ANÁLISE DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA Rio de Janeiro e São Paulo Camila Rocha e Esther Solano Março de 2021 Os eleitores de Haddad em 2018 convergem maciçamente em torno da importância da renovação do PT e da criação de frentes de esquerda. Acreditam que lideranças mais conectadas com o país e com o cotidiano das periferias, podem ‘trazer de volta’ quem votou em Bolsonaro. Os eleitores“indefinidos” possuem maior desconfiança, ceticismo e pragmatismo em relação à política partidária e não são cativados por nenhuma liderança ou projeto em particular. Rejeitam Bolsonaro, mas receiam o impeachment e seus desdobramentos. A prioridade é resolver as crises pandêmica e econômica. O eleitorado de Bolsonaro o critica por ser muito polêmico e por ter negligenciado a pandemia. A denúncia do esquema da‘rachadinha’ é vista como algo preocupante. Os eleitores mais críticos condenam a postura autoritária de Bolsonaro. DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA Rio de Janeiro e São Paulo Índice 1. INTRODUÇÃO 2 2. CONSIDERAÇÕES GERAIS 4 3. TODOS OS ELEITORADOS 4 4. COORDENAÇÃO E EQUIPE DE PESQUISA 5 5. ANEXO: METODOLOGIA, TÉCNICA E DESENHO DE PESQUISA 11 1 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO 1 INTRODUÇÃO O objetivo desta pesquisa foi compreender de forma aprofundada diferentes discursos e percepções políticas dos eleitores de classe AB das cidades de São Paulo e do Rio Janeiro. A despeito da baixa relevância numérica dos indivíduos de alta renda, isto é, aqueles que integram as faixas AB de renda, é possível dizer que, muito provavelmente, sua capacidade de influir no debate público é maior em comparação a eleitores dos demais estratos de renda. Afinal, não só os eleitores de alta renda são aqueles que mais acessam veículos de mídia tradicional 1 , como também são aqueles que ainda perfazem o maior, mais estabelecido e mais ativo estrato de usuários de internet 2 em comparação com indivíduos de renda média, correspondente à faixa C, e baixa, correspondente às faixas D e E. Em âmbito nacional, no que diz respeito ao comportamento político-eleitoral dos indivíduos de alta renda, é possível apontar que, desde 2006, existe uma tendência de optar por candidaturas de oposição e/ou que se diferenciam do Partido dos Trabalhadores. Até a eleição de 2002, não era possível apontar um alinhamento claro em termos de renda e voto 3 , inclusive, apesar de Lula ter experimentado, em agosto de 2004, sua pior taxa de aprovação, 35%, ao final do ano já havia recuperado a popularidade, especialmente entre os brasileiros com ensino superior, cuja taxa passou de 30% em agosto para 47% em dezembro e, entre aqueles com renda mensal acima de dez salários mínimos, a taxa de aprovação foi de 36% para 50% 4 . No entanto, a crescente aprovação, que Lula vinha angariando neste setor, viria a sofrer um forte solavanco em junho de 2005, com o escândalo de corrupção que ficou popularizado como“mensalão”. O“mensalão” acabou se tornando um dos escândalos de corrupção mais conhecidos da população brasileira 5 , provavelmente devido à ampla divulgação que recebeu na época por parte dos grandes veículos de mídia, os quais teriam realizado uma cobertura mais dura do escândalo em comparação com episódios passados 6 . No entanto, os remédios apontados pela grande imprensa para conter a crise política instalada por conta do escândalo, notadamente, a punição daqueles considerados culpados, variaram ao longo dos anos, e o núcleo do governo federal foi atingido por ondas sucessivas tendo em vista os desdobramentos das denúncias originais. Em uma primeira onda, em junho de 2005, José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, renunciou ao cargo e, meses depois, teve seu mandato parlamentar cassado. Em março de 2006, foi a vez do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que renunciou ao cargo no mesmo mês, a despeito de ter se tornado peça-chave para a manutenção da política econômica do governo 7 . Além de provocar a renúncia de ministros-chave da gestão petista, o escândalo político impactou a imagem do partido e contribuiu para o aumento da desconfiança em relação ao sistema político como um todo. Assim, não só o PT experimentou uma queda de 16% no que tange à identificação partidária entre 2002 e 2006 8 , como a taxa de brasileiros que passaram a mencionar o PT entre as siglas, cujos políticos“só pensam neles mesmos”, subiu de 5% para 20%, e o partido, antes considerado por apenas 4% da população como aquele que possuía mais políticos corruptos, passou a ser mencionado por 27% das pessoas, colocando-o, no ano de 2006, nas lideranças relativas a ambas às taxas, que até então cabiam, respectivamente, ao PMDB e à categoria espontânea“todos” 9 . 1 Disponível em: 2 Disponível em: 3 Holzhacker, Denilde Oliveira and Balbachevsky, Elizabeth.“Classe ideologia e política: uma interpretação dos resultados das eleições de 2002 e 2006.” Opinião Pública 13.2(2007): 283-306. 4 Disponível em: 5 Em uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo, em 2006, 76% da população afirmou que o“mensalão” havia existido, o que apontava para a baixa adesão à versão oficial do próprio partido a respeito do escândalo, a de que as movimentações financeiras que foram o foco original das denúncias seriam fruto de dinheiro não contabilizado, operado pelo ex.-tesoureiro do PT, Delúbio Soares.(Venturi, 2006) 6(Miguel; Coutinho, 2007) 7(Idem, 2007) 8(Paiva; Braga; Pimentel, Jr. 2007) 9 Venturi, Gustavo.“A opinião pública diante da crise.” I, vol.66, 2006. 2 INTRODUÇÃO Além disso, em um artigo sobre opiniões políticas e sentimentos partidários dos brasileiros entre 1990 e 2007, o cientista político Yan Carreirão afirmou que, ao final do período enfocado, foi possível constatar uma diluição ideológica generalizada entre os eleitores mais partidários. Para Carreirão, tal diluição estaria relacionada principalmente ao afastamento de eleitores petistas mais ideológicos da agremiação, a qual após o escândalo do“mensalão”, teria se tornado, na visão dos eleitores, indiferenciada em relação às demais no que tange à questão ética” 10 . Possivelmente, tal distanciamento de parte do eleitorado petista teve relação com a queda de onze pontos percentuais no número total de eleitores, que declaravam se sentir representados por algum partido político de 2002 para 2006, como também com a queda de 48%(2002) para 33%(2006) dos eleitores que diziam gostar de algum partido. Finalmente, os desvios éticos atribuídos ao PT também teriam impactado nos sentimentos partidários e na confiança no Congresso, os quais declinaram em comparação com outras instituições, expressando um aumento do descontentamento geral com o sistema político no período, e teria feito com que o eleitorado passasse a ter mais dificuldade para diferenciar os partidos entre si 11 . Boa parte dos analistas políticos, que apareciam na grande imprensa, avaliava que depois do“mensalão” Lula já seria carta fora do baralho e Geraldo Alckmin, candidato do PSDB, sairia vitorioso na disputa pela presidência, em 2006. Porém, Lula não apenas derrotou Alckmin, como o tucano perdeu votos entre o primeiro e o segundo turno. Com o intuito de compreender como Lula conseguiu se reeleger apesar do escândalo, a Fundação Perseu Abramo coordenou uma pesquisa de opinião publicada na Revista Teoria e Debate, no primeiro semestre de 2006. A pesquisa apontou que, se por um lado a imagem de defesa da ética promovida até então pelo partido havia se perdido, por outro lado, a taxa dos brasileiros que consideravam o PT como a agremiação mais aberta à participação da população subiu 10%. Além disso, a taxa daqueles que consideravam que o PT era o partido que mais defendia a justiça social teve um aumento de 8% e a porcentagem daqueles que o consideravam como o que defendia os mais pobres se manteve praticamente inalterada com 40% 12 . Outro fator que também passou a impactar positivamente na imagem do Partido dos Trabalhadores foi o seu vínculo à figura de Lula, sinalizando sua preponderância em relação ao partido 13 . Assim, ainda que o partido tenha se tornado mais indiferenciado em relação aos demais no tocante à defesa da ética na política, outros atributos foram reforçados, o que ajuda a explicar a reeleição do ex.-metalúrgico, especialmen10 Carreirão, Yan de Souza.“Identificação ideológica, partidos e voto na eleição presidencial de 2006.” Opinião Pública 13.2(2007): 307-339. 11 Paiva, Denise, Maria do Socorro S. Braga, e Jairo Tadeu Pires Pimentel Jr.“Eleitorado e partidos políticos no Brasil.” Opinião pública 13.2 (2007): 388-408. 12 Venturi, Gustavo.“A opinião pública diante da crise.” Teoria e Debate, vol.66, 2006. 13 Paiva, Denise; S. Braga, Maria do Socorro and Pimentel Jr, Jairo Tadeu Pires.“Eleitorado e partidos políticos no Brasil.” Opinião pública 13.2 (2007): 388-408. te levando em consideração que, em 2006, de modo diverso do que ocorreu em 2002, o candidato petista venceu sobretudo por conta dos votos oriundos das camadas mais pobres da população 14 . De acordo com o cientista político André Singer, a alteração no padrão de votação, que ocorreu em 2006, sinalizaria um realinhamento eleitoral por meio do qual a população mais pobre do país teria passado a apoiar o programa político encabeçado por Lula, dando origem a um novo fenômeno na política brasileira: o lulismo. O lulismo seria um movimento político em que o então presidente Lula realizaria uma arbitragem do conflito social e político, combinando medidas que ao mesmo tempo beneficiariam os mais pobres por meio de políticas de transferência de renda, e o grande capital por meio da manutenção de políticas econômicas ortodoxas. Ideologicamente, o lulismo teria promovido mudanças sociais sem romper com a ordem social-econômica vigente, o que teria coincidido com a ideologia de mudança dentro da ordem compartilhada pelos brasileiros mais pobres chamados por Singer de“subproletariado” 15 . Tal coincidência ideológica teria feito com que a adesão à figura de Lula fosse mais forte do que uma simples aprovação do governo de turno, desencadeando uma mudança de padrão eleitoral em que o subproletariado, que desde 1989 votava em sua maioria em candidatos à presidente situados à direita no espectro político, teria passado a votar em Lula e nos candidatos por ele apoiados, enquanto a maior parte das classes médias e altas teria passado a votar de forma sistemática na oposição. Tal tendência teria se acentuado durante as eleições de 2018, tendo em vista a opção da maioria dos eleitores mais pobres pela candidatura de Fernando Haddad e dos mais ricos pela candidatura de Jair Bolsonaro 16 . Contudo, o segundo turno desta eleição também contou com o maior número de votos nulos e brancos desde 1989, totalizando 9,5% dos eleitores do país, ou 11 milhões de pessoas, cifra que, somada ao número de abstenções, sobe para 42,1 milhões de eleitores que não declararam seu voto em um dos dois candidatos. Além disso, no mesmo ano das eleições, o movimento#elenão, puxado por eleitores alinhados a partidos de esquerda, teria contado com presença importante de indivíduos de alta renda 17 e, dois anos antes, o candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, do PSOL, teria sido o preferido entre este segmento da população na cidade 18 . 