A tríade periferização-espoliação-segregação como nexo interpretativo 159 atendimento e à promoção de serviços urbanos cada vez mais especializados e privativos – este último item, potencialmente, é o que contribui para elevar Campo Grande no ranking das cidades inteligentes). Desde março de 2020, as mídias de circulação local também noticiam que“Audiência discute projeto para aplicar outorga do direito de construir” (campo grande news, 28/06/2020). A partir do trabalho de Santoro(2014), é possível reconhecer na iniciativa da Câmara Municipal de Campo Grande de pautar a implementação e a normatização da Outorga Onerosa do Direito de Construir(OODC) um avanço real, mas não sem impasses e limites. Ora, se este instrumento urbanístico proposto no Estatuto da Cidade para o ordenamento urbano busca corrigir distorções dos ônus e bônus da urbanização, o que pode intrigar? O ônus da urbanização que contribui para continuidade e intensificação de processos socioespaciais – como a periferização, a espoliação e a segregação – pode ser amenizado e, a longo prazo, dissolvido se o desenvolvimento urbano estiver engajado em uma lógica distributiva, redistributiva e inclusiva, não apenas institucional e normativa. Entretanto, o impasse mora justamente nesse limiar. Tais processos não só caracterizam a história da urbanização no Brasil, desde o projeto do Brasil urbano com base na expansão industrial, como também nos singulares conteúdos da urbanização que inauguram frentes de expansão do fenômeno urbano como possibilidade de reprodução sem necessariamente constranger antigas estruturas, impondo limites às expectativas e tendências conforme interesses e articulações dos agentes sociais hegemônicos. A partir do exposto até aqui, uma outra hipótese que apresento é: se a unidade café-indústria produziu e condicionou uma rede complexa de cidades no período de transição das relações capitalista no Brasil, na atual fase, a pecuária e a produção de grãos produzem e condicionam uma rede urbana pouco dinâmica, porém potencialmente reestruturante sob os pilares da continuidade perversa dos processos de periferização, espoliação e segregação de sujeitos na história e de seus lugares na cidade. É neste último aspecto que proponho lançar luz e reconhecer, no âmbito da análise espacial, a potência da combinação de tríades para ampliar a visibilidade de povos e comunidades tradicionais no debate urbano atual.
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