiva, compartilhando a preeminência econômica com a China. Já a China se destaca como a principal força em tecnologia, inteligência artificial e desenvolvimento científico e educacional. Assim, enquanto a China se posiciona vantajosamente em áreas estratégicas do futuro, a União Europeia continua desempenhando um papel central na geração de normas e valores globais. Uma das conclusões é o declínio do soft power europeu no cenário mundial em comparação com 2022(3.9 Liderança mundial entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China: 2022-2026[%]). Embora a União Europeia mantenha sua liderança normativa, em 2026 se observa uma queda importante, de até 20 pontos percentuais, em todos os componentes de sua liderança. Além disso, a percepção é de que ela tem pouca relevância nos atributos duros da liderança global e em áreas estratégicas para o futuro. Outra constatação importante diz respeito à difusão do poder global. A comparação dos atributos de poder da União Europeia, dos Estados Unidos e da China entre as 28 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Avaliação da democracia no mundo: 2022-2026(média) Gráfico 3.7 P: Numa escala de 1 a 10, onde 1 é“não é uma democracia” e 10 é“uma democracia plena”, onde você situaria cada um dos seguintes países? Variação= média 2026 – média 2022 Liderança mundial entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China(%) Gráfico 3.8 P: Entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia, qual você considera que é o líder mundial em cada um dos seguintes temas? Ordem, poder e projeção mundial 29 Liderança mundial entre a União Europeia, os Estados Unidos e a China: 2022-2026(%) P: Entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia, qual você considera que é líder mundial em cada um dos seguintes temas? Gráfico 3.9 pesquisas de 2022 e 2026 revela declínios significativos nos três casos. Além disso, áreas como a defesa dos direitos humanos, a promoção da paz mundial e o combate à pobreza e à desigualdade apresentam potenciais vazios de liderança. Um indicador disso é que o número de entrevistados que escolheram“nenhum”,“não sabe” ou “não responde” nessas questões chega a entre um terço e dois quintos da amostra. Permanece em aberto a pergunta de até que ponto a região se identifica como parte da ascensão do Sul global – um tema que merece mais investigação em futuras pesquisas. Do ponto de vista latino-americano, as projeções de influência global para os próximos cinco anos colocam a China em primeiro lugar, seguida pelos Estados Unidos, ambos em condições relativamente iguais, embora as avaliações destes últimos variem mais entre os países. Já a União Europeia fica em terceiro lugar, mas com uma relevância mais concentrada em alguns países(3.10 Influência dos líderes mundiais nos próximos cinco anos[média]). Chama a atenção que a Argentina e o Brasil coloquem os Estados Unidos acima da China, enquanto no México a União Europeia ocupa o segundo lugar, ultrapassando os Estados Unidos, o que reflete nuances significativas nas percepções nacionais sobre liderança global. Em 2022, os latino-americanos percebiam que a União Europeia teria mais influência no mundo(7,5 numa escala de 1 a 10) do que lhe atribuem atualmente, em 2026(6,8). (3.11 Influência da União Europeia no mundo: 2022 2026). Também não esperam que essa influência aumente nos próximos cinco anos, já que a projeção continua praticamente no mesmo nível(6,9). Em conjunto, esses dados constituem um indicador eloquente da gradual evanescência da Europa do imaginário latino-americano nos últimos quatro anos. Com vistas a obter uma visão holística das opiniões latino-americanas sobre os atores líderes, foi incluída uma dimensão emocional. Em conjunto, na América Latina os sentimentos positivos em relação à União Europeia superam os negativos. A esperança é mais forte na Bolívia, na Guatemala, na Colômbia, no Uruguai e na Venezuela. A desconfiança é mais proeminente na Argentina, no Uruguai, no Chile e na Venezuela(3.12 Sentimentos da América Latina sobre a União Europeia[%]). Em consonância com as conclusões apresentadas no primeiro capítulo deste relatório, a dimensão emocional é mais difusa do que quando se abordam questões específicas. Essa observação baseia-se no fato de que as porcentagens de respostas “não sabe” ou“não responde” são comparativamente maiores nas perguntas sobre sentimentos. Os Estados Unidos projetam uma imagem emocional inversa à da União Europeia: os sentimentos negativos superam os positivos, com predominância da desconfiança e da esperança, respectivamente. O México detém o recorde de desconfiança em relação aos Estados Unidos e de baixos níveis de esperança, enquanto a Venezuela detém o recorde de esperança na região, embora com uma 30 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Influência dos líderes mundiais nos próximos cinco anos(média) P: Pensando nos próximos cinco anos, com uma escala de 1 a 10 em que 1 significa“nenhuma influência” e 10“muita influência”, quanta influência você acredita que terão a China/os Estados Unidos/a União Europeia no mundo? Onde a situaria? Gráfico 3.10 Influência da União Europeia no mundo: 2022-2026(%) Gráfico 3.11 P(2022): Pensando nos próximos cinco anos, quanta influência acredita que a União Europeia terá no mundo? P(2026): Quanta influência você considera que a União Europeia tem no mundo hoje? Numa escala de 1 a 10, onde 1 significa “nenhuma influência” e 10“grande influência”, onde você a situaria? Ordem, poder e projeção mundial 31 Sentimentos da América Latina sobre a União Europeia(%) P: Das seguintes palavras, qual melhor descreve seus sentimentos sobre a União Europeia? Gráfico 3.12 visão mais equilibrada de ambos os sentimentos(3.13 Sentimentos da América Latina sobre os Estados Unidos[%]). Os sentimentos positivos em relação à China superam os negativos. Os primeiros se concentram na admiração e na esperança. Entre os sentimentos negativos, prevalece a desconfiança. O medo da China é insignificante, o que coloca em questão as narrativas que identificam a presença chinesa como uma ameaça à região. Há uma ênfase na admiração a este país na Guatemala e na Colômbia. Já a Argentina, a Costa Rica, a Venezuela e o Uruguai manifestam maior desconfiança.