ANÁLISE Nº 41/2018 A agenda política e as“guerras culturais” para evangélicos e católicos Esther Solano, Pablo Ortellado, Marcio Moretto e Leandro Ortunes M ARÇO DE 2018 No Brasil existe, hoje, um clima de“guerras culturais”, devido à crescente centralidade no debate público de temas morais como o aborto, a legalização das drogas, o aumento de penas para criminosos, direitos das mulheres, punitivísmo, valores religiosos, racismo, família ou o casamento homoafetivo e os direitos LGBT. Nesse texto, expomos o resultado de duas pesquisas focalizadas no público católico e evangélico na base de um questionário com o objetivo de entender a adesão das populações investigadas a essas temáticas morais. Escolhemos a Marcha para Jesus e a peregrinação para o Santuário da Virgem Nossa Senhora de Aparecida. Constatamos que o“rosto” do Brasil está mais representado na Marcha para Jesus do que nas manifestações das mobilizações políticas polarizadas ou em Aparecida. Os jovens, por exemplo, não estão nas manifestações da polarização, mas estão na Marcha para Jesus. A Marcha expressa um certo conservadorismo típico da sociedade brasileira que é um pouco equilibrado por algumas poucas posições mais progressistas. A grande presença de jovens no evento talvez explique a adesão à opiniões feministas, principalmente. Dentre os evangelicos entrevistados, uma maioria de 76,9% se disse não se identificar com nenhum partido político. A confiança em legendas como o PSC(1,2%) e o PRB(0,4%), principais partidos dos políticos evangélicos, é surpreendentemente baixo. A Bancada Evangélica é pouco conhecida e pouco considerada como representativa entre fiéis presentes na marcha. Apenas 20,05% afirmaram que a bancada os representa. Dentre os católicos, assim como os evangélicos, a maioria se define como conservadora: 39,6% como muito conservadores e apenas 19,3% como nada conservadores. Sobre a intenção de voto para 2018, os votos nulos e brancos são os primeiros colocados, seguidos de Lula e Bolsonaro, como nas pesquisas nacionais. Uma diferença marcante entre os grupos que participaram da Marcha para Jesus e da peregrinação para Aparecida é a idade. Aqueles que participaram do evento evangélico são consideravelmente mais jovens, a média de idade foi de 34 anos contra 44 dos católicos. Sumário Apresentação 3 Marcha para Jesus 4 O“rosto” do Brasil e stá mais representado na Marcha para Jesus do que nas manifestações das mobilizações polarizadas 4 Os jovens não estão nas manifestações da polarização, mas estão na Marcha para Jesus 4 Embora algumas lideranças evangélicas falem de política, para os fiéis a Marcha para Jesus não foi política 4 Os evangélicos presentes na Marcha para Jesus confiam pouco nas principais lideranças evangélicas e nada nos partidos evangélicos 4 Os evangélicos presentes na Marcha para Jesus discordam da postura neoliberal da bancada evangélica 5 São menos fundamentalistas que os políticos da bancada evangélica 5 Grupos evangélicos e a política: o voto e a representatividade 7 Evangélicos e católicos 10 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS Apresentacão No Brasil existe, hoje, o que podemos chamar de um clima de“guerras culturais”. Entendemos por“guerras culturais” a crescente centralidade no debate público de temas morais como o aborto, a legalização das drogas, o aumento de penas para criminosos e o casamento homoafetivo. No esforço para compreender a maneira pela qual as chamadas“guerras culturais” estão impactando o debate público, realizamos pesquisas focalizadas em diferentes populações mobilizadas. A partir de um conjunto de afirmações que expressam os temas morais mais recorrentes, que identificamos em um levantamento de artigos de opinião nos três grandes jornais brasileiros nos últimos 20 anos, construímos um questionário com o objetivo de entender a adesão das populações investigadas a essas novas temáticas morais: direitos das mulheres, punitivismo, valores