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Alimentação e fome : agir na emergência e construir outro país
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FES BRIEFING ALIMENTAÇÃO E FOME: AGIR NA EMERGÊNCIA E CONSTRUIR OUTRO PAÍS Renato S. Maluf Abril 2020 Era de se esperar que a comida sua disponibilidade, o acesso a ela e a qualidade do que se come viesse a requerer atenção urgente, ao lado e como comple­mento indissociável da atenção à saúde das pessoas. Vem sendo anunciado que o Brasil atingirá, entre fins de abril e início de maio, o pico da pandemia de covid-19, medido pelo número de infectados e mortos e pela taxa de crescimen­to de ambas as ocorrências. Indicador sem dúvida assustador, infelizmente, ele não é o único parâmetro para avaliar a gravi­dade da crise atual, pois a fome desponta como possível cau­sadora de danos igualmente graves para um grande contin­gente de brasileiros. Era de se esperar que a comida sua disponibilidade, o aces­so a ela e a qualidade do que se come viesse a requerer atenção urgente, ao lado e como complemento indissociável da atenção à saúde das pessoas. É fato que o temor pela falta afeta também aqueles para quem comprar e comer eram uma rotina cumprida sem maiores reflexões, porém, nada compa­rável às populações vulnerabilizadas que viram agravada a busca diária por assegurar comida para si e os seus. Após o pico, viveremos um contexto com contornos ainda incertos de contaminação, carência de alimentos e fome. da força de trabalho em janeiro de 2020(11,9 milhões de pes­soas), podendo chegar a 17,6% até o final de 2020 segundo analistas. Ao dado do desemprego aberto devemos juntar o chamado trabalho informal, no qual se encontram 38,4 mi­lhões de pessoas(41,1% da força de trabalho, em 2019) sinô­nimo de precarização do trabalho, boa parte composto de subemprego ou desemprego disfarçado. Como se sabe, uma questão social com essas dimensões vem sendo abordada pe­lo governo federal com a narrativa das reformas que, de fato, comprometem instrumentos de proteção social, muitos deles essenciais para o tema aqui tratado. Para dar rosto aos números, destaco entre os vulnerabilizados nas cidades e nos campos os trabalhadores sem emprego ou com ocupação precária, moradores das periferias, em particu­lar, negros, população em situação de rua(contados aos mi­lhares), famílias rurais com acesso precário à terra e outros re­cursos, comunidades quilombolas e povos indígenas. A fome oculta(subnutrição), como a chamava Josué de Castro, corrói as vidas de parcela expressiva da população brasileira. Mais grave, está de volta a fome aguda, aquela que mata pela falta absoluta. A precariedade e atrasos na divulgação das estatísti­cas oficiais impedem comprovar o provável retorno do Brasil à vergonhosa condição de integrar o Mapa da Fome da FAO, do qual havíamos saído em 2014. Baseando-nos nos dados oficiais do IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para 2018, o indicador de pobreza monetária permite afirmar que o enorme contingente dos mais ameaçados começa em 13 milhões de pessoas vivendo em pobreza extrema(6,5% da população), podendo chegar até as 54,8 milhões de pessoas consideradas pobres(25,3% da população), indicador que vem crescendo desde 2015 e que certamente se agravou com o aprofundamento da reces­são em 2019 e 2020. Importa salientar, em termos de pers­pectivas, o elevado patamar de desemprego que afetou 11,2% Essa dupla face da crise atual além de outras gravidades que extrapolam os limites deste texto se desdobra em, pelo menos, duas direções. Por um lado, ela tem servido como jus­tificativa sórdida da defesa da suspensão do chamado isola­mento horizontal por aqueles que veem seus lucros afetados. Esse tipo de isolamento é medida dura, porém acertada, que acarretou a paralisação de muitas atividades e limitou a circu­lação da população. Num país como o Brasil, isolamento hori­zontal não quer dizer igualdade de condições no enfrenta­mento das circunstâncias atuais, havendo evidências de que as 1