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Covid-19 : pensamento complexo para problemas complexos
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FES BRIEFING COVID-19: PENSAMENTO COMPLEXO PARA PROBLEMAS COMPLEXOS Cassio França, Rogério Silva e Ursula Dias Peres Abril 2020 Neste momento, fica óbvio que não espaço para amadorismo na gestão pública. Não espaço para processos decisórios baseados em intuições. O mundo ainda não tem ideia de quais serão os impactos da pandemia da covid-19 no futuro. Ao lado de lamentar a perda de milhares de vidas humanas consequência de valor ines­timável a sociedade brasileira será confrontada com o im­perativo moral de rever o modo como tem tratado a gestão pública. Aos dirigentes e técnicos dos governos, das funda­ções, das organizações da sociedade civil e das universidades, caberá refletir e mudar a produção e a implementação de po­líticas e serviços públicos com vistas a que as cidades, estados e o país ampliem a sua capacidade de enfrentar adversidades e de assegurar direitos fundamentais. As árduas conquistas da Constituição Federal de 1988 não podem ser mera bravata. O papel fundamental que o Estado desempenha no enfrenta­mento dessa epidemia é público e notório. Os órgãos de im­prensa cumprem função de disseminar informações e notícias, mas a população está interessada e atenta ao que o Estado e os dirigentes públicos oferecem de informação e orientação. São os governos, e não o setor privado, que pautam as deci­sões em situações caóticas. É por meio dos dirigentes de ór­gãos públicos e das agências multilaterais que a população é informada sobre como agir. Lideranças com capacidade de escutar e tomar decisões com base em evidências, com mode­ração e sensibilidade são ativos essenciais em situações como a que estamos vivendo. Informação e gestão de alto nível é tudo de que a população precisa. Neste momento, fica óbvio que não espaço para amadoris­mo na gestão pública. Não espaço para processos decisó­rios baseados em intuições.Eu acho que é o oposto do que um dirigente público qualificado deveria declarar. Cultivar a postura de quenada de importante está acontecendo, quando tudo ao redor mostra exatamente o contrário, equiva­le a negligenciar o bem-estar da população. Um presidente da República não tem o direito de governar sem se apoiar na ciência e na lei, baseando seus atos públicos em convicções pessoais. O mesmo vale para governadores, prefeitos e para os servidores do Judiciário e do Legislativo. No momento em que o Brasil enfrenta a pior crise de saúde pública do último século e, tudo indica, a mais severa crise socioeconômica após a Segunda Grande Guerra, a sociedade não pode escutar orientações do tipo:Olha, vamos passar por isso, a chuva está vindo, você vai se molhar. Agora, se você colocar uma capinha aqui, tudo bem, passa. Foi dessa forma que o presidente da República orientou a população durante uma entrevista de televisão, no dia 20 de março de 2020. Baseado em quê um chefe de estado afirma que peque­nos cuidados(uma capinha) serão suficientes para enfrentar uma tempestade que matou mais de 50 mil pessoas no planeta? Além de combater com veemência postura tão irresponsável, é urgente instalar na gestão do Estado processos que vincu­lem as decisões e a legislação à análise de dados e evidências. Não podemos mais tolerar práticas de gestão pública sem pro­cedimentos que avaliem suas decisões e que a elas confiram transparência. Por que deste modo? Quais as consequências dessa escolha? Esse é o método mais eficaz de operar? experiências que sustentam essa decisão? Essa é a maneira mais inteligente de se utilizar um recurso? Perguntas como essas podem qualificar o debate, fomentar o desenvolvimento de pesquisas e avaliações, e favorecer o uso de evidências que justifiquem a tomada de decisão. As evi­dências surgem a partir de avaliações de políticas e projetos. Surgem a partir das pesquisas científicas de curto, médio e 1