religiosos, direitos LGBT, racismo, família, política de drogas. Antes da Marcha para Jesus e a peregrinação para o Santuário da Virgem Nossa Senhora de Aparecida, investigamos a opinião dos participantes de um protesto contra a corrupção e a favor da Lava-Jato, em 26 de março de 2017, outro contra a reforma da previdência em 31 de março de 2017-, aplicando o mesmo formulário nos quatro eventos. Aproveitando a presença de tantos fiéis, aplicamos nosso questionário em 484 evangélicos e 363 católicos, maiores de 16 anos, na Marcha de Jesus e em Aparecida, respectivamente. Classificar grupos evangélicos em categorias é sempre um desafio para o pesquisador, principalmente devido ao crescente número de igrejas que surgem no Brasil e a própria imbricação entre algumas denominações. No entanto, algumas diferenças marcantes entre os evangélicos são percebidas em sua teologia, como seu posicionamento moral e sua visão de mundo. Neste sentido, a classificação defendida por Freston 1 fornece uma ferramenta de análise importante para diferenciar as principais linhas do pensamento evangélico no Brasil. Segundo o autor, três ondas de evangelização marcaram a formação do campo religioso brasileiro: Protestantes históricos no século XIX(Batistas, Metodistas, Presbiterianos), os Pentecostais na década de 10(Congregação Cristã do Brasil, Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular) e o Neopentecostalismo na década de 70 (Igreja Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça dentre outras). Além destas ondas, com o avanço do neopentecostalismo, diversas igrejas independentes, muitas com apenas um local de culto, surgiram no Brasil. Estas comunidades, em sua maioria, compactuam com a teologia pentecostal ou neopentecostal, embora algumas possam ter características do protestantismo em sua teologia, nenhuma delas pode ser considerada como protestante histórica. Por este motivo, além da sugestão de Freston, também utilizamos a categoria Comunidades Independentes para estas igrejas, uma vez que elas não pertencem ao que chamamos de Pentecostalismo Clássico ou Neopentecostalismo Clássico, que são formados por igrejas com diversas filiais e fundadas no período citado acima. No caso da Marcha, o espectro religioso era majoritariamente de fiéis da Renascer: 59,9% dos entrevistados eram desta igreja, 11,2% eram da Assembleia de Deus e os demais se dividiram entre outras denominações como a Batista, a Igreja Universal do Reino de Deus e católicos. 1. FRESTON, Paul. Protestantismo e política no Brasil: da constituinte ao impeachment. Tese de doutorado apresentada no departamento IFCH da UNICAMP. Campinas, 1993. 3 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS Incorporamos também a análise efetuada em um outro levantamento realizado na Marcha para Jesus de 2016, com foco nessa diversidade de grupos evangélicos e nas preferências eleitorais dos mesmos. Marcha para Jesus O“rosto” do Brasil está mais representado na Marcha para Jesus do que nas manifestações das mobilizações polarizadas N a manifestação pró-Lava Jato do dia 26 de março de 2017, 42,9% dos presentes tinham renda familiar de até 5 salários mínimos. Na manifestação contra a reforma da previdência, em 31 de março, esse percentual era de 55,6%. Na Marcha para Jesus, 75,8% tinham renda nesta faixa. Perfil econômico Ato a favor da Lava-Jato Ato contra as reformas liberais Marcha para Jesus +20 salários mínimos 10-20 salários mínimos 5-10 salários mínimos 3-5 salários mínimos 2-3 salários mínimos até 2 salários mínimos Os jovens não estão nas manifestações da polarização, mas estão na Marcha para Jesus T anto nas manifestações pró e anti-impeachment de 2015 e 2016, como nas manifestações a favor da Operação Lava Jato e contra as reformas neoliberais do governo Temer, a média de idade dos eventos era de mais de 40 anos; na Marcha, porém, 26,7% dos presentes tinham de 16 a 24 anos e 25,6% de 24 a 34. Perfil etário Ato a favor da