14 Singer, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. Editora Companhia das Letras, 2012. 15 A ideia de que o subproletariado se orientaria ideologicamente com base na fórmula“mudança dentro da ordem” foi proposta por Singer a partir de uma reunião de diversas pesquisas de opinião em Singer, André.“Direita e esquerda no eleitorado brasileiro.” São Paulo: EDUSP,2000. 16 Disponível em: 17 Disponível em: 18 Disponível em: 3 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO Para compreender de forma mais aprofundada as convergências e divergências existentes neste segmento do eleitorado, foi realizada uma pesquisa exploratória para captar o imaginário político dos eleitores de alta renda das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, por conta de sua representatividade no atual cenário político nacional, aliada à maior concentração de pessoas pertencentes às faixas AB de renda vis-à-vis a outras capitais brasileira, considerando sua divisão em três grupos principais de eleitores: 1. eleitores de Jair Bolsonaro no 2 o turno de 2018, divididos entre apoiadores convictos, críticos e arrependidos; 2. eleitores de Fernando Haddad nos 1 o e 2 o turnos das eleições de 2018, divididos entre convictos e desiludidos; eleitores que votaram em Ciro no 1 o turno e em Haddad apenas no 2 o turno; eleitores que votaram em Haddad no 2 o turno, porém pretendiam votar em Guilherme Boulos do PSOL para a prefeitura de São Paulo em 2020; e, finalmente, 3. eleitores que classificamos como indefinidos, ou seja, que anularam o voto no 2 o turno de 2018 e que, atualmente, não se identificam nem com o PT e nem com o governo Bolsonaro. 4 CONSIDERAÇÕES GERAIS 2 CONSIDERAÇÕES GERAIS ELEITORADO DE HADDAD EM 2018 ELEITORADO INDEFINIDO Os achados mais significativos relacionados ao eleitorado de Haddad, em 2018, foi que existe uma grande convergência de todos os grupos em torno da importância da renovação do PT e da criação de frentes de esquerda. Todos acreditam que o partido precisa de novas lideranças, mais conectadas com o momento atual do país e com o cotidiano das moradoras e moradores das periferias, ou seja, que apostem em pautas e demandas materiais das classes trabalhadoras, como por exemplo a candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que foi citada de forma positiva pelos entrevistados. Todos os grupos afirmaram que o PT continua a ser um partido importante para o país, e que o legado de Lula e dos governos do PT é fundamental e deve ser valorizado. Mas, ao mesmo tempo, todos os entrevistados também afirmaram que o partido não deve se‘apegar ao passado’ mas sim‘olhar para o futuro’. Nesse sentido, acreditam que Lula poderia atuar como uma espécie de mentor e articulador da esquerda brasileira e que o PT e a esquerda deveriam investir em novas lideranças, cuja imagem não estivesse comprometida com a associação a escândalos de corrupção, pois com exceção dos petistas convictos, todos ressaltaram sua frustração e decepção com o PT por conta do envolvimento com escândalos de corrupção. No que tange à comunicação com as bases, vários entrevistados ponderaram que a esquerda como um todo precisa comunicar as lutas contra a opressão(feminismo, antirracismo, pautas LGBT+) de forma mais construtiva para o eleitorado, sem excessos e extremismos, que são vistos negativamente. Ainda foi ressaltada a necessidade de conectar tais as lutas contra opressão com questões cotidianas e demandas classistas. Houve ainda uma convergência no tocante à necessidade de furar a bolha da esquerda, dialogar e‘trazer de volta’ os eleitores que votaram em Bolsonaro e que, agora, estão decepcionados. Finalmente, no que diz respeito aos valores encampados pelos entrevistados, é possível dizer que existe uma maior coerência, considerando um sistema de crenças progressista entre os psolistas e petistas convictos, em comparação com os ciristas e petistas desiludidos. Quanto à trajetória política dos entrevistados, existe um padrão de apoio ao PT no passado, seguido de desilusão, decepção e rejeição ao partido e seus candidatos. O PT é associado à corrupção e declarado como mais um partido cujos políticos defendem apenas seus próprios interesses pessoais e têm sua atuação orientada por“egos”. Ainda que os entrevistados reconheçam a importância de políticas sociais dos governos petistas, as principais lideranças do partido, incluindo Lula, expressam, em sua visão, o “esgotamento” e a incapacidade de renovação da agremiação. Lula representa dois movimentos nesse sentido: reconhecimento e decepção, sendo que o reconhecimento é maior entre aqueles que têm parentes no Nordeste do país. Este movimento de distanciamento e rejeição ao PT não é acompanhado, porém, de adesão a Jair Bolsonaro, visto como autoritário, despreparado, violento, irresponsável e preconceituoso:“vergonha” e“desgoverno” são termos utilizados para descrever sua presidência. No que tange às figuras que estiveram ou que continuam associadas ao governo atual, o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro gozava de algum respeito entre parte dos entrevistados até compor o governo Bolsonaro, quando passou a ser visto como“mais um”. Já outras figuras como Mourão, Paulo Guedes e Mandetta, por exemplo, são vistas como pessoas mais razoáveis, mas que foram caladas por Bolsonaro, um governante autoritário que concentra poder. Os entrevistados avaliam que os demais políticos, para além dos campos petista e bolsonarista, são muito parecidos e também os associam à defesa de interesses particulares e privilégios. De acordo com os entrevistados, a polarização entre PT e Bolsonaro impede que uma alternativa surja e se consolide. Entre os homens, Ciro Gomes(PDT) aparece como uma aposta para fugir da polarização e o pedetista foi apontado, também, como uma possibilidade do PT apoiá-lo no futuro, uma vez que o partido não contaria com novas lideranças. Na percepção dos entrevistados, o maior problema do país seria a“educação”. Para todos, a solução para o Brasil recai na melhoria da educação. Nas falas dos entrevistados, a defesa de políticas sociais convive com certa dose de meritocra5 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO cia: nenhum desses discursos operam de forma“pura”, não conformam uma oposição. Um exemplo é o auxílio emergencial, que é aceito e defendido, enquanto uma“renda universal” é rechaçada:“não deveriam dar dinheiro, mas sim oportunidades”. A defesa de uma educação pública de qualidade para todos, iniciando no ensino infantil, também reforça essa posição, afinada tanto à defesa de políticas públicas quanto à meritocracia. Valores como família e“respeito ao próximo” são centrais para as pessoas que anularam o voto em 2018 e não se identificam nem com Bolsonaro e nem com o PT. Há respeito pelas diferenças e reconhecimento da existência de preconceitos na sociedade – homofobia, machismo e racismo, por exemplo – mas que são acompanhados por uma ressalva quanto a supostas“radicalização”,“violência”,“imposição” (de valores) e“vitimismo” por parte de indivíduos/grupos de pessoas, vítimas de opressões. A separação entre política e religião é defendida enfaticamente, e a atuação da ministra Damares Alves figura como um exemplo negativo. Ainda que não haja adesão a Jair Bolsonaro, peças e símbolos produzidos e alavancados por setores da extrema-direita são abraçados por alguns homens: é o caso de vídeo de Enéias Carneiro, de discursos sobre a cobiça estrangeira pela Amazônia, do chamado‘Kit Gay’, e da‘doutrinação esquerdista nas escolas’, por exemplo. Por outro lado, dentre as figuras indicadas como referências pelos entrevistados, constam personalidades não identificadas nem ao bolsonarismo e nem à esquerda, mas situadas em um campo“humanista”, como por exemplo, o ator Pedro Cardoso, o Padre Fábio de Melo e o filósofo Mário Sérgio Cortella. No contexto das eleições municipais, a ausência de identificação e a recusa à polarização entre PT e Bolsonaro produziram uma“dispersão” desse campo. Foi possível observar intenções de voto e traços de simpatia em relação ao prefeito Bruno Covas(PSDB) e ao candidato Márcio França(PSB), associados a“deixar trabalhar” e“experiência”. Já Guilherme Boulos(PSOL) foi qualificado como“diferente”,“preocupado com quem necessita”, e Arthur do Val(Patriota) como “diferente”,“sem rabo preso” e associado a“brigas”. Russomanno, por sua vez, gozava de alta rejeição e era associado a Bolsonaro, e, finalmente, o candidato do PT, Jilmar Tatto, foi pouco citado. Para 2022, o cenário mistura algum anseio por uma“alternativa”, uma“terceira via”, em conjunto com uma descrença no sistema político. Nesse sentido, figuras como Sérgio Moro e João Doria aparecem como possibilidades para os entrevistados, mas também carregam traços de decepção por sua atuação depois de 2018, enquanto Ciro Gomes(PDT) aparece como alguém que poderia representar uma alternativa, mas que não tem força sozinho. Com sinal invertido, João Amoedo(NOVO) figura de forma similar. Sinais de cansaço, desconfiança, ceticismo e pragmatismo (querer resolver os problemas) superam qualquer traço de encantamento com figuras ou projetos políticos. É justamente este pragmatismo que também parece desaconselhar a defesa do impeachment de Jair Bolsonaro pelos entrevistados mesmo em meio à ampla rejeição. A ordem do dia parece ser a de uma arrumação no país pressionada pela pandemia e pela crise econômica. ELEITORADO DE BOLSONARO EM 2018 Para todos os entrevistados, que apoiaram Bolsonaro em 2018, o voto no militar se justificou para retirar o PT do poder por conta dos escândalos de corrupção, porém todos reclamam de que Bolsonaro é muito polêmico,‘fala muita besteira’, deveria se controlar mais e que foi um erro ter afirmado que a pandemia era apenas uma gripezinha. A maior parte dos eleitores também fala da denúncia do esquema da‘rachadinha’ de Flávio Bolsonaro como algo preocupante e os mais críticos também mencionam de forma negativa a postura autoritária do presidente. Aqueles, que defendem a reeleição de Bolsonaro em 2022, dizem que as negociações com o chamado‘centrão’, ainda que sejam indesejáveis, são necessárias para ter governabilidade. Já as eleitoras arrependidas ficaram indecisas sobre um afastamento de Bolsonaro via impeachment por temor de que Mourão assumisse e das consequências que isso poderia ter. Apenas uma entrevistada arrependida disse gostar de Moro, os demais entrevistados eram indiferentes e os bolsonaristas convictos possuíam uma opinião negativa por enxergarem Moro como alguém que saiu do governo de forma‘imatura’ e ruidosa. Existe uma convergência, porém, no que diz respeito à avaliação de que Moro estaria‘queimado’ politicamente. Com exceção das eleitoras arrependidas, todos disseram