Note-se então que a integração é concebida como uma ferramenta que naturaliza a distribuição desigual do capitalismo mundial – não é de estranhar que o autor tenha recebido tão ácida crítica de Marx 16 . E, como é sabido, a qualificação de território produtor de matérias primas garantiu à América Latina o lugar cativo na periferia do capitalismo. Cabe, pois, frisar que é da tentativa de sair desse lugar periférico que a integração se postula na América do Sul. Lugar que historicamente sublinhou a dependência econômica e reservou à política externa do século XX o papel de “sócio menor” dos Estados Unidos, condição agravada pela extraordinária expansão do poder hegemônico dessa potência no pós-crise do capitalismo nos setenta 17 . Portanto, conhecer as particularidades desse regionalismo sul-americano contemporâneo, que comporta, mas não se restringe ao MERCOSUL, é um passo fundamental em direção à uma teorização não abstrata, mas contextualizada da integração. Ao contextualizar os processos de integração, a dimensão dos conflitos subjacentes à noção de integração emerge no interior dos Estados-parte, à medida que a própria integração se revela como locus de disputa de interesses antagônicos e se torna motivo de divergências acirradas que se traduzem inclusive nas campanhas eleitorais 18 . Se ela se apresenta como fator de autonomia, essa interpretação, longe de ser unânime, é expressão dos conflitos de interesse em disputa no interior de cada Estado nacional. Os percursos da integração ao Sul Na América Latina, o tema da integração remonta a um passado distante com destaque no repertório das grandes utopias libertárias que denunciam o aniquilamento da identidade coletiva e a subsunção de seus povos primitivos à dominação exercida pelo poder colonial, desde Bolivar e principalmente com Mariátegui 19 , nos anos 20. Até hoje a integração é categoria presente no imaginário de superação da colonialidade preservada ao longo dos séculos, sob a perspectiva eurocêntrica da modernidade que se instalou no continente 20 . No entanto, a experiência mais próxima e de curta duração que ocorreu no pós-guerra 21 não pretendia ter esse alcance. A integração que se buscava então era a dos mercados do continente e, para isso, o modelo recomendava a intervenção direta dos Estados na promoção de uma estratégia econômica desenvolvimentista baseada no fortalecimento do mercado interno e na industrialização que deveria substituir as importações 22 . Esse modelo foi frustrado pela crise do capitalismo dos setenta e pelos novos rumos políticos dos regimes autoritários que ocuparam o poder progressivamente, por duas décadas, desde os sessenta. É necessário então distinguir as etapas desse longo processo diferenciado em suas metas e projetos realizados, sem perder de vista o contexto. Como exemplo de problematização, observar então que, no Brasil, o desenvolvimentismo ressurgirá muito afastado da noção de integração e da meta de fortalecimento do mercado interno, agora sob a ótica nacionalista militar da modernização do Estado e comando do general presidente Geisel, em 1974. No entanto, o“pragmatismo responsável” de Geisel, que viabilizou esse exercício de poder autoritário e desenvolvimentismo com grande abertura ao capital estrangeiro, entrará para a história da política externa brasileira como período de um grau de autonomia relativa em relação aos Estados Unidos e ampliação dos laços no Sul 23 . Ao contrário, quando o tema da integração retorna na década de 90, sob governos sul-americanos �M��a�r�x�c��h�a�m��a�-�o��d��e�“�o��fi�l�is�t�in��o��g�e�r�m��â�n��ic��o�”�e��o��d�e�f�i�n�e��c�o�m���o�“�t�h�e��s�l�a�v�e�-�d�r�i�v�e�r�w�h��o��f�lo��u�r�is�h��e�s�t�h��e�w�h��i�p��o�f��p�r�o�t�e��c�t�iv�e���ta��ri�f�fs��i�n��o�r�d��e�r��to�� instil in his nation the spirit of“industrial education” and teach it to exercise its muscular powers. Marx, K., 1845: 15 �e��a��g�e�o��p�o��lí�t�ic�a��d��a�s�n��a�ç�õ��e�s�, �2�0�0��7�. �u�m���d�o�s��d�i�v�is�o��re��s�d�e��á�g��u�a�s��d�a��c�a�m��p�a��n�h�a��e�,�c�o��n�t�r�a�e�l�a�,�o��c�a�n��d�i�d�a�t�o��d�a��o�p��o�s�iç�ã��o� manifestou-se desde o ato de lançamento de sua candidatura: o“O MERCOSUL é uma farsa”. A proposta era a de substituir o MERCOSUL e as demais alianças regionais por tratados de livre comércio que retomassem o privilégio da aliança com os parceiros ricos na região. Ver Beinstein, J. Serra contra o MERCOSUL, 2010. �e�u�r�o�c�e�n��t�ri�s�m��o��e�A��m��é�r�ic��a�L�a�t�i�n�a�,�2�0��0�5�. �P�r�e�b�i�s�c�h��e�C��e�l�so��F�u��rt�a�d��o��e�g��e�s�t�ã�o��d�a��C�e�p��a�l.�V�e�r��P�r�e�b��is�c�h��, �R�.�O��d�e��se��n�v�o�l�v�i�m��e�n�t�o��e�c�o�n��ô�m��i�c�o��d�a��A�m��é�r�i�c�a�L��a�ti�n�a��e��a�lg��u�n�s��d�e��s�e�u�s��p�r�in��c�ip��a�is��p�r�o�b��le�m���a�s�, 1949/2000; Dinâmica do desenvolvimento latino-americano, 1964; Furtado, C. Formação econômica do Brasil, 1959/2009; Tavares, M. C. Celso Furtado e o Brasil, 2000; Costa Lima& David(org.). A atualidade do pensamento de Celso Furtado, 2008; e Bielschowsky, R.(org.). Cinqüenta anos de pensamento na Cepal, 2000. �M��. �C�.�D��a��su��b�s�t�it�u��iç�ã�o��d��e��im��p��o�r�ta��ç�õ�e�s��a�o��c�a�p��it�a�l�is�m��o��f�in��a�n�c�e��ir�o�,�1�9��7�6�. �n�o��e�n��ta��n�t�o�,�n�o��g��o�v�e�r�n��o��d�e��J�o�ã�o��G��o�u�l�a�r�t�(�1�9�6��1�-�1�9�6�3��),�s�o��b��a�l�id��e�r�a�n�ç�a��d��o��c�h�a�n��c�e�le��r��S�a�n��T�i�a�g�o��D��a�n�t�a�s��q�u�e��a��h�i�s�t�ó�r�ia��d�a���p�o�l�ít�i�c�a��e�x�t�e�r�n�a��b�r�a�s�i�le�i�r�a�r�e�g��is�t�r�a��s�e�u��p�e�r�í�o�d�o��d��e� maior grau de independência. Ver Vigevani& Cepaluni. A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação, 2007. 306 | MERCOSUR 20 años seguidores das reformas neoliberais e das políticas preconizadas pela potência hegemônica, a proposta que surge é a de um novo regionalismo aberto aos mercados. Implicava a realização de acordos de livre-comércio bilaterais, principalmente com os Estados Unidos, como forma de inserção subordinada dos países periféricos ao sistema internacional 24 . Em suma, em todo esse longo percurso, mesmo estritamente no plano econômico, a descolonização no continente não chegou a formar um sistema integrado e competitivo de Estados nacionais, o que se refletirá na trajetória diplomática de suas relações de cooperação internacional. Até o século XX, como“sócio menor” da hegemonia continental dos Estados Unidos, a política de integração sul-americana alternou períodos de mais ou menos adesão/resistência às diretrizes hegemônicas, enquanto manteve constante o padrão de relações inter-estatais determinado pelas conveniências de natureza estritamente comercial e pelos interesses estratégicos de defesa. Embora revele características e graus distintos numa longa travessia que acumula diferentes concepções de desenvolvimento e de autonomia nas estratégias de política internacional, a constatação de que o projeto integracionista faz parte do acervo histórico consolidado das relações internacionais brasileiras é consenso na literatura 25 . É no contexto das políticas neoliberais que se situará também a consolidação de um Mercado Comum, o MERCOSUL, com a função de garantir as bases de um mercado