Lava-Jato Ato contra as reformas liberais Marcha para Jesus 54/90 anos 44/54 anos 34/44 anos 24/34 anos 16/24 anos Embora algumas lideranças evangélicas falem de política, para os fiéis a Marcha para Jesus não foi política A Marcha para Jesus é um momento de celebração da fé. Durante as mais de sete horas que a equipe de pesquisa esteve presente, não foram observados cartazes com conteúdo político, nem ouvidas conversas sobre temas de atualidade política. O apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Renascer em Cristo, aproveitou a Marcha para convocar uma oração coletiva pelo fim da corrupção, mas essa postura política contrastava enormemente com o que parecia ser o objetivo para os evangélicos lá presentes: festejar e louvar. Os evangélicos presentes na Marcha para Jesus confiam pouco nas principais lideranças evangélicas e nada nos partidos evangélicos Q uando perguntados sobre a confiança nas principais lideranças evangélicas, o resultado não é muito promissor: 57% não confiam em Marina Silva(REDE), 54% não confiam no pastor Marco Feliciano(PSC). Também não confiam(57%) no pré-candidato à presidên4 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS cia Jair Bolsonaro(PSC a caminho do PEN/ Patriotas) ou no atual prefeito de Rio de Janeiro, Marcello Crivella(PRB)(53,9% não confiam). O governador de São Paulo Geraldo Alckmin(PSDB), próximo da Igreja Católica, não tem a confiança de 61% dos entrevistados. Muitos dos entrevistados disseram que confiavam neles como“homens de Deus”, mas não como“políticos”. Uma maioria de 76,9% se disse não se identificar com nenhum partido político. Apenas 7% se identificam muito com PSDB e 5,8% com o PT. A confiança em legendas como o PSC(1,2%) e o PRB(0,4%), principais partidos dos políticos evangélicos, é surpreendentemente baixo. A maioria(66,5%) disse não se reconhecer nem como de direita nem como de esquerda. Como em outras manifestações pesquisadas, as identidades políticas investigadas não têm grande adesão. Por outro lado, a maior parte dos entrevistados se considera muito conservadora(45,5%) ou pouco conservadora(34.5%). Confiança em lideranças políticas(em%) Lula 29 Geraldo Alckmin 4 23 Marina Silva 8 24 Jair Bolsonaro 10 17 Marcelo Crivela 8 16 Marco Feliciano 14 20 84 61 57 57 54 54 não respondeu não sei não conhece não confia confia pouco confia muito O antipetismo, tão presente nas manifestações anticorrupção(nas quais mais de 80% dos entrevistados se declaram muito antipetista) desta vez divide opiniões: 39,9% se definem como nada antipetista e 36,8% como muito antipetista. Identificação com partidos 76,9% 7,0% 5,8% 1,2% 1,0% 0,8% 0,4% 2,1% 4,8% Nenhum PSDB PT PSC PMDB REDE PRB Outro Não sei Os evangélicos presentes na Marcha para Jesus discordam da postura neoliberal da bancada evangélica A bancada evangélica do Congresso Nacional adota uma posição fortemente neoliberal, apoiando as reformas de ajuste fiscal do governo Temer e a agenda de estado mínimo. Os fiéis, porém, discordam bastante deste posicionamento: 86% acreditam que quem começou a trabalhar cedo, deve se aposentar cedo também, sem que haja uma idade mínima para a aposentadoria, como prevê a reforma da Previdência. A grande maioria(91%) não concorda que, mesmo em um momento de crise, seja preciso cortar gastos em saúde e educação, como pode ser uma das consequências da PEC do teto de gastos, aprovada no fim do ano passado. São menos fundamentalistas que os políticos da bancada evangélica Sobre valores, podemos afirmar, um pouco esquematicamente, que a Marcha expressa um certo conservadorismo típico da sociedade brasileira que é um pouco equilibrado por algumas poucas posições mais progressistas. 5 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS A grande presença de jovens no evento talvez explique a adesão à opiniões feministas, principalmente. Como o resto da população brasileira, a maior parte dos entrevistados é“punitivista”, ou seja, considera que é preciso ampliar a punição para desvios da norma, sobretudo quando se trata de crime. 