que, novamente, pretendem votar em Bolsonaro em 2022. No que tange às eleições municipais, dois entrevistados disseram ter seguido a indicação de voto de Bolsonaro para prefeito, um votou em Celso Russomanno e outro em Marcelo Crivella no Rio, os demais anularam ou disseram que iriam votar em Bruno Covas e antagonizavam com candidatos de centro-esquerda e esquerda à prefeitura de suas respectivas cidades. Já as eleitoras arrependidas estavam mais indecisas, criticaram muito Russomanno, disseram ter alguma simpatia por Joice Hasselmann afirmando que ela seria uma liderança importante apesar de ser caracterizada como ‘encrenqueira’ e estar mal posicionada nas pesquisas. As arrependidas tinham ainda simpatia por Guilherme Boulos, que julgavam inteligente, porém disseram que não votariam nele porque ele defende a legalização da maconha. A desconfiança dos meios de comunicação e de fake news foi generalizada entre os entrevistados, porém as eleitoras arrependidas disseram assistir televisão, ainda que desconfiassem do conteúdo da Globo, desconfiança essa que era muito maior entre os apoiadores de Bolsonaro, que preferiam se informar por outros meios. De qualquer forma, o WhatsApp foi criticado como um meio em que se divulgam muitas fake news. O PT e suas lideranças foram criticados de modo extremo e vistos como completamente corruptos. Vários entrevistados 6 afirmaram já terem votado no partido antes e se disseram profundamente decepcionados. Mesmo os eventuais acertos dos governos do PT eram contrabalançados com as críticas devido à corrupção e, no somatório total, o partido saía perdendo, isto é, na percepção dos entrevistados as coisas boas que fez não seriam suficientes para compensar as ruins. Entre as eleitoras arrependidas, duas afirmaram que novamente poderiam votar no PT a depender do candidato. Os principais valores defendidos pelos entrevistados foram família, empatia e respeito pelo próximo. Além disso, afirmou-se enfaticamente que o principal problema do Brasil era a educação, tanto em termos de valores como em termos de educação formal. O argumento meritocrático era muito utilizado:“é preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe”. Apenas uma entrevistada, arrependida, foi a favor de renda básica universal“pois seria o dinheiro dos nossos impostos e todos pagamos”, as outras eleitoras arrependidas foram a favor da continuidade do benefício, e os homens bolsonaristas foram mais reticentes e críticos em relação a programas de transferência de renda. No que tange às lutas contra as opressões, concordou-se com a importância do feminismo, porém as ativistas feministas foram classificadas como extremistas e associadas a atos como retirar a roupa e urinar em público. Para os entrevistados, é necessário haver leis mais rígidas para combater a violência contra a mulher:“mais punição”. Todos foram contra as cotas raciais afirmando que seria uma forma de preconceito,“pois todos somos iguais” e utilizaram um argumento baseado no mérito:“depois que eles entram, eles não conseguem acompanhar” foi uma frase utilizada contra as cotas. Pareceu haver, porém, uma abertura maior considerando temas como a questão do aborto, criminalização da homofobia e legalização da maconha. CONSIDERAÇÕES GERAIS 7 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO 3 TODOS OS ELEITORADOS ELEITORADO DE FERNANDO HADDAD EM 2018 Ciristas Esta tríade foi composta por três homens brancos do Rio de Janeiro que, nas eleições de 2018, votaram em Ciro Gomes no primeiro turno e em Fernando Haddad no segundo. Os três possuem ensino superior completo. Dois são professores de inglês e um trabalha na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro. Um é espírita, outro católico e outro budista e suas idades variam entre 35 e 36 anos. PT e Esquerda Os três entrevistados afirmaram ter votado sempre no PT, mas em 2018 decidiram votar em Ciro Gomes(PDT) por considerar que este candidato teria uma chance maior de derrotar Bolsonaro. Em sua percepção, o PT teria sido contaminado pelos escândalos de corrupção e novas figuras e partidos deveriam assumir a liderança da esquerda, por isso decidiram migrar o voto para outro candidato. Eles se consideram pessoas progressistas, preocupadas com as questões sociais e passaram a apostar no PDT eleitoralmente: Eu odeio Bolsonaro... mas eu me considero do campo progressista. Eu me considero progressista e tem pautas interessantes. Acho que o PT em alguns pontos se perdeu em algum caminho da liderança. Não que nunca mais vote no PT, mas tenho me identificado mais com as pautas do PDT, tanto que na eleição municipal aqui vou votar na Marta Rocha. Para os entrevistados, o PT já não representa tanto os movimentos sociais como anteriormente. Em sua percepção, muitos integrantes destes saíram do PT e foram para o PSOL, o que fez com que este ganhasse espaço: As lideranças saíram do PT e foram para o PSOL por descontentamento interno. Meu palpite é que eles viram alguma coisa errada, alguma possível corrupção, muito mais interesse próprio do que interesse em ajudar a sociedade. Para os entrevistados, Lula foi uma grande liderança, foi o melhor presidente de Brasil, os governos do PT foram ótimos, mas a corrupção fez parte do jogo da governabilidade: Fiquei muito feliz com a administração dele. Acho que na minha geração foi o melhor presidente que o Brasil teve, mesmo com esc ândalos de corrupção. Segundo seu entendimento, não houve roubo pessoal, mas “roubo partidário”, ou seja, o PT se envolveu em corrupção, mas a corrupção também é vista como parte intrínseca do sistema político brasileiro e as concessões são inevitáveis. Por essa e outras razões, os entrevistados dizem que o PT sofre de um desgaste, que o faz ser um partido menos potente eleitoralmente e, por esse motivo, deveria ter aberto caminho para outras lideranças: Eu acho que a Lava Jato tem fatores positivos, o problema é que o discorrer dela foi atropelando as coisas. Quando o juiz abandona a carreira, vai para o ministério, distorce um caminho que era o caminho sério e vira um fator político. Utilizaram a Lava Jato para modificar o campo político. Acho que o PT se envolveu em jogo. Lula não é percebido, como ocorre entre o eleitor antipetista mediano, como“o chefe da quadrilha”, mas sabia de alguns escândalos e fez vista grossa justamente porque“não se pode governar fora da corrupção”: Acho que Lula não sabia das coisas e cham á-lo de chefe de quadrilha é sacanagem. O sistema é muito fossilizado, você tem que fazer muitas concessões. Em 2003, foi eleito porque já tinha feito muita concessão e nos anos de governo as fez para continuar presidente, porque todos os presidentes tiveram pedidos de impeachment. Não acho que Lula sabia de tudo, mas sabia de algo, talvez ele tenha feito vista grossa. O ex.-metalúrgico é tido ainda pelos entrevistados como uma grande liderança, mas carrega todo o estigma da corrupção e, também, por conta de sua idade, deveria deixar lugar para outras lideranças. Sobre a união de Ciro e Lula, todos admitem que pode ser uma boa ideia para devolver força e prestígio ao PT, e que seria Lula quem estaria procurando se unir a Ciro Gomes, porque quem precisaria desta aliança seria o PT. 8 TODOS OS ELEITORADOS Para os entrevistados, o partido precisa de reformas, se reconstruir, voltar a representar suas pautas, sinalizar para a população que mudou, que tem novas lideranças, candidatos: Acho que o PT está completamente perdido, não sabe mais o que defender, porque perdeu a identidade dele, já não defende os trabalhadores há muito tempo. Não acredito que tenha mais pauta. Acho que vai demorar para o PT voltar a ter uma identidade, pelo menos uns 10 anos... Eu creio que para poder atrair uma grande parcela da sociedade o PT precisa de uma renovação, sim. Governo Bolsonaro O cenário político de forma geral é percebido como capturado pelo poder econômico e permeado pelo fisiologismo e por políticos preocupados apenas com seus próprios interesses. Em vista disso, há uma grande descrença na política: Há muitos partidos e muitos deles hoje não sabem quais são as direções deles... Se você seguir o dinheiro você sabe onde os partidos estão. A política é toda comandada pelo empresariado. Para os entrevistados, Bolsonaro potenciou a antipolítica, ele provoca radicalidade e violência e aproveitou o enfraquecimento da esquerda. Ao mesmo tempo, os militares estariam sendo utilizados por Bolsonaro para dar uma imagem de seriedade ao seu governo. Paulo Guedes é visto como radical demais em seu ultraliberalismo, mas é inteligente, tem ideias boas que não consegue colocar em prática por conta de Bolsonaro e Sergio Moro teria boas intenções na Lava Jato, mas se equivocou entrando no governo: Acho que somos sim uma sociedade machista, mas o sexismo em geral, tanto no homem como mulher, está muito louco. Tem uma galera que quer mudar pronomes, não é por aí, não precisa mudar a língua. O feminismo tem que existir, mas de forma exagerada como está, não acho que seja necessário. A esquerda não é vista como preconceituosa em relação a evangélicos, o problema seria o radicalismo e o preconceito dos líderes evangélicos, de modo que os entrevistados acreditam que a política deveria estar totalmente separada da religião e o país deveria ser efetivamente laico: Informação Para os entrevistados, é necessário utilizar vários meios de comunicação e escutar várias pessoas e, nesse sentido, uma figura que tem admiração dos entrevistados é a comentarista política Gabriela Prioli. A esquerda deve se aproximar de quem votou em Bolsonaro, dialogar, é importante sair da bolha: Diálogo é sempre a melhor forma. Muitos dos que votaram em Bolsonaro, muitos se arrependeram. Tem que estabelecer um contato, vamos dialogar. Tem que ter o caminho do di á logo. Eleições 2020 Os entrevistados votaram em Marta Rocha(PDT) para dar uma oportunidade a um partido progressista não-petista e pelo fato dela ter pouca rejeição, uma vez que afirmaram que a rejeição ao PT seria muito forte e a Benedita já não estaria mais em seu auge. Sergio Moro é uma figura misteriosa. Num primeiro momento, a impressão que tive é que ele de fato respeitava os valores e princípios que tinha e tentava fazer o bem, mas acabou entrando na onda da política do interesse, quando aceitou o convite de Bolsonaro, mas ele deve ter visto coisas que não eram corretas, o que lhe fez voltar atrás. Acho que teve um conflito interno... Acho que ele acreditou que teria uma autonomia. Valores Ética, empatia, honestidade são valores essenciais para os entrevistados. O jeitinho, a malandragem, a corrupção cotidiana seriam os principais problemas do Brasil e a educação seria a principal solução. Em seu entendimento, a falta de oportunidades e de uma educação de qualidade conduz à falta de segurança pública, no entanto, tal questão, a despeito de sua importância, é vista como insolúvel, ainda que se aponte que legalizar as drogas e tratá-las como questão de saúde pública diminuiria o tráfico. No que diz respeito às pautas