(3.14 Sentimentos da América Latina sobre a China[%]). Ao compararmos os sentimentos em relação à União Europeia, aos Estados Unidos e à China, observamos diferenças(3.15 Sentimentos da América Latina sobre a União Europeia, os Estados Unidos e a China[%]). Enquanto a Sentimentos da América Latina sobre os Estados Unidos(%) P: Das seguintes palavras, qual melhor descreve seus sentimentos sobre os Estados Unidos? Gráfico 3.13 32 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Sentimentos da América Latina sobre a China(%) P: Das seguintes palavras, qual melhor descreve seus sentimentos sobre a China? Gráfico 3.14 esperança é predominante nos casos da União Europeia e dos Estados Unidos, a admiração se reflete mais claramente no caso da China, mas não tanto em relação às potências ocidentais. Com a desconfiança sendo o sentimento mais prevalente entre as respostas negativas, os Estados Unidos merecem o dobro da porcentagem da União Europeia, e a China fica num lugar intermediário entre os dois. Uma situação exatamente oposta é observada entre aqueles que respondem“não sabe” ou“não responde”. Quão atraentes são essas potências como sócios para a América Latina em questões estratégicas?(3.16 A União Europeia, os Estados Unidos e a China como sócios da América Latina[%]). A União Europeia é considerada um sócio preferencial na proteção ambiental e no combate à pobreza e à desigualdade. Os Estados Unidos são vistos como um sócio preferencial no fortalecimento da democracia, superando a União Europeia. Também são considerados um sócio fundamental no combate ao narcotráfico, enquanto a China é um ator crucial em tecnologia digital, comércio e Sentimentos da América Latina sobre a União Europeia, os Estados Unidos e a China(%) P: Das seguintes palavras, qual a que melhor descreve seus sentimentos sobre...? Gráfico 3.15 Ordem, poder e projeção mundial 33 A União Europeia, os Estados Unidos e a China como sócios da América Latina(%) Gráfico 3.16 P: Entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia, quem será o melhor sócio para seu país em cada uma das seguintes áreas? infraestrutura. Em cultura e educação, há uma interessante paridade entre a União Europeia e os Estados Unidos somados, por um lado, e a China, por outro. As percepções sobre os laços bilaterais com esses três atores mostram que uma avaliação positiva predomina em todos os casos(3.17 Qualificação líquida das relações entre seu país e as potências[%]). Em relação à China, a percepção é altamente positiva; em relação à União Europeia, muito positiva; e em relação aos Estados Unidos, parcialmente positiva. Isso reflete uma maior preferência pela União Europeia no contexto ocidental. A proporção de opiniões extremamente críticas em relação ao vínculo com os Estados Unidos não se dá nos casos da União Europeia ou da China. Qualificação líquida das relações entre seu país e as potências(%) P: Como você qualificaria a relação entre seu país e a União Europeia/os Estados Unidos/a China/a Rússia? Diria que são muito boas, boas, ruins ou muito ruins? Qualificação líquida=(muito boas a boas) –(ruins e muito ruins) Gráfico 3.17 34 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. 4. Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante 4. Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante Imagem. As lideranças da União Europeia. Avaliação da política externa da União Europeia e de seu modelo de integração. Importância da América Latina para a Europa. Preferências de cooperação com a União Europeia. Conhecer a visão dos latino-americanos sobre a Europa e a União Europeia pode ser útil para orientar decisões estratégicas europeias. O contexto atual apresenta múltiplos desafios para a Europa: divergências estratégicas com os Estados Unidos e um distanciamento da Rússia, posições divergentes sobre os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, ascensão de forças políticas radicais e sua participação eleitoral, aumento dos fluxos migratórios, dinâmica das instituições europeias e crise econômica e financeira que afeta os Estados-membros da União. Esses fatores não apenas refletem as tensões internas e externas da Europa, mas também condicionam a percepção dos latino-americanos sobre sua relevância e autonomia estratégica, oferecendo um marco fundamental para interpretar os resultados da pesquisa. Na pesquisa, a imagem da Europa na América Latina(4.1 Imagem da Europa na América Latina[%]) é construída a partir das associações que os entrevistados estabelecem entre esse ator e uma lista predefinida de 12 palavras ou frases. Essas escolhas permitem identificar os traços e significados predominantes com que a Europa é percebida no imaginário regional, revelando-se três níveis. No primeiro nível, predominam:(1) aspectos culturais ligados a acervos de museus e gastronomia;(2) esportes, particularmente o futebol, que, convém lembrar, nasceu na Inglaterra; e(3) um tipo específico de regime: a monarquia e seus representantes, hoje todos atuantes em regimes constitucionais. Esse nível, portanto, reflete o peso das tradições históricas e o Imagem da Europa na América Latina(%) P: Das seguintes palavras, com quais você mais associa a Europa? Gráfico 4.1 Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante 37 impacto dos fluxos migratórios para os países europeus. Em um segundo nível, emerge um perfil mais focado nos aspectos econômicos, políticos e sociais, ligados às contribuições das sociedades democráticas europeias. Também surge uma terceira imagem, contrastante, de guerras e conflitos armados, por um lado, e de proteção ambiental, por outro. Por fim, cabe ressaltar que a Europa não está significativamente associada à inteligência artificial, um tema que está na fronteira do desenvolvimento científico e tecnológico mundial. Em relação às lideranças da União Europeia(4.2 Países líderes da União Europeia: 2022-2026[%]), observa-se que a percepção sobre os países líderes não é tão clara quanto era há quatro anos. Apesar de uma queda em sua avaliação, a Alemanha mantém a liderança para dois terços dos entrevistados, seguida pela França e pela Espanha. Vale ressaltar que a Espanha e a Itália apresentaram quedas menos drásticas na percepção de suas lideranças. De acordo com a perspectiva dos latino-americanos, a Europa mantém seu papel como potência normativa em escala global(4.3 Opinião sobre a política externa da União Europeia[%]). A avaliação de diversos aspectos da política externa da União Europeia revela que ela continua sendo percebida como promotora da paz mundial. Quando se avalia a atuação frente a conflitos específicos (Gaza e Ucrânia), a percentagem de respostas“não sabe/ não responde” é superior à observada em questões gerais. Existe uma percepção favorável ao apoio militar contínuo da União Europeia à Ucrânia, uma visão matizada sobre o caso de Gaza com o reconhecimento da indiferença da União Europeia em relação a este conflito. Como pode ser observado nos gráficos(4.4 Autonomia estratégica da União Europeia[%]), em 2022 a maioria absoluta dos latino-americanos rejeitava a noção de que a preferência estratégica da União Europeia era pelo alinhamento com os Estados Unidos. Já em 2026 constatase um ponto de equilíbrio: a proporção de entrevistados que percebem autonomia na Europa é a mesma que a dos que não a percebem. Dois quintos das pessoas entrevistadas concordam com a imagem de uma Europa alinhada, dois quintos discordaram e um quinto não sabe ou não responde. Isso sugere que a percepção de autonomia estratégica europeia se enfraqueceu. Países líderes da União Europeia: 2022-2026(%) P: Em sua opinião, quais são os países com maior liderança na União Europeia? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 4.2 38 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Opinião sobre a política externa da União Europeia(%) P: Para cada uma das seguintes frases, diga se está muito de acordo, de acordo, em desacordo ou muito em desacordo. Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) Gráfico 4.3 Autonomia estratégica da União Europeia(%) P: Para cada uma das seguintes frases, diga se está muito de acordo, de acordo, em desacordo ou muito em desacordo. Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) Gráfico 4.4 Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante 39 Observa-se também que, para a metade dos latinoamericanos, a União Europeia constitui uma potência global, embora um terço não veja uma diferenciação clara entre ela e a China e os Estados Unidos. Em outras palavras, a União Europeia é um ator global para a maioria dos latino-americanos, mas não para todos. O modelo de integração europeia perdeu força na opinião pública latino-americana(4.5 A Europa como modelo de integração para a América Latina: 2022-2026[%]), com uma queda na média regional. Em 2022, os latino-americanos percebiam a União Europeia como o modelo de integração por antonomásia: quase um quarto dos entrevistados atribuiu-lhe a nota máxima(“10”), enquanto cerca de 22% lhe atribuíram uma classificação muito alta(“7 a 9”). Em 2026, a União Europeia ainda é considerada um modelo de integração desejável: um em cada sete entrevistados lhe atribui a nota máxima e três em cada dez lhe atribuem entre 7 e 9 pontos. No entanto, nos últimos quatro anos, o apoio à União Europeia como modelo de integração diminuiu: 8 pontos entre os que a consideravam ideal e 10 pontos entre os que apresentaram opiniões positivas mais matizadas. Em contraposição, a proporção de opiniões neutras passou de um quinto para um quarto do total, enquanto as opiniões mais céticas duplicaram, aumentando de 6 para 12 pontos. Da mesma forma, cresceu tanto o número de entrevistados que não a consideram útil como o dos que não opinaram ou disseram não saber sobre o tema. A Europa como modelo de integração para a América Latina: 2022-2026(%) P: Quanto você acredita que a integração europeia serve como modelo para a América Latina? Gráfico 4.5 Como se observa no gráfico(4.6 Importância da América Latina para a União Europeia[média]), os latinoamericanos percebem que a União Europeia outorga à região uma importância moderada, com uma média regional de 6,2 em uma escala de 1 a 10. A baixa dispersão dos resultados(entre 5,5 e 6,6) reflete um amplo consenso: acredita-se que a União Europeia leva a América Latina em consideração, mas não a coloca no centro de suas prioridades estratégicas. Países como o Brasil, a Colômbia e o México apresentam percepções ligeiramente mais elevadas, possivelmente associadas ao seu peso econômico e à densidade de seus laços, enquanto outros, como a Argentina, refletem uma visão um tanto mais cética. Em conjunto, o padrão reflete um reconhecimento consistente, porém limitado, sugerindo uma percepção de falta de centralidade na relação birregional. Com uma média de pouco mais de 6 pontos, pode-se dizer que os latino-americanos percebem que sua região está à beira da indiferença da Europa. A menos que a União Europeia implemente ações concretas para atender às necessidades da América Latina, a crescente importância que os Estados Unidos atribuem ao hemisfério ocidental, aliada à presença cada vez maior da China na região, poderia fazer com que a Europa passe a ocupar um lugar distante e secundário para os latino-americanos, permitindo que outros atores extrarregionais se tornem as principais referências na hora de olhar o mundo. A análise da cooperação entre a União Europeia e a América Latina revela prioridades diferenciadas conforme os temas. Os entrevistados reconhecem a União Europeia como um sócio fundamental, em primeiro lugar, em 40 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Importância da América Latina para a União Europeia(média) Gráfico 4.6 P: Em sua opinião, quanta importância tem a América Latina para a União Europeia? Usando uma escala de 1 a 10, onde 1 significa“nenhuma importância” e 10“muita importância”. matéria de financiamento, investimento e proteção dos direitos humanos e, em segundo lugar, no que diz respeito à ajuda humanitária(4.7 Áreas de cooperação União Europeia-América Latina[%]). A situação é diferente em relação à integração latino-americana, que não parece ser uma área central de cooperação, assim como a observação de eleições. É importante notar que um terço das pessoas entrevistadas não identificam nenhuma área de cooperação como prioritária, seja por não a perceberem como tal, seja por desconhecerem se a Europa coopera Áreas de cooperação União Europeia-América Latina(%) Gráfico 4.7 P: A União Europeia coopera com a América Latina em diversos temas. Quais dos seguintes temas você considera mais importantes nessa cooperação para o seu país? Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante 41 nessa área. Isso indica que, para uma parcela da população, a relação com a Europa não é percebida como estratégica ou tangível. Da mesma forma, a porcentagem de pessoas que não respondem ou desconhecem a relevância da cooperação também é significativa, demonstrando um certo nível de desconexão ou falta de informação sobre as ações da União Europeia na região. Quando colocamos o foco nos resultados por país, surgem nuances importantes(4.8 Áreas de cooperação União Europeia-América Latina[%]): a Costa Rica, o Uruguai, a Bolívia, a Argentina, a Guatemala, o Brasil, o Chile e o México apostam no investimento financeiro como um aspecto preferencial da cooperação; a Colômbia, o Brasil, o México, a Venezuela e a Guatemala privilegiam a área dos direitos humanos; a Guatemala enfatiza a ajuda humanitária, e o Brasil, o combate à desigualdade. Chama a atenção que pouco mais da metade dos argentinos visualizem alguma área de cooperação