83,7% concordam com a afirmação de que“menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia”, 76% com a afirmação de que“precisamos punir os criminosos com mais tempo de cadeia” e 65,9% com a de que“os direitos humanos atrapalham o combate ao crime”. Sobre as pautas feministas, a maioria acredita que“cantar uma mulher na rua é ofensivo”(70,5%), que“a mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada”(76,4%) e que“não se deve condenar uma mulher que transe com muitas pessoas” (63,8%). Já uma grande maioria(90,7%) discorda que“o lugar da mulher é em casa, cuidando da família”. No entanto, na contramão dessas posições mais progressistas, 61% afirmam que“fazer aborto é sempre errado”. Sobre as pautas LGBT, 77,1% concordam com a afirmação de que“a escola deveria ensinar a respeitar os gays”. Outras questões relevantes para a comunidade LGBT dividem opiniões: apenas 34,7% concordam que“dois homens podem se beijar na rua sem serem importunados” e 33,5% discordam que“a união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família”. Sobre as pautas religiosas, 77,3% afirmam que“a escola deveria ensinar valores religiosos” e 75% que os“valores religiosos deveriam orientar as leis”. Direito das mulheres A mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada Não se deve condenar uma mulher que transe com muitas pessoas Cantar uma mulher na rua é ofensivo A mulher deve ter o direito de usar roupa curta sem ser incomodada 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% não sei não concorda concorda Punitivismo O cidadão de bem deve ter o direito de portar arma A pena de morte deve ser aplicada para punir crimes graves Precisamos punir os criminosos com mais tempo de cadeia Menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia Os direitos humanos atrapalham o combate ao crime 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% não sei não concorda concorda Conservadorismo religioso Fazer aborto é sempre errado As escolas deveriam ensinar valores religiosos A união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família Os valores religiosos deveriam orientar as leis 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% não sei não concorda concorda 6 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS Grupos Evangélicos e a política: o voto e Bancada Evangélica a representatividade. Representa E m outro estudo, realizado na Marcha para 20,05% Jesus em paralelo ao das guerras culturais, Não soube opinar promovido pelo grupo de pesquisas sobre Mí6,37% dia e Religião da PUC-SP e conduzido por Não representa Leandro Ortunes, buscamos compreender 27,12% como os evangélicos se posicionam diante de Não conhece algumas questões do cenário político brasilei39,39% ro e do pensamento conservador. A pesquisa foi aplicada em 424 participantes Indiferente 7,08% Ao questionarmos sobre a representatividade da Bancada Evangélica, percebemos que, de forma geral, a bancada é pouco conhecida e pouco considerada como representativa entre fiéis presentes na marcha. Dentre os entrevistados, 39,9% afirmaram que não a conhecem, 27,12% afirmaram que ela não os representa e apenas 20,05% afirmaram que a bancada os representa. Ao agruparmos as denominações, notamos que o maior índice de rejeição da bancada está entre os protestantes históricos(31,71% dos protestantes) e o maior índice de representatividade está entre os pentecostais(21,05%)(Ver gráfico abaixo). Este é um dado importante e é reflexo da própria composição da Bancada Evangélica. Historicamente, protestantes foram apáticos na atuação política institucional. Não há um consenso entre estas igrejas sobre o engajamento político, sua atuação sempre foi tímida se comparada ao movimento pentecostal e neopentecostal. Além disso, as próprias lideRepresentatividade da Bancada Evangélica(em%) 50,00 46,34 42,11 43,36 42,55 40,00 