relacionadas à diversidade, o feminismo é tido como necessário, mas atualmente é percebido como exagerado e radicalizado, assim como o movimento LGBT, que se perde na agressão e na polarização: PETISTAS Foram realizadas duas tríades com pessoas que votaram no PT no 1 o e 2 o turno das eleições de 2018, uma com petistas que foram classificadas como desiludidas e a outra com entrevistadas que foram classificadas como petistas convictas. O ponto de divergência entre ambos grupos é a questão da corrupção. As desiludidas são críticas à Operação Lava Jato, mas admitem considerar que o PT teve envolvimento em práticas corruptas de forma estrutural. Já as convictas são mais críticas com a Operação Lava Jato e rejeitam esta suposta corrupção estrutural, de modo que a tese da perseguição política lavajatista possui muita força em seu discurso. A despeito desta diferença de interpretação, há questões em que ambos os grupos possuem muita convergência: 1) a identidade não só ideológica como emocional e afetiva com o PT, cuja história faz parte do percurso biográfico dos entrevistados; 2) a importância do legado petista e o protagonismo histórico do presidente Lula, a quem todos os entrevistados, sem exceção, admiram. Porém, a defesa do legado petista, para ambos os grupos, não é suficiente. Nas duas tríades, aparece de forma reiterada a percepção de que o PT estaria olhando em excesso para 9 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO o passado e muito pouco para o futuro, e de que se faz necessária uma renovação do partido no que tange a seus candidatos, lideranças e estratégia comunicativa. Este é o tema nevrálgico de todas as tríades que, de alguma forma, se sentiram no passado, ou se sentem na atualidade representadas ou identificadas pelo petismo. Neste sentido, a candidatura de Guilherme Boulos(PSOL) em São Paulo, define como modelo a seguir, que muitos dos entrevistados colocam como paradigma desta ansiada renovação. PETISTAS DESILUDIDAS PT e Esquerda Todas as entrevistadas concordam ideologicamente com o PT, pensam que Lula fez bons governos, mas se sentem decepcionadas com o envolvimento do partido com práticas corruptas. Afirmam que se sentiram iludidas e enganadas pelo PT, mas que não haveria saída porque o sistema já estaria capturado de saída, de modo que práticas corruptas e concessões seriam incontornáveis. Em seu entendimento, Lula teria sido perseguido pela Operação Lava Jato, mas acreditam que, de fato, ele possuía algum envolvimento com a corrupção. Elas afirmam já terem pensado em deixar de votar no PT por causa da Lava Jato, mas não viram outra opção: Apesar de ser petista, não sou a petista que acha que a Lava Jato não tem fundamento. Acho que Lula foi um bom presidente, ele fez coisas boas, sim, mas acho que a Lava Jato manchou um pouquinho o partido... Eu gosto muito da ideologia que o PT defende, mas eu fiquei um pouco chocada com a Lava Jato, fiquei um pouco decepcionada porque você sempre imaginou uma coisa, esperou algo e, de repente, não é tão assim. com medo da impressão horrível que ficou do PT. Tem um pouco de decepção, de acabar se sujando. É por medo que hoje em dia as pessoas votam contra o PT. Governo Bolsonaro Para as entrevistadas, ainda que a política seja vista como corrupta por natureza e, segundo sua avaliação, Bolsonaro ganhou porque soube capitalizar o descontentamento das pessoas, o antipetismo e porque fomentou a esperança e a possibilidade de mudança. O PT, com seu envolvimento em corrupção, teria contribuído indiretamente para a vitória de Bolsonaro: Ele ganhou porque as pessoas queriam o novo e ele veio prometendo tantas coisas. As pessoas estavam tão decepcionadas, meio que colocaram uma esperança, acharam que ia ter uma forma de melhorar. Além disso, em sua visão, Bolsonaro também teria se utilizado das crenças de grupos religiosos e se beneficiado do descaso com a segurança pública, vendendo uma imagem de que a militarização melhoraria a violência. Para uma das entrevistadas, Moro sempre foi um fantoche, outras pensaram, inicialmente, que poderia ser uma figura honesta e, depois, se desencantaram com suas aspirações políticas. Achei que ele podia ter potencial, mas me decepcionei com ele porque achei que pudesse ter alguém honesto e acho que ele foi mais um manipulado, corrompido... Quando começou o murmurinho dele entrar na política eu pensei, p é ra aí, isso não está tão bem assim. Sobre Paulo Guedes, uma das entrevistadas avalia que o ministro tem algumas ideias boas, como privatizar algumas empresas estatais que não funcionam, já outras pensam que ele só governa para os empresários: Em sua visão, o PT está muito estigmatizado por conta da corrupção, mas ainda é o partido que representa os ideais de luta pelo trabalhador e mais pobres, ainda que afirmem que há petistas que são radicais demais e que todo extremo é ruim. Por fim, afirmam que o partido deveria se renovar e abrir caminho para novas lideranças, o que inclui Lula, que, em sua percepção, continuou a governar durante os anos do governo da então presidente Dilma Rousseff: Eu acho que Lula deveria dar um passo atrás e deixar pessoas novas liderarem, porque ficou feio tudo o que aconteceu e ele ficou um pouco mal visto. Não acredito que o PT perdeu força, não, as pessoas acreditam muito no PT, se Lula se candidatar novamente ele ganharia. Por fim, as frentes de esquerda seriam esforços válidos, mas avaliam que os partidos ficam com medo de se unir ao PT e ficarem estigmatizados: Qualquer coisa que venha a ser feita é válida, mas acho que tem a questão da aliança, não sei se estão Em algumas coisas a gente concorda, algumas privatizações não vão ajudar o povo, outras, sim. Valores Família, honestidade e justiça são valores fundamentais para as entrevistadas, que avaliam que o principal problema de Brasil hoje é a corrupção: O principal problema do Brasil hoje é a corrupção. Se não tivesse, muita coisa seria resolvida. No que diz respeito às pautas de diversidade, feminismo e movimento LGBT são lutas importantes, mas que devem proceder com inteligência, sem provocações: Concordo em partes, t ê m algumas coisas que eu acho desnecessário, alguns tipos de manifestações, tem que ser inteligente, não provocativo. No que diz respeito à legalização da maconha possuem dúvidas, ainda que avaliem que a violência é um problema fundamental. Finalmente, acreditam que existem evangéli10 TODOS OS ELEITORADOS cos que são muito radicais e preconceituosos e que, atualmente, possuiriam muito poder: Informação/diálogo As entrevistadas desconfiam de todos os meios de comunicação, mas apontam que o diálogo entre quem pensa diferente é essencial e que a esquerda deve dialogar. Afirmam que não dá para pensar que todos os que votaram em Bolsonaro são burros ou fascistas: ‘Pobre que vota em Bolsonaro é burro’. Acho péssima essa frase. Como você pode julgar outra pessoa, o que ela vive, o que ela espera, o conhecimento. No momento acredita que aquilo é para ela, não quer dizer que seja burro. O que é realmente o certo? É a esperança de cada um. Não dá para falar que todo o mundo que votou em Bolsonaro é fascista ou todo o mundo que votou no PT é jumento. Eleições Na época em que ocorreram as eleições de 2020, afirmaram que não estavam acompanhando, mas afirmaram que, mesmo desiludidas, iriam votar em Benedita da Silva por falta de opção: Não tenho candidato...estou tão desanimada. Não tenho pesquisado, não tenho acompanhado. Para falar a verdade, falei que saco, vou ter que votar...acho que vou seguir meu histórico do PT, acho que vou na Benedita, não tem(outra opção). O desânimo das entrevistadas também se estende para eleições de 2022: Lula, acho que fica tudo igual, para mim a estratégia melhor é colocar alguém totalmente novo. Se Haddad se candidatar é minha opção, mas tenho dúvidas de se ele está no mesmo pacote aí ou não(corrupção) PETISTAS CONVICTOS Esta tríade foi composta por três homens brancos, que são servidores públicos, cujas idades variavam entre 51 e 54 anos. Um deles é casado, tem 3 filhos e é umbandista, outro possui união estável, não tem filhos e é umbandista e o terceiro é solteiro e não possui religião. tem que continuar se transformando e não ficar tão preso à sigla partidária, as pessoas são muito presas na nossa bolha. A gente tem que pensar mais amplo. O PT, talvez, não tenha conseguido criar vínculos tão fortes como tinha com o movimento operário, esse vínculo também acabou se perdendo e a base social acabou sendo cooptada pela extrema direita. Embora apoiem o partido com convicção, todos afirmam que o PT precisa de renovação e de mobilização da juventude. Assim, eles apontam o exemplo da candidatura de Jilmar Tatto em São Paulo, que eles consideram voltada para dentro, sem emocionar as bases, em contraposição à candidatura de Guilherme Boulos, que é tida, em vários momentos, como o exemplo que o PT deveria seguir nesse processo de renovação. Neste sentido, arejar o partido com candidaturas negras, femininas, jovens, LGBT e ter uma comunicação mais natural, direta e renovada seria fundamental e apontam Boulos como um exemplo a ser seguido. Afirmam ainda que a direção do PT também deveria estar incluída nesta renovação. Para eles, o legado petista é indiscutível e deve ser defendido, mas o partido teria perdido muito tempo focando no passado, quando deveria olhar mais para o futuro: O que talvez faltou de estratégia é não se adaptar aos novos momentos. Você vê, por exemplo, o Boulos se adaptar aos novos momentos, coisa que o PT não consegue fazer. Cadê nossa estratégia aí? E, também, se apresentar rejuvenescendo. A gente tem que defender o legado, mas apontar para o futuro. A gente ficou defendendo muito legado, imagem, bolha e não partimos para ampliar a sociedade. Acho que a direção do PT tem que trabalhar esse arejamento. Os entrevistados são muito críticos em relação à Operação Lava Jato, que consideram o centro de uma estratégia de longo prazo de destruição do petismo. Diferentemente da tríade das petistas arrependidas, eles não consideram que o PT protagonizou esquemas corruptos nem que estes eram institucionalizados. Afirmam que ocorreram algumas práticas corruptas na Petrobras, das quais o PT se beneficiou muito menos que outros partidos e, também, falam sobre o Caixa 2 das campanhas eleitorais, mas nunca como estratégia partidária nem como enriquecimento pessoal: PT e as esquerdas Diferentemente das petistas desiludidas, estes entrevistados afirmam que erros foram cometidos pela direção do partido, mas que estes não foram tão gritantes. Consideram que a história foi avançando, a sociedade brasileira mudou e as circunstâncias foram complicadas, porque a base social do petismo inicial não existe mais e a adaptação aos novos tempos não é simples: Eu não me considero decepcionado, não, tenho decepção com a história como ela andou, mas acho que o PT O lavajatismo e o antipetismo detonaram tudo o que tinha sido constru ído. Foi muito doloroso. Governo Bolsonaro Os entrevistados têm uma percepção de Bolsonaro