com a União Europeia. Essas diferenças demonstram que, para se consolidar como parceira estratégica da América Latina, a União Europeia deve ajustar sua abordagem às prioridades de cada país e aumentar a visibilidade de sua cooperação. Em relação à evolução das preferências de cooperação com a União Europeia entre 2022 e 2026(4.9 Áreas de cooperação União Europeia-América Latina: 2022-2026[%]), observa-se um maior peso da agenda econômica e social nas prioridades dos latino-americanos. Ganham relevância temas vinculados a benefícios tangíveis, especialmente financiamento e investimento, redução da desigualdade e apoio à integração regional, refletindo uma crescente ênfase nas dimensões materiais associadas aos déficits econômicos e sociais. Também cresceu o interesse na observação eleitoral, indicando que o apoio institucional continua sendo valorizado. Ao mesmo tempo, áreas como direitos humanos e ajuda humanitária permanecem entre as mais importantes, embora com menor peso relativo. Por fim, ao comparar a avaliação da União Europeia como parceiro preferencial entre 2022 e 2026(4.10 A União Europeia como sócio da América Latina: 2022-2026[%]), observa-se um declínio generalizado em todas as áreas, chegando a 25 pontos percentuais em alguns casos. A queda é particularmente acentuada em áreas como proteção ambiental, combate à pobreza e à desigualdade, cultura e educação, e também é marcante no fortalecimento da democracia. Em suma, são retrocessos significativos que refletem uma perda transversal de posicionamento da União Europeia na região. Em conjunto, a análise desta seção revela que, nos últimos quatro anos, ocorreram mudanças graduais, porém consistentes, na percepção da América Latina em relação à Europa. Isto sugere um lento processo de distanciamento que poderia levar a uma separação entre a América Latina e a União Europeia. Áreas de cooperação União Europeia-América Latina(%) P: A União Europeia coopera com a América Latina em diversos temas. Quais dos seguintes temas você considera mais importantes nessa cooperação para o seu país? Gráfico 4.8 42 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Áreas de cooperação União Europeia-América Latina: 2022-2026(%) P: A União Europeia coopera com a América Latina em diversos temas. Quais dos seguintes temas você considera mais importantes nessa cooperação para o seu país? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 4.9 A União Europeia como sócio da América Latina: 2022-2026(%) Gráfico 4.10 P: Entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia, quem será o melhor sócio para o seu país em cada uma das seguintes áreas? Subconjunto de dados: o gráfico reflete apenas as respostas que identificam a União Europeia como o melhor sócio. Variação=(2026 – 2022) Europa e União Europeia no radar: proximidade difusa e presença declinante 43 5. América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 5. América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas Importância da América Latina no mundo. Influência econômica e lideranças regionais. Desafios temáticos e preferências de inserção internacional. O consenso a favor da não proliferação nuclear. Direitos, valores e percepção da democracia no país. Em relação ao peso internacional da América Latina, há uma visão positiva de sua relevância atual e de seu potencial de projeção futura(5.1 Importância atual e futura da América Latina no mundo[média]). Na média regional, a importância da região se situa em 6,6 e sobe para 7,0 quando projetada para os próximos cinco anos. Essa diferença é significativa: a opinião pública não considera a região atualmente irrelevante e prevê um crescimento gradual dentro do sistema internacional. A importância futura da região é praticamente a mesma que a percepção da influência europeia para os próximos cinco anos(6,9) relatada na seção anterior. Em escala nacional, surgem nuances. O México e a Venezuela lideram a percepção de importância atual, seguidos pela Colômbia e pelo Brasil, enquanto a Argentina e o Chile registram avaliações mais moderadas. Isso sugere que países com maior peso demográfico, econômico ou geopolítico tendem a ter uma autopercepção mais elevada de sua relevância regional. Importância atual e futura da América Latina no mundo(média) Gráfico 5.1 P(1): Falando em América Latina, qual importância você considera que a América Latina tem hoje no mundo? Usando uma escala de 1 a 10, onde 1 significa“nada importante” e 10 significa“muito importante”. P(2): Pensando nos próximos cinco anos, qual importância você diria que a América Latina terá no mundo? Usando uma escala de 1 a 10(mesma escala). Percepção da importância atual da América Latina Expectativa da importância da América Latina em cimco anos América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 45 Até que ponto uma visão positiva da importância internacional da América Latina significa a existência de lideranças regionais?(5.2 Lideranças na América Latina: reconhecimento regional e autopercepção nacional[%]). Os resultados revelam uma brecha nítida entre a liderança regional percebida e a autopercepção nacional, evidenciando hierarquias claras e vieses na América Latina. O primeiro mapa mostra que o Brasil é o líder mais reconhecido na região, seguido pelo México, com uma diferença de 11 pontos percentuais. Embora a liderança esteja concentrada nas duas maiores economias e potências demográficas, a Argentina aparece em um terceiro lugar próximo. O Chile e a Colômbia ocupam uma posição intermediária, mantendo certa distância dos três primeiros. É interessante a recente visibilidade de El Salvador no imaginário latino-americano. Os demais países, tanto andinos como centro-americanos e caribenhos, compartilham uma baixa projeção regional. O segundo mapa revela um padrão sistemático: os países tendem a se perceber como mais influentes do que o resto da região os percebe. O México, o Brasil, a Argentina, a Colômbia e o Chile apresentam incrementos em sua avaliação doméstica e a regional, embora a magnitude da diferença varie. Isso confirma a existência de um viés de autoestima nacional, cuja intensidade varia de país para país. A maior diferença está no Chile, indicando que seu viés de autoestima nacional é o mais pronunciado entre esses países. Observam-se poucas variações nas visões sobre lideranças regionais entre 2022 e 2026, embora alguns países tenham caído e outros subido ligeiramente, de forma um tanto aleatória. O reconhecimento do Brasil e do México como líderes regionais diminuiu, enquanto o Chile apresentou uma queda significativa. Por outro lado, a Guatemala e a Colômbia melhoraram suas