Negra, mulher e periférica: Quando se perceber, é a primeira conquista NEGRA, MULHER E PERIFÉRICA: QUANDO SE PERCEBER, É A PRIMEIRA CONQUISTA Jozeli Rosa de Souza 1. Jozeli Rosa é negra, tem 29 anos, Belorizontina, Graduando em Direito pela faculdade IBHES- Instituto Belo Horizonte de Ensino Superior. Moradora da favela Pedreira Prado Lopes 2. O Comitê Nacional é uma instância nacional representativa da sociedade, dos poderes públicos e das cooperações internacionais, para monitoramento da implementação do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil. 3. O primeiro encontro do Observatório de Juventude Negra, promovido pela APNJ, ocorreu nos dias 17 e 18 de agosto de 2012, no Centro Cultural Áfrika, na cidade de São Paulo(SP). Da ausência que nos faz perceber Desde cedo aprendi que ser mulher, negra e favelada no país faz uma grande diferença. Bastasse essa frase inicial para já trazer reflexões de um Brasil que precisa ainda de muitos avanços. Mas prefiro então iniciar pelo começo ou na verdade por algumas reflexões de quando pequena, onde o país de várias etnias nos ensina na prática cotidiana quem somos. Nesse sentido, começo citando a frase da escritora francesa Anaïs Nin.“Nós não vemos as coisas como elas são, nós vemos as coisas como nós somos." Esse é então o primeiro registro, o conhecimento dos direitos que temos pela violação dos direitos. Aos 10 anos pude perceber que a minha realidade era muito diferente das histórias que a professora lia para a gente, das coisas que via na TV do vizinho. Comecei a perceber que tinha algo errado, porém não sabia o que fazer para mudar essa realidade. Às vezes não podia ir à escola, pois as gangues estavam em guerras e o direito de ir e vir não era garantido, não tínhamos lugares de lazer. Nossa brincadeira favorita era de escondeesconde, nos becos apertados. Fui percebendo o que eu deveria ter pela falta, seja ela na família ou na comunidade. Entretanto, como citado na frase acima, foi daí que“vendo as coisas como nós somos” percebi que tenho direitos e o acesso a eles é o que me faltava. Em diferentes gradações faltava acesso a direitos não só para mim, mas para toda comunidade. Comecei minha luta por melhorias na comunidade onde moro aos 15 anos, participando de grupos de jovens da comunidade, tentando me inserir nos espaços de discussões e decisões. Digo que foi muito difícil ser ouvida na maioria das vezes, pois falavam que eu era muito nova para entender de política e que estava perdendo tempo, que o melhor era estudar, mas esqueciam de que eu estava ali reivindicando justamente uma educação de qualidade, um centro de saúde onde tivéssemos médico, e que sabia sim do que estava falando, pois tinha argumento suficiente para dizer tudo aquilo, sendo diretamente atingida pela negação, negligenciação e não reconhecimento dos meus direitos que se traduzia, entre outras violências, na não execução de políticas públicas. Política pública... Essa foi uma palavrinha que quanto mais eu me envolvia, mais eu me reconhecia como cidadã de direitos. Foi então que percebi que o que eu precisava era dar visibilidade e fortalecer a luta pela efetivação destas políticas públicas no lugar onde eu vivo. Nessa perspectiva, comecei a participar de duas ONG’s, Instituto 130 Identidade e Experiências Locais
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Juventudes negras do Brasil : trajetórias e lutas : observatório de juventudes negras
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