como um político medíocre e antidemocrático, que se sustenta no poder apoiado pelo establishment que favorece sua política neoliberal. Reagem negativamente às políticas de Paulo Guedes, têm uma imagem de Moro como cínico e mentiroso e são extremamente críticos com a militarização do governo Bolsonaro, que, inclusive, consideram negativa 11 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO para as próprias Forças Armadas, além da penetração do fundamentalismo religioso no governo, simbolizado, em sua visão, pelo neopentecostalismo e pela figura da Ministra Damares Alves, que os entrevistados repudiam frontalmente: Bolsonaro é antidemocrático, ele é um sociopata, imaturo, paranoia... Moro é um farsante, um mentiroso, a serviço de uma mentira, não sei a princípio a quem ele serve, é muito ruim, advogado medíocre e, agora, está querendo posar de bom moço. É o suprassumo do cinismo e do mau caráter. É um ser péssimo. papel de estar junto do candidato, ser seu maior apoio, continuar com protagonismo, mas numa configuração diferente daquela de 2018: Acho que para 2022, deve ser construída uma frente de esquerda, não necessariamente sendo a cabeça de chapa do PT, o PSOL se aproximou bastante, por exemplo, uma candidatura única de esquerda...minha chapa tem que ser até o PDT, a Rede. Flavio Dino é um nome a ser considerado. PSOLISTAS Ao mesmo tempo, os entrevistados afirmam que Bolsonaro se beneficiou de um erro estratégico do campo progressista, que foi subestimar o papel das guerras culturais e a penetração das narrativas morais e religiosas na base social, que era petista e que migrou ao bolsonarismo. Na percepção dos entrevistados, o progressismo deveria ter construído contranarrativas neste sentido. Valores Para estes entrevistados, os valores fundamentais são igualdade, solidariedade e liberdade e o maior problema do Brasil é a desigualdade, que deve ser resolvida com uma educação de qualidade e com políticas públicas de distribuição de renda e defendem programas como a renda básica universal. Os entrevistados consideram as lutas contra opressão em prol da diversidade, popularizadas como‘pautas identitárias’, são fundamentais, mas estaria faltando ao campo progressista a habilidade para se comunicar para fora de suas bolhas, inclusive, falam de problemas de condução das pautas e da necessidade de dialogar sobre estes temas com quem está fora do campo ideológico da esquerda: Também acho que é fundamental a pauta, mas realmente tem problemas de condução. O movimento às vezes é autoritário porque fala em nome de uma totalidade, as vezes é excludente porque coloca cercas nas identidades, se você não é e está fora, tem que aprender a dialogar também. Informação/diálogo Para estes entrevistados, é essencial conversar com a base que migrou do petismo ao bolsonarismo para“trazê-la de volta” ao campo da esquerda. Eles consideram que o número de arrependidos está aumentando e que, portanto, este seria o momento para acolhê-los: Tem que trabalhar esse voto(de quem votou em Bolsonaro). Tem gente que precisar ser reincorporada. A tríade dos psolistas foi realizada após o término das eleições de 2020 e foi composta por três homens brancos, dois professores e um analista de TI, com idades que variaram de 34 a 39 anos. Um entrevistado não tinha religião, já os outros dois se declararam espírita e umbandista. PT e Esquerda Os entrevistados haviam votado, em sucessivas ocasiões, em candidatos petistas e se identificavam com o partido, mas optaram por migrar ao PSOL por duas questões: 1) o suposto envolvimento em esquemas de corrupção por parte do PT e 2) a escolha do petismo pela moderação e pela institucionalidade, perdendo a conexão com as bases e as lutas sociais. Todos são muito críticos em relação aos principais quadros petistas, por considerá-los burocratizados demais e desconexos com as lutas sociais, porém, afirmam não duvidar que o PT tenha ainda um papel fundamental como o único partido de massas que representa um projeto popular: Mudaria muita coisa(no PT). Foi uma aposta de um projeto democrático popular que, em alguns momentos, em vez de radicalizar tentou manobrar dentro das instituições e vai perdendo a conexão e aí começa a aceitar de tudo e surgem figuras não muito conectadas com o projeto inicial como o próprio Haddad, que não é vinculado à luta social. Muitos tucanos teriam o sonho ter o Haddad como representante. Embora os entrevistados afirmem que o PT tenha se envolvido em práticas pouco transparentes em seu projeto de poder, não duvidam em qualificar a Lava Jato como um projeto destrutivo contra o projeto popular petista: Parece-me que Moro é uma tentativa de destruir o projeto desses anos de petismo, de destruir o projeto nacional(Petrobrás, Pré-Sal), com o discurso da corrupção... A Lava Jato foi um pouco isso, consegue dar um fim no esboço do projeto nacional. Eleições 2020/2022 Em 2022, os entrevistados não têm dúvida que votarão de novo no PT. Consideram que seria fundamental uma chapa que representasse uma frente de esquerda em que, talvez, o petismo não precise ocupar a cabeça da chapa. Lula teria o Quando questionados sobre o PSOL, afirmam que a principal virtude do partido é a opção por uma radicalidade programática maior, mas o fato de ser um partido de quadros, criado de cima para o baixo, faz com que ainda não tenha suficiente musculatura, nem enraizamento popular: 12 TODOS OS ELEITORADOS O PSOL não é um partido formado desde baixo, tanto que o desafio agora é massificar. Vamos ver, agora, o PSOL tomando mais protagonismo na lua institucional, como que vai ser, um outro desafio. Da mesma forma, consideram que as lutas contra a opressão em prol da diversidade são importantíssimas e muito fortes no partido, mas que deveriam ser muito mais vinculadas com lutas materiais, que dialoguem mais com a massa trabalhadora. Neste sentido, todos dizem que a candidatura de Boulos conseguiu contribuir muito para cobrir estes déficits e que, agora, é a melhor alternativa para que o PSOL atinja outro patamar representativo. Ao mesmo tempo, demostram-se preocupados com o aumento de institucionalidade do partido e que isso possa supor uma perda de radicalidade e uma migração obrigatória em direção ao centro político: O PSOL, acredito que vai se tornar um partido maior, só que vai chegar um momento em que não vai conseguir sustentar es se discurso mais radical. Partidos que vão para a frente acabam sempre migrando para um centro porque, se não, não governam. Governo Bolsonaro Como era esperado, os entrevistados são extremamente críticos ao governo Bolsonaro e consideram o atual presidente reacionário e destrutivo para o país. O ex-Ministro Sergio Moro, a Ministra Damares ou Paulo Guedes são tidos como igualmente negativos para o país, assim como o papel das Forças Armadas como sustentadoras de Bolsonaro: Um verme, Bolsonaro é tudo o que a racionalidade democrática, liberal, científica...é o oposto de tudo isso. Paulo Guedes é o clássico imperialista...é uma pessoa que não tem capacidade política, fala umas asneiras grotescas...uma péssima escolha. Os entrevistados afirmam que Bolsonaro soube aproveitar um vácuo de poder e uma dificuldade de comunicação dos partidos com a população: Esse foi o grande êxito de Bolsonaro, a questão da comunicação, se comunicar com povo. Existia um vácuo de poder e mostrou uma face de brasileiros que pensam como ele e outros que simplesmente gostam do discurso fácil. Valores Os valores fundamentais para os entrevistados são generosidade, solidariedade e senso de comunidade, e o principal problema do país elencado pelos entrevistados é um regime capitalista que provoca pobreza, desigualdade, racismo e uma série de violências estruturais. Sobre o tema da segurança pública, afirmam que a esquerda deveria entrar com muito mais fôlego nesta agenda e pensar num projeto que valorize as forças de segurança e a prevenção: No que diz respeito às lutas contra a opressão em prol da diversidade, popularizadas como“pautas identitárias”, os entrevistados pensam que a esquerda tem um problema de comunicação das pautas identitárias com as classes trabalhadoras: Muito mais do que comunicar é como comunicar...acho que tem que crescer muito em como comunicar as pautas identitárias...o caminho é se reinventar, como comunicar isso com essa nova classe trabalhadora. Informação/diálogo Em convergência com as outras tríades progressistas, os entrevistados afirmam que o voto da classe trabalhadora, que migrou para Bolsonaro, deve ser disputado pela esquerda. Em sua percepção, é preciso entender que são tempos de confusão, de dificuldades de compreensão da realidade e ter humildade para recuperar o diálogo perdido: Esse discurso horrível‘pobre que vota na direita é burro’, não é isso, tem que re-encantar. É difícil, mas tem que ser por aí, lutas por pautas, trabalho, salário. Eleições Também em consonância com outras tríades, os entrevistados apoiam a realização de frentes amplas de esquerda para 2022. O papel de Lula, neste cenário, seria fortalecer o campo e arranjar esta articulação, mas não refazer a estratégia eleitoral petista de 2018. Porém, se consideram desiludidos a respeito da possibilidade desta frente, sobretudo porque PDT e PSB iriam optar por seguir seu caminho. O fenômeno Boulos representa para eles uma esquerda competitiva, jovem, renovada na comunicação e que deve representar o campo em 2022. Lideranças petistas não empolgam neste sentido: O discurso do antipetismo ainda é muito forte, acho que Lula ainda é uma boa liderança política, mas repetir essa estratégia(a de 2018) não acho positivo pelo antipetismo e a necessidade de construir uma frente única de partidos de esquerda.(...) Boulos e Manu seria minha chapa ideal. Haddad se vê como uma alternativa a Lula, talvez uma chapa boa seria Haddad, Boulos.