posições, enquanto El Salvador se destacou com o maior avanço de todos(5.3 Reconhecimento regional de lideranças na América Latina: 2022-2026[%]). Ao compararmos o reconhecimento da liderança regional com a autopercepção de liderança, encontramos resultados interessantes(5.4 Autopercepção da liderança na América Latina: 2022-2026[%]). No caso da Argentina, enquanto seu reconhecimento regional como líder diminui, sua autopercepção da liderança em nível nacional aumenta significativamente. Essa dissociação não ocorre no caso do Chile, onde há uma tendência negativa tanto na percepção quanto na autopercepção de liderança. No caso do Brasil, as quedas tanto no reconhecimento quanto na autopercepção de liderança são idênticas. Lideranças na América Latina: reconhecimento regional e autopercepção nacional(%) P: Da seguinte lista, quais são os países com maior liderança dentro da América Latina? Percepção de liderança na América Latina Autopercepção da liderança por país Gráfico 5.2 46 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Reconhecimento regional de lideranças na América Latina: 2022-2026(%) P: Da seguinte lista, quais são os países com maior liderança dentro da América Latina? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 5.3 Autopercepção de liderança na América Latina: 2022-2026(%) P: Da seguinte lista, quais são os países com maior liderança dentro da América Latina? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 5.4 América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 47 Observa-se uma dispersão da agenda de preocupações regionais na América Latina, refletindo a convergência de três processos importantes: a crise do regionalismo, a polarização política intrarregional e a incidência diferenciada de fatores internacionais(5.5 Principais desafios da América Latina[%]). Para os latino-americanos, há uma forte sobreposição entre os desafios sociais, econômicos e de segurança, com uma hierarquização das apreensões que obedece a lógicas interconectadas. Trata-se de uma agenda mista com quatro níveis de importância(máxima, alta, média e baixa) e com nuances nacionais diferenciadas. No âmbito regional, a pobreza – seguida pelo narcotráfico e pelo crime organizado – encabeça a lista dos 12 temas avaliados, apontando para um mal-estar compartilhado que combina vulnerabilidade material com insegurança pública. Baixo crescimento, desemprego, violência e desigualdade também geram preocupação significativa e formam um conjunto central de apreensões combinadas. A inflação ocupa um nível intermediário de inquietação na região, seguida pela migração. Em contraste, o terrorismo é relegado a uma posição secundária na agenda de segurança, enquanto as questões de inserção internacional são percebidas como marginais. Ao caráter heterogêneo da agenda somam-se variações no peso relativo dos desafios entre os dez países pesquisados (5.6 Principais desafios da América Latina[%]). A pobreza é um desafio amplamente compartilhado, particularmente acentuado na Argentina e na Guatemala, e o principal desafio em oito dos dez países. O narcotráfico e o crime organizado são maiores fontes de preocupação em países recentemente afetados por eles(o Chile, a Costa Rica e o Uruguai) do que naqueles que sofrem suas consequências há algum tempo, como a Colômbia e o México. O Chile e o Brasil se diferenciam dos demais em suas visões sobre migração: o primeiro devido ao seu alto nível de preocupação e o segundo devido à sua indiferença. A inflação é uma preocupação maior na Venezuela e na Argentina do que no restante da região. A Colômbia é o país onde a violência e o terrorismo são mais amplamente reconhecidos como desafios em comparação com os demais. A mesma lógica se aplica ao México em relação ao seu status de“quintal” dos Estados Unidos. A lista de desafios percebidos reflete, em grande medida, as inquietações que permeiam o cotidiano da região. A América Latina acaba de sair de um ciclo de cinco anos de fraco desempenho econômico, marcado por um crescimento estagnado do PIB per capita e problemas estruturais persistentes, como a desigualdade, e pelos efeitos ainda palpáveis da pandemia. Nesse contexto, não surpreende que a percepção dos cidadãos sobre os principais desafios esteja intimamente ligada a essas condições econômicas e sociais. Principais desafios da América Latina(%) P: Qual você considera o maior desafio enfrentado pela América Latina? Gráfico 5.5 48 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Principais desafios da América Latina(%) P: Qual você considera que é o maior desafio enfrentado pela América Latina? Gráfico 5.6 A agenda de desafios está inserida num marco mais amplo de possibilidades de inserção internacional em função da margem de autonomia percebida pelos seus países(5.7 Dilemas estratégicos na América Latina[%]). Observa-se uma marcada inclinação para soluções tangíveis, própria de contextos restritivos e/ou voláteis. Este padrão se expressa em três opções não mutuamente excludentes: a aposta no comércio, a percepção da pressão pelo alinhamento com outros países e um baixo compromisso com os valores democráticos como condicionalidade de relacionamento externo. Apesar da prioridade atribuída ao comércio internacional, os latino-americanos percebem claramente o ambiente global protecionista: em oito dos dez países pesquisados, há um desencanto com a queda do saldo de concordância sobre os benefícios do comércio entre 2022 e 2026(5.8 Saldo de concordância sobre os benefícios do comércio global: 2022-2026[%]). Há duas exceções a essa tendência: a valorização do comércio aumenta ligeiramente no Chile e notavelmente na Colômbia. Dilemas estratégicos na América Latina(%) P: Até que ponto você está de acordo ou em desacordo com as seguintes afirmações sobre a situação no mundo? Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) Gráfico 5.7 América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 49 Saldo de concordância sobre o benefício do comércio global: 2022-2026(%) Gráfico 5.8 P: Até que ponto você está de acordo ou em desacordo com as seguintes afirmações sobre a situação no mundo? O comércio com outros países sempre beneficia meu país. Saldo de concordância=(muito de acordo e de acordo) –(muito em desacordo e em desacordo) Um traço identitário da inserção internacional da América Latina com arraigo social é a rejeição às armas nucleares (5.9 Não proliferação nuclear na América Latina[%]). Em todos os países, há uma rejeição majoritária à proliferação nuclear na América Latina e uma clara percepção de que seus custos superam em muito quaisquer eventuais benefícios. Apesar da solidez do consenso antinuclear, ele não é uniforme e se expressa com diferentes graus de intensidade. A contundência dessa aversão é particularmente notável na Costa Rica e no Uruguai; permanece alta na Colômbia e no Chile, atinge um nível intermediário na Argentina, Venezuela e México, e é menor na Guatemala, no Brasil e na Bolívia. Para a opinião pública, a política externa da América Latina é guiada sobretudo por lógicas do bem-estar econômico, da Não proliferação nuclear na América Latina(%) P: Você considera que é muito bom, bom, ruim ou muito ruim que a América Latina tenha armas nucleares? Saldo de concordância=(muito bom e bom) –(muito ruim e ruim) Gráfico 5.9 50 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. segurança e de autonomia(5.10 Prioridades de política externa da América Latina[%]). A América Latina aparece como uma região que deseja comercializar mais, preservar sua soberania e manter os compromissos normativos com a democracia e os direitos humanos. Essas preferências não se traduzem em um forte apoio à integração regional, ao fortalecimento militar ou ao alinhamento com as grandes potências. A ordem de prioridades das políticas externas estabelecida pelos entrevistados reflete uma nova coerência, em sintonia com o contexto atual. É possível agrupar a lista de dez prioridades em três níveis: o primeiro, de alta prioridade, abrange os temas de comércio e soberania; no segundo nível (intermediário) são identificadas cinco questões: defesa da democracia e dos direitos humanos, controle da migração, relações com a Europa, proteção de cidadãos no exterior e integração regional; e o terceiro e último nível inclui três preferências que parecem interligadas na ótica de uma segunda“Guerra Fria”: aprofundamento do vínculo com a China, uma agenda de militarização nacional e relações mais estreitas com os Estados Unidos. Embora a soberania nacional seja um valor altamente apreciado, ela não está associada à militarização e à defesa territorial, dois atributos valorizados no passado da América Latina. O apreço pelas relações com a Europa, em comparação com as relações com a China e os Estados Unidos, abre caminhos para uma reaproximação, especialmente no âmbito comercial. No entanto, algumas nuances e tensões são observadas. Uma relação mais profunda com a Europa está vinculada à proteção da diáspora, da mesma forma que a defesa do Estado de direito no país não exclui as preocupações com o controle da migração. Destaca-se a importância atribuída ao comércio e o desinteresse pela integração regional. Quando se analisam os dados por país, surgem algumas diferenças interessantes(5.11 Prioridades da política externa da América Latina[%]). Dois casos se destacam: a Venezuela e o Chile. O perfil da Venezuela se distingue dos demais pela ênfase dada aos seus cidadãos no exterior, similar à ênfase dada ao comércio. No caso do Chile, a prioridade é o controle migratório, muito acima de qualquer outra questão. Vale ressaltar a importância que a Costa Rica atribui à defesa da democracia e o Uruguai à integração regional. No caso da Guatemala, a proteção da diáspora recebe maior destaque do que em outros países. A importância que merecem as relações com a Europa, superando significativamente as relações com a China e com os Estados Unidos, destaca-se nos casos da Bolívia, Costa Rica e Uruguai. De fato, a posição inferior que as relações Prioridades de política externa da América Latina(%) P: Da seguinte lista, quais deveriam ser as prioridades da política externa do seu país? Gráfico 5.10 América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 51 Prioridades de política externa da América Latina(%) P: Da seguinte lista, quais deveriam ser as prioridades da política externa do seu país? Gráfico 5.11 com os Estados Unidos ocupam na lista de prioridades regionais chama a atenção. Também vale salientar que, entre os dez países pesquisados, esse vínculo ocupa uma posição superior na Venezuela e no Brasil. No caso do Brasil, considerando o lugar da política exterior na agenda interna, destaca-se a proporção de pessoas que responderam“não sabe” ou“não responde”. Será isso um indicador de indiferença pública em relação à diplomacia do país? A relevância dessa questão aumenta quando se considera a conexão entre política externa e democracia, ainda mais no contexto das eleições latino-americanas de 2026. Diferentemente da percepção de retrocesso democrático em escala mundial entre 2022 e 2026, no plano regional a pesquisa mostra um panorama de continuidade da democracia, embora com regressões e avanços pontuais em alguns países(5.12 Avaliação sobre a democracia dentro do país: 2022-2026[%]). Na média regional, a avaliação cai ligeiramente, sugerindo estabilidade em vez de erosão. A primeira característica relevante nesta comparação é a persistente disparidade entre os países. No topo da tabela permanecem o Uruguai e a Costa Rica, países que têm demonstrado clara continuidade em seu compromisso com o Estado de direito. Dinâmicas mistas são observadas no grupo de democracias com qualificações intermediárias. O caso do Chile se consolida como um dos mais bem avaliados. A Argentina permanece estável, indicando resiliência percebida em um contexto político polarizado. Em contraste, o Brasil e o México retrocedem, indicando uma deterioração percebida. Um dado que chama a atenção é a melhora na avaliação da Colômbia sobre sua democracia. O salto pode sugerir expectativas mais favoráveis ou uma mudança no clima político nacional. Por outro lado, a Venezuela permanece o país com pior avaliação nesta pesquisa e na anterior. Por fim, a Guatemala e a Bolívia permanecem na faixa inferior, com leves declínios, refletindo uma percepção de fragilidade institucional. 