comercialmente integrado entre seus Estados Parte- principalmente entre Argentina e Brasil. Convém sublinhar o caráter seletivo que privilegiou as tentativas de fortalecer o intercâmbio comercial nas relações entre Argentina e Brasil na década de noventa, enquanto suas políticas externas acentuavam o grau de alinhamento com os Estados Unidos. Em suma, um modelo tão distante dos ideais libertários do imaginário latinoamericano de integração, quanto próximo de um MERCOSUL fenício, na feliz expressão de Caetano 26 . O Sul e a integração no século XXI Na etapa vigente, já não se trata de mera integração comercial nem de qualquer crescimento econômico. Supõe-se que o protagonismo da América do Sul na nova ordem internacional requer a consolidação e aprofundamento de um desenvolvimento atento aos recursos e às questões próprias da região em seu caminho autônomo. Em termos amplos, o modelo de integração adotado pela maioria dos governos sul-americanos na atualidade enseja a plena conversão da política externa à multipolaridade nas relações internacionais, como condição para a consolidação da democracia nos países da América do Sul. Enfatiza-se a importância da formação do bloco regional como um novo polo capaz de contrarrestar a tendência hegemônica do poder global. Aliás, o impulso atual rumo à integração foi possível porque se adquiriu uma convicção compartilhada entre os governos e povos sul-americanos de que o fenômeno da globalização, que proporcionou níveis inéditos de crescimento econômico e trocas comerciais globais, é o mesmo que, em sua face perversa, aprofunda assimetrias e contribui para a marginalização econômica, social e política de dezenas de países e bilhões de seres humanos 27 . Quando as democracias sul-americanas revigoram-se neste milênio, alguns governantes puseram em prática níveis de regulação do Estado e interromperam o processo de privatização em curso nos anos 90, enquanto outros foram mais longe e buscaram a refundação de seus Estados 28 . Nestes, a aprovação popular de mudanças radicais em suas Constituições destaca o papel de um novo constitucionalismo no continente visando ao exercício de um Estado plurinacional e a uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada na utilização dos recursos naturais 29 . Com estilos e recursos próprios—e �s�e��e�s�t�a�ri�a��in��te�r�r�o�m��p�i�d�a��a��c�o�n��st�r�u�ç�ã�o��d��e��E�s�ta�d��o�s��n�a�c�i�o�n�a�i�s�n��a� América Latina. No Brasil, temia que as graves tensões inter-regionais no campo político e a formação de bolsões de miséria pudessem causar a inviabilização do país como projeto nacional. Ver Furtado, C. Brasil. A construção interrompida, 1992 e Fiori, J. L. A propósito de uma“construção interrompida”, 2008. �e��p�o�l�ít�i�c�a��e�x�t�e�r�n��a�d��o��g�o��v�e�r�n�o��L�u��la�,�2��0�0�7��; �G�u��im��a��rã��e�s�,�S�.�P�.�D��e�s�a�f�io��s�b��r�a�s�il�e�i�r�o�s� na Era dos Gigantes, 2005; Moniz Bandeira, L. A importância geopolítica da América do Sul na estratégia dos Estados Unidos, 2008. �M�E��R�C�O��S�U�L�:�q��u�o��v�a�d�i�s�?,�2��0�0�7�. �O�s��c�a�m��i�n�h�o��s�d�a��e�s�q�u��e�r�d�a��la�t�i�n�o�-�a�m��e�r�i�c�a�n�a�,�2�0��0�9�. �A�.��E�l�b�u��e�n��v�i�v�i�r,�u��n�a��u�t�o��p�i�a��p�o�r��(r�e�)�c�o��n�s�t�r�u�i�r,�2��0�1�0�;��P�r�a�d�a�,��R�.�A��n�á�l�is�i�s�d��e��la��n��u�e�v�a��c�o��n�s�t�i�tu��c�ió��n��p�o��lí�t�ic�a��d��e�l�E�s�t�a�d��o�,�2�0��0�9�;�G��a�r�g�a��re��ll�a�, �R�.�E��l �n�u��e�v�o��c�o��n�s�t�it�u��c�io��n�a�l�is�m��o�� latinoamericano, 2010. MERCOSUR 20 años | 307
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