(...) O ideal seria caminhar para uma frente, mas acho que não vai acontecer, acho que PDT, PSB lançarão seu candidato. ELEITORADO INDEFINIDO Foram realizadas três tríades com eleitores indefinidos, ou seja, que anularam o voto ou não votaram nas eleições de 2018 e não se identificam nem com o governo Bolsonaro e nem com o PT ou Lula. PT e Esquerda Em relação à trajetória política dos entrevistados, existe um padrão de apoio ao PT no passado, seguido de desilusão, decepção e rejeição ao partido e seus candidatos: 13 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO Sempre votei no PT, sempre fui petista, estudei em escola que os professores eram petistas, continuei sendo PT, votei no Lula, votei na Dilma as duas vezes. Achava o PT o partido que olhava para a população, outros partidos olhavam mais para a parte da elite, mas depois das den ú ncias, escândalos, não dá para a gente fechar os olhos. Acredito que Lula carregou mais culpa do que realmente tem, mas acredito que ele participou, sim, da corrupção. Bolsonaro é contra tudo o que eu penso, eu sou totalmente contra a violência. Achei que não tinha candidato que me representasse, ninguém me passou confiança. Eu acho ruim a gente anular, mas não tinha opção. O PT é associado à corrupção e declarado como mais um partido que defende interesses pessoais e tem sua atuação orientada por“egos”, ainda que os entrevistados reconheçam a importância de políticas sociais dos governos petistas. Suas figuras, incluindo Lula, expressam“esgotamento” e incapacidade de renovação, expressa com o termo“passou” utilizado pelos entrevistados: A gente também vê que é muita idolatria. Lula se tornou um deus e Bolsonaro também. Lula representava uma classe trabalhadora, que precisa de ajuda, que precisa ser vista, mas vieram muitas denúncias. A gente não queria acreditar naquilo, mas ele falhou com a gente. O PT liderou por muitos anos e agora a gente fica sem saber para onde correr. Na percepção dos entrevistados Lula representa dois movimentos: reconhecimento pelos bons governos e decepção por conta do envolvimento com corrupção, sendo que o reconhecimento é maior entre aqueles que têm parentes no Nordeste do país. No entanto, apesar da avaliação positiva dos governos Lula, com a exceção de um entrevistado que disse que talvez pudesse votar no PT, caso o partido fizesse uma aliança com Ciro Gomes para tirar Bolsonaro do poder, todos os entrevistados afirmaram que não têm nenhuma intenção de votar no partido. A perda de confiança no partido e em suas lideranças foi de tal monta, que um dos entrevistados chegou até mesmo a afirmar que a agremiação deveria ser extinta: Pra mim a única coisa que o PT fez foi dar bolsa família pra ganhar voto. Não simpatizo, não gosto do partido, pra mim são todos mentirosos. Não sinto confiança, não vale nada(...) A única coisa que me faria votar no PT, só se fosse na extinção dele, a í eu votaria. Governo Bolsonaro O movimento dos entrevistados de distanciamento e rejeição ao PT não é acompanhado, no entanto, por uma adesão a Jair Bolsonaro, visto como autoritário, despreparado, violento, irresponsável e preconceituoso.“Vergonha” e“desgoverno” são os termos utilizados para descrever seu governo: Bolsonaro não tem perfil humano. Bolsonaro é extremista e os eleitores dele são a mesma coisa, da mesma forma Lula também é extremista, pois ele foi condenado, foi preso, mesmo assim o povo o segue. O ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro gozava de algum respeito entre parte dos entrevistados até compor o governo Bolsonaro, quando passou a ser“mais um”: Na verdade, tudo o que aconteceu com Sergio Moro é fruto do que Bolsonaro vem fazendo, eu mando aqui, minha palavra final é essa, você não tem voz, vai ser minha marionete. O Sergio Moro era um cara muito forte, representativo da Lava Jato... Moro teve um papel muito importante, ele foi muito representativo, muito s é rio, correu atrás das informações, provou por a mais b...mas quando ele se juntou com Bolsonaro, ai ele perdeu para mim um pouco da credibilidade. Outras figuras associadas ao governo federal, como Mourão, Paulo Guedes e Mandetta, por exemplo, são vistas, em comparação com Bolsonaro, como pessoas mais razoáveis, mas que são ou foram caladas pelo atual presidente, que é tido como um governante autoritário e que concentra poder. Por fim, parte dos entrevistados considera que Bolsonaro representa uma ameaça constante à manutenção da democracia no país: Valores Valores como família, amor e“respeito ao próximo” são centrais para o conjunto dos entrevistados. O maior problema e, correlatamente, a solução do Brasil estaria na“educação”. A defesa das políticas sociais convive com certa dose de meritocracia: nenhum desses discursos operam de forma“pura”, não conformam uma oposição para as pessoas entrevistadas. Um exemplo é o auxílio emergencial, que é aceito e defendido, enquanto uma“renda universal” é rechaçada:“não deveriam dar dinheiro, mas sim oportunidades”. A defesa de uma educação pública de qualidade para todos desde criança também reforça essa posição, afinada tanto com a defesa das políticas públicas quanto com a meritocracia. No campo dos costumes e diferenças, também há uma dupla adesão: há respeito pelas diferenças e reconhecimento da existência de preconceitos na sociedade – homofobia, machismo e racismo, por exemplo – acompanhados de uma ressalva quanto a supostas“radicalização”,“violência”,“imposição”(de valores) e“vitimismo” por parte de indivíduos/ grupos de pessoas vítimas de opressões. De qualquer forma, existe uma sensibilidade e uma abertura importante para a legalização da maconha, do aborto e da manutenção das cotas raciais nas universidades, na medida em que parte dos entrevistados se diz favorável a tais pautas. A separação entre política e religião é defendida enfaticamente, tendo na ministra Damares Alves um exemplo negativo. Entre alguns homens, ainda que não haja adesão a Jair Bolsonaro, peças e símbolos produzidos e alavancados por setores da extrema-direita são abraçados: é o caso de vídeo de Enéias Carneiro, discursos sobre a cobiça estrangeira pela Amazônia,“Kit Gay” e“doutrinação esquerdista nas escolas”, por exemplo. Por outro lado, dentre figuras indicadas 14 TODOS OS ELEITORADOS como referências, constam personalidades não identificadas nem ao bolsonarismo e nem à esquerda, mas situadas em um difuso campo“humanista”, como o ator Pedro Cardoso, o Padre Fábio de Melo e o filósofo Mário Sérgio Cortella, por exemplo. Eleições Os entrevistados acham que, para além dos campos petista e bolsonarista, os políticos são muito parecidos, e os associam à defesa de interesses particulares e privilégios, afirmando que“não têm força”. Em sua percepção, a polarização entre PT e Bolsonaro impede que uma alternativa surja e se consolide. Entre os homens, Ciro Gomes foi uma aposta para fugir à polarização e encontrar um lugar, e o pedetista também foi apontado como uma possibilidade para o PT apoiar no futuro, uma vez que não tem novas lideranças. No contexto das eleições municipais, a ausência de identificação e a recusa aos campos e à polarização entre o PT e Bolsonaro produziram uma“dispersão” desse campo, conduzindo intenções de voto e traços de simpatia para Bruno Covas(PSDB) e Márcio França(PSB)[associados a “deixar trabalhar” e“experiência”], Guilherme Boulos (PSOL)[“diferente”,“preocupado com quem necessita”, “põe gás”] e Arthur do Val(Patriota)[“diferente”,“sem rabo preso”,“briga”]. Russomanno apareceu com alta rejeição, associado a Bolsonaro, e o candidato do PT, Jilmar Tatto, foi pouco citado. Para 2022, o cenário mistura algum anseio por“alternativas”, uma“terceira via”, com uma descrença no sistema político. Nesse sentido, figuras como Sérgio Moro e João Doria aparecem como possibilidades, mas também carregam traços de decepção por conta de sua atuação após 2018. Ciro Gomes aparece como alguém que poderia representar uma alternativa, mas que não tem força sozinho e, com sinal invertido, João Amoedo também figura de forma similar como uma alternativa. Sinais de cansaço, desconfiança, ceticismo e pragmatismo superam qualquer traço de encantamento com figuras ou projetos políticos. É este pragmatismo também que parece desaconselhar a empreitada do impeachment de Jair Bolsonaro, mesmo em meio a tão convicta rejeição. A ordem do dia parece ser a de uma‘arrumação no país’, pressionada pela pandemia e pela crise econômica. causa do envolvimento em práticas corruptas, e que isto não compensaria eventuais acertos dos governos Lula. A decepção com o PT foi o único motivo que as levou a optar pelo voto em Bolsonaro, sendo que uma das entrevistadas afirmou que nunca mais pretende votar no partido e as outras duas disseram que poderiam votar a depender do candidato: (A minha maior frustração com o PT) foi a corrupção, e não foi essa corrupção do Guarujá, isso daí é a ponta do iceberg. É a corrupção total que ele se envolveu, o enriquecimento dele, da família dele, do filho dele, e ele estar comandando tudo. Detonaram o Brasil. Governo Bolsonaro As entrevistadas afirmaram que votaram em Bolsonaro por falta de opção, e todas avaliam negativamente seu governo. Afirmam que já se frustraram com a atuação do militar logo no início, pois faltaria ao atual presidente, empatia, educação e‘classe’, sendo que o mesmo foi classificado como autoritário: Eu não votei no Bolsonaro pelo que ele é, eu votei no Bolsonaro apesar do que ele é... Eu sou arrependida, porém, eu não sei se eu faria diferente naquele momento por causa do PT, o que eu queria era não ter o PT. Eu, por falta de opção, no primeiro turno eu não queria mais ele e no segundo turno, porque eu não queria mais o PT eu fui nele, por falta de opção. Mas eu vou te falar uma coisa, eu acho que no primeiro dia dele eu já desisti dele. Porque o cara não tem educação nenhuma. As entrevistadas avaliam negativamente a forma como se deu a saída de Moro do governo, conhecem pouco e desconfiam de Mourão e acreditam que Paulo Guedes é a voz da razão em meio ao autoritarismo de Bolsonaro: Que ele era polêmico a gente já sabia, mas que ele ia se intrometer na polícia da forma como ele se intrometeu e a saída do Moro do jeito que foi, acabou. Também acho que(Paulo Guedes) é o braço direito dele, para limpar as cagadas dele. ELEITORADO DE JAIR BOLSONARO Arrependidos A tríade de eleitoras arrependidas de Bolsonaro era formada por três mulheres, duas católicas e uma evangélica, que moram em São Paulo. PT e esquerda As entrevistadas, que já votaram no PT anteriormente, afirmaram que se sentiram muito decepcionadas com o partido por Valores Os valores fundamentais para as entrevistadas são família, empatia e respeito e, em sua visão, o que mais falta no Brasil hoje é educação e falta de oportunidades. As entrevistadas são sensíveis às desigualdades sociais que permeiam o país e acreditam que o benefício de 600 reais devia ser mantido e estendido, porém apenas uma delas concorda com a ideia de que seria bom existir uma renda universal no país, as demais acreditam que é preciso ter critérios e que tal renda deveria ser destinada apenas a pessoas que realmente precisam: Eu acho que deveria continuar, mas deveria ser investigado(casos de fraude). 