52 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Avaliação sobre a democracia dentro do país: 2022-2026(%) P: Numa escala de 1 a 10, onde 1 é“não é uma democracia” e 10“é uma democracia plena”, onde você situaria o seu próprio país? Variação=(2026 – 2022) Gráfico 5.12 América Latina: agendas fragmentadas e prioridades dispersas 53 Destaques Para os latino-americanos, o mundo não é alheio; eles o percebem como um cenário complexo: • de vazio hegemônico e uma crescente anomia, que alimentam uma grande incerteza sobre o futuro; • inseguro e permeado por problemas globais negligenciados, que afetam diretamente seu bem-estar e despertam empatia; • de deslocamento gradual dos centros de poder para o Oriente; • de risco de irrupção de guerras e no qual confirmam seu compromisso com a desnuclearização da América Latina; • de desconfiança em relação a“homens fortes” como Trump e Putin; • de rejeição à ideia de uma nova“guerra fria” entre os Estados Unidos e a China. Os latino-americanos olham a Europa e a União Europeia: • com uma mistura de nostalgia e expectativa, que se traduz em níveis relativamente altos de esperança, segurança e admiração; • com ênfase em comércio, finanças e investimentos na mesma medida que em direitos humanos e ajuda humanitária; • com compreensão em relação à posição europeia sobre a Ucrânia. Mas também: • com mal-estar pela indiferença percebida em relação a Gaza; • com expectativas de um maior compromisso europeu contra a desigualdade e a pobreza; • com decepção frente ao seu modelo de desenvolvimento e integração; • como uma potência normativa menos definida e com lideranças enfraquecidas. Os latino-americanos veem sua região: • com maior autoestima e disposição para defender a soberania; • com relevância futura comparável à da Europa; • preocupados com a pobreza, a estagnação econômica, o desemprego e a insegurança ligada ao narcotráfico e ao crime organizado; • sob pressão externa para tomar partido entre os Estados Unidos e a China; • com boa disposição em relação aos vínculos tanto com a Europa quanto com a China. Mas também: • com pouco interesse em fortalecer as relações com os Estados Unidos; • com uma agenda internacional e regional dispersa, que dificulta a coordenação das políticas nacionais e externas; • com uma série de preocupações semelhantes, que nem sempre se traduzem em políticas externas convergentes. 6. Reflexões finais: os dilemas além dos dados 6. Reflexões finais: os dilemas além dos dados Os dados não falam por si sós. Exigem contexto e interpretação, sobretudo em tempos de turbulência e transição global. Os olhares latino-americanos constituem um espelho bastante fiel das transformações no entorno global. Estas reflexões finais propõem uma leitura transversal dos resultados a partir de um ângulo diferente, buscando explorar o significado das percepções dos cidadãos no contexto atual e os dilemas enfrentados pelas sociedades e governos na América Latina e na Europa, tanto em seus vínculos mútuos como na maneira de navegar com resiliência na incerteza global. Uma das maiores novidades nos resultados do AMLAT Radar 2026 é o nível de rejeição social a Donald Trump, justamente num momento em que diversos governos da região se alinharam ativamente com Washington. O dano reputacional dos Estados Unidos na América Latina e em todos os âmbitos abre encruzilhadas e oportunidades para repensar as opções de vinculação preferenciais. Acreditamos que esse desgaste reflete os custos decorrentes da mudança intempestiva e agressiva da administração Trump para impor uma zona de influência norte-americana. Contudo, não há sinais de deferência ou subserviência a Washington na opinião pública latinoamericana. Há uma atitude resiliente, enraizada em um consenso soberanista que envia um sinal a múltiplos atores. Isso, sem dúvida, gerará dilemas para os governos em relação às opções estratégicas a seguir. De fato, o que estamos presenciando é a possibilidade de abertura de espaços para outros protagonistas mundiais, especialmente da Europa, da Ásia e do Sul global, em alguns casos com percepções mais estáveis e uma imagem mais favorável. É importante destacar que a China não é vista como uma ameaça para os latino-americanos, e sim como uma opção pragmática associada ao valor atribuído à educação, ciência e tecnologia. Para a Europa, esse cenário representa uma oportunidade de se posicionar como parceira com base no diálogo político, na cooperação econômica e social, na transferência de tecnologia e na defesa do direito internacional. As sociedades latino-americanas valorizam a possibilidade de manter estratégias que preservem a soberania, diversifiquem e equilibrem as relações sem vínculos preferenciais 6 . Isso pode ser importante para a paradiplomacia europeia, que encontrará na América Latina uma sociedade civil e atores subnacionais abertos e interessados em expandir seus horizontes internacionais. Outra constatação é a percepção do desvanecimento da Europa e da União Europeia na América Latina e no mundo. Nos últimos quatro anos, consolidou-se um sentimento de distanciamento gradual, sem uma ruptura abrupta. A Europa continua sendo reconhecida, mas com uma imagem estagnada associada ao passado, carente de dinamismo e de uma visão clara e inovadora para o futuro. Num cenário internacional cada vez mais competitivo, essa combinação de familiaridade histórica e relativa perda de visibilidade pode corroer sua influência no radar latinoamericano, caso não possa fortalecer sua presença. Diversos dilemas surgem desse processo. A Europa está deixando de ser um modelo aspiracional, o que poderia sinalizar um declínio de seu papel civilizatório e de seu poder brando. Nesse clima de opinião, a relação com a América Latina exigiria uma mudança na lógica assimétrica por trás da projeção de modelos ideais, como ocorreu com a integração regional. O apego a uma atitude pontificadora não produz efeitos construtivos em questões onde coexistem interesses mútuos como mudança climática, economia digital e direitos humanos. Presenciamos uma conjuntura complexa e fértil para que seja proposta uma agenda com benefícios tangíveis para a região, como o Acordo Mercosul-União Europeia assinado recentemente. Os cidadãos latino-americanos rejeitam a militarização, e ainda mais a nuclearização, e, portanto, seria custoso e decepcionante para a Europa tentar arrastar a América Latina para alguma de suas cruzadas. A autonomia estratégica é um desafio que os próprios europeus devem resolver. Consideramos uma constatação preocupante a maior dispersão da agenda latino-americana e a perda de interesse social na associação regional, algo que converge e reforça o que está acontecendo no âmbito governamental. É um arco de múltiplas tensões: entre a aposta no comércio e a indiferença em relação à integração com os países vizinhos; entre a proteção dos concidadãos no exterior e o controle da imigração regional; entre a preocupação primordial com o narcotráfico, o crime organizado e a violência, e o peso secundário atribuído ao 6 Para uma análise detalhada da mudança de percepção sobre os Estados Unidos, v. G. González e J.G. Tokatlian:“El desconcierto latinoamericano frente al(previsible) acoso de Donald Trump” em Nueva Sociedad Nº 321, 1-2/2026, disponível em. Reflexões finais: os dilemas além dos dados 57 terrorismo, entre outras. Essas tensões refletem uma sociedade oscilante ou ambivalente em relação a questõeschave, o que, por sua vez, afeta a identificação das prioridades das políticas governamentais e as possibilidades de