450 Periferias no plural A atual forma de organização social do trabalho se fundamenta na produção de mercadorias, mas tem a sua centralidade na absorção do seu processo de produção: no trabalho não pago. A partir da organização privada dos meios de produção, o trabalho gera mais valor para além do custo material de manutenção da existência do trabalhador – que seria equivalente a sua remuneração pelo trabalho realizado, ou seja, o salário. A transformação da organização social do trabalho enquanto produção de mercadorias impacta em mudanças na própria vida social. Lukács(1978, s.p.) argumenta que: A primeira consequência, e a mais importante, é a transformação da vida social em uma grande relação de troca; a sociedade em seu conjunto tomou a forma de mercado. Nas distintas funções da vida, tal situação se expressa no fato de que cada produto da época capitalista, como também todas as energias dos produtores e dos criadores, reveste a forma de mercadoria. Cada coisa deixou de valer em virtude de seu valor intrínseco(por exemplo, valor ético, valor artístico): tem valor unicamente como coisa vendável ou adquirível no mercado. O que determina o valor é o mercado e o modo de produção capitalista, ao operar como uma máquina de extorsão do trabalho não pago, cria nas mercadorias mais valor. Assim, conforme assinala Marx, no capitalismo apenas é entendido como trabalho produtivo aquele que emprega força de trabalho, que diretamente produz mais valia, valorizando e agregando valor à produção e reprodução do capital. Assim, no capitalismo: [...] todo aumento da força produtiva do trabalho – abstraindo do fato de que ela aumenta os valores de uso para o capital – é aumento da força produtiva do capital e, desde o presente ponto de vista, só é força produtiva do trabalho na medida em que é força produtiva do capital(marx, 2011, p. 427). Daí que qualquer mediação entre ser humano e trabalho em que o trabalho não é regulado pela organização do trabalho capitalista(ritmo e tempo) não é considerada produtiva para este metabolismo social; são os detentores dos meios de produção que organizam o desenvolvimento e o resultado do trabalho. A consequência prática disto – de que apenas é produtivo aquilo que é regulado pela organização do trabalho capitalista – é a exclusão de amplos setores da sociedade do processo produtivo.
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