418 Periferias no plural Kowarick(1980), Seidman(1994) e Sader(1988) buscaram uma compreensão global dos modos de vida e formas de resistência de trabalhadores pobres que afluíam às grandes cidades no país. Destacava-se, naquele momento, como o modo de acumulação fordista periférico, ao combinar um desenvolvimento urbano desordenado, regimes fabris despóticos e superexploradores nas grandes fábricas, o autoritarismo militar, e um cenário macroeconômico instável e inflacionário, fomentou formas de resistência operárias que conectavam pautas nos locais de trabalho com pautas das comunidades, reivindicações por democracia e autonomia da sociedade civil, dentre outras. Esse tipo de“coalizão” entre potentes e politizados movimentos de trabalhadores nas comunidades e nos locais de trabalho é muito distante da conjuntura atual, o que, como argumenta Braga(2017), é um dos motivos das dificuldades da última onda de protestos sociais em alguns dos principais países do Sul Global(2011-2016) em reverter o avanço do neoliberalismo autoritário. Isso não é motivo suficiente, contudo, para que os estudiosos do trabalho se esqueçam que os objetos de seu estudo existem também fora do trabalho: possuem religião, padrões de consumo, trajetórias educacionais, que moldam profundamente suas expectativas de mobilidade sócio-ocupacional, suas atitudes políticas, seu senso de autovalor, e acabam, portanto, por impactar também o dia a dia das relações de trabalho. É sob essa perspectiva que acreditamos que um conjunto de contribuições etnográficas sobre os moradores de periferias urbanas(fpa, 2017; pinheiro-machado, scalco, 2022; spyer, 2018) pode oferecer uma das chaves explicativas mais importantes para estudar a nova conflitualidade no trabalho em duas categorias de trabalhadores precários(trabalhadores de limpeza e vigilância), e seus efeitos estatísticos mais visíveis: por um lado, um aumento sem precedentes em diversas formas de reivindicação institucional de direitos desde a segunda metade da década de 2000(como processos judiciais, processos de rescisão indireta, denúncias a órgãos fiscalizadores) até meados da década de 2010; e, por outro, a existência de um notável ciclo de greves recente nessas categorias, com seu auge entre 2013 e 2016. Essa recente onda grevista apresenta indicadores bastante distintos de outras ondas grevistas no país. Tratam-se de greves envolvendo um número muito menor de trabalhadores, mais curtas, protagonizadas por trabalhadores de serviços precários, menos restritas
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