diálogo regional. Essa dispersão pode se traduzir em falta de foco e desinteresse por certos temas. Isso é mais evidente em assuntos de política exterior. Um exemplo coletivo é a discrepância entre a alta prioridade que os latino-americanos atribuem à mudança climática como um problema global e sua menor presença nas prioridades de sua agenda externa. Quatro casos emblemáticos nesta pesquisa são os do Brasil, do Chile, do México e da Colômbia. No primeiro, a altíssima visibilidade da diplomacia brasileira entra em conflito com uma sociedade cada vez mais desiludida e desinteressada em relação à política externa do país. Os cidadãos chilenos se destacam pelo seu alto grau de rechaço à imigração, o que talvez explique a vitória da atual coalizão governista. Já as sociedades mexicana e colombiana repudiam fazer parte do“quintal” dos Estados Unidos, o que provavelmente contribui para os altos índices de aprovação dos mandatários desses países. A mensagem mais importante que a sociedade latinoamericana oferece à Europa e ao mundo neste levantamento é a reafirmação de seu compromisso inabalável com a democracia interna e a paz internacional. Mas essa mensagem levanta questões. A Europa está realmente interessada em se comprometer com essa América Latina de seus cidadãos? A Europa está em condições de perceber o lugar que compartilha com a América Latina diante do cataclismo que Washington está provocando na governança global? Podem as vozes democráticas europeias encontrar um capital político na resiliência da América Latina em relação aos valores do Estado de direito para serem atores influentes e construtivos em uma ordem internacional nascente? Para as mulheres e os homens latino-americanos interessados e/ou envolvidos nas diversas atividades que vinculam nossos países ao mundo, deixamos mais do que perguntas; deixamos uma preocupação. Chamamos a atenção para um problema crítico no que diz respeito à esfera pública informada sobre a realidade internacional. Nossos dados revelam uma brecha entre a opinião pública e as narrativas dominantes no governo, na mídia e nas redes sociais. Ao mostrar uma sociedade interessada e preocupada com questões da agenda internacional, os resultados desta pesquisa indicam a necessidade de reduzir a distância entre as narrativas que circulam em diversos meios de comunicação sobre assuntos internacionais e os fatos reais. Convivem em nossa região sociedades interessadas que merecem informações de alta qualidade para garantir um debate público autêntico. Contamos, em nosso entendimento, com cidadãos que sintonizam com o mundo e entendem que os acontecimentos globais impactam cada vez mais suas vidas. Em contextos democráticos, isso é um ativo coletivo e não uma carga. 58 Friedrich-Ebert-Stiftung e.V. Sobre os autores e autoras, membros do grupo Diálogo y Paz: Guadalupe González. É internacionalista e cientista política formada por El Colegio de México(COLMEX), pela London School of Economics and Political Science(LSE) e pela Universidade da Califórnia em San Diego(UCSD). Atualmente, é professora-pesquisadora associada do Centro de Estudos Internacionais do COLMEX; diretora fundadora do projeto de opinião pública e política externa “Las Américas y el Mundo”, da Divisão de Estudos Internacionais do CIDE; e integra o Conversatório Latino-Americano(CONLAT). Monica Hirst. É historiadora com doutorado em Estudos Estratégicos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(UFRGS). Foi professora visitante na Universidade de Stanford, na Universidade de São Paulo, na Universidade de Harvard e na Universidade Federal de Santa Catarina. Consultora independente, especialista em temas de política externa brasileira, cooperação internacional, integração e segurança regional. Pesquisadora colaboradora do IESP-UERJ(CONLAT). Carlos Luján. É cientista político e professor de Teoria das Relações Internacionais, Negociação e Metodologia da Pesquisa na Faculdade de Ciências Sociais e na Faculdade de Direito da Universidade da República(UdelaR, Uruguai). É pesquisador da área de Política Internacional do Instituto de Ciência Política da UdelaR. É consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento(PNUD) e especialista em temas de política internacional e política externa do Uruguai. Carlos A. Romero. É cientista político, doutor em Ciências Políticas e professor titular aposentado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela (UCV). Foi assessor do Ministério das Relações Exteriores da Venezuela(1991-1992 e 1999). Foi professor convidado na Universidade de Salamanca(Espanha, 1999); Universidade de São Paulo(1999, 2011, 2012 e 2013); Universidade Sorbonne Nouvelle, Paris 3(2007), Universidade do Rosário, Bogotá (2016) e na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Quito, FLACSO-Andes(2010). Atualmente, leciona na UCV e atua como consultor em assuntos relacionados a questões políticas de seu país. Juan Gabriel Tokatlian. É sociólogo, com doutorado em Relações Internacionais pela School of Advanced International Studies da Universidade Johns Hopkins, em Washington, DC. É professor do Departamento de Ciência Política e Estudos Internacionais da Universidade Di Tella (Argentina), da qual foi vice-reitor de 2019 a 2023. Sobre o coordenador de estatísticas: Luis Martín Sosa. É cientista político e especialista em relações internacionais pelo Centro de Pesquisa e Ensino Econômico(CIDE). Atualmente, atua como sócio executivo na Data OPM(Cidade do México), onde coordena pesquisas de opinião pública de âmbito nacional e internacional. 59 AMLAT Radar 2026: Visões latino-americanas sobre a Europa e o mundo Esta é a segunda edição de uma iniciativa conjunta da Friedrich-Ebert-Stiftung(FES), da revista Nueva Sociedad, do grupo Diálogo y Paz e do Latinobarómetro, voltada para a produção de informações rigorosas como bem público, a fim de compreender as percepções na América Latina. A partir de dez realidades nacionais, a pesquisa constrói uma visão regional sobre temas-chave do presente, dando continuidade a uma primeira edição realizada em 2021 e publicada em 2022. Esta nova edição do AMLAT Radar apresenta opiniões coletadas entre outubro e novembro de 2025 na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela. Em um contexto global marcado por transformações aceleradas, este relatório oferece uma análise atualizada sobre como a região percebe seu lugar no mundo, bem como as tensões e reconfigurações do cenário internacional, a avaliação de atores globais e as expectativas sobre lideranças e cooperação em escala mundial. Visualização de dados e mais informações sobre este projeto em: ↗ amlatradar.org