31,71 30,00 25,26 27,21 27,13 21,05 19,85 20,00 17,07 18,62 10,00 5,26 4,41 2,44 0 Indiferente 6,32 5,15 5,32 2,44 Não conhece Não representa Não soube opinar Históricos Pentecostais Neopentecostais C. independentes Representa 7 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS ranças da bancada no congresso brasileiro que se destacam na mídia, como exemplo, o pastor Marco Feliciano, não cria afinidade com o movimento protestante por sua teologia neopentecostal. Por outro lado, é evidente que os pentecostais compreenderiam em maior escala que a Bancada Evangélica é um instrumento de representatividade. Vale destacar que as Igrejas Assembleias de Deus são extremamente engajadas na política institucional, elegendo candidatos na esfera municipal, estadual e federal. Atualmente, são 18 parlamentares da Igreja Assembleia de Deus que pertencem à bancada evangélica no congresso 2 . Entre as intenções de voto para presidente, apresentamos alguns nomes do cenário político em 2017(ver gráfico abaixo). Como em outras sondagens, Lula também se destacou nesta pesquisa com a maior intenção de votos(12,50%), seguido por João Dória(11,56%) e Jair Bolsonaro(8,25%). 2. Disponível em: http://www.diap.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=14637-evangelicos-crescem-no-congresso-psc-lidera-em-numero-de-parlamentares. Acesso em 08/02/2017. Intenção de voto em Lula Assembléia de Deus 21% Batista 9% C. Independentes 43% Renascer 9% Católicos 8% Evangelho Quadrangular- 2% Igreja da Paz- 2% Internacional da Graça- 4% Metodista- 2% Intenção de voto em Dória Universal do Reino de Deus- 2% Adventista- 2% Renascer 22% Assembléia de Deus 23% C. Independentes 41% Batista 10% Intenção de voto(em%) Sergio Moro N/S N/R Marina Silva Lula Luciana Genro 0,24 João Dória Jair Bolsonaro Geraldo Alckmin 1,18 Eduardo Jorge 0,71 Ciro Gomes 1,42 Brancos/ nulos Aécio Neves 0,71 4,72 6,37 8,25 12,50 11,56 25,00 27,36 8 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS No entanto, devemos destacar que a maioria dos entrevistados não possui um candidato ou pretende votar em branco/nulo(52,36%). A maior concentração das intenções de voto para Lula está nas comunidades independentes e nas Assembleias de Deus, ou seja, mais presente entre os pentecostais e neopentecostais(ver gráficos de pizza ao lado). Por outro lado, nas intenções de voto para João Dória encontramos um aumento em relação a Lula, entre os Batistas e os da Igreja Renascer em Cristo. Buscando compreender essa relação, principalmente entre os membros da igreja Renascer em Cristo com as intenções de voto, analisamos outros dados dos entrevistados. Foi no item renda que encontramos a principal diferença entre a Igreja Renascer e as demais igrejas. Proporcionalmente, os entrevistados da Igreja Renascer possuem maior renda, 28% deles afirmaram ganhar acima de três salários mínimos, sendo que em segundo lugar está as comunidades independentes, com 15% dos entrevistados que também afirmaram ganhar a mesma quantia. Com isso, há indícios de que o fator renda pode influenciar na intenção de voto para João Dória. Ademais, é nítido o discurso empreendedor e meritocrático do prefeito, fato que pode determinar uma afinidade entre estes atores. Destacamos que o discurso da meritocracia e do sucesso financeiro pelo trabalho é ponto de destaque na teologia neopentecostal(teologia da prosperidade). Com isso, João Dória aborda dois pontos de confluência com os evangélicos: a valorização do trabalho presente na ética protestante e o desafio do sucesso financeiro pelo empreendedorismo presente no neopentecostalismo. A questão do mérito presente nestas tradições, muitas vezes, gera críticas a qualquer política pública que vise algum tipo de benefício para classes menos favorecidas. E neste sentido, ao questionarmos sobre o programa Bolsa Família encontramos um ponto muito interessante. De forma geral, os evangélicos são favoráveis ao programa, 64% concordam