15 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO No que tange aos costumes, as entrevistadas acham que religião e política não se misturam, são contra a legalização da maconha, contra cotas raciais nas universidades, ainda que apontem que existe muito racismo no país, sobretudo nas abordagens policiais. Acreditam que a luta das mulheres e dos LGBT é importante, dado que ainda existe muito machismo e homofobia na sociedade, concordam com a legalização do aborto nos casos já previstos em lei, mas apontam que as feministas atualmente seriam muito extremistas: Eu não gosto de extremismo na política, eu não gosto de extremismo religioso, eu não gosto de extremismo feminista. Informação As entrevistadas possuem uma desconfiança importante da mídia em geral e de especialistas, sobretudo considerando a disseminação de fake news, por isso duas delas procuram checar notícias na internet. socialistas, já outro afirma que poderia votar em um candidato de esquerda, inclusive que fosse do PT, a depender da candidatura: Eu achava que quando o Lula entrasse no poder, ele ia dar um jeito nesse país. Deu um jeito em alguma coisa? Deu. Mas, no final, caiu naquela porra de...ali ele acabou com o país, acabou com tudo. Hoje eu não voto em ninguém que seja do PT. Todos os entrevistados acreditam que existe, atualmente, uma hegemonia cultural esquerdista no país, que quem defende o socialismo são artistas e pessoas ricas que são hipócritas ou utópicas. Também consideram que houve coisas boas durante a ditadura militar e dois entrevistados afirmaram que‘apenas vagabundos eram perseguidos’ na época: Socialismo é bonitinho pra quem tem um iphone 12 no bolso. Eleições Todas as entrevistadas disseram que pretendiam votar em Bruno Covas para a prefeitura de São Paulo, rejeitavam Russomanno, consideravam Joice Hasselmann alguém interessante, mas que não tinha chances e tinha um perfil de‘encrenqueira’. Afirmaram que gostam de Boulos por conta de sua inteligência e seu bom desempenho nos debates, mas que descartavam o voto no candidato por conta de sua proximidade com Lula e o PT e seu posicionamento sobre a legalização da maconha: Eu acho ele(Boulos) um cara inteligente, eu gosto de ver o horário político dele, mas a coisa da maconha pega, não é nem a coisa do PT, porque a gente sabe que eles sempre vão ser aliados, ele conversa muito bem, ele é calmo. Eu gostava dele nos debates, ele é muito bom. Sobre as eleições de 2022, as entrevistadas afirmaram não saber ainda em quem poderiam votar, uma delas disse que não quer mais votar no PT e as outras duas afirmaram que poderiam votar no partido a depender da candidatura apresentada. CRÍTICOS A tríade formada por eleitores de Bolsonaro críticos ao governo era composta por três homens, dois brancos e um negro, do Rio de Janeiro, casados com filhos, com idades entre 40 e 58 anos e que moravam em um mesmo condomínio na Zona Oeste da cidade. PT e esquerda Todos os entrevistados afirmaram que votaram no PT anteriormente, porém se decepcionaram com a corrupção, ainda que avaliem que os governos de Lula, sobretudo o primeiro, tenham sido bons para o país. Um dos entrevistados afirmou que, desde 2018, se recusa a votar em um partido com ideias Aquela ditadura que a gente estudou na escola, aquela coisa romântica do exilado, do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, da musiquinha. Quando a gente cresce e pergunta para a mãe, pai, avô e avó que passaram pela ditadura, a minha mãe e meu avô foram categóricos: a ditadura foi ótima. Governo Bolsonaro Os entrevistados estão satisfeitos com o governo Bolsonaro até o momento, especialmente, por conta da postura do atual presidente no que tange ao combate à corrupção e pretendem votar no militar de novo, porém criticam a atuação de seus filhos e sua postura polêmica, autoritária e agressiva, ainda que um deles defenda que o congresso deva ser fechado: Eu acho que o cara tá fazendo um bom governo, ele é muito massacrado pela mídia. Mas ele é muito burro. Tem hora que dá vontade de dar na cara dele...Aqueles filhos dele, meu Deus do céu....Aquilo da China...a China é filha da puta, está comendo o rabo de todo mundo? Sim. Mas você não pode falar isso. E ele falar essas besteiras:‘é só uma gripezinha’,‘o cara tem que ser macho’, pô! Guaraná Jesus...porra. Mas voto nele de novo, peço voto pra ele de novo. Ele preza muito a integridade, de não roubar, ser correto. Os entrevistados julgam que a saída de Moro foi ruim em um primeiro momento, mas que nenhum ministro é insubstituível e que, atualmente, Moro estaria‘queimado’: Ele me decepcionou um pouco. Eu pensei que ele fosse ser mais fiel ao Bolsonaro. O camarada era quase um herói nacional e, nessa, o tiro saiu pela culatra. Os entrevistados acreditam que as negociações com o‘centrão’ promovidas por Bolsonaro são necessárias, ainda que indesejáveis, para a manutenção da governabilidade: 16 TODOS OS ELEITORADOS Infelizmente ele vai ter que sentar para conversar para poder liberar tudo o que está parado lá. Tendo em vista os próximos dois anos de governo do militar, dois entrevistados apontaram que gostariam que mais privatizações fossem realizadas e um deles disse que gostaria que Bolsonaro zelasse mais pela fauna e pela flora do país: Privatização tem que ser a principal campanha. Valores No que diz respeito a valores, todos os entrevistados afirmaram que família, empatia, amor e caráter são fundamentais e que o maior problema do Brasil hoje é a educação e a falta de respeito. Todos são contrários a um programa de renda universal e também têm críticas aos programas de transferência de renda atuais, os quais são realizados com base em discurso fundamentado no mérito individual e na responsabilização individual, ainda que reconheçam que faltam oportunidades: Falta oportunidade, falta educação, falta apoio da família. Essa engrenagem, se ela não se movimentar toda junta, se uma coisa sair fora estraga tudo. E não é negros, tem brancos também na mesma situação. No que diz respeito à diversidade, todos os entrevistados são contrários às cotas raciais, ainda que afirmem que mais negros são mortos pela polícia dado que são a maioria da população, e acreditam que deveriam existir cotas apenas com base em renda e para pessoas que fizeram escola pública. No que tange à desigualdade de gênero, acreditam que existe muito machismo no país, porém enxergam as militantes feministas como extremistas, sendo que dois defendem a legalização do aborto nos casos já previstos em lei e um deles defende a legalização da prática para as primeiras quatros semanas de gestação. Todos defendem a legalização da maconha e separação completa entre política e religião. Eleições Em 2022, todos pretendem votar em Jair Bolsonaro novamente, e no que diz respeito às eleições municipais no Rio de Janeiro, dois disseram que não foram votar e foram críticos em relação a Paes e Crivella. Apenas um dos entrevistados afirmou ter votado em Crivella porque este não seria corrupto em comparação com Eduardo Paes: Ele(Paes) agora não vai ter dinheiro, o caixa tá zerado, da onde vai tirar dinheiro?(...) E o Bolsonaro apoiou o Crivella porque é contra a inimiga dele, a Rede Globo, e com o Paes, a Globo vai se fortalecer novamente aqui no Rio de Janeiro. CONVICTOS PT e esquerda Todos os entrevistados se posicionavam contra a esquerda, que em sua visão, é formada apenas por políticos oportunistas, hipócritas e corruptos, sendo que um deles afirmou ter orgulho de nunca ter votado no PT: Os comandantes da esquerda são grandes oportunistas. Safados. Só querem poder e manipular o povo. O cara(de esquerda) não sabe distinguir o que é certo e o que é errado. Os entrevistados afirmam que a esquerda busca ativamente influenciar e manipular as pessoas, sobretudo as crianças e jovens, por meio da atuação nas escolas e nas universidades, onde quem é de direita não teria espaço: Nos governos anteriores, se criaram muitas universidades para ter os diretores esquerdistas e os estudantes como massa de manobra. Tem que começar mudando as escolas. Na percepção dos entrevistados, a esquerda também compreende o PSDB, que nunca teria feito oposição de fato ao PT, e a Constituição do país também seria esquerdista, de modo que a rejeitam e valorizam a ditadura militar, ainda que reconheçam que tenha havido‘excessos’: O PSDB nunca foi oposição, sempre jogaram para dividir o poder com o PT. Quando foi o impeachment, eles não foram para cima, tinha chance de derrubar o Lula do poder e o FHC falou que pela segurança política do país não iam derrubar o cara. Tinham que prender o Aécio, o Alckmin, o Serra. Não vou discutir se mataram gente, fizeram aquilo, fizeram isso, não se discute. Mas o que os caras fizeram com a chamada democracia do país? Com a chamada abertura? Todos que foram contra a ditadura, a maioria deles aí foi preso por corrupção... Eles pegaram um país que estava mais ou menos arrumado e fizeram essa bagunça, que é a chamada democracia deles aí...O cara pode defender um Fidel Castro, um Che Guevara, Mao Ts é- Tung, mas o cara não pode falar do Ustra, defender o Fleury? Tá errado! Governo Bolsonaro Dois entrevistados estão muito satisfeitos com o governo Bolsonaro, minimizam a saída de ministros e afirmam que as negociações com o“centrão”, ainda que sejam indesejáveis, são necessárias para a governabilidade: Avalio(o governo Bolsonaro) de uma forma positiva. As ideologias que ele defende de família, religião, valores, ética, civilidade e o fato de não ter corrupção pra mim já valeu o voto. Os eleitores convictos de Jair Bolsonaro que foram entrevistados são homens brancos moradores de São Paulo, cujas idades variavam entre 47 e 58 anos. 17 Eu acho que o governo dele mudou alguns paradigmas que tinha no país. FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO Um dos entrevistados, porém, foi mais crítico em relação à atuação dos filhos de Bolsonaro e às suas falas polêmicas. De qualquer forma, todos os entrevistados apontaram que Bolsonaro de fato se excederia em seus discursos, para dois entrevistados isso seria problemático, mas um deles afirmou que ele se elegeu assim e que tal postura seria parte de sua estratégia: Em todas as crises, o Bolsonaro mostrou que tem pulso, que é um cara íntegro. Mas tem algumas coisas que eu fico desconfortável e acho difícil de defender. Pra mim,(a postura de Bolsonaro) é uma estratégia, ele se elegeu sendo assim. Ele vai continuar sendo assim. Especificamente sobre a atuação do ex-ministro Sérgio Moro, os entrevistados são particularmente críticos. Afirmam que Moro deveria ter obedecido a hierarquia e saído do governo de forma reservada e que, por conta de sua‘imaturidade’, teria‘dado um tiro no pé’: O Moro... eu ainda quero acreditar nele, que é um cara sério, fez um bom trabalho. Hoje, o Bolsonaro está aí por conta do trabalho que ele fez, mas por outro lado eu vejo assim, ele agiu de uma maneira muito imatura... E agora eu tenho o pé atrás. Ele deu um tiro no pé. Hoje tem as pessoas que gostam do Bolsonaro contra ele e as pessoas de esquerda contra ele. O segredo é competência, se for competente vai ganhar mais. Ainda existe muito machismo, preconceito, mas acho que cada vez mais as mulheres vão ocupando o espaço delas. Eleições Todos os entrevistados pretendem votar novamente em Jair Bolsonaro, em 2022, e veem com maus olhos possíveis candidaturas de Luciano Huck ou mesmo Sérgio Moro. Sobre as eleições de São Paulo, demonstram pouco interesse por falta de alternativas viáveis que lhes sejam palatáveis. Um dos entrevistados declara voto em Celso Russomanno por conta do apoio de Bolsonaro e outro diz que provavelmente votará em Bruno Covas por falta de opção, porém todos são contra quaisquer candidaturas que entendem como sendo esquerda: Eu estou pouco a par, mas vou acabar votando no Russomanno por indicação do próprio Bolsonaro, porque não vejo outra pessoa. Boulos nem pensar. Mamãe Falei não tem expressão, Joice Hasselmann não tem como. Aquele Andrea Matarazzo é um cara da velha política, minha opção vai ser o Russomanno mesmo. Valores Todos os entrevistados valorizam a família e acreditam que, hoje, o país está muito polarizado e que faltam aos brasileiros empatia, diálogo e tolerância. De acordo com sua visão, o principal problema do país hoje seria a influência de ideologias socialistas superficiais e hipócritas e que promovem o ‘assistencialismo’, bem como a existência de‘muitos direitos e poucos deveres’ que teria sido institucionalizada na Constituição de 1988: Ideologia nas escolas. Acho que a gente está nessa situação atualmente porque foi feito uma ideologia reversa 14 atrás, disso de gênero, de não pode isso, não pode aquilo, colocaram muitas ideias nas cabeças das crianças, de socialismo, disso, daquilo, só tem direitos, deveres nenhum. O jovem de hoje em dia acha que a vaca dá leite, mas a vaca não dá leite se alguém n ão for lá e prender o rabo dela. Todos os entrevistados são contrários à renda universal e outros benefícios de transferência de renda, bem como cotas raciais e legalização da maconha. No que diz respeito à desigualdade de gênero, são favoráveis ao aborto nos casos previstos pela legislação atual e acreditam que o Brasil é um país muito machista e que o feminismo é importante, porém, ao mesmo tempo, afirmam que as mulheres já conquistaram seu espaço, que por vezes há muito‘mimimi’ e que as ativistas feministas são muito extremistas: As ativistas(feministas) são extremistas, mas o mundo mudou, cada vez mais as mulheres estão trabalhando. 18 COORDENAÇÃO E EQUIPE DE PESQUISA 4 COORDENAÇÃO E EQUIPE DE PESQUISA Esther Solano Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madrid e professora da Universidade Federal de São Paulo. Colunista da Carta Capital, é autora de uma série de artigos e textos sobre bolsonarismo e conservadorismo e organizadora de livros sobre política contemporânea como“O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil”(Editora Boitempo),“As direitas nas redes e nas ruas: a crise política no Brasil”(Editora Expressão Popular),“Brasil em Colapso” (Editora Unifesp). SUBCOORDENAÇÃO DE PESQUISA Camila Rocha Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, pesquisadora do CEBRAP e coorganizadora do livro“As direitas nas redes e nas ruas: a crise da política brasileira”(Expressão Popular). Ganhadora dos prêmios de melhor tese de doutorado da Associação Brasileira de Ciência Política e Tese Destaque USP na área de Ciências Humanas, tem diversas publicações sobre direitas e conservadorismo, e já realizou trabalhos como consultora e pesquisadora para a Plano CDE, Fundação Tide Setúbal, Fundação Friedrich Ebert e Fundação Perseu Abramo. PESQUISA DE CAMPO Caetano Patta Mestre e Doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e bacharel em Ciências Sociais pela mesma universidade. Camila Rocha (Ver acima). 19 FRIEDRICH-EBERT-STIFTUNG – PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO 5 ANEXO: METODOLOGIA, TÉCNICA E DESENHO DE PESQUISA METODOLOGIA Com base nos apontamentos realizados na introdução, a metodologia adotada na condução da pesquisa proposta é de tipo qualitativo. Ao contrário dos estudos de opinião pública conhecidos como surveys, pesquisas quantitativas baseadas em questionários fechados, em que os entrevistados podem responder apenas às perguntas de forma positiva ou negativa e/ou concordar ou discordar com frases elaboradas previamente, a abordagem qualitativa permite compreender de modo mais aprofundado valores, opiniões e sentimentos das pessoas entrevistadas, os quais costumam apresentar muitas nuances, incoerências, contradições e complexidades que não são redutíveis a escalas ou tipologias simplificadas. A pesquisa qualitativa pode se utilizar de uma ou mais técnicas de pesquisa, como grupos focais, entrevistas em profundidade e etnografia. O que existe em comum em todas estas técnicas é o estabelecimento de laços de confiança e empatia entre os entrevistadores e os sujeitos e, por esse motivo, pesquisas qualitativas normalmente são realizadas com um número menor de pessoas e levam mais tempo para serem produzidas em comparação com surveys. Porém, a grande vantagem da pesquisa qualitativa no que tange à análise dos dados coletados é que ela facilita raciocínios de tipo indutivo. Em análises indutivas, as premissas que orientam a elaboração da pesquisa proporcionam apenas uma fundamentação parcial das conclusões, em contraposição a raciocínios dedutivos, utilizados para a confecção e análise de pesquisas quantitativas, em que as premissas fornecem um fundamento definitivo das conclusões. previamente 19 . Já o minigrupo etnográfico é uma discussão realizada em grupos de três pessoas, que se conhecem previamente, chamados de tríades , que são formados apenas por homens ou mulheres. A ideia do minigrupo focal é aumentar a empatia entre o entrevistador e os entrevistados e diminuir possíveis tensões entre os entrevistados, dado que os grupos são pequenos, homogêneos no que tange ao sexo dos participantes, e os entrevistados se conhecem previamente. As entrevistas são baseadas em um roteiro semiestruturado de tópicos ou perguntas e costumam ser realizadas na residência de um dos entrevistados, porém, considerando a recomendação de isolamento social, nesta pesquisa a dinâmica ocorreu mediante a utilização de plataformas digitais gratuitas e de fácil manuseio para reuniões, que possibilitam ligações com áudio e vídeo por meio de computador ou celular como Google Meet ou Jitsi Meet. A duração média das entrevistas foi de duas horas, sendo que todas as entrevistas foram gravadas em áudio. DESENHO DE PESQUISA Foram realizadas dez entrevistas em profundidade, em formato de tríade(minigrupo focal com três pessoas que se conhecem previamente) baseadas em um questionário semiestruturado e realizadas por meio de plataforma digital para reuniões. Cada tríade teve duração aproximada de uma hora e meia e foi composta por um grupo homogêneo no que tange à faixa etária e sexo, com o intuito de que os/as participantes ficassem menos constrangidos com os/as demais e falassem livremente sobre o que de fato sentiam e pensavam sobre as temáticas abordadas. TÉCNICA DE PESQUISA A técnica de pesquisa adotada na presente pesquisa é o minigrupo focal etnográfico, que é uma técnica diferente do grupo focal, tradicionalmente utilizado em pesquisas de mercado e eleitorais. O grupo focal é uma discussão realizada em um ambiente neutro e controlado sobre um tema ou tópicos específicos, e conduzida por um entrevistador com um grupo de aproximadamente 10 pessoas que não se conhecem Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e foram realizadas a partir de um questionário semiestruturado que abordou: 1. história de vida resumida de cada entrevistado/a 2. valores e religiosidade(direitos humanos; desigualdade social; igreja e política; feminismo, aborto, cotas raciais, LGBT); 19 Cf. Leny A. Bomfim. Grupos focais: conceitos, procedimentos e reflexões baseadas em experiências com o uso da técnica em pesquisas de saúde. Physis[online], 2009, vol.19, n.3, pp.777-796. 20 ANEXO: METODOLOGIA, TÉCNICA E DESENHO DE PESQUISA 3. percepções acerca do cenário social e político atual(quais os principais problemas do país hoje); 4. percepções sobre governo Bolsonaro; 5. percepções sobre governos do PT e atuação do partido e de suas lideranças hoje; 6. informação e internet(meios preferenciais para obter notícias em geral e informações sobre política, hábitos de consumo de internet; uso de redes sociais); 7. reflexões sobre desinformação, papel das mídias tradicionais, especialistas, ciência, entre outros; 8. eleições municipais de 2020 e próximas eleições de 2022 A população alvo consistiu de eleitores residentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e na Região Metropolitana de São Paulo, com renda mensal domiciliar acima de R$ 8.641 reais, tendo em vista os critérios censitários estabelecidos pelo Centro de Políticas Sociais da Faculdade Getúlio Vargas20. Os entrevistados possuíam de 18 a 60 anos de idade e não eram filiados a partidos ou grupos políticos. 20 Disponível em: 21 FICHA TÉCNICA AUTORAS FICHA TÉCNICA Camila Rocha é cientista política e pesquisadora do CEBRAP. Esther Solano é socióloga e professora da UNIFESP. Friedrich-Ebert-Stiftung(FES) Brasil Av. Paulista, 2001- 13° andar, conj. 1313 01311-931• São Paulo• SP• Brasil Responsáveis: Christoph Heuser, representante da FES no Brasil Gonzalo Berrón, diretor de programas https://brasil.fes.de Contato: fesbrasil@fes.org.br O uso comercial de material publicado pela Friedrich-EbertStiftung não é permitido sem a autorização por escrito. As opiniões expressas nesta publicação não refletem necessariamente as da Friedrich-Ebert-Stiftung. ISBN 978-65-87504-07-9 PERCEPÇÕES POLÍTICAS DO ELEITORADO DE ALTA RENDA Rio de Janeiro e São Paulo Com o objetivo de compreender de forma mais aprofundada o imaginário político das faixas de maior renda do eleitorado brasileiro, a pesquisa exploratória , que apresentamos neste volume, aborda as opiniões e reflexões de residentes no Rio de Janeiro e em São Paulo. A escolha das duas cidades baseou-se em sua representatividade no atual cenário político nacional, aliada à maior concentração de pessoas pertencentes às faixas AB de renda vis-à-vis a outras capitais brasileira. Os entrevistados possuíam uma renda mensal domiciliar acima de R$ 8.641 reais, tendo em vista os critérios censitários estabelecidos pelo Centro de Políticas Sociais da Faculdade Getúlio Vargas*. Possuíam 18 a 60 anos de idade e não eram filiados a partidos ou grupos políticos, mas faziam parte de três grupos principais de eleitores: 1. eleitores de Jair Bolsonaro no 2º turno de 2018, divididos entre apoiadores convictos, críticos e arrependidos; 2. eleitores de Fernando Haddad nos 1º e 2º turnos das eleições de 2018, divididos entre convictos e desiludidos; eleitores que votaram em Ciro no 1º turno e em Haddad apenas no 2º turno de 2018; eleitores que votaram em Haddad no 2º turno em 2018 e que pretendiam votar em Guilherme Boulos do PSOL para a prefeitura de São Paulo em 2020; e, finalmente, 3. eleitores que classificamos como indefinidos, ou seja, que anularam o voto no 2º turno de 2018 e que, atualmente, não se identificam nem com o PT e nem com o governo Bolsonaro. *Disponível em: A técnica de pesquisa adotada foi o minigrupo focal etnográfico, que é diferente do grupo focal, tradicionalmente utilizado em pesquisas de mercado e eleitorais. A discussão é realizada em grupos de três pessoas, que se conhecem previamente, chamados de tríades e que são formados apenas por homens ou mulheres. O objetivo é aumentar a empatia entre o entrevistador e os entrevistados e diminuir possíveis tensões entre os entrevistados, dado que os grupos são pequenos, homogêneos no que tange ao sexo, e os entrevistados se conhecem previamente. Por conta da pandemia, as dinâmicas ocorreram mediante a utilização de plataformas digitais e tiveram duração média de duas horas. Para mais informações sobre o tema, acesse: https://brasil.fes.de