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Juventudes negras do Brasil : trajetórias e lutas : observatório de juventudes negras
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A jovem Noeli Aquino e o feminismo negro A JOVEM NOELI AQUINO E O FEMINISMO NEGRO Carla A. da Silva Santos Assistente Social, Mestra em Estudos Interdiciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismo pelo PPG NEIM-UFBA. Este artigo tem como objetivo oferecer um olhar inacabado sobre a história de vida de Noeli Aquino. Validarmos a visão da qual todas as mulheres sofrem as mesmas opressões é perigoso, desponta para a premissa contraditória pautada no modelo universalizante de feminismo, superinclusivo, descomprometido com a ferramenta teórica interseccionalidade, deveras essencial à reversão das iniquidades de gênero. Ademais, a feminista Patrícia Hill Colins(2000) sinaliza que o saber feminista da mulher negra é construído sobre a experiência vivida, e não em uma posição objetivada de transformação de outras mulheres em objetos de estudo. Alerta para o fato de serem as nossas emoções legitimantes dos nossos conhecimentos. Destarte, não pretendo esgotar nestas linhas todas as possibilidades de problematizações existentes nas teorias feministas, mas, propositalmente, tentar analisar a partir de um ponto de vista as facetas colonialistas e sexistas direcionadas à jovem Noeli. Trata-se de uma jovem negra de 24 anos, moradora do Subúrbio Ferroviário em Salvador-Bahia, cuja trajetória de vida assemelha-se à de milhares de brasileiras, obrigadas a encarar perversos desafios sociais enquanto estratégias de sobrevivência. Uma mulher que tem no corpo a única fonte de renda,uma espécie de automóvel, ressalta, o qual se aluga porpouca grana; objeto que nem sempre é zelado ou mantido intacto pelos homens, mas que, no final do contrato, Ela sabe que lhe pertence. Noeli Aquino, no final da infância, ao invés de bonecas, panelinhas e televisão, se divertia com as armas do pai, revezava seus processos de socialização assistindo as cenas de violências paternas contra sua mãe, como nos relata, revelando a naturalização da violência: Eram surras bem merecidas, ao final das contas, minha mãe, Josefa, desobedecia meu pai, ela queria a qualquer custo trabalhar como agente comunitária de saúde. Em minha opinião uma grande burrice, pois o pai botava as coisas dentro de casa, olhe que ela nem era a mulher dele de verdade e também não sabia segurá-lo, não fazia as coisas dentro de casa, encardia as roupas. Lembro que ele a procurava e ela não dava pra ele. Teve um dia que ele chamou a vizinhança e mostrou as panelas sem arear, as calçolas dela e as cuecas dele todas sujas, e o quintal cheio de porcaria. Minha mãe vivia ameaçando largar meu pai. Queria era ficar nas portas, conversando com os homens, mesmo sabendo que meu pai não gostava, conclui Aquino. Finalmente, rememora o assassinato do pai segurando-a no colo. O motivo da execução sumária não foi esclarecido até hoje, embora se veiculou na mídia um suposto envolvimento com o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas. Seis anos depois, a mãe, Sra Josefa, conheceu outro companheiro, a quem Noeli nutria bastante afeto e considerava como seu pai biológico, todavia ele também foi assassinado em sua companhia. A polícia o teria confundido com um marginal, desabafa em prantos... Esses acontecimentos, segundo Noeli, serviram dedivisor de águas na relação com a mãe, pois a mesma passou a responsabilizá-la pelas mortes, consideradas como provenientes de uma influência 91 Politicas Publicas para Juventude