com a implementação desta política pública e 31% são contra. Porém ao analisar em grupos, percebemos que o maior índice contrário ao Bolsa Família está entre neopentecostais com 37%. Bolsa famíla(em%) C. independentes Neopentecostais Pentecostais Históricos 0 Contrário 65 3 53 10 72 20 40 72 2 14 60 80 100 Favorável Não soube opinar Quando isoladas, as igrejas que proporcionalmente são mais contrárias ao programa são: Igreja Renascer(43%), Igreja Universal (42%). Ambas pertencem ao grupo neopentecostal. Novamente, destacamos a particularidade da Renascer: igreja com maior renda, maior intenção de voto para João Dória e maior rejeição ao Bolsa Família. Buscar compreender o fenômeno religioso e sua relação com a política é um grande desafio para ciência política, principalmente pelo fato de que as igrejas evangélicas não são homogêneas. A autonomia eclesial gera comunidades com um núcleo teológico comum, porém com uma práxis religiosa particular que se desdobra em um pensamento político e moral heterogêneo. Nem mesmo o discurso da liderança religiosa é assimilado totalmente entre os fiéis, percebemos isso ao identificar que parte dos evangélicos defendem pautas mais progressis9 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS tas. Além disso, o índice de representatividade das lideranças político-religiosas entre os fiéis é baixo. Por exemplo, em nossa pesquisa, apenas 16,75% dos entrevistados afirmaram que se sentem muito representados pelo Pastor Silas Malafaia e apenas 12,5% afirmaram que se sentem muito representados pelo Pastor Marco Feliciano. Por este motivo, as pautas conservadoras da Bancada Evangélica ou os posicionamentos conservadores proferidos na mídia por pastores nem sempre irão refletir no voto e na opinião do fiel. Também percebemos que o fator religioso em si, não é determinante para o voto, pois fatores como renda, escolaridade, dentre outros, devem ser levados em conta no momento de traçar estudos sobre o cenário eleitoral. Evangélicos e católicos O mesmo questionário sobre guerras culturais foi aplicado durante a peregrinação ao Santuário de Aparecida em 12 de outubro de 2017(363 pessoas entrevistadas e margem de erro de 6%.). O mais importante resultado é a similaridade das respostas dos dois universos. Quando questionados sobre a confiança nos partidos, 69,4% dos católicos dizem não Intenção de voto(em%) Lula 19 Jair Bolsonaro 11 João Dória 7 Marina Silva 6 Ciro Gomes 3 Geraldo Alckmin 3 Chico Alencar 1 Brancos/ nulos 31 Não sei 20 confiar em partido nenhum, 14,3% confiam no PT e 4,4% no PSDB. Como entre os evangélicos, aqui também a maioria se define como conservadora: 39,6% como muito conservadores e apenas 19,3% como nada conservadores. Sobre a intenção de voto para 2018, os votos nulos e brancos são os primeiros colocados, seguidos de Lula e Bolsonaro, como nas pesquisas nacionais. Quando questionados sobre a confiança em movimentos sociais, 77% declaram desconhecer o MBL(Movimento Brasil Livre) - 10% não confiam, 6% confiam pouco e apenas 6% confiam muito no grupo. Um pouco antes da peregrinação, o MBL havia acusado o Museu de Arte Moderna(MAM) de promover a pedofilia por conta de uma exposição, na qual um artista ficou nu e foi tocado por uma criança. Apesar do grupo ser pouco conhecido, 58% ficaram sabendo do caso e 30% concordaram que a instalação de fato promoveu pedofilia. Em relação à forma como se deve lidar com uma exposição como essa, os entrevistados dividiram-se entre defender que os pais devem decidir o que é melhor para seu filho(25%) e a censura etária Confiança nos Movimentos (em%) MBL MPL MST 0 25 50 75 Confia muito Não confia Confia pouco Não conhece 77 50 15 100 10 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS (25%)- apenas 9% defenderam a proibição da exposição. Contrastando com o desconhecimento massivo do MBL, o MPL(Movimento Passe Livre) é conhecido da metade dos entrevistados e tem a confiança de 27% deles. A desconfiança maior é com o Movimento dos Sem Terra(52%). Uma diferença marcante entre os grupos que participaram da Marcha para Jesus e da peregrinação para Aparecida é a idade. Aqueles que participaram do evento evangélico são consideravelmente mais jovens, a média de idade foi de 34 anos contra 44 dos católicos. Essa diferença etária ajuda a explicar outras diferenças. Por exemplo, os grupos têm perfis econômicos muito similares, mas os católicos tiveram menos acesso ao ensino formal- 19% não completaram o ensino fundamental, enquanto apenas 3% na Marcha para Jesus. Além disso, essa diferença etária também explica porque em Aparecida uma porcentagem maior dos entrevistados se identifica com o PT ou como antipetista. Analisando as respostas às 25 perguntas sobre as guerras culturais, as respostas nas duas manifestações ficaram muito próximas à margem de erro da pesquisa, indicando um perfil político muito A pena de morte deve ser aplicada para punir crimes graves (em%) Marcha para Jesus 48 Aparecida do Norte 59 0 25 50 75 100 Concorda Não concorda Não sei Cotas são uma boa medida para fazer com que os negros entrem na universidade(em%) Marcha para Jesus 42 Aparecida do Norte 56 0 25 50 75 100 Concorda Não concorda Não sei A união de pessoas do mesmo sexo não constitui uma família(em%) Marcha para Jesus 59 Aparecida do Norte 48 0 25 50 75 100 Concorda Não concorda Não sei Travestis devem poder usar o banheiro feminino(em%) Marcha para Jesus 67 Aparecida do Norte 55 0 25 50 75 100 Concorda Não concorda Não sei 11 A AGENDA POLÍTICA E AS“GUERRAS CULTURAIS” PARA EVANGÉLICOS E CATÓLICOS similar entre os dois grupos. Em apenas quatro questões a diferença foi sensível. Os participantes da Marcha para Jesus têm maior resistência em relação às cotas raciais, ao direito das travestis usarem o banheiro feminino e em relação a casais LGBT constituírem família. Por outro lado, os que estiveram em Aparecida são mais favoráveis à pena de morte. 12 Autores Esther Solano Gallego é Professora Doutora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo(UNIFESP) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri. Associada ao grupo de pesquisa Laboratório de Análises Interdisciplinares e Análise da Sociedade(LEIA-Unifesp). Pablo Ortellado é Professor Doutor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo. Pós-doutorado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, CEBRAP. Coordenador do Grupo de Políticas Públicas de Acesso à Informação(GPoPAI-USP). Márcio Moretto Ribeiro é Professor Doutor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo(EACH-USP). Doutorado em Ciência da Computação pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP. Pós-doutorado no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Universidade de Campinas(CLE-UNICAMP). Associado ao Grupo de Políticas Públicas de Acesso à Informação(GPoPAI-USP). Leandro Ortunes é Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP. Pesquisador do NEAMP(Núcleo de Estudos de Arte Mídia e Política da PUC-SP). Responsável Friedrich-Ebert-Stiftung(FES) Brasil Av. Paulista, 2001- 13° andar, conj. 1313 01311-931 I São Paulo I SP I Brasil www.fes.org.br Friedrich-Ebert-Stiftung(FES) A Fundação Friedrich Ebert é uma instituição alemã sem fins lucrativos, fundada em 1925. Leva o nome de Friedrich Ebert, primeiro presidente democraticamente eleito da Alemanha, e está comprometida com o ideário da Democracia Social. No Brasil a FES atua desde 1976. Os objetivos de sua atuação são a consolidação e o aprofundamento da democracia, o fomento de uma economia ambientalmente e socialmente sustentável, o fortalecimento de políticas orientadas na inclusão e justiça social e o apoio de políticas de paz e segurança democrática. As opiniões expressas nesta publicação não necessariamente refletem as da Friedrich-Ebert-Stiftung. O uso comercial de material publicado pela Friedrich-Ebert-Stiftung não é permitido sem a autorização por escrito.