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Mercosur 20 años : 20 años
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A projeção do Brasil como ator global e a integração sul-americana: implicações políticas Ingrid Sarti 1 A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações. 2 Constituição da República Federativa do Brasil. Introdução Apesar de tanto se mencionar a projeção internacional do Brasil obtida na gestão de Luis Inácio Lula da Silva(2003­2010), as referências, abundantes quando centradas na figura do presidente, tendem a privilegiar, ora o desejo expansio­nista de projetar o país como potência emergente no mundo, ora uma suposta vocação brasileira de liderança no conti­nente. Trata-se de uma interpretação desconectada do projeto interno de desenvolvimento econômico, político e social do governo, que não explicita o quanto um projeto nacional foi construído, nesta década, a partir da mútua associação entre as diretrizes da política externa e as prioridades das políticas internas: A política externa do Brasil não pode ser entendida como um mecanismo de projeção do Brasil no mundo, ela é um elemento substancial do próprio projeto nacional brasileiro. 3 No entanto, acredito que essa observação é condição para a compreensão do tema e necessária para qualquer avaliação de ganhos e perdas do processo que projetou o país no mundo. No tabuleiro da geopolítica deste milênio, em que o prota­gonismo da política externa na disputa global entre nações hegemônicas e aquelas consideradas emergentes é crescente, a atuação dos governos evidencia cada vez mais a interdependência entre as decisões de política externa e interna. Um traço que chama a atenção no plano da integração sul-americana, porém, é o êxito da diplomacia presidencial, compreendida como um exercício de liderança de governos na combinação muito peculiar entre a política interna e a política externa. Se a condução do chefe de estado nesse processo adquire uma importância sem precedentes na diplomacia global, 4 a projeção internacional do Brasil durante o governo de Luis Inácio Lula da Silva certamente constitui um caso emblemático de diplo­macia presidencial que se tem revelado instrumento de fortalecimento da proposta regional da integração sul-americana. É preciso ter em mente que a tentativa de alçar o Brasil à posição de ator global no século XXI apoiou-se em estratégia pró­pria que, ao conceber a soberania nacional e regional no âmbito do sistema global, privilegiou a cooperação entre os países do Sul e promoveu o desenvolvimento econômico-social interno ancorado em políticas públicas de combate à pobreza e voltadas à redução das desigualdades sociais. Ao transitar entre as exigências de uma integração solidária, em contexto de profundas assi­metrias internas e regionais, e os requisitos para a inserção de um ator periférico no sistema internacional, o governo Lula inau­gurou uma estratégia que conjuga a sociabilidade solidária no plano regional à necessidade de disputa incessante na competição mundial e desigual inter-estados. Dessa maneira, fez convergir paradigmas clássicos opostos das relações internacionais(desde a sociabilidade de Grotius ao realismo de Maquiavel e Morgenthau). São aspectos de notáveis implicações teóricas e práticas que 1 Cientista política, Universidad Federal do Rio de Janeiro(UFRJ). Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional(PEPI). 2 Constituição Federal de 1988, Título I, artigo 4, parágrafo único. 3 Garcia, M. A. Política externa e estratégia de desenvolvimento, 2010. 4 Ver Danese, S. Diplomacia presidencial. História e crítica, 1999. MERCOSUR 20 años | 303