FES BRIEFING A VIDA DAS MULHERES EM TEMPOS DE PANDEMIA! Hildete Pereira de Melo Abril 2020 O ano de 2020 chegou diferente e, como escreveu o poeta “ de repente, não mais que de repente... do riso fez-se o pranto” ( Soneto da Separação, Vinicius de Morais), a pandemia do Covid19 irrompeu com um realismo cruel na vida da população mundial e, no Brasil, passado o carnaval explodiu alarmando a população. E em uma sociedade já combalida pela crise econômica com milhões de desempregados e desalentados, a tragédia da pandemia expõe de forma dramática as desigualdades presentes na sociedade brasileira. Foi em um cenário de uma economia estagnada que explodiu a crise da saúde e o Brasil, aos trancos e barrancos, teve que parar para contragosto do Presidente da República. No dia 24 de março de 2020, a ONU Mulheres lançou um apelo a todos os países da América Latina e do Caribe para que dessem uma atenção especial às mulheres. E, nesta crise do Covid19, é preciso assegurar que as vozes – necessidades e demandas – das mulheres estejam no centro da resposta dos governos(federal, estadual e municipal), das políticas públicas de atendimento à população como resposta à crise. Porque elas são essenciais na luta contra o Covid19, ao enfrentarem os desafios dos cuidados, na família e no trabalho como profissionais da saúde, trabalhadoras domésticas, trabalhadoras informais e na miudeza da vida cotidiana da família e do trabalho, serão as mais afetadas pela crise. Mas, ignoradas pelas políticas econômicas sociais do atual governo. O trabalho está na base da produção do viver em sociedade e é um mediador das relações das pessoas com a sociedade, também é através dele que se organiza o exercício do poder e a dominação na sociedade. No Brasil, ao longo dos últimos setenta anos, a participação das mulheres na força de trabalho cresceu, de 13,6% da População Econômica Ativa(PEA) em 1950, para 44,1% em 2000(IBGE, Censos, 1950 e 2000) e, desde então, esta participação continua neste patamar até 2017. Portanto, continua proporcionalmente menor que a dos homens ao longo destas décadas. A importância desses números é que eles atestam que, na vida cotidiana, há uma dependência econômica das mulheres e que nos segmentos mais pobres da população isso é ainda mais dramático, sobretudo quando se considera as mulheres pretas e pardas. As mulheres estão mais concentradas nos setores de educação, saúde, serviços sociais, serviços domésticos remunerados, alojamentos, alimentação, atividades que estão diretamente relacionadas à reprodução da vida. E os homens estão concentrados na agropecuária, indústria, construção civil, atividades relacionadas à produção dos bens materiais. Assim, as mulheres estão mais presentes nos setores produtivos que apresentam menor remuneração e piores coberturas sociais e ganham em média cerca de 25% menos que os homens, mesmos com cargos e qualificação semelhantes. Portanto, a ida massiva ao mercado de trabalho no Brasil não significou a construção da igualdade entre homens e mulheres no mundo do trabalho. Esta realidade está presente na vida das mulheres em todos os países e, nesse momento, o cruzamento das duas esferas(produtiva e doméstica) diante da pandemia desnuda a permanência da sobrecarga de trabalho das mulheres ao longo dos tempos. Na realidade, a crise econômica brasileira tem possibilitado um deslocamento do trabalho formal(com carteira de trabalho) para o informal e, de forma perversa, 82% destes novos postos de trabalho foram ocupados por mulheres negras, grande parte delas no emprego doméstico, sendo 71,2% destes postos de trabalho informais, e as demais são trabalhadoras por conta própria(ambulantes e cuidadoras). Uma das consequências da crise econômica foi o crescimento do empreendedorismo e as mulheres são a maioria das microempreendedoras individuais e, provavelmente, são as“informais” que migraram diante do desemprego para estas novas formas de trabalho. Outro aspecto que devemos chamar atenção é que cerca 1
Einzelbild herunterladen
verfügbare Breiten