114 Periferias no plural Outra cena, não rara, que emerge desses cenários urbanos são algumas interações entre os que passam e os que se fixam nos espaços destinados às passagens e que também carregam o signo do distanciamento periférico: a figura no chão está acompanhada de algum animal de estimação, que acaba recebendo maiores atenções e que é, muitas vezes, motivação de ajudas e possíveis doações. Os cachorros aparecem como figuras mais visíveis do que as pessoas que estão com elas nas calçadas. Podemos pensar também nos inúmeros exemplos de frases comuns que são utilizadas por quem passa para desviar dos pedidos de quem se fixa. As respostas são as mesmas para perguntas distintas. Certa vez, enquanto estava desenvolvendo uma pesquisa de campo na Praça da Sé, acompanhei uma pessoa que estava vivendo nas ruas e queria acender um cigarro, essa pessoa decidiu pedir“fogo” para quem passava. Demorou mais de 5 minutos até alguém entender o pedido e ceder o isqueiro. Nesse meio tempo, ouvi frases como“Hoje não tenho nada”,“Não tenho tempo”,“Desculpa, estou sem dinheiro” e ainda muitos desvios de olhares e inúmeros silêncios. A invisibilidade dessas pessoas não está ligada apenas ao olhar negado, mas também às suposições feitas sobre o outro, que limitam as possibilidades de contato entre os indivíduos. Tornar algo periférico é também o distanciar de sua própria narrativa. Não ver, não ouvir. O olho pode até tentar reconhecer as similaridades nessas figuras rotineiras, mas – em sua grande maioria – são os processos de invisibilidade e distanciamento que garantem a eficácia da interação não realizada, ou ainda, interação desinteressada. O que os olhos não veem, a mente não reconhece e sem o reconhecimento não se faz possível uma aproximação efetiva. Afastada, invisibilizada, essa figura que não produz reconhecimento por si, não entra no escopo daquilo que pode estar inserido em um imaginário amigável: a estratégia da desvinculação está completa, fortificando as sementes da inimizade. (mbembe, 2020). Se não enxergamos essas figuras mesmo quando elas estão muito próximas fisicamente de nós, não é de se espantar que quando elas aparecem na esfera midiática e política da vida coletiva, são majoritariamente classificadas pelos títulos ligados às esferas da violência, criminalidade, desmoralização, calamidade pública e“problema” social. A invisibilidade nesse sentido ataca também a potência da história humana de cada